{"id":3412,"date":"2023-05-31T04:35:00","date_gmt":"2023-05-31T04:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3412"},"modified":"2023-05-29T10:37:35","modified_gmt":"2023-05-29T10:37:35","slug":"a-oracao-crista-produz-efeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-oracao-crista-produz-efeito\/","title":{"rendered":"A ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 produz efeito?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma cultura onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cultura menos rica. A cultura entende a ora\u00e7\u00e3o como dignificante do ser humano, porque favorece a experi\u00eancia do Inef\u00e1vel, para onde sentimos a necessidade de entrar descal\u00e7os, pela impress\u00e3o de ser ch\u00e3o sagrado. Mas, se pensarmos especificamente na ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o seu principal objectivo \u00e9 a comunh\u00e3o com o Deus de Jesus, com o Deus que em Cristo encontrou definitivamente o ser humano e deu mais sentido ao seu existir, mesmo que doloroso ou custoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, esse potencial m\u00edstico liga-se sem intermit\u00eancia a outro aspecto da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3: o do seu efeito. Ao p\u00f4r o orante na presen\u00e7a de Deus e em comunh\u00e3o com Ele, torna-o mais presente a si pr\u00f3prio e mais atento ao pulsar dos acontecimentos, mais sens\u00edvel \u00e0s realidades que o rodeiam e \u00e0s pessoas que com ele convivem. O Papa Francisco disse (10.12.16) que \u201co fruto mais maduro da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a caridade\u201d. N\u00e3o podemos sen\u00e3o concordar com ele. O Catecismo do santo Cura d\u2019Ars j\u00e1 tinha dito \u2013 ligando a ora\u00e7\u00e3o ao amor e \u00e0 felicidade \u2013 que \u201cesta \u00e9 a grande tarefa do ser humano: rezar e amar. Se rezais e amais, a\u00ed tendes a felicidade do ser humano na terra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanta simplicidade desconcerta. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a ora\u00e7\u00e3o b\u00edblica crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 realidade abstracta ou gen\u00e9rica. \u00c9 um modo de estar na vida, de sentir e entender o mundo, como movimento que culmina em Jesus e que configura em n\u00f3s \u201cos mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus\u201d (Fl 2,5). A ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 genu\u00edna conduz ao amor. Se prova a qualidade da f\u00e9, acrescentem que faz terminar a f\u00e9 no amor. N\u00e3o nos tira do mundo. Ao contr\u00e1rio, faz-nos comungar das suas dores e gozos com mais intensidade. Quem reza n\u00e3o esquece a comunidade e a fraternidade em que se move. A ora\u00e7\u00e3o renova, amacia e dilata o cora\u00e7\u00e3o, tornando-o compassivo. N\u00e3o evade a realidade. Gera uma din\u00e2mica que intui as implica\u00e7\u00f5es humanas e sociais da comunh\u00e3o com Deus. Ou seja, quem na ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 encontra o Deus vivo encontra o Amor e, se \u00e9 coerente, p\u00f5e-se ao servi\u00e7o do amor. O amor ao Deus escutado na ora\u00e7\u00e3o gera amor ao pr\u00f3ximo escutado na vida. Os dois s\u00e3o complementares. Se n\u00e3o formos coerentes na vida, a ora\u00e7\u00e3o obriga-nos a s\u00ea-lo. O chamado Mahatma, Gandhi, dizia que \u00aba ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um ocioso passatempo para senhoras idosas mas que, bem compreendida e aplicada, \u00e9 o instrumento de ac\u00e7\u00e3o mais poderoso\u00bb. E o primeiro bom efeito que ela produz \u00e9 no pr\u00f3prio orante, porque, se aut\u00eantica, gera experi\u00eancia do divino e torna-o mais humano. De facto, n\u00e3o faz sentido de manh\u00e3 pedir boas rela\u00e7\u00f5es com os membros da fam\u00edlia e de tarde injusti\u00e7\u00e1-los, murmurar deles ou chegar a vias de facto com eles. Como n\u00e3o se ora pela paz com o cora\u00e7\u00e3o em guerra mas \u00e9 preciso t\u00ea-lo em paz para pedir a Deus o fim da guerra, assim o orante \u00e9 obrigado a empenhar-se nas causas que faz objecto de ora\u00e7\u00e3o. Rezar para que Deus sacie os esfomeados sem mover um dedo para que tal aconte\u00e7a \u00e9 transformar a ora\u00e7\u00e3o em aliena\u00e7\u00e3o ou na apologia da indiferen\u00e7a. At\u00e9 seria c\u00f3mico pedir: \u00f3 Deus, faz de mim uma boa pessoa, mas n\u00e3o te incomodes muito com isso, pois, tal como sou, estou a ter uma dolce vita, em grande.<\/p>\n\n\n\n<p>A ora\u00e7\u00e3o s\u00f3 como exerc\u00edcio de interioridade ou de introspec\u00e7\u00e3o no regalo tranquilo de uma paisagem id\u00edlica, autocentrados para relaxar a mente, como n\u00f3madas digitais, peregrinos do absoluto (idealmente na Ponta do Sol, na Madeira), n\u00e3o assegura s\u00f3 por si a experi\u00eancia do Deus vivo nem modifica o modo de processar as realidades da vida e o elo de liga\u00e7\u00e3o aos outros; se o exerc\u00edcio de interioridade n\u00e3o for acompanhado pela absor\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito do evangelho de Jesus, capaz de transformar uma vida, n\u00e3o far\u00e1 efeito. A ora\u00e7\u00e3o que nos descentra, num aut\u00eantico \u00eaxodo para os outros, olhando para eles a partir de Deus, sentido como Pai que nos torna irm\u00e3os com eles, \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o de Jesus, que nos ensinou a orar dizendo \u00abPai nosso\u00bb e a considerar irm\u00e3os e a tratar como igualmente filhos desse \u00abPai nosso\u00bb todos os que est\u00e3o \u00e0 nossa volta, os que nos amam e os que \u00e0s vezes nos incomodam. O Deus da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob e o Deus de Jesus, Deus das pessoas vivas. Sem d\u00favida, \u00e9 bom e necess\u00e1rio parar e cultivar a interioridade em contraposi\u00e7\u00e3o a tantas pressas e urg\u00eancias. Mas a ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o se contenta com um di\u00e1logo eu-Tu, tranquilo, que prescinde do mundo e enche mais o eu. Saindo do cora\u00e7\u00e3o \u2013 que leva o sangue a todas as fibras do ser \u2013 atravessa o corpo. Leva-nos para o Deus que \u00e9 Pai de Jesus e para os filhos do \u00abPai nosso\u00bb. Rezando o \u00abPai nosso\u00bb com consci\u00eancia do seu alcance, j\u00e1 n\u00e3o se pode pensar que tanto faz rezar como n\u00e3o rezar. Quem fez o mal e ora \u00abPai nosso, livra-nos do mal\u00bb j\u00e1 est\u00e1 a renunciar ao mal e a aproximar-se de Deus: a ora\u00e7\u00e3o produziu efeito. Para a ora\u00e7\u00e3o ser mesmo eficaz, seria preciso, n\u00e3o s\u00f3 pedir coisas, mas tamb\u00e9m pedir Deus, para que se d\u00ea como se deu em Jesus. De qualquer modo, se da ora\u00e7\u00e3o se levanta uma pessoa mais am\u00e1vel, quer dizer que foi escutada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Uma cultura onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cultura menos rica. 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