{"id":3417,"date":"2023-05-31T02:58:00","date_gmt":"2023-05-31T02:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3417"},"modified":"2023-05-30T13:03:11","modified_gmt":"2023-05-30T13:03:11","slug":"responsorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/responsorio\/","title":{"rendered":"Respons\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Senhor jamais abandona um cordeiro ou uma ovelha, por cegos e mancos que sejam. E nem antes nem depois da morte atroz, abandonou algum dos Seus amigos. Fora, \u00e9 verdade, por eles enjeitado na noite mais terr\u00edvel \u2013 aquela em que a criatura condenou o Criador. E em troca bem mereceriam eles por todo o sempre igual trato. Mas n\u00e3o; na sua imensa ternura e amizade jamais o fez, nem o poderia fazer, nem far\u00e1, pois tais s\u00e3o as irrenunci\u00e1veis coordenadas do GPS da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os traidores O viram ou souberam morto \u2013 morto, morto, verdadeiramente morto \u2014 como puderam eles dormir naquela noite e nas seguintes? Ningu\u00e9m poderia, claro, pois quem dormiria com a brutalidade de tal remorso? Sinceramente n\u00e3o sei que leito poderia dar descanso e paz \u00e0 consci\u00eancia, que para o corpo a espinhos haveria ele de saber. Ser-se traidor de algu\u00e9m, para mais o Justo, sabendo que tal \u00e9 verdadeiramente verdade, deve ser terr\u00edvel, duro e afiado espinho espetado na fresca carne da consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, falo de traidores, mas n\u00e3o ao jeito do mercen\u00e1rio que trai o seu capit\u00e3o a troco de um soldo algo maior. N\u00e3o, n\u00e3o: falo de amigos que tra\u00edram o Amigo, o \u00fanico de quem se pode escrever com mai\u00fascula; falo de amigos que meteram com Ele a m\u00e3o no prato, de amigos a quem Ele chamou tal por elei\u00e7\u00e3o sua, amigos e n\u00e3o servos, amigos eleitos para o serem, a quem Ele falara com do\u00e7ura, cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o, olhos nos olhos. Amigos de quem se fiara e a quem protegera e por quem acabou entregando-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre as coisas que por vezes Lhe pergunto, nunca ousei saber qual a dor que na sagrada Paix\u00e3o mais Lhe doeu ou macerou, visto estar certo que, para maior crueldade, Ele soube identificar uma a uma as que ali sofreu, e por que as sofreu. E o que \u00e9 mais: ao poder distingui-las e identific\u00e1-las todas, uma a uma, mais Lhe doeram as que Lhe advieram da humilhante trai\u00e7\u00e3o dos amigos!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 impunemente que se trai algu\u00e9m; menos ainda um amigo, o Amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite da pris\u00e3o, e do julgamento, e aquela sexta-feira de tortura e mart\u00edrio devem ter sido t\u00e3o duras como afiadas pontas de faca; e o silencioso e frio vazio de s\u00e1bado nem sei sup\u00f4-lo. \u00c9 por isso que me agarro \u00e0 f\u00e9 de Tom\u00e9, que \u00f3bvio \u00e9 sempre a teve e tem: Como \u00e9 que ao terceiro nocturno dia algu\u00e9m pode acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o? Como, enfim, poderia ele acreditar? Ele e os demais? Como se pode aceitar algo que nunca antes ningu\u00e9m viveu ou experienciou, nem contou, e de que n\u00e3o existem testemunhos? E qual o claro e luminoso livro, sagrado ou n\u00e3o, poderia ser interrogado, a tempo e horas, sobre que fora a ressurrei\u00e7\u00e3o? \u2014 E quem numa qualquer hora negra se arrima a um livro?<\/p>\n\n\n\n<p>E aconteceu!<\/p>\n\n\n\n<p>E acontecendo, \u00e9 \u00f3bvio que o Ressuscitado tinha de manifestar-se aos amigos, e manifestou-se; a quem mais? \u00c9 \u00f3bvio que sim. T\u00e3o pronto como o ledo desabrochar a aurora, assim Ele se lhes manifestou como previra e lhes preanunciara. E ao receb\u00ea-l\u2019O naquela sala agora nefanda e negra, como n\u00e3o se perturbariam, vendo vivo, Quem eles criam morto? E com que olhos, sen\u00e3o baixos, arrependidos e em l\u00e1grimas, haveriam de encar\u00e1-l\u2019O, e de se Lhe dirigir? Diante das chagas das Suas m\u00e3os e p\u00e9s, e dos furinhos dos espinhos cercando-Lhe a fronte, quem teria palavras, e n\u00e3o apenas um duro n\u00f3 na garganta e uma pesada e fria m\u00f3 no est\u00f4mago, para algo Lhe dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>Censur\u00e1-los-ia Ele? Pareceria \u00f3bvio\u2026 E eles o aceitariam, pois havia mais que raz\u00f5es. E \u00e9 claro que era \u00f3bvio que ali era Ele \u2013 at\u00e9 no acento da voz! E se eles conheciam o acento da voz do Bom Pastor\u2026 \u00d3bvio era que era Ele! Mas a impossibilidade de ser ele Quem ali era, era t\u00e3o desmesuradamente poss\u00edvel que consci\u00eancia alguma poderia aceitar que fosse verdade. O mais acertado, pareceria, era tomar tudo como um del\u00edrio do desejo: que nada de ruim se tivesse passado nos \u00faltimos tr\u00eas dias em Jerusal\u00e9m, que tudo n\u00e3o passasse de um pesadelo infausto e negro, que nenhum deles tivesse testemunhado ou sido motor da noite mais negra, que nenhum amigo tivesse colaborado no esmagamento do cora\u00e7\u00e3o do Amigo, como a verme feio, que\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, enfim, era Ele, sim; ainda que a todos os t\u00edtulos parecesse um incompreens\u00edvel desvario do desejo, era Ele quem ali se apresentava, naquela fresca hora matutina, no meio da horrenda noite deles. Eis que o Senhor e Mestre estava ali t\u00e3o luminosamente fresco e airoso como as madrugadas da primavera da cria\u00e7\u00e3o! Entre todos, ningu\u00e9m compreendia luz t\u00e3o calorosamente quente e reconfortante, porque ningu\u00e9m nada ali poderia compreender; e n\u00e3o era quest\u00e3o de intelig\u00eancia, ou falta dela&#8230; Ent\u00e3o, logo Ele lhes pediu de comer, e deram-Lhe uma posta de peixe que por ali havia. E sereno e calmo, e imagino que com alguma sorna, saboreou-a deliciado (E embora S\u00e3o Lucas nada diga, a mim ningu\u00e9m me tira que n\u00e3o pediu um copo de tr\u00eas e um cibo de p\u00e3o!) \u2014 e espantados, ali viram comer Quem bem sabiam gostar de peixe. E Sim\u00e3o Pedro, melhor do que todos, sabia que os mortos n\u00e3o comem peixe!<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia desta apari\u00e7\u00e3o do Ressuscitado sucederam-se outras, a uns e a outros, e a outros, e em conjunto. E uns e outros, um a um, uma a uma, e todos juntos, ficaram sabendo que o Mestre ressuscitara. N\u00e3o sabiam como diz\u00ea-lo, mas Ele atravessava portas; e as paredes n\u00e3o O sustinham, os caminhos n\u00e3o se Lhe faziam longos, e as dist\u00e2ncias nem curtas nem longas, porque, simplesmente, para Ele elas n\u00e3o existiam. E atravessava-lhes o cora\u00e7\u00e3o com um olhar de miseric\u00f3rdia!<\/p>\n\n\n\n<p>E com predile\u00e7\u00e3o para o peixe, comeu outras vezes com eles!<\/p>\n\n\n\n<p>(Quero aqui deixar duas notas finais; uma: J\u00e1 atr\u00e1s disse, porque inaudito, tudo isto vai para muito al\u00e9m do racional e do por algu\u00e9m antes experienciado; t\u00e3o para tr\u00e1s ou t\u00e3o para al\u00e9m, que o curso de quarenta dias que de seguida o Ressuscitado lhes prop\u00f4s, acalentando-os e acompanhando-os at\u00e9 \u00e0 Ascens\u00e3o, me parece excessivamente curto para assimilarem tanto e tudo!; duas: um amigo assinalou-me um dia, num caminho, uma \u00e1rvore onde um vizinho, tempos havia, se enforcara. Em trinta anos s\u00f3 l\u00e1 passei umas cinco ou seis vezes (e, entretanto, derrubaram a \u00e1rvore), mas sempre que l\u00e1 passei rezei uma Ave Maria pelo homem. Juro que sim, mas o que mais me impressiona \u00e9 que eu recebi esse testemunho, mas n\u00e3o conheci nem vi o enforcado. E, por\u00e9m, quando l\u00e1 passo, at\u00e9 posso ir com sono ou distra\u00eddo, mas abeirando-me do lugar sempre lembro aquele facto alheio. N\u00e3o me espanta, por isso, que de por toda a vida os Ap\u00f3stolos se tenham lembrado, meditado, pregado e transmitido todos os factos relativos ao n\u00facleo da nossa f\u00e9: a Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. N\u00e3o me espanta, n\u00e3o, porque lhes ficaram gravados a Fogo na alma!)<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando: Durante tr\u00eas anos Pedro e os companheiros haviam tido o melhor mestre que algu\u00e9m poderia ter \u2013 nada menos que Jesus, a Palavra de Deus feita carne! Durante aquele largo feixe de meses falou-lhes Ele, e pregou-lhes, alimentou-os e cuidou-os com desvelos maternos. E eles nada entenderam, tal era a sublimidade dos mist\u00e9rios que lhes comunicava. Sobre o da P\u00e1scoa preciso n\u00e3o \u00e9 que ora mais se diga, pois menos que nada entenderam. Por isso, acrescendo ao muito que Dele tinham visto e ouvido pelos caminhos e \u00e0 mesa da \u00daltima Ceia, disse-lhes: \u00ab<em>Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas n\u00e3o as poderei entender<\/em> [e era verdade, pois perduravam ainda laivos de noite]. <em>Mas quando vier o Esp\u00edrito Santo, ent\u00e3o compreendereis\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para entenderem, faltava-lhes, \u00f3bvio \u00e9, a luz viva e ardente da Chama de Amor Viva, o Esp\u00edrito Santo. Sem Ela ningu\u00e9m nada entende. Sem seu secreto e luminoso aux\u00edlio, ningu\u00e9m, nem Pedro, nem Paulo, nem Jo\u00e3o, nem Matias, algo compreender\u00e1 de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos falte, pois, a Luz, que \u00e0 noite responde-se com Fogo vivo. De contr\u00e1rio, como assentiremos com frio e sem seu calor?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD O Senhor jamais abandona um cordeiro ou uma ovelha, por cegos e mancos que sejam. 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