{"id":3495,"date":"2023-08-31T02:45:00","date_gmt":"2023-08-31T02:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3495"},"modified":"2023-08-28T09:45:53","modified_gmt":"2023-08-28T09:45:53","slug":"cronica-de-uma-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cronica-de-uma-pedra\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica de uma pedra"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp; Que at\u00e9 as pedras pularam, isso toda a gente viu. Que at\u00e9 elas se revelaram mansas e doces, di-lo quem, no \u00faltimo dia, suavemente repousou no ch\u00e3o do Campo da Gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedra agora eu seja como rega\u00e7o manso.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja esta, pois, a legenda da minha participa\u00e7\u00e3o na JMJ2023. Ainda que inteiramente velho n\u00e3o seja, j\u00e1 na outra ladeira me acho. E j\u00e1 n\u00e3o pulo, resvalo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp; Havia pressa no ar, daquela que faz voar. E a voar chegaram, e por entre n\u00f3s saltitaram os peregrinos das Jornadas, qualquer fosse o nome tomado: Francisco, J\u00fanior, Callie, Ashia, Alexia, Ta\u00eds, Bjorn, Adriel, Omar, Fayola, Ukiuk, Sasha, Maria\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp; Havia pressa no ar, e fora qual fora a montanha que urgisse passar-se \u2013 e todas elas por algu\u00e9m algures s\u00e3o de passar \u2013 pass\u00e1mo-las, porque s\u00f3 o amor impele e d\u00e1 asas.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia pressa no ar e \u2013 est\u00e1 bem de ver \u2013 n\u00e3o poderia andar tudo, tudo, tudo a voar, tudo a pular, tudo a rolar, montanha acima, montanha abaixo. Algu\u00e9m tinha de ficar em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia pressa no ar e eu fiquei em casa, de olho atento nos apressados, que quem vive apressado come cru.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m tinha de dar-se ao calor das panelas, pois, sabido \u00e9 que, sem pressas, vizinho delas \u00e9 o Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia pressa no ar, e escolhi ficar em casa \u2013 n\u00e3o seria Maria, Isabel seria: a que d\u00e1 os bra\u00e7os \u00e0s surpresas e ao inesperado.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia pressa no ar e, por\u00e9m, madrugador, dei comigo a correr estrada abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pressa, Isabel e Maria fui.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A POMBA DA PAZ<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp; Junho, trinta e um. Fim de m\u00eas, v\u00e9spera da abertura das JMJ2023. Antes da luz de Lisboa, os jovens Carmelitas Descal\u00e7os sorveram o sol de F\u00e1tima, ao se concentrarem \u00e0 volta dos bra\u00e7os da azinheira e sob o manto e o doce olhar da M\u00e3e Mais Bela que o Sol. Vindos de tr\u00eas continentes, haver\u00edamos de alcan\u00e7ar os duzentos e pico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda income\u00e7adas, a Esplanada do Santu\u00e1rio j\u00e1 revelava gente cansada: uns por acabarem de atravessar longos mares e continentes, outros por haverem palmilhado a p\u00e9 o p\u00f3 de dez duros dias, e ali estarem prontos para o que desse e viesse!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong>&nbsp; Acordei \u00e0 hora do Papa \u2013 quatro e meia! Despertei num virar de cama, a meio de um sonho; um daqueles t\u00e3o clarividentes como uma clara profecia. Descrevo-o no que lembro (sabido \u00e9 que nos sonhos nunca vemos os rostos\u2026): duas longas alas de sacerdotes revestidos de t\u00fanicas brancas encaminhavam-se rumo a um altar. A prociss\u00e3o n\u00e3o leva nem cruz, nem evangeli\u00e1rio, nem ac\u00f3litos. Eu que a ela assisto vejo que os guia um menino (em verdade, n\u00e3o sei se \u00e9 menino, que nunca inteiro o cheguei a ver; sei-o baixinho e por isso intuo que seja menino\u2026). Reparo bem o que leva na m\u00e3o: o desenho vibrante de uma branca pomba da paz; melhor: o desenho da pomba da paz de Picasso! Foi dos sonhos mais lindos que tive: a pomba da paz voava adiante de n\u00f3s, e revirava sobre n\u00f3s, nas m\u00e3os de um menino que passava pelo meio da imensa multid\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp; Ao chegar a F\u00e1tima, e passando ali aquele dia, n\u00e3o vi muitos jovens, n\u00e3o, nem muitos sacerdotes! Mas vi o menino com o sorriso mais lindo do mundo visto e por ver. Chamava-se Pepe e devia ter a mesma idade que eu! Na sua cadeira de rodas Pepe era pequenino, baixinho e discreto, e tinha as m\u00e3os mais mansas e puras \u2013 as que melhor podem levar a voar o Esp\u00edrito Santo que, garanto, voou por ali, das suas para as nossas, e pelo meio de n\u00f3s, e em nossos cora\u00e7\u00f5es se anichou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BOLACHA MARIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong>&nbsp; Congregados fomos no Centro Pastoral Paulo VI. Pela manh\u00e3 achou-se ali um belo di\u00e1logo com o Padre Geral, Frei Miguel Maria M\u00e1rquez que desafiou os jovens Descal\u00e7os a viverem centrados no essencial \u2013 a amizade com Jesus \u2013, no servi\u00e7o \u00e0 Igreja, como Santa Teresa e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, e atentos aos sinaizinhos pequeninos que a vida nos prop\u00f5e mesmo quando em noite escura.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u00c9 sabido ser na noite que melhor se apreciam os luzincus!)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong>&nbsp; Cabe aqui, por fim, e at\u00e9 conv\u00e9m, a hist\u00f3ria da Bolacha Maria. Tem a ver com a voca\u00e7\u00e3o do P. Miguel Maria, quem, na sua juventude entrou por acaso num locut\u00f3rio de Descal\u00e7as \u2013 nunca vira ele mulheres t\u00e3o felizes, confessa. T\u00e3o felizes eram que ele se autoimp\u00f4s indagar da fresca fonte de tal felicidade por querer ir l\u00e1 dessedentar-se. E andou, e andou, e andou. Sem a achar. E que desertos n\u00e3o percorreu ele! Um dia refugiou-se no Mosteiro de S\u00e3o Jos\u00e9 das Batuecas, em silencioso retiro. E o que ali mais lhe custaram aqueles dias? Nada em especial, a n\u00e3o ser que em momento algum lhe deram a ele, menino de mam\u00e3, um docinho por pequenino que fosse: nem uma nata, um brigadeiro, ou um m\u00edsero h\u00fangaro. Nada. Ali, as refei\u00e7\u00f5es eram frugais, quase vegans e em sil\u00eancio, e pontuadas por uma longa leitura espiritual proposta por um monge da casa. Mas nunca nada de doces, nem ao pequeno almo\u00e7o; cuja coisa mais doce que ali \u00e0quela hora provava era uma larga fatia de p\u00e3o escuro que lhe achegavam num prato.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eis que na manh\u00e3 final ao abrir o seu guardanapo v\u00ea que lhe tinham deixado uma \u00fanica bolacha Maria. A vis\u00e3o daquela bolacha revelou-se-lhe uma apari\u00e7\u00e3o t\u00e3o fascinantemente surpreendente que ele, pronto, e sem freios, exultou de alegria:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Uma bolacha Maria! E s\u00f3 para mim?!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tinha encontrado a fonte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>UM ESTILHA\u00c7O NEGRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong>&nbsp; A parte da tarde foi ocupada em conhecer um poucochinho o recinto do Santu\u00e1rio, em dois workshops, e na Missa de encerramento. Num dos workshops houve um momento de reflex\u00e3o proposto por um casal, sobre a hist\u00f3ria e o carisma dos carmelitas descal\u00e7os; e outro em torno \u00e0 figura da Vener\u00e1vel Irm\u00e3 L\u00facia de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Coro\u00e1mos o dia intenso com uma Missa de encerramento celebrada na Bas\u00edlica do Ros\u00e1rio. A Bas\u00edlica n\u00e3o encheu, nem com os que de fora a n\u00f3s, entretanto, se nos ajuntaram. Mas estavam ali, connosco, Francisco e Jacinta, e a Irm\u00e3 L\u00facia. E os santos do Carmo e do Carmelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Presidiu o P. Miguel Maria que depois de convocar para junto de n\u00f3s o cora\u00e7\u00e3o dos restantes descal\u00e7os do mundo inteiro, e a santidade de tantos que desde o c\u00e9u diariamente nos assistem, nos disse coisas s\u00e1bias; por exemplo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>i) \u00abSigamos Maria! Dificilmente encontraremos \u00e0 nossa volta uma mulher mais s\u00f3 e mais pobre! Reparai, por\u00e9m: Foi o seu sim, o sim da mulher mais pobre e mais s\u00f3 que que mudou a hist\u00f3ria do mundo! Em cada um de n\u00f3s h\u00e1 um sim que pode mudar a hist\u00f3ria! Dizei sim a Deus, e eu vos garanto a presen\u00e7a humilde de Maria nas vossas vidas! E alegrai-Vos, porque o Esp\u00edrito Santo descer\u00e1 sobre v\u00f3s! A Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel! Alegrai-vos, que o Esp\u00edrito Santo vir\u00e1 sobre v\u00f3s como um escapul\u00e1rio\u2026\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ii) \u00abDeixemos que Maria ponha os seus olhos no nosso cora\u00e7\u00e3o, para que nas nossas entranhas se forme a imagem de Jesus, e para que ele se abra a uma riqueza que ainda desconhecemos! Sigamos o exemplo dos Pastorinhos, que tamb\u00e9m disseram sim e depois provocaram um furac\u00e3o de gra\u00e7a!\u00bb<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>iii) \u00abTenho uma certeza: Maria nunca nos abandona! Deus nunca nos abandona! Deixai-vos olhar por Maria! Deixai-vos cuidar por Maria! Atrevei-vos a transformar o sofrimento em esperan\u00e7a! Assumi com humildade e coragem o caminho de santidade!\u00bb<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, at\u00e9 aqui, aquela foi uma homilia normal, numa missa normal, ainda que tenha sido celebrada em F\u00e1tima e cantada por tantos jovens cora\u00e7\u00f5es Descal\u00e7os congregados de tantos lugares do mundo! Sim, seria tudo igual, tudo normal, mas no fim da Missa, o P. Miguel Maria, com o que nos disse e depois fez, encerrou o Encontro com chave de ouro, disse-nos: <em>\u00abTrago no meu bolso, desde h\u00e1 uns dias [16 de julho], um estilha\u00e7o de uma bomba [russa]! Foi uma m\u00e3e ucraniana que mo deu, com o pedido de que rezasse pela paz. Hoje, no final desta nossa Eucaristia, em que nos sentimos unidos a rezar com todo o Carmelo da terra e com todo o Carmelo do c\u00e9u, quero deixar este peda\u00e7o de bomba no t\u00famulo de L\u00facia, para lhe pedir que alcance a paz na Ucr\u00e2nia! E \u00e9 isto que eu agora lhe quero dizer: \u2013 \u201cIrm\u00e3 L\u00facia! Sou o P. Miguel! O Geral da Ordem! Visto que na terra foi t\u00e3o obediente aos Superiores, e agora que atingiu a perfei\u00e7\u00e3o o \u00e9 ainda mais, eu lhe mando: Traga-nos, por favor, a paz do c\u00e9u \u00e0 terra\u00bb.<u><\/u><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E em sil\u00eancio deixou aquele negro peda\u00e7o de bomba aos p\u00e9s do seu t\u00famulo de carmelita descal\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E senti que toda a negrura do mundo se derramava aos p\u00e9s da capa branca de L\u00facia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>UMA BATINA NEGRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.<\/strong>&nbsp; Estas palavras que deixo foram as minhas pr\u00e9-Jornadas, ainda que deva registar que durante os dias das dioceses por aqui viveram dois jovens rapazes brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o melhor estava para vir:<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que aquela imensa multid\u00e3o t\u00e3o dif\u00edcil de contar se dispersou bateram-me \u00e0 porta a pedir um altar. Era o P. Viego, sacerdote norte-americano. Vinha de grossa batina preta que jamais tirou, de chap\u00e9u clerical que s\u00f3 dispensava no de dentro da porta, e duas sacas pl\u00e1sticas na m\u00e3o. Pediu um altar, e pensando eu que era s\u00f3 para uma missa, anu\u00ed. Depois pediu cama para oito dias e um prato ao lado dos nossos. Dei. Era da \u00ablinha tradicional\u00bb, logo nos avisou como se preciso fora. Entrou, sentou-se e comeu do que lhe servimos, e quanto melhor o serv\u00edamos mais e melhor nos presenteava com doces figos. O oitavo dia chegou por fim, e com pena o vimos partir para Newark, para a universidade de que \u00e9 capel\u00e3o. Foi-se e ficamos \u00f3rf\u00e3os como quando se perde um filho; e em mim, singela gratid\u00e3o a Deus: tinha exercido de Isabel.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora que as mem\u00f3rias se v\u00e3o indo, ando \u00e0 procura da bolacha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp; Que at\u00e9 as pedras pularam, isso toda a gente viu. Que at\u00e9 elas se revelaram mansas e doces, di-lo quem, no \u00faltimo dia, suavemente repousou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3481,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3495","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3496,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3495\/revisions\/3496"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}