{"id":3470,"date":"2023-07-31T02:44:00","date_gmt":"2023-07-31T02:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3470"},"modified":"2023-07-28T07:45:08","modified_gmt":"2023-07-28T07:45:08","slug":"carta-de-um-velho-a-um-jovem-jmj2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/carta-de-um-velho-a-um-jovem-jmj2023\/","title":{"rendered":"Carta de um velho a um jovem JMJ2023"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Boa tarde, jovem!<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, imagino que sejas jovem, tu que nesta tarde entras na Igreja do Carmo de Braga e tomas esta folha na m\u00e3o. Sei que ser\u00e1s jovem, sem bem saber se \u00e9s rapaz ou rapariga, se consagrado, se sacerdote. Talvez at\u00e9 sejas pap\u00e1 ou mam\u00e3, e trazes um beb\u00e9 ao colo \u2014 olha que seria giro! Com toda a probabilidade n\u00e3o \u00e9s portugu\u00eas; ser\u00e1s, quem sabe, duma ilhotazita qualquer: Vanuato, no Pac\u00edfico. Tuvalu, o pa\u00eds insular menos visitado do mundo! Ou, talvez, de Timor Leste, quem sabe, ou de Nit\u00e9roi\u2026 Enfim, n\u00e3o sei de onde ser\u00e1s. Sei que de onde fores eu serei, por isso te digo: sente-te em casa; entra, descansa, descal\u00e7a-te e reza. Ou s\u00f3 descansa, n\u00e3o tem mal. Sabe, tu \u00e9s de casa; por isso, se precisares de algo, diz. Estou aqui por ti. E lembra, aqui, tamb\u00e9m est\u00e1 Jesus, tal como algures, numa imensa catedral, ou numa choupaninha, Ele encontra o mesmo lugar, o mesmo trono, o mesmo sacr\u00e1rio guardado por uma luzinha, e amado pelo cora\u00e7\u00e3o dos teus pais, dos amigos dos teus pais, de toda a tua comunidade. E tamb\u00e9m por aqui anda a Virgem de Nazar\u00e9, que aqui toma o doce nome de Maria do Carmo!<\/p>\n\n\n\n<p>Carmo significa jardim; para um jardim \u00e9 o que te convido, pois.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei o que \u00e0 tua chegada estarei a fazer, quando entrares. Provavelmente a rezar Missa; talvez num momento de ora\u00e7\u00e3o a s\u00f3s; talvez a varrer um corredor, a carregar de cera l\u00edquida as velas do altar ou a descascar batatas para a sopa ou, quem sabe, apenas \u2014 e este <em>apenas<\/em>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 pouco! \u2014 a confessar. Se n\u00e3o me vires, se n\u00e3o nos virmos, n\u00e3o tem mal, \u00e9 porque n\u00e3o foi inteiramente preciso que nos v\u00edssemos! Mas se for preciso, h\u00e1 pelo menos duas campainhas em que podes tocar: eu estarei por detr\u00e1s de uma, confia.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagino ainda que a tua chegada seja da parte de tarde, porque as tardes das JMJ costumam ser a parte do dia dedicada a conhecer melhor os lugares e as comunidades que nos acolhem! Se \u00e9 tarde, \u00e9 calor; por isso, entra e descansa neste jardim.<\/p>\n\n\n\n<p>Apresento-me: chamo-me Jo\u00e3o, e sou carmelita descal\u00e7o. Sou portugu\u00eas e gosto muito da minha terra. Sobretudo porque \u00e9 acolhedora. Tenho cinquenta e seis anos. Em diferentes idades da minha vida, fui peregrino em tr\u00eas JMJ: Santiago de Compostela, Paris e Roma. Nenhuma foi igual a nenhuma outra; cada peregrina\u00e7\u00e3o JMJ, cada esfor\u00e7o, cada cansa\u00e7o, cada pinga de suor, cada c\u00e2ntico, alguma l\u00e1grima tamb\u00e9m, ajudaram-me a continuar a caminhar, a continuar a subir. De tudo, o mais importante foi n\u00e3o parar, pois sempre as JMJ nos impelem para a frente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vou a Lisboa; n\u00e3o \u00e9 que seja velho, mesmo se alguns me tratam por av\u00f4! N\u00e3o \u00e9 isso; acontece que decidi viver as JMJ2023 desde outra dimens\u00e3o: a do acolhimento. A-co-lhi-men-to: a palavra soa-me bem! Nunca inteiramente me havia apercebido disso: as Jornadas tamb\u00e9m t\u00eam o lado de quem acolhe! Uns chegam e outros abrem os bra\u00e7os e o cora\u00e7\u00e3o, e acolhem, pelo que as Jornadas s\u00e3o ambos os lados: o caminhar e o acolher. \u00c9 certo que h\u00e1 pressa no ar\u2026 pressa em ir ao encontro com o Papa, e pelo Papa e a Virgem Maria a Jesus. Pressa de encontro, pressa de comunh\u00e3o, pressa de devorar caminhos ao encontro do outro. Sim, a pressa que as JMJ2023 sugerem \u00e9 a de partir mundo fora ao encontro do outro. A meu ver, por\u00e9m, quem acolhe n\u00e3o tem pressa, tem todo o tempo do mundo. Marta tinha, sim, mas eu vou despindo-me da sua pele, acredita\u2026 \u00c9 assim que me sinto, calmo e sem pressa, calmo e com todo o tempo para acolher. Ah, perguntas-me, no teu mau ingl\u00eas, o que farei? Pois, n\u00e3o saberei bem, porque um peregrino \u00e9 diferente de outro peregrino, as necessidades de um podem, ou n\u00e3o, ser as de outro. Talvez sim, talvez n\u00e3o, como digo. Tenho, \u00e9 certo, uma igreja fresca, onde, porque n\u00e3o, se for o caso, poder\u00e1s estender o teu saco-cama no ch\u00e3o! Porque n\u00e3o?&#8230; Tenho sil\u00eancio, um abra\u00e7o, um cora\u00e7\u00e3o de paz, uma ora\u00e7\u00e3o de b\u00ean\u00e7\u00e3o, um copo de \u00e1gua fresca. N\u00e3o \u00e9 muito, mas acredito que do que h\u00e1, posso repartir, e enquanto algo n\u00e3o se parte e reparte, chega para todos \u2014 isto \u00e9 o que dizemos por c\u00e1, nesta terra que te acolhe\u2026 Acredito, sinceramente que, se aqui entrares, daqui sair\u00e1s diferente, no m\u00ednimo, recomposto.<\/p>\n\n\n\n<p>(Ah, como ser\u00e1 bom abra\u00e7ar-te; como ser\u00e1 bom abra\u00e7ar Jesus abra\u00e7ando-te a ti!)<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma coisa sedutora que, recentemente, encontrei entre palavras do Papa Francisco: sugeriu-nos ele, aos velhos \u2014 e quem diz velho, diz aos av\u00f3s \u2014 e, v\u00ea l\u00e1 tu, at\u00e9 j\u00e1 aceito que sou velho!, que rez\u00e1ssemos por um dos jovens que venha em peregrina\u00e7\u00e3o a Lisboa durante as JMJ2023. \u00c9 o que farei de cora\u00e7\u00e3o inteiro. Inteiramente, generosamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Bra\u00e7os abertos, cora\u00e7\u00e3o feliz e ora\u00e7\u00e3o ardente, \u00e9 como eu participarei nas Jornadas de 2023! N\u00e3o \u00e9 muito? \u00c9 o que posso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho palavras para essa ora\u00e7\u00e3o. Tampouco desenharei em minha mente um rosto. N\u00e3o definirei linhas, nem cores, nem o rasgo dos olhos, nem a apresenta\u00e7\u00e3o do cabelo. Cada rosto, cada cora\u00e7\u00e3o e cada alma t\u00eam uma impress\u00e3o digital \u00fanica; e uma hist\u00f3ria \u00fanica; por essa raz\u00e3o, nem em sonhos quero imaginar por quem rezarei, melhor, por quem tenho rezado, durante as JMJ2023. Rezarei, simplesmente. Rezarei por todos, como manda o Papa; mas como n\u00e3o domino inteiramente a linguagem da ora\u00e7\u00e3o, parece-me que uma s\u00f3 eleva\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o acima das nuvens, por todos, dar\u00e1 apenas uma fatiazinha muito pequenina, e at\u00e9 um nada, uma pequena migalha, digo eu, por cada um de v\u00f3s. Por isso, reze pouco ou muito, mal ou bem, o Bom Deus aceite a minha ora\u00e7\u00e3o, por ti, jovem JMJ2023 por quem gozosamente rezo.<\/p>\n\n\n\n<p>Que mist\u00e9rio, a ora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Que mist\u00e9rio, a vida!<\/p>\n\n\n\n<p>Que mist\u00e9rio, a peregrina\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o entre quem vem e quem recebe!<\/p>\n\n\n\n<p>Vir\u00e1 \u00e0 JMJ2023 um jovem, de quem n\u00e3o sei o nome, nem a ocupa\u00e7\u00e3o, nem os sonhos, se \u00e9 doente ou n\u00e3o, se \u00e9 sonhador ou n\u00e3o, se pecador, se santo; vir\u00e1 da outra banda do mundo, cruzando n\u00e3o sei quantos fusos hor\u00e1rios. Vir\u00e1 para a minha terra tal como, com muita probabilidade, outrora, h\u00e1 quinhentos anos, ou talvez menos, foram os meus antanhos, daqui para l\u00e1. Faz ele agora a inversa, e vem a Lisboa donde partiram as caravelas. Ver\u00e1 as mesmas \u00e1guas do Tejo com o mesmo j\u00fabilo de quem, h\u00e1 quinhentos anos, descobriu, pela primeira vez, a pele escura ou os olhos em bico! Vir\u00e1 n\u00e3o sei quem, n\u00e3o sei como, e eu estarei aqui para o acolher, com a sala do meu cora\u00e7\u00e3o aberta para o receber. Vir\u00e1 como quem visita a casa do irm\u00e3o, como Maria visitou a de Isabel. Vir\u00e1. E talvez at\u00e9 nem chegue a ver-lhe a \u00edris dos olhos, a dar-lhe a m\u00e3o. Mas ele vir\u00e1 at\u00e9 esta Terra de Santa Maria. Vir\u00e1 confiante, que aqui h\u00e1 quem reze por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Chega em paz, meu caro, cara minha. H\u00e1 aqui cora\u00e7\u00f5es, uns velhinhos, outros n\u00e3o, que rezam por ti h\u00e1 meses. Bem-vindo. Temos para ti um \u00f3sculo de paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Boa tarde, jovem! De facto, imagino que sejas jovem, tu que nesta tarde entras na Igreja do Carmo de Braga e tomas esta folha na m\u00e3o. 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