{"id":3529,"date":"2023-09-30T02:57:00","date_gmt":"2023-09-30T02:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3529"},"modified":"2023-09-29T07:58:25","modified_gmt":"2023-09-29T07:58:25","slug":"uma-teresa-duas-teresas-tres-teresas-tantas-teresas-e-duas-palavras-e-mais-uma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/uma-teresa-duas-teresas-tres-teresas-tantas-teresas-e-duas-palavras-e-mais-uma\/","title":{"rendered":"Uma Teresa, duas Teresas, Tr\u00eas teresas, tantas Teresas (e duas palavras, e mais uma)"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp; Os nomes s\u00e3o como as setas da rosa dos ventos \u2013 apontam sempre para algo, uma luz, um lugar. Uns sabem-me a terra, outros a imensid\u00e3o maior. Por exemplo, para mim Teresa sabe-me a terra, a terra dura, a terrunho f\u00e9rtil, e a basti\u00e3o de fecundidade. Miriam, Maria e Mariam cheiram-me, por sua vez, a maresia, e soam-me a imensid\u00e3o de mar e de c\u00e9u \u2013 n\u00e3o sei o que outros sintam, comigo \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Reparei tamb\u00e9m que os nomes, de resto como os apelidos, se associam \u00e0s linhagens familiares, embora n\u00e3o tanto como estes. Um exemplo: Na minha tribo as Corinas est\u00e3o todas na mesma fam\u00edlia, passando de m\u00e3e para filhas e netas, de madrinhas para afilhadas. As Irenes e as C\u00e2ndidas tamb\u00e9m: cada uma segue o fio do sangue familiar. J\u00e1 as Sameiro s\u00e3o recentes e est\u00e3o sobretudo no Norte, por raz\u00f5es \u00f3bvias; Norte \u00e9 um agregado de tribos, uma quase <em>na\u00e7om<\/em>, da\u00ed que se compreenda a elei\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o me parece o mesmo com as F\u00e1timas, nem com as Lurdes, as Carmo, Carmen e Carminho, e as Franciscas, cujos nomes mais lhes adv\u00eam das simetrias espirituais que da raiz e da voz do sangue. Mas l\u00e1 est\u00e1, uma espiritualidade tem o seu qu\u00ea de territorialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No Carmo e no Carmelo \u00e9 tamb\u00e9m assim, mas mais neste que naquele. O que quero dizer \u00e9 isto: nos carmelos \u00e9 frequente encontrar muitas Teresas, ou muitas irm\u00e3s de Santa Teresa. Nos carmos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum encontrar Jo\u00f5es, ou frades de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, mas tamb\u00e9m os h\u00e1. O que estranho haveria de ser era encontrar algum de S\u00e3o Domingos ou de S\u00e3o Francisco, mas nunca fiando, que a criatividade \u00e9 muita.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o leitor e a leitora sobreviveram at\u00e9 aqui, sei que poder\u00e3o estar prestes a mudar de p\u00e1gina. Mas talvez o n\u00e3o devam fazer porque, tal como aponta o t\u00edtulo, do que aqui quero falar \u00e9 de palavras e de Teresas. Antes de l\u00e1 chegar, por\u00e9m, dizer-vos que na fam\u00edlia de Teresa e de Jo\u00e3o da Cruz as Teresas s\u00e3o mesmo muitas. Tamb\u00e9m entre as santas, a come\u00e7ar pela m\u00e3e que de \u00c1vila \u00e9 (+1582); e al\u00e9m dela: Teresa Margarida do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (Floren\u00e7a, 1770); Teresa de S. Agostinho (Paris, 1794); Teresa do Menino Jesus (Lisieux, 1897); Teresa Maria da Cruz (Floren\u00e7a, 1910); Teresa de Jesus dos Andes (Los Andes, 1920); Teresa de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz (Guadalajara, 1939); Teresa Benedita da Cruz (Auschwitz, 1942). E as que j\u00e1 v\u00eam a caminho\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>No Carmelo, parece-me, Teresa \u00e9 um programa \u00fanico: ser santa. E de facto, tantas s\u00e3o iguais no nome, todas seguindo o Caminho, e por fidelidade a Quem as chamou, nenhuma igual a outra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp; Falemos, ent\u00e3o, de duas Teresas, visto que por raz\u00f5es diversas o ano de 2023 \u00e9 seu. Uma \u00e9 m\u00e3e, outra filha. Uma \u00e9 \u00e1guia, outra, pardalito. Uma, velha (morreu quase aos 68 anos), outra, jovem (morreu aos 24). Uma, generala, outra, soldado de caserna sem ir a combate. Teresinha viveu quinze anos na fam\u00edlia, nove no carmelo; Teresa viveu vinte na fam\u00edlia, vinte e sete de monja, e outros vinte como m\u00e3e da fam\u00edlia que gerara. Teresinha n\u00e3o conheceu mais que duas casas: a familiar e o carmelo de Lisieux; Teresa, muit\u00edssimas mais: o solar paterno, o carmelo de Encarna\u00e7\u00e3o de \u00c1vila, e outros quinze que fundou (e os pal\u00e1cios das amigas, em que houve de restar, por obedi\u00eancia, durante meses\u2026). Por tal raz\u00e3o, no \u00faltimo per\u00edodo da sua vida de \u00e1guia, o seu mosteiro era andante, em cima de uma carro\u00e7a puxada por bois; ao passo que, por sua vez, o pardalito apenas contemplou o quadrado de c\u00e9u que a justa generosidade dos claustros lhe concedia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem conhece ambas monjas, as duas ama; quem n\u00e3o, ama a que conhece \u2013 o mais das vezes s\u00f3 a filha (e ignora olimpicamente a Fundadora, o que \u00e9 quase um erro de lesa-f\u00e9!).<\/p>\n\n\n\n<p>Visto que s\u00f3 se ama o que se conhece, em Portugal ama-se Teresinha, a filha, ignora-se a m\u00e3e Teresa. Mas n\u00e3o \u00e9 por se saber que ela \u00e9 filhinha de quem \u00e9 que se lhe ap\u00f5e o diminutivo no nome; \u00e9 mais por causa daquele infantil e belo defeito nosso que \u00e9 o de diminuir carinhosamente o objecto do amor como se lhe quis\u00e9ramos dar colo; e tamb\u00e9m porque ela mesma a si se chamou Florzinha.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco mais de quinhentos anos nasceu a m\u00e3e perto de n\u00f3s, em \u00c1vila, cidade que daqui dista quinhentos passos. A filha, mais longe, em Alen\u00e7on, Normandia, no norte de Fran\u00e7a, h\u00e1 cento e cinquenta anos, e para l\u00e1 chegar s\u00e3o precisos o triplo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como esconder: Teresinha, a filha, est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o dos portugueses; Teresa n\u00e3o. O facto condicionante, creio, \u00e9 a dist\u00e2ncia temporal entre n\u00f3s: a filha \u00e9 quase nossa contempor\u00e2nea, a m\u00e3e, n\u00e3o. N\u00e3o se esque\u00e7a, por\u00e9m, que a grande \u00e9 a Grande, e a pequenina \u00e9 a Pequenina. E n\u00e3o vem da\u00ed nenhum mal ao mundo e at\u00e9 todo o bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas vamos \u00e0s efem\u00e9rides:<\/p>\n\n\n\n<p>Teresinha nasceu no dia 2 de janeiro de 1873, pelo que em 2023 passam cento e cinquenta anos do seu nascimento; e cem anos da sua beatifica\u00e7\u00e3o (29 de abril). Quem a ama faz do presente ano um longo e feliz dia de anivers\u00e1rio. Pudera!<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, este mesmo ano de 2023 (com in\u00edcio j\u00e1 no pret\u00e9rito mar\u00e7o de 2022) \u00e9 tamb\u00e9m significativo, pois que nele se celebra o Quarto Centen\u00e1rio da Canoniza\u00e7\u00e3o da m\u00e3e Teresa, que at\u00e9 \u00e9 ano jubilar na sua bas\u00edlica constru\u00edda sobre o quarto em que nasceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Por quais acrescidas raz\u00f5es, este ano de 2023 tanto bole com o nosso cora\u00e7\u00e3o de carmelitas? Por muitas, pois nunca \u00e9 demais celebrar a santidade dos amigos de Deus, neste caso, das amigas!<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos algo mais:<\/p>\n\n\n\n<p>De Santa Teresa disseram ser a maior mulher da hist\u00f3ria da Igreja depois da M\u00e3e de Jesus! De Santa Teresinha, que \u00e9 a maior santa dos tempos modernos! Duas santas, m\u00e3e e filha, \u00e1guia e pardalito, e que santas \u2013 as maiores entre as maiores! A primeira \u00e9 m\u00e3e dos espirituais; a segunda, irm\u00e3 dos mission\u00e1rios. Como n\u00e3o celebr\u00e1-las gozosamente, portanto?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 muito, muito mais. Ambas s\u00e3o Doutoras da Igreja. Teresa, a primeira (1970), Teresinha, a \u00faltima (1997). Santas Doutoras tem sabor a lan\u00e7a metida no pa\u00eds dos p\u00falpitos. Ser doutora quer dizer ser formadora, tanto de homens como de mulheres, ao longo e ao largo da roda do planeta. Repare-se mais uma vez: s\u00e3o mulheres falando em secular territ\u00f3rio de var\u00f5es. Mulheres que ensinam; mulheres cuja palavra \u00e9 s\u00f3lida, evang\u00e9lica e mission\u00e1ria. Sem subir a c\u00e1tedra, e at\u00e9 contra a vontade varonil, elas ensinam gera\u00e7\u00f5es a fio. E quando por ser mulher mais obstava que ensinasse, Teresa ensinou. Ensinou pecadores e santos, filhas e filhos, frades e padres, bispos e papas; e leigos, desde as gentes da rua aos comerciantes, da pequena nobreza rural aos nobres das chancelarias e aos reis \u2013 todos feitos filhas e filhos seus! E o que \u00e9 mais: Teresa gostava de ensinar por se sentir impelida pelo Esp\u00edrito a faz\u00ea-lo \u2013 l\u00e1 tem Deus os caminhos s\u00f3 seus! Teresinha, mais discreta, menos \u00f3bvia, mas igualmente ardente \u2013 facto que de si n\u00e3o dependia \u2013 tamb\u00e9m ensinou. Escreveu cartas, mas n\u00e3o tantas como a m\u00e3e. Poesias e pe\u00e7as de teatro, q.b. E uma autobiografia que por t\u00e3o universal nos fala como se nos falassem os p\u00e9s de Jesus; digo: como se escrita fora \u2013 de joelhos, como Maria \u2013 aos p\u00e9s do Mestre, e sob o Seu olhar terno e misericordioso.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e e filha s\u00e3o doutoras improv\u00e1veis. S\u00e3o inesperadas surpresas do Evangelho que o Esp\u00edrito continuamente nos oferece; e s\u00e3o janelas de luz que se abrem para nos dizer que todo o segredo da vida crist\u00e3 \u00e9 ser-se de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00e3o ap\u00f3stolas indefet\u00edveis. Em seu tempo, a p\u00e9 ou de carreta, uma rilhou o p\u00f3 dos impenitentes caminhos \u2013 ou seriam calv\u00e1rios? \u2013 castelhanos; outra teria gostado de ter percorrido toda a terra para plantar a cruz de Cristo \u2013 curiosamente foi esta, e n\u00e3o a primeira, a eleita como Padroeira dos mission\u00e1rios!<\/p>\n\n\n\n<p>Plantar cruzes mundo fora bem pode ser o mais belo acto mission\u00e1rio; por\u00e9m, regar flores n\u00e3o \u00e9 menor nem menos fecundo. Uma e outra bem sabem qu\u00e3o tanto hoje urge o odor salv\u00edfico, quer o que prov\u00e9m do primeiro como do segundo acto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp; A arenga poderia continuar insistindo nas inevit\u00e1veis diferen\u00e7as entre estas duas grandes mulheres santas. Por\u00e9m, quanto mais as distinguirmos menos as afastamos, e mais elas se aproximam \u2013 os extremos tocam-se, que \u00e9 o que se passa com a paleta de cores: nenhuma dispensa alguma, cada qual sobressai na compara\u00e7\u00e3o com outra. Por\u00e9m, e porque o texto tem de fechar, feche-se relevando-se duas palavras, uma de cada qual, em jeito de imperfeita s\u00edntese: amigos e confian\u00e7a. E uma terceira, caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Amigos \u00e9 palavra eleita de Teresa, confian\u00e7a, de Teresinha. Caminho \u00e9 de ambas, como se sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada jamais Teresa fez sem amigos \u2013 nem mesmo para sair de casa paterna aos vinte anos, sob o amparo dos v\u00e9us da madrugada! Por isso, sobretudo nos seus \u00faltimos vinte anos de vida, noite adentro, tantas cartas escreveu (15.000? 20.000?). O audaz empreendimento humano e espiritual de que Deus a encarregara f\u00ea-la esperar tudo dos amigos, incluindo do pr\u00f3prio Deus, o seu maior!&nbsp; Por meia sardinha a conquistavam, confessa ela, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que por igual por\u00e7\u00e3o de simpatia igualmente conquistava ela os cora\u00e7\u00f5es mais improv\u00e1veis. A gentil Teresa \u00e9 gr\u00e1cil e atraente, e sabedora como ningu\u00e9m de como cuidar e <em>engolosinar <\/em>as amizades. Sabe e n\u00e3o ignora que a amizade exige lhaneza a toda a prova e nunca m\u00e1scaras, e trato frequente \u2013 e assim cuidou ela de ser, tanto com os da terra como com os do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>A amizade \u00e9 para si um valor t\u00e3o grande que jamais a dispensava, tanto pelos caminhos e pousadas no trato com os carreteiros, como nos sal\u00f5es com as senhoras nobres, ou diante do tabern\u00e1culo, com Deus. E considera-a obrigat\u00f3ria na ora\u00e7\u00e3o. Sim, que na ora\u00e7\u00e3o ela sempre falava (e ensinou a falar) como se fala com um amigo, sem ademanes nem fingimentos, visto que onde h\u00e1 amizade os amigos estimam-se tal como s\u00e3o, n\u00e3o como se espera que sejam.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo Teresa vivido num tempo t\u00e3o r\u00e9cio e belicoso, muitos ainda hoje se espantam com o seu t\u00e3o entranh\u00e1vel trato amigo com Deus: sim, o seu di\u00e1logo com Ele \u00e9 um trato de amigos, mas amigos mesmo \u2013 e n\u00e3o \u00e9 que ela reparou, desde a primeira hora, que \u00e9 Ele quem diz: <em>\u00abV\u00f3s sois meus amigos\u00bb<\/em>? Por\u00e9m, com sempre lembrava, a amizade Dele n\u00e3o \u00e9 a de um amigo ocupado com picuinhices, antes pr\u00e9-ocupado em atrair-nos para uma intimidade t\u00e3o \u00edntima qu\u00e3o salutar. E refor\u00e7ava: <em>\u00abningu\u00e9m jamais tomou a Deus por amigo que ele n\u00e3o lhe pagasse\u00bb<\/em>; e justificava por experi\u00eancia pr\u00f3pria: <em>\u00absim, que nunca Deus me pediu um trabalho que logo n\u00e3o me tenha pago\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada jamais Teresinha fez sem confian\u00e7a. Se muito, se pouco, o que fez foi tendo por peanha a confian\u00e7a. Olha-se a sua vida, e o que mais nos surpreende \u00e9 a dureza do seu longo inverno que a beleza da sua primavera em flor \u2013 como tanto sofreu aquela criatura, quer na inf\u00e2ncia, quer na juventude; e como t\u00e3o cedo morreu expelindo secreto sangue pela boca, e restando cravada por dores horr\u00edveis \u00e0 cruz em forma de cama, nela jazendo de alma ferida pela d\u00favida de saber se se salvaria!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tanto nas dores como nas d\u00favidas, bem mais superior a elas era a sua confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande drama \u00e9, nos dias de hoje, o sofrimento. Julgamo-nos constru\u00eddos para s\u00f3 sorver doces alegrias e deliciosos <em>sunsets<\/em>, mas \u00e9 tudo t\u00e3o passageiro que, pronto, os sofrimentos nos assaltam como ultrajes \u2013 pelo que os tememos mais que aos inimigos invenc\u00edveis. Ent\u00e3o, o que logo mais lamentamos \u00e9 n\u00e3o podermos ser eternos no nosso despeito e na den\u00fancia do esc\u00e2ndalo perante tal ferrete.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais que a pele bronzeada o que em n\u00f3s \u00e9 permanente \u00e9 a ferida. Tamb\u00e9m em Teresinha, j\u00e1 mesmo desde tenra inf\u00e2ncia. Como ignorar o rasg\u00e3o da sua alma provocado pela morte da m\u00e3e? Como n\u00e3o lamentar e com ela chorar a perda das duas mam\u00e3s substitutas? Podemos nunca ter visto nem enxugado tais l\u00e1grimas, mas em boa verdade, qual \u00e9 a crian\u00e7a que sobreviveria \u00e0 perda em t\u00e3o pouco tempo de tr\u00eas m\u00e3es? Eu olho para a inelud\u00edvel ferida ou rasg\u00e3o provocado na alma de Teresinha por tais perdas, e vejo que, em t\u00e3o dolorosa fragilidade, ela se deixou tocar pela luz ao aceitar abandonar-se como uma crian\u00e7a nos bra\u00e7os de Deus \u2013 suspeitar\u00e1, alguma vez, um beb\u00e9 dormente ao colo do pai, que ele o possa deixar cair, ou que o abandone numa rua escura longe de casa? N\u00e3o, tal beb\u00e9 confia inocentemente, cegamente, no pai. E apesar de, desde cedo e durante os seus parcos dias, o mist\u00e9rio do sofrimento lhe ter sondado as ra\u00edzes da alma, como poderoso le\u00e3o, Teresinha preferiu confiar sem desanimar. Confiar sempre, sempre, sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Teresa \u00e9 amizade, Teresinha \u00e9 confian\u00e7a, pois tinha ela toda a certeza, e desde ela vivia, de que o que mais ofende a Jesus <em>\u00ab\u00e9 a falta de confian\u00e7a\u00bb<\/em> Nele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong>&nbsp; E, finalmente, uma palavra comum \u00e0s duas Teresas: caminho. Na verdade, o da Grande chama-se caminho de perfei\u00e7\u00e3o, e o da Pequenina, Caminhinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um e outro s\u00e3o vias para a santidade, que ambas n\u00e3o falam nem sabem de outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta do caminho de perfei\u00e7\u00e3o de Teresa \u00e9 o tal <em>\u00abtrato<\/em> <em>de amizade\u00bb<\/em> com o amigo, Deus \u2013 isto \u00e9, a ora\u00e7\u00e3o. Em linguagem de Teresa, tratar \u00e9 lidar frequentemente com algu\u00e9m \u2013 ora j\u00e1 se sabe, nisto como em tudo, o que sempre mais e mais r\u00e1pido se aprende \u00e9 o que entra pelo cora\u00e7\u00e3o. Para o bem ou para o mal, o que mais r\u00e1pido se a-prende \u00e9 aquilo que um amigo j\u00e1 ama, n\u00e3o o que ainda se n\u00e3o conhece. De facto, parece-me \u00f3bvio que se se ama o Amigo, logo se passa a gostar e a amar, mesmo sem querer, o que Ele j\u00e1 gosta e ama. (E se duvidar, fa\u00e7a a prova\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>O segredo do caminho \u00e9, pois, saber escolher o amigo, porque este nos levar\u00e1 pela m\u00e3o \u00e0s fontes do conhecimento! \u00c0s boas, se o amigo \u00e9 dos bons; \u00e0s \u00f3ptimas e aos melhores deleites, se Jesus! Ou \u00e0s m\u00e1s\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Igual ardor de perfei\u00e7\u00e3o e de santidade identificamos em Teresinha. Mas n\u00e3o lhe chama ela caminho, antes sim, caminhinho, que tamb\u00e9m ela queria ser santa, mas por r\u00e1pido e bom caminho. Mas por sentir-se impotente at\u00e9 nas coisas mais mi\u00fadas, e por descobrir-se, em consequ\u00eancia, incapaz de vencer no caminho, escolheu n\u00e3o deixar-se vencer no \u00edmpeto e na vontade. Isto \u00e9, entre o n\u00e3o desistir de ser santa e a impossibilidade de o fazer por for\u00e7as pr\u00f3prias, Teresinha aprendeu (e assim nos ensina) a aceitar abandonar-se nos bra\u00e7os de Jesus, qual elevador que, gr\u00e1tis, nos eleva para o c\u00e9u! Parece f\u00e1cil, mas quem hoje quer abandonar-se, privando-se a si mesmo de conduzir o carro ou a trotinete da sua exist\u00eancia? Sim, poder\u00e1 parecer f\u00e1cil, mas o caminhinho do abandono n\u00e3o \u00e9 desleixo ou passividade, antes um deixar-se amar a todo o momento, mesmo quando se escorrega e cai. O abandono \u00e9 um deixar-se amar, deixar-se lavar e deixar-se elevar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, e j\u00e1 se sabe qual \u00e9 a paga que amor exige \u2013 am\u00e1-lo. amar o amor, como qu\u00e3o quase nada \u00e9 o caminhinho de Teresinha!<\/p>\n\n\n\n<p>Perfei\u00e7\u00e3o, caminho e santidade, doutra coisa n\u00e3o falam as Teresas. <em>\u00abA perfei\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 diz a filha \u2013<em> consiste em fazer a vontade de Deus\u00bb<\/em>. Ora se para alcan\u00e7armos o que Ele quer que cada um seja \u00e9 para cada qual t\u00e3o dif\u00edcil como transpor um degrau t\u00e3o imenso como uma parede, o que, por fim, nessa situa\u00e7\u00e3o Ele mais espera de n\u00f3s \u00e9 que jamais nos desalentemos perante o imposs\u00edvel, nem jamais vacilemos ou desistamos de subir, porque r\u00e1pido chega o&nbsp; momento em que, vencido, Ele nos venha buscar e nos suba ao colo para o c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p>E l\u00e1 saber\u00edamos n\u00f3s pedir mais?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp; Os nomes s\u00e3o como as setas da rosa dos ventos \u2013 apontam sempre para algo, uma luz, um lugar. 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