{"id":3497,"date":"2023-08-31T02:46:00","date_gmt":"2023-08-31T02:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3497"},"modified":"2023-08-28T09:46:52","modified_gmt":"2023-08-28T09:46:52","slug":"o-caminho-dos-monges-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-caminho-dos-monges-ii\/","title":{"rendered":"O caminho dos monges \u2013 II"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Continuamos a percorrer \u2018O caminho dos monges\u2019, iniciado em Agosto. Nas margens de outro afluente do Douro, o T\u00e1vora, num ambiente de solid\u00e3o e sil\u00eancio, em comunh\u00e3o com a paisagem agreste, levanta-se quase inacess\u00edvel mais um mosteiro da Ordem de Cister, o de S. Pedro das \u00c1guias. Constru\u00eddo num local que s\u00f3 para uma voca\u00e7\u00e3o erem\u00edtica \u00e9 convidativo, em 1205 j\u00e1 \u00e9 referido nas actas da Ordem. Mas j\u00e1 existia no s\u00e9c. XII: no fim do s\u00e9culo ter-se-\u00e1 filiado a S. Jo\u00e3o de Tarouca. Os condes portucalenses, D. Henrique e D. Teresa, concederam-lhe a carta de couto. Por causa do seu isolamento, logo em 1227 o abade de S. Pedro das \u00c1guias pediu para mudar de s\u00edtio a abadia de montanha. Mas s\u00f3 em finais do s\u00e9c. XVI os cistercienses acabaram por fundar um mosteiro novo nas proximidades, em Tabua\u00e7o, T\u00e1vora. Mesmo assim, numa rela\u00e7\u00e3o peculiar com a orografia envolvente, abrindo vistas que suspendem a respira\u00e7\u00e3o, o mosteiro original tem um lugar de relevo no panorama do rom\u00e2nico portugu\u00eas, enquanto vest\u00edgio remanescente dos mosteiros que integraram a Ordem de Cister a partir do s\u00e9c. XII.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra marca da presen\u00e7a dos monges de Cister na margem esquerda do Douro esteve em terreno da actual Quinta da Granja, na freguesia de Almendra. Foi o mosteiro de S. Maria de Aguiar, referenciado pela primeira vez em 1176, quando o rei Fernando II de Le\u00e3o doou ao mosteiro a pesqueira situada na granja, altura em que uma primitiva comunidade de monges beneditinos aqui se instalou. Na d\u00e9cada de 1170, a comunidade abra\u00e7ou a Ordem de Cister e deu ent\u00e3o in\u00edcio a outra constru\u00e7\u00e3o, que hoje existe perto de Figueira de Castelo Rodrigo, uns 20 km a sul do Douro. Em 1785 o cronista dos cistercienses refere que o mosteiro ainda possu\u00eda esta quinta que bordeja os rios Aguiar e Douro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os monges, ao depararem com o rio Douro e com as encostas que de uma e da outra margem subiam escarpadas, tinham adquirido, por volta do ano 1132, uma quinta na margem esquerda do rio, em frente \u00e0 R\u00e9gua. Chamava-se \u00abCasa dos Varais\u00bb, h\u00e1 muito pertencente \u00e0 fam\u00edlia Gir\u00e3o Azeredo. Foi a primeira a produzir o famoso vinho do Porto, ent\u00e3o chamado \u00abvinho cheirante de Lamego\u00bb. Os vinhedos das actuais inumer\u00e1veis quintas n\u00e3o deixam apagar as mem\u00f3rias da original. Ter\u00e3o os monges percebido que as \u00e1guas do rio ocultam e mant\u00eam as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que possibilitam a produ\u00e7\u00e3o do vinho generoso? A \u00e1gua contribu\u00eda para a festa do vinho, como na missa.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea-se bem que os monges, trabalhando e educando entre o tempo e o c\u00e9u, entre o amor e a aventura, foram respons\u00e1veis pelo grande desenvolvimento da agricultura vitivin\u00edcola na regi\u00e3o. O resultado do seu trabalho resistiu ao tempo e chegou at\u00e9 n\u00f3s, ultrapassando a regi\u00e3o e os s\u00e9culos. Desde o riacho de partida at\u00e9 ao caudaloso rio de chegada, os monges, abrindo caminho pelo frondoso arvoredo verdejante, os olhos antes dos p\u00e9s, deixaram palavras eternas escritas a cor de vinho sobre as fragas gran\u00edticas que n\u00e3o envelhecem e n\u00e3o se desgastam. Cultivando as terras de encosta e colhendo os seus frutos, cantaram os salmos de uma vida, calcorreando vales umbrosos e f\u00e9rteis colinas. Adensando as encruzilhadas da hist\u00f3ria, outorgaram conte\u00fado ao tempo, valorizaram a geografia e transformaram o sabor do vinho, em \u00edntima liga\u00e7\u00e3o com o ambiente rural. A sua obra perpetuou-se, quase invis\u00edvel mas reconhec\u00edvel, como o delicado c\u00e1lice de vinho generoso depois da vida e do esp\u00edrito deixados na alegria de quem o saboreou.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o \u2018caminho dos monges\u2019, com as marcas da presen\u00e7a cisterciense, faculta-nos uma viagem espiritual no tempo, at\u00e9 ao princ\u00edpio do long\u00ednquo s\u00e9c. XII, puxando para o presente as mem\u00f3rias que fizeram destas terras espa\u00e7o de conhecimento e ch\u00e3o sagrado. O percurso proporciona aos que procuram descanso do corpo e da alma o caracter\u00edstico dos monges: culto do sil\u00eancio e do despojamento, \u00e1pices de ora\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o ecol\u00f3gica com a natureza. De facto, as muitas igrejas e mosteiros, alguns bem conservados, mant\u00eam a liga\u00e7\u00e3o ao sagrado, fundo \u00faltimo em que a vida cobra sentido. Os monges, legando ao mundo a imagem \u00fanica de uma regi\u00e3o, plantaram um Douro que mereceu tornar-se, por atribui\u00e7\u00e3o da UNESCO, Patrim\u00f3nio da Humanidade em 2001. Tecendo com a sua intelectualidade uma privilegiada rede de express\u00e3o cultural, estimulando a circula\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do saber, valorizaram a paisagem, a hist\u00f3ria e a geografia, a faustosa arte arquitect\u00f3nica e as tradi\u00e7\u00f5es que, correndo pelo rio Varosa, desaguaram no rio Douro. Se os caminhos dos homens est\u00e3o feitos de cruzes, cruzamentos e encruzilhadas, os monges fizeram-nos desaguar no rio Douro, nos seus horizontes rasgados, decorando as suas encostas com os vinhedos em socalcos.<\/p>\n\n\n\n<p>A revisita\u00e7\u00e3o deste patrim\u00f3nio cultural e religioso \u00e9 um ant\u00eddoto contra a voragem da mudan\u00e7a como fim em si: se reaviva o sentimento de perda, que se teve com a aniquila\u00e7\u00e3o de uma heran\u00e7a valiosa e de espa\u00e7os de ora\u00e7\u00e3o e de conhecimento a partir da extin\u00e7\u00e3o das Ordens religiosas em 1834, tamb\u00e9m faz tomar consci\u00eancia daquilo que deveria permanecer e ser protegido. O patrim\u00f3nio \u00e9 suporte da mem\u00f3ria. Perd\u00ea-lo \u00e9 perder refer\u00eancias hist\u00f3ricas, mais-valia para a educa\u00e7\u00e3o dos vindouros. N\u00e3o podemos esquecer o passado, sob pena de ir perdendo as ra\u00edzes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Continuamos a percorrer \u2018O caminho dos monges\u2019, iniciado em Agosto. 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