{"id":3443,"date":"2023-06-30T02:43:00","date_gmt":"2023-06-30T02:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3443"},"modified":"2023-06-28T07:44:53","modified_gmt":"2023-06-28T07:44:53","slug":"e-se-tiverdes-de-falar-falai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/e-se-tiverdes-de-falar-falai\/","title":{"rendered":"E se tiverdes de falar, falai"},"content":{"rendered":"\n<p><br><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> O <em>\u00abn\u00e3o tenhais medo!\u00bb <\/em>que, por tr\u00eas vezes, soa no evangelho deste domingo XII do Tempo Comum, ciclo A (Mt 10, 26-33), sabe-me a uma quase intima\u00e7\u00e3o. Para mim, tr\u00eas vezes s\u00e3o vezes a mais para Jesus n\u00e3o ser levado a s\u00e9rio. Levemo-l\u2019O, pois. Um pouco antes chamara Ele os Doze; agora adverte-os. Ah, e adverte-nos, obviamente, tamb\u00e9m a n\u00f3s, pois todos somos, n\u00e3o importa a hora, chamados a ser mission\u00e1rios e testemunhas do Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00f3 mais um pormenor: tendo em conta os vers\u00edculos anteriores, todos, ainda que muitos, somos poucos, muito poucos trabalhadores para a imensidade da seara que urge recolher (em qualquer era da hist\u00f3ria).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.\u00a0<\/strong> No ano em que me ordenaram os Semin\u00e1rios n\u00e3o estavam cheios, mas tamb\u00e9m ainda n\u00e3o era inverno. Talvez apenas fim de ver\u00e3o.\u00a0 As igrejas estavam cheias, sim; nas grandes comunidades, aos domingos, celebrava-se quase de hora em hora; as catequeses tinham o seu qu\u00ea de apetec\u00edvel e encantador; a pastoral juvenil era como \u00e1rvore frondosa cheia de frutos; os filhos bebiam a f\u00e9 da boca fresca dos pais, e os netos da dos av\u00f3s; e os mi\u00fados em processo escolar passavam todos pelas aulas de EMRC. Questionava-se menos, cantava-se mais e caminhava-se mais, em grupo. Agora n\u00e3o. Agora grita-se, lancinantemente, como aquela mulher num recente encontro de agentes pastorais diocesanos com o seu bispo (sim, foi em Portugal, sim!<em>): \u00abSenhor bispo e caros padres, a minha par\u00f3quia morreu! Para qu\u00ea tantos discursos e reuni\u00f5es, se a minha par\u00f3quia, volto a dizer, est\u00e1 morta?\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando em 1992, soletrando, cheguei ao Carmo de Braga aqui celebravam-se cinco missas dominicais (seis, com a Vespertina), e todas estavam repletas de fi\u00e9is encantados e entusiasmados. Recordo-me: \u00e9ramos quatro padres, e entre todas as responsabilidades pastorais da Comunidade, todos, menos um, celebr\u00e1vamos tr\u00eas missas ao domingo!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00f3 mais um exemplo, para o qual, ao tempo, ningu\u00e9m atempadamente me preveniu do susto: tenho bem gravada a Missa do Galo desse ano.&nbsp; Bem antes da hora a igreja apresentava-se abarrotad\u00edssima! Na prociss\u00e3o de entrada mandaram-me \u00e0 frente a abrir caminho, por entre os ombros do povo t\u00e3o colados, e por entre cabe\u00e7as t\u00e3o duras e surdas, que s\u00f3 cheg\u00e1mos ao altar quando, cansado, o Coral parou de cantar! S\u00f3 faltou \u2013 cruzes, credo! \u2013 que se sentassem em cima da mesa eucar\u00edstica! N\u00e3o, n\u00e3o sentaram, mas a assembleia invadiu todo o espa\u00e7o livre, mesmo no presbit\u00e9rio! Inolvid\u00e1vel! (E mais: ainda por aqui h\u00e1 quem lembre que, um par de anos antes, pouco tempo antes do in\u00edcio daquela Missa, fora necess\u00e1rio retirar metade dos bancos da igreja por cima das cabe\u00e7as da assembleia, e nem assim o povo coube no templo, que metade dele ficou pelos corredores e nas sacristias!)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. <\/strong>Hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Afinal, o que ontem alguns viam acabar, agora, e sem querer ser derrotista, sente-se o frio invernio da f\u00e9. Treme-se de frio, quero dizer. N\u00e3o o digo por clarivid\u00eancia nem por saudade, apenas testemunho o que vejo e sinto: o povo com quem rezo \u00e9 povo velho, daquele que usa casaco em plena onda de calor e ainda assim tremelica de frio. Se isso me assusta? Assusta, claro. Com quem irei rezar, quando, verdadeiramente, chegar o pino do inverno que a todos h\u00e1-de constipar? N\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> N\u00e3o sei!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong> Foi este, confesso humildemente, o meu esp\u00edrito, quando esta manh\u00e3, celebrando missa dominical, li por duas vezes o Evangelho a duas assembleias diferentes. \u00d3bvio \u00e9 que, em momento algum, me podia passar em claro a advert\u00eancia de Jesus aos seus disc\u00edpulos: <em>\u00abN\u00e3o temais!\u00bb<\/em>. N\u00e3o temais?, mas como n\u00e3o temer, se tudo parece que se acaba? Como n\u00e3o temer? Como confiar nessa palavra de Jesus, mesmo se Ele a disse direccionando-a para outro sentido: n\u00e3o temais as rejei\u00e7\u00f5es, malqueren\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es de que sereis v\u00edtimas por causa de Mim e do meu Evangelho?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. <\/strong>\u00d3bvio \u00e9 que o caminho que temos por diante de nossos lassos passos n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Nunca foi, ali\u00e1s. Enfim, n\u00e3o ser\u00e1 preciso dar muitos mais passos para bem perceb\u00ea-lo. Na realidade, cada \u00e9poca tem desafios novos ao an\u00fancio da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus.\u00a0 Os nossos est\u00e3o \u00e0 vista; as solu\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 caminhar \u00e0 intemp\u00e9rie, por entre raposas, pequenas margaridas, javalis ou lobos, como Pedro e Paulo, In\u00e1cio, Ant\u00e3o, Patr\u00edcio, Bernardo, Hildegarda, Francisco e Domingos, Catarina, Teresa e Jo\u00e3o, Jo\u00e3o Bosco, Teresinha, Teresa Benedita e outros, e outros, e tantos outros: caminhar, caminhar com o Evangelho no cora\u00e7\u00e3o, que esse \u00e9 o seu melhor celeiro.&nbsp; Venha o que vier, caminhar sempre. Em frente. Venha o que vier, semear sempre. Sempre. Em frente e para os lados. Profusamente. Sem descanso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> Um pl\u00fambeo v\u00e9u escuro, por\u00e9m, parece ter ca\u00eddo de vez sobre o cora\u00e7\u00e3o da Humanidade (ao menos no Ocidente): Deus e a religi\u00e3o perderam sentido. \u00c9. \u00c9 arrasador: Deus e as coisas de Deus j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam leitura aos olhos e cora\u00e7\u00f5es das gera\u00e7\u00f5es mais novas. Eles olham e n\u00e3o veem! Olham e n\u00e3o distinguem o sagrado do profano, uma igreja de um centro comercial, uma cruz no alto de um templo de uma haste de para-raios! E j\u00e1 n\u00e3o se trata de que o discurso sobre sagrado seja incompreens\u00edvel, logo chato, n\u00e3o; simplesmente n\u00e3o o inteligem, pois n\u00e3o possuem grelha para o <em>ouver<\/em> e classificar, e em consequ\u00eancia n\u00e3o o compreendem! Bem, n\u00e3o \u00e9 que o n\u00e3o compreendam, n\u00e3o: \u00e9 pior, visto que j\u00e1 nem dele se apercebem \u2013 ele est\u00e1 ali e \u00e9 como se n\u00e3o estivesse, pois n\u00e3o t\u00eam antenas para capt\u00e1-lo! E assim sendo, que sentido faz incorporar-se nesta ou naquela religi\u00e3o, mormente a crist\u00e3, se j\u00e1 ningu\u00e9m percebe ou precisa de sinais que apontem para o eterno? (E para qu\u00ea pensar ou modular a vida com sentido de eternidade, se tudo termina aqui? \u2013 dizem como se f\u00f4ramos criminosos.)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong> No pr\u00f3ximo dia 9 de julho, pelas quatro da tarde, os nossos Irm\u00e3os Andr\u00e9 e Francisco Maria, ser\u00e3o ordenados sacerdotes do Alt\u00edssimo, na S\u00e9 do Porto. (Penso neles quando isto escrevo&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Meus caros, benvindos!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E obrigado por terdes vindo!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como sempre, como outrora tamb\u00e9m a mim, espera-vos uma ceifa abundante, e um tempo novo e desafiante. Mas n\u00e3o caleis, \u2013 n\u00e3o podereis calar \u2013 a novidade do Evangelho de Jesus. Nem passeis por alto \u2013 n\u00e3o podereis passar \u2013 as exig\u00eancias do seguimento de Jesus, o Senhor que chama. Seguiu-O de olhos fitos no Seu cora\u00e7\u00e3o, que outra luz n\u00e3o haja. Diante do pequenino e cansado rebanhinho que nos resta, n\u00e3o vos julgueis superiores, nem trateis de dizer como quem imp\u00f5e. N\u00e3o sejais fechados aos ventos da hist\u00f3ria, nem vos apresenteis de regra e esquadro na m\u00e3o, isto \u00e9, uns frios moralistas, e menos ainda, uns antip\u00e1ticos, como se f\u00f4sseis os azedos senhores da verdade. N\u00e3o, nada disso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E n\u00e3o vos assusteis com as incompreens\u00f5es, as caras feias, as piadas, os sil\u00eancios improv\u00e1veis ou fugidios \u2013 fazem parte do card\u00e1pio do an\u00fancio do Evangelho. Ali\u00e1s, assustai-vos, sim, quando todos vos sorrirem, todo vos tratarem nas palminhas das m\u00e3os, todos vos baterem nas costas. Esse todos \u00e9 incompat\u00edvel com o an\u00fancio. J\u00e1 S\u00e3o Paulo sentiu que tal n\u00e3o poderia acontecer, sob pena de trai\u00e7\u00e3o a Cristo! E cravai os olhos no cora\u00e7\u00e3o rasgado do Redentor, de contr\u00e1rio so\u00e7obrareis!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o temais as inimizades, temei, sim, volverde-vos inimigos do Evangelho! E no restante, paci\u00eancia, do\u00e7ura, coragem e amor \u00e0 verdade; quer agrade quer n\u00e3o, quer aceitem, quer n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sede servidores humildes da Verdade que \u00e9 Cristo. E alicerces valorosos sem medo de o ser.&nbsp; Em comunh\u00e3o com a Igreja proponde a Verdade ao mundo, nunca, por\u00e9m, como donos que dela se bastam, e menos ainda como fun\u00e2mbulos que A dominam na perfei\u00e7\u00e3o! N\u00e3o, nada disso, que se A crucificaram, que havereis de esperar para v\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0A Verdade \u00e9 Cristo; e at\u00e9 n\u00f3s, ou melhor, primeiro n\u00f3s, estamos a caminho dela! Na verdade, n\u00e3o somos mais que peregrinos. E, quem sabe, quase desistentes. (Peregrino \u00e9 quem, afinal, mesmo cansado, caminha sabendo para onde vai, ainda que n\u00e3o conhe\u00e7a o fim.) Sim, caminhamos todos cansados e ainda sonhadores, levando-A no cora\u00e7\u00e3o, tratando de nos aproximarmos mais e mais da Claridade! Sim, somos peregrinos que A dizem e cantam pelos caminhos, e \u00e0 volta da lareira, enquanto se assa um peixe. Mas n\u00e3o, n\u00e3o temos a verdade toda, que os outros tamb\u00e9m Dela s\u00e3o caminheiros mesmo que o n\u00e3o saibam. Por isso, se houverdes de lhes falar, falai, mas com do\u00e7ura e paci\u00eancia, com inteireza e firmeza, que para isso fostes chamados. (Ah, e nesta hora em que nada tenho a ensinar, insisto nas palavras de envio de S\u00e3o Francisco: <em>\u00ab\u2026E se tiverdes de falar, falai!\u00bb<\/em>).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. 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