{"id":3474,"date":"2023-07-31T02:46:00","date_gmt":"2023-07-31T02:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3474"},"modified":"2023-07-28T07:47:59","modified_gmt":"2023-07-28T07:47:59","slug":"o-caminho-dos-monges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-caminho-dos-monges\/","title":{"rendered":"O caminho dos monges"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para f\u00e9rias, propomos um itiner\u00e1rio cultural, tamb\u00e9m como experi\u00eancia espiritual, pelo patrim\u00f3nio que a Ordem de Cister ajudou a moldar ao longo de s\u00e9culos na regi\u00e3o sul do Douro vinhateiro. Est\u00e1 comodamente apoiado por infra-estruturas de lazer em vista do turismo. Mas aqui, louvando a recente recupera\u00e7\u00e3o patrimonial, queremos valorizar a riqueza que reconduz \u00e0 espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se do trajecto hoje chamado <em>Caminho dos monges<\/em>. Conta a imponente hist\u00f3ria que come\u00e7a com a funda\u00e7\u00e3o do mosteiro de S. Jo\u00e3o de Tarouca em 1140, com uma pequena comunidade de monges, implantada numa encosta serrana, no vale do rio Varosa, no cruzamento de duas linhas de \u00e1gua, em conformidade com a exig\u00eancia de Cister, de edificar junto a cursos de \u00e1gua. Intimamente ligado \u00e0 hist\u00f3ria do <em>vinho do Porto<\/em>, \u00e9 o primeiro mosteiro da Ordem de Cister em Portugal, numa regi\u00e3o de densa implanta\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica, representada em v\u00e1rias igrejas de estilo rom\u00e2nico: na de S. Pedro de Tarouca (o primeiro documento que a refere \u00e9 de&nbsp;1163 e \u00e9 de transi\u00e7\u00e3o para o&nbsp;g\u00f3tico), na de Tarouquela, no mosteiro de S. Maria de C\u00e1rquere, na de S. Maria de Almacave, na matriz de Armamar&#8230; A pr\u00f3pria igreja do mosteiro tem elementos do rom\u00e2nico, que respira e inspira espiritualidade, concentrada na profus\u00e3o dos dourados dos altares e no cadeiral do coro que, muitas horas ao dia, emitia a recita\u00e7\u00e3o dirigida ao c\u00e9u. A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou propriamente em 1152, coincidente com as origens da portugalidade e com a funda\u00e7\u00e3o da nacionalidade, tendo sido lan\u00e7ada nesse ano a primeira pedra da igreja conventual (o reconhecimento da independ\u00eancia de Portugal aconteceu em 1143 no Tratado de Zamora). O mosteiro \u2013 filiado \u00e0 abadia francesa de Claraval quando Bernardo, seu fundador, era abade entre 1120 e 1153 (S. Bernardo, representado num ret\u00e1bulo da igreja, bem conservada) \u2013 tinha-se imposto ao ent\u00e3o ainda conde Afonso Henriques. Concedeu-lhe <em>carta de couto<\/em> em recompensa pelo prestimoso apoio dos monges junto do Papa (Eug\u00e9nio III, antigo monge cisterciense!) para o reconhecimento da independ\u00eancia do Condado Portucalense. Para os monges, a recompensa era espiritual. Trabalhando, escutavam de Isa\u00edas (40,3; 43,19): \u00abPreparai no deserto o caminho do Senhor\u2026 Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr rios na estepe\u00bb. O de S. Jo\u00e3o de Tarouca foi um dos mais importantes mosteiros portugueses, a par do de S. Maria de Alcoba\u00e7a (cuja <em>carta de couto<\/em> \u00e9 de D. Afonso I de Portugal directamente a Bernardo de Claraval em 1153 e cuja constru\u00e7\u00e3o se iniciou em 1178).<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Cister no Douro continuou avan\u00e7ando para Norte, escrita em pedra e nas esculturas douradas, da lavra de prestigiados entalhadores. Os monges progrediram ao longo de mais de 40 km por entre desfiladeiros tortuosos e as cascatas precipitadas do rio Varosa. Ao de S. Jo\u00e3o de Tarouca associou-se o (irm\u00e3o) mosteiro cisterciense de S. Maria de Salzedas. D. Afonso Henriques tinha doado em 1152 o couto inicial de Algeriz\/Argeriz a Dona Teresa Afonso, segunda esposa de Egas Moniz, onde, na vertente direita do rio Varosa, se situam as ru\u00ednas da chamada Abadia Velha, \u00e0 qual estaria associada uma comunidade de monges (e onde hoje est\u00e1 o luxuoso <em>Douro Cister Hotel<\/em>). Sucessivamente designou-se couto de Salzedas; e Dona Teresa doou essa \u2018abadia\u2019 (a comunidade que viveria por ali em habita\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias) aos monges cistercienses de Claraval, que em 1156 a aceitaram como membro de pleno direito da Ordem de Cister. As obras de constru\u00e7\u00e3o do mosteiro definitivo iniciaram em 1168, a 2 km dali, em Salzedas, vindo a nova, actual, igreja a ser sagrada em 1225. Dona Teresa tornou-se assim a principal respons\u00e1vel pela funda\u00e7\u00e3o do mosteiro de S. Maria de Salzedas. Tamb\u00e9m foi a seu tempo um dos maiores mosteiros cistercienses de Portugal. Gr\u00e3o Vasco viria a ser um dos nomes maiores da pintura que deixou a sua marca nesse mosteiro, aliando a beleza \u00e0 espiritualidade. O couto mon\u00e1stico beneficiava da cobran\u00e7a de portagem \u2013 a primeira medieval em Portugal \u2013 na ponte e torre de Ucanha, desde o s\u00e9culo XII cabe\u00e7a de couto, uma das suas aldeias, das mais antigas da regi\u00e3o, cujas origens remontam \u00e0 \u00e9poca dos romanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois mosteiros ir\u00e3o, ao longo dos s\u00e9culos, transfigurar o vale do Douro num espa\u00e7o de cultura e de saber, modificando a paisagem e pondo a espiritualidade ao servi\u00e7o das pessoas. \u00c0 medida que o rio Varosa avan\u00e7a na sua conflu\u00eancia para o Douro, descobre a arboresc\u00eancia de outros espa\u00e7os art\u00edsticos religiosos. De facto, do \u2018caminho dos monges\u2019 abeirou-se mais tarde um monumento not\u00e1vel, o convento franciscano de S. Ant\u00f3nio de Ferreirim, de tra\u00e7a manuelina. Fundado em 1525 com a doa\u00e7\u00e3o de terrenos aos frades, ressuma espiritualidade do seu tecto de caixot\u00f5es de madeira pintada com cenas b\u00edblicas, do ret\u00e1bulo de talha dourada e das t\u00e1buas quinhentistas que conserva no interior da igreja e no centro interpretativo, atribu\u00eddas aos \u00abMestres de Ferreirim\u00bb, os melhores pintores activos em Portugal \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra presen\u00e7a art\u00edstica no \u2018caminho dos monges\u2019 para o rio Douro, nas margens do rio Balsem\u00e3o, afluente do rio Varosa, \u00e9 a Capela de S. Pedro de Balsem\u00e3o, relevante monumento nacional no vale do Varosa. \u00c9 discutida a data das suas origens. Mas, enquadrada hoje num solar seiscentista, conserva vest\u00edgios de arquitectura mo\u00e7\u00e1rabe ib\u00e9rica, testemunhos do s\u00e9c. X, e do rom\u00e2nico, s\u00e9c. XII. [continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Para f\u00e9rias, propomos um itiner\u00e1rio cultural, tamb\u00e9m como experi\u00eancia espiritual, pelo patrim\u00f3nio que a Ordem de Cister ajudou a moldar ao longo de s\u00e9culos na regi\u00e3o sul [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3461,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3475,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3474\/revisions\/3475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3461"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}