{"id":3445,"date":"2023-06-30T02:44:00","date_gmt":"2023-06-30T02:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3445"},"modified":"2023-06-28T07:45:39","modified_gmt":"2023-06-28T07:45:39","slug":"a-palavra-dos-salmos-biblicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-dos-salmos-biblicos\/","title":{"rendered":"A palavra dos salmos b\u00edblicos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os salmos s\u00e3o bem conhecidos. O essencial, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 no conhecimento ou na informa\u00e7\u00e3o sobre eles. Est\u00e1 na hist\u00f3ria que os gerou e nos conte\u00fados que suscitaram. At\u00e9 poderiam ser declamados como monumentos liter\u00e1rios, como poesia com uma vertente art\u00edstica not\u00e1vel, de uma cultura pr\u00e9-cl\u00e1ssica. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o principal interesse deles. Mais emocionante \u00e9 pensar que foram a ora\u00e7\u00e3o de um povo ao longo de dez s\u00e9culos e, depois, a ora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o esp\u00edrito e a realidade da ora\u00e7\u00e3o est\u00e3o omnipresentes a toda a B\u00edblia hebraica, os salmos s\u00e3o o seu livro de ora\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia, onde ela reina soberana, em toda a sua impon\u00eancia e em todas as formas. Recolhem todos os g\u00e9neros de ora\u00e7\u00e3o: hinos de louvor nas festas e em circunst\u00e2ncias de alegria, s\u00faplicas e lamenta\u00e7\u00f5es individuais e colectivas, ora\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es de perigo e de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, ora\u00e7\u00f5es para celebra\u00e7\u00f5es r\u00e9gias (de entroniza\u00e7\u00e3o e sagra\u00e7\u00e3o do rei: Sl 2; 110; 20-21; 61; 72; 18; 28; 63; 101; 132; 144; 45), \u201cc\u00e2nticos das peregrina\u00e7\u00f5es\/subidas\u201d (Sl 120-134, porque a peregrina\u00e7\u00e3o para o templo de Jerusal\u00e9m era sempre entendida como subida, quer na geografia f\u00edsica, quer em sentido metaf\u00f3rico), salmos sapienciais ou meditativos\u2026 Apesar desta variedade, o juda\u00edsmo qualificou o livro inteiro dos salmos com o t\u00edtulo <em>T<sup>e<\/sup>hill\u00eem<\/em>&#8211;<em>Louvores<\/em>. Louvor a Deus por tudo o que os orantes viam como obra do seu amor: \u201cO Senhor \u00e9 grande e digno de todo o louvor\u201d (Sl 96,4). Os respons\u00e1veis pela atribui\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo sentiram que o louvor \u00e9 em tudo uma necessidade premente do amor: nem h\u00e1 nada mais agrad\u00e1vel do que louvar o que se ama.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos pensar ent\u00e3o que os salmos s\u00e3o a alma hebraica inteira em ora\u00e7\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o em estado puro: al\u00e9m de formularem pedidos a Deus, \u00e0s vezes de forma dram\u00e1tica, frequentemente glorificam-no, pela beleza e grandeza contemplada na natureza, pelos feitos divinos realizados na hist\u00f3ria. \u201cEm nenhuma l\u00edngua do mundo a gl\u00f3ria de Deus foi cantada como nos salmos\u201d \u2013 disse o rabino Josu\u00e9 ben Levi no s\u00e9c. II d.C. (Talmude de Jerusal\u00e9m, <em>Sukhot<\/em> III, 12). Eles fizeram cristalizar o melhor da f\u00e9 do povo de Deus durante um mil\u00e9nio; consubstanciaram a fina flor da sua espiritualidade, express\u00e3o da sua real alian\u00e7a com Deus. S\u00e3o o espelho l\u00edmpido da sua interioridade. Segundo a express\u00e3o de 1Cr 16,42, s\u00e3o a \u201cm\u00fasica de Deus\u201d, executada solenemente no templo. S\u00e3o o livro de Deus e o livro do homem. Brotaram do esp\u00edrito do homem a dirigir-se ao Esp\u00edrito de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Realmente, os salmistas n\u00e3o se cansam de cantar o Deus transcendente e imanente, porventura conscientes de que a refer\u00eancia ao absoluto nos torna mais humanos e nos salva. Quem tem empatia com as pulsa\u00e7\u00f5es humanas e religiosas dos salmos, quem vibra ao ritmo das \u00absubidas\u00bb para Deus que neles palpitam, detecta um vivo sentido de Deus. Est\u00e3o, de facto, cheios de Deus: na sua grande intensidade de pensamento sinf\u00f3nico, falam a Deus, louvando e lamentando-se, suplicando e protestando, agradecendo e adorando. \u00c9 por Ele que eles clamam. \u00c9 a Ele que eles se queixam. \u00c9 a Ele que eles celebram. A pr\u00f3pria pergunta pelo ser de Deus tornava-se objecto de pura ora\u00e7\u00e3o: \u00abQuem mais tenho nos c\u00e9us [sen\u00e3o a ti]? E, tendo-te a ti, n\u00e3o desejo nada sobre a terra\u2026; para mim, felicidade \u00e9 estar perto de Deus\u00bb (Sl 73,25.28). \u00c9 sobretudo nos salmos que se nota que o Deus de Israel \u00e9 um Deus em rela\u00e7\u00e3o dialogal com o ser humano. Os salmos foram surgindo, n\u00e3o da busca de verdades, mas da busca de Deus: \u00abDiz de ti o meu cora\u00e7\u00e3o: \u201cbusca o seu rosto\u201d; sim, Senhor, o teu rosto eu procuro; n\u00e3o me escondas o teu rosto\u00bb (Sl 27,8-9). N\u00e3o s\u00e3o doutrina sobre Deus. Falam a Deus, coisa que tamb\u00e9m sup\u00f5e deixarem falar Deus. Aprofundam a verdade de que Deus \u00e9 algu\u00e9m que se pode escutar e invocar. Pouco a pouco, em Israel o importante foi-se deslocando dos dons de Deus para o pr\u00f3prio Deus. Ele \u00e9 que se tornou o ponto final de todas as peti\u00e7\u00f5es: \u00abO meu ser anseia por ti, \u00f3 Deus, \/ como terra resseca e cansada, sem \u00e1gua\u00bb (Sl 63,2). N\u00e3o fora por Deus, pela necessidade de o puxar para a vida quotidiana, e n\u00e3o ter\u00edamos o salt\u00e9rio. Deus \u00e9 que fez brotar os salmos. E a recita\u00e7\u00e3o persistente inculca o sentimento da sua presen\u00e7a, que tudo enche: afina o gosto do di\u00e1logo com o Deus vivo. S\u00f3 uma recita\u00e7\u00e3o rotineira, arrastada ou martelada pode \u2018perd\u00ea-lo de vista\u2019, como o h\u00e1bito de n\u00e3o respirar fundo pode esquecer o ar que se respira.<\/p>\n\n\n\n<p>Os salmos d\u00e3o testemunho de um patrim\u00f3nio espiritual que impregnava a vida social em Israel; e s\u00e3o multiplicadores dessa espiritualidade. Mas d\u00e3o testemunho sobretudo de que Deus pode ser \u2018alcan\u00e7ado\u2019 pela f\u00e9, ao ser chamado e pensado na ora\u00e7\u00e3o: \u00ab\u00d3 Deus, Tu \u00e9s o meu Deus! \/ \u00c9 por ti que eu madrugo! \/ A minha alma tem sede de ti\u00bb (Sl 63,2). Os salmos t\u00eam consci\u00eancia de que o Deus em que acreditam \u00e9 o Deus a quem podem falar com um <em>Tu<\/em> pessoal: \u00ab\u00d3 Deus\u2026, os nossos pais contaram-nos a obra que Tu realizaste nos seus dias&#8230;; levanta-te, pois, vem em nossa ajuda, \/ liberta-nos por causa da tua miseric\u00f3rdia!\u00bb (Sl 44,2.27).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Os salmos s\u00e3o bem conhecidos. O essencial, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 no conhecimento ou na informa\u00e7\u00e3o sobre eles. 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