{"id":3410,"date":"2023-05-31T02:34:00","date_gmt":"2023-05-31T02:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3410"},"modified":"2023-05-29T10:35:30","modified_gmt":"2023-05-29T10:35:30","slug":"introducao-ao-livro-um-de-o-meu-diario-no-carmo-do-fradinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/introducao-ao-livro-um-de-o-meu-diario-no-carmo-do-fradinho\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o ao Livro Um [de] <em>O meu Di\u00e1rio no Carmo do Fradinho<\/em>"},"content":{"rendered":"\n<p>V\u00edctor Manuel Mar\u00ed S\u00e1ez, <em>Universidade de C\u00e1diz<\/em>. <em>Revista Iglesia Viva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este livro procurou-me. N\u00e3o, n\u00e3o fui eu quem foi \u00e0 sua procura. De h\u00e1 uns anos a esta parte fui aprendendo a fazer mais caso das situa\u00e7\u00f5es, pessoas e acontecimentos que v\u00eam ter comigo, do que daqueles que eu procuro, por minha vontade ou desejo. O ser humano caracteriza-se por fazer, mas tamb\u00e9m por deixar-se fazer. Por alcan\u00e7ar, mas tamb\u00e9m, como no meu caso, por sentir-se alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para situar o leitor, \u00e9 necess\u00e1rio que eu remonte pelo menos a tr\u00eas anos atr\u00e1s. Decorria o ver\u00e3o do ano 2019. No m\u00eas de junho chegava eu \u00e0 cidade francesa de Bord\u00e9us, para uma estadia de investiga\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma das atividades que faz parte do trabalho de quem, como eu, \u00e9 professor universit\u00e1rio. O objetivo de fundo desta estadia era distanciar-me de diversas situa\u00e7\u00f5es de in\u00e9rcia no trabalho que, como m\u00f3s de um moinho, estavam a esmagar-me a pouco e pouco. Temo que n\u00e3o fosse para fazer do meu gr\u00e3o de trigo um bom p\u00e3o, mas para me aniquilar como pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois anos anteriores tinham sido especialmente intensos em atividades, responsabilidades, compromissos e tens\u00f5es laborais. De modo que, ao chegar a Bord\u00e9us, \u00e0 noite \u2013 recordo-me como se fosse ontem \u2013, ca\u00ed na cama e, a tremer, comecei a chorar. De cansa\u00e7o. F\u00edsico. Mental. Moral. Tamb\u00e9m de alegria, por poder sair, momentaneamente, dessas din\u00e2micas destrutivas e autodestrutivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse par\u00eantesis de cinco semanas, em Bord\u00e9us, pude retomar ritmos vitais mais s\u00e3os e, assim, reencontrar-me com algumas das coisas de que mais gosto na minha profiss\u00e3o: a leitura e a escrita. Nessa altura, contei com a compreens\u00e3o, o apoio e a proximidade do meu anfitri\u00e3o, o professor Jean-Jacques Ch\u00e8val.<\/p>\n\n\n\n<p>Tive ent\u00e3o a intui\u00e7\u00e3o de ter de sair de debaixo das m\u00f3s que me estavam a triturar. \u00c9 que, \u00e0s vezes, est\u00e1-se t\u00e3o envolvido que custa ver o \u00f3bvio. A primeira das m\u00f3s da qual urgia sair era um cargo universit\u00e1rio que me tinha calhado, ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o da equipa que at\u00e9 ent\u00e3o gerira um programa de forma\u00e7\u00e3o na minha universidade. A 1 de setembro de 2019 apresentei a ren\u00fancia a esse cargo por motivos pessoais, sem dar mais pormenores. Foi aceite. Obviamente, encarreguei-me de fazer uma retirada respons\u00e1vel. Senti um grande al\u00edvio, ao ver que come\u00e7ava a empregar os meios que me permitiriam sair das din\u00e2micas que tanto dano me estavam a causar.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecei esse curso acad\u00e9mico de 2019-2020 com a decis\u00e3o de tomar medidas noutra das frentes que estavam sob o meu controle: as atividades, publica\u00e7\u00f5es e projetos que n\u00e3o eram estritamente obrigat\u00f3rios, mas em que muitas vezes me via metido, em parte como consequ\u00eancia do meu trabalho acad\u00e9mico, e em parte pelo que Byung-Chul Han t\u00e3o bem retratou no seu <em>best-seller<\/em> <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta era a din\u00e2mica em que me encontrava quando, em mar\u00e7o de 2020, chegou a Espanha a pandemia do coronav\u00edrus e o confinamento domiciliar. Esse momento disruptivo<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> foi como uma segunda epifania que me permitiu ver que o chamamento coletivo a puxar o trav\u00e3o de emerg\u00eancia ao tipo de civiliza\u00e7\u00e3o que nos trouxera ao colapso, tamb\u00e9m tinha, para mim, uma releitura pessoal. Era uma esp\u00e9cie de confirma\u00e7\u00e3o de que eu devia dar continuidade ao caminho que tinha iniciado no ver\u00e3o anterior. As mensagens institucionais emitidas pelo governo de Espanha (<em>\u00absairemos melhores e mais fortes desta situa\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em>) animavam-me a pensar que o caminho pessoal que estava a tentar iniciar tomaria uma dimens\u00e3o coletiva. Os meses posteriores afirmariam o contr\u00e1rio: a maioria das pessoas tinha pressa em voltar a fazer girar as rodas em que, como hamsters, corria presa h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do confinamento domiciliar eu vinha sofrendo de uma forte dor nas costas, na zona lombar, que se come\u00e7ou a manifestar durante as \u00faltimas aulas presenciais na universidade, a in\u00edcios do m\u00eas de mar\u00e7o de 2020. Como n\u00e3o podia ir presencialmente ao m\u00e9dico por causa do confinamento, e as consultas telef\u00f3nicas estavam colapsadas, demorei quase tr\u00eas meses a fazer a radiografia que confirmou que, efetivamente, tinha um problema numa das v\u00e9rtebras lombares.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a pandemia o permitiu, iniciei umas sess\u00f5es de fisioterapia, com a sorte de cair nas m\u00e3os \u2013 n\u00e3o poderia dizer melhor \u2013 duma fisioterapeuta muito intuitiva, Elena. Ao fim de v\u00e1rias semanas de terapia, ela ficou desconcertada porque o que <em>via<\/em> com as suas m\u00e3os n\u00e3o correspondia ao grau de dor que eu sentia e lhe transmitia. Embora eu, sendo var\u00e3o, tenha um limiar de dor bastante baixo, ela achava que devia haver mais qualquer coisa. Aconselhou-me a fazer uma resson\u00e2ncia magn\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, quando as circunst\u00e2ncias o permitiram \u2013 em fins de agosto \u2013 fiz a desejada resson\u00e2ncia. Confirmou-se a les\u00e3o que a radiografia de junho j\u00e1 tinha detetado. O relat\u00f3rio referia isso e ainda constatava a presen\u00e7a duma mancha, pr\u00f3xima de um dos rins, e que o t\u00e9cnico aconselhava a examinar mais detalhadamente. Isto levou-me a fazer um novo exame, um TAC<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, para despistar a quest\u00e3o. Em outubro a inc\u00f3gnita recebeu um nome: um tumor cancer\u00edgeno acima do rim direito. Tinha de ser operado urgentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Deram-me a not\u00edcia quando estava a sair de uma das minhas aulas na universidade. Foi um aut\u00eantico choque, uma reviravolta totalmente inesperada nesta cadeia de acontecimentos que apenas relato sucintamente e que, s\u00f3 agora, a pouco e pouco, come\u00e7o a ver interligados. Ao chegar a casa rompi num pranto com Flori, a minha mulher. Ainda tinha tantas coisas por resolver, aos 50 anos! Mas, sobretudo, queria levar a cabo o acompanhamento dos meus dois filhos at\u00e9 \u00e0 vida adulta. Pedi, ent\u00e3o, a Deus que me desse a oportunidade de continuar o meu caminho neste mundo; ao menos por mais algum tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00eas e meio que passou entre o diagn\u00f3stico e a opera\u00e7\u00e3o foi complicado. Tinha de estar preparado para tudo. Embora desejasse continuar, tinha de me preparar para a poss\u00edvel despedida. Depois da dura not\u00edcia, que tive de comunicar aos meus entes queridos, seguiu-se um processo destinado a tentar viver reconciliado com esta nova realidade na minha vida. Com o apoio, o encorajamento e as ora\u00e7\u00f5es de muitas pessoas pr\u00f3ximas, entrei na sala de opera\u00e7\u00f5es em novembro. S\u00f3 me recordo dos primeiros segundos. Os efeitos da anestesia foram imediatos. Seguidamente veio uma grande luz. N\u00e3o era a que dizem que existe no final do t\u00fanel. Despertei, pouco a pouco, numa sala de recobro. Dali levaram-me para o meu quarto, e disseram-me que tudo tinha corrido bem: tinham conseguido extrair todo o tumor, e que, por estar encapsulado com o meu rim direito, n\u00e3o o tinham podido salvar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fim de seis dias no hospital, cheguei a casa em finais de novembro de 2020. A partir dali iniciei um lento per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o, no qual tive de come\u00e7ar do zero em muitos aspectos. N\u00e3o podia levantar-me da cama sem ajuda, nem podia comer alimentos s\u00f3lidos. E quando consegui andar, tive de o fazer acompanhado por algu\u00e9m. Primeiro, em casa. Depois, na rua. E ao fim de cinco minutos ficava cansado. Depois, ao fim de dez, quinze, vinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de janeiro de 2021 quando, ingenuamente, pensava que dentro de poucos dias ou semanas, voltaria \u00e0 atividade plena na universidade, um novo golpe atingiu a minha vida. Desta vez, relacionado com as tens\u00f5es e os desgastes laborais. Um dos meus inimigos tinha redobrado as suas a\u00e7\u00f5es de hostilidade contra a minha pessoa. A minha universidade fazia-me chegar uma den\u00fancia sua contra mim, em que os factos estavam vilmente distorcidos, para dar uma falsa apar\u00eancia de realidade. Qualquer pessoa, por\u00e9m, que trabalhasse na universidade e lesse tal den\u00fancia, mesmo sem conhecer o caso em pormenor, teria pistas mais que suficientes para deduzir que nela havia numerosas inconsist\u00eancias de fundo. Comuniquei-o por escrito, mas foi em v\u00e3o. E por fim, apesar da minha situa\u00e7\u00e3o \u2013 ainda com uma ligadura na cicatriz e com as dificuldades pr\u00f3prias do per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio \u2013 tive de dirigir-me ao escrit\u00f3rio do respons\u00e1vel universit\u00e1rio que me notificara da den\u00fancia da denunciante. Queria dar a cara, e defender-me presencialmente, perante ele, das falsas acusa\u00e7\u00f5es: dizer-lhe que essa den\u00fancia n\u00e3o se aguentava de p\u00e9 e que, em todo o caso, quem andava a ser castigado, j\u00e1 h\u00e1 anos, era eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos argumentos contundentes que comuniquei a essa pessoa, obrigaram-me a cumprir os tr\u00e2mites que, s\u00f3 pelo facto de ter de passar pelo processo, muito me faziam sofrer. Pedi com insist\u00eancia que, dadas as circunst\u00e2ncias de sa\u00fade em que me encontrava, me prorrogassem o prazo da resposta que devia apresentar por escrito, com muita urg\u00eancia; e consegui o adiamento at\u00e9 \u00e0 data em que me concederiam alta m\u00e9dica. Em finais de junho surgiu esta e volvi ao meu posto de trabalho; quinze dias depois, apresentei a minha defesa por escrito. Quase trinta p\u00e1ginas em que tive que desmontar a s\u00e9rie de mentiras, falsas imputa\u00e7\u00f5es e deforma\u00e7\u00e3o dos factos que, com tanta maldade, o denunciante tinha tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses meses de convalescen\u00e7a serviram-me ainda para ir tomando consci\u00eancia do ambiente t\u00f3xico em que se vinha desenvolvendo o meu trabalho na faculdade e que eu, consciente e inconscientemente, carregava sobre os ombros. Vinham-se cozinhando circunst\u00e2ncias que, no seu conjunto, resultavam no atual ambiente t\u00f3xico irrespir\u00e1vel: o ataque a uma pessoa era acompanhado do sil\u00eancio cobarde de outras que, tendo responsabilidades institucionais, n\u00e3o fizeram o que estava nas suas m\u00e3os para parar o processo. E a isto somava-se a inveja de alguns e a rejei\u00e7\u00e3o de outros, diante dos quais jamais demonstrei a submiss\u00e3o que desejavam.<\/p>\n\n\n\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o da den\u00fancia chegou poucos dias depois do envio da minha resposta escrita. Por\u00e9m, diante do meu documento, detalhado e exaustivo, o texto do organismo competente apenas tinha oito linhas. Nelas se dizia o \u00f3bvio: que eu n\u00e3o era culpado do que me acusavam. Mas nada se dizia quanto \u00e0 penaliza\u00e7\u00e3o da outra parte pelas falsas acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ponderar pr\u00f3s e contras de pedir mais explica\u00e7\u00f5es, dei uma s\u00e9rie de passos conducentes a pedir que fossem penalizadas as falsas acusa\u00e7\u00f5es vertidas contra mim. E se tinha sido duro viver esse processo at\u00e9 ali, mais duro foi, por\u00e9m, experimentar o dano moral de ver v\u00e1rios respons\u00e1veis institucionais fazer de conta que n\u00e3o viam as minhas peti\u00e7\u00f5es, demonstrando-me que n\u00e3o se iriam <em>queimar<\/em> para que se fizesse justi\u00e7a e fossem restitu\u00eddos os meus direitos. E, no melhor dos casos, animavam-me a iniciar um novo processo burocr\u00e1tico que, como o anterior, s\u00f3 de o iniciar me penalizava, por me ver metido na mesma lama em que t\u00e3o bem se chafurdam alguns animais e algumas pessoas. Uma sa\u00edda kafkiana, no sentido amplo da express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A tomada de consci\u00eancia, pela minha parte, de todo este ambiente t\u00f3xico, era acompanhada da procura duma sa\u00edda que me permitisse distanciar-me dele. Por isso, ao receber a dispensa, em fins de junho de 2021, vi que chegava ao correio da universidade, o an\u00fancio da abertura de uma bolsa para a realiza\u00e7\u00e3o de estadias de investiga\u00e7\u00e3o em universidades estrangeiras durante doze meses. N\u00e3o estava muito convencido de querer fazer tal est\u00e1gio j\u00e1 que, dadas as minhas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o queria separar-me da minha fam\u00edlia, da minha C\u00e1dis, da minha gente. Contudo, em casa, animaram-me a candidatar-me e, apesar das minhas retic\u00eancias, assim fiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Como acontece com tantas coisas que se fazem com pouca esperan\u00e7a, consegui uma dessas oportunidades. A bolsa era para una universidade em Braga, Portugal, onde um amigo espanhol me tinha conseguido uma carta de convite, emitida por um dos investigadores desse centro. Tinha, pois, um horizonte por diante que me permitiria ganhar dist\u00e2ncia, ter tempo para ler e investigar e, al\u00e9m disso, alcan\u00e7ar a desejada oportunidade para cultivar rela\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas para, quem sabe, num futuro pr\u00f3ximo, conseguir um cargo tempor\u00e1rio de investigador nesta universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa disposi\u00e7\u00e3o cheguei a Braga no dia 17 de janeiro de 2021. Como todo o emigrante trazia a mala cheia de sonhos e de projetos. E como autoexilado \u2013 com a dor de ter tido que deixar for\u00e7ada e for\u00e7osamente o meu ambiente \u2013 chegava procurando sobreviver \u00e0 toxicidade insuport\u00e1vel que sobre mim reca\u00edra. A sensa\u00e7\u00e3o ambivalente foi-se tornando mais negativa logo nos primeiros dias, ao comprovar que a minha busca de um poiso que reunisse condi\u00e7\u00f5es para eu trabalhar e me recompor, estava a tornar-se imposs\u00edvel. A isto somou-se a falta de um acolhimento \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias, por parte da institui\u00e7\u00e3o recetora: passaram-se trinta dias at\u00e9 que um acad\u00e9mico daquela universidade portuguesa me recebesse! E pelo caminho, durante esses dias, foram-se esfumando os desejos e as expectativas de que nessa universidade encontrasse a sa\u00edda profissional tempor\u00e1ria pela qual eu tanto anelava, uma vez terminada a bolsa de doze meses.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, iam tamb\u00e9m aparecendo sinais positivos. Como tantas vezes na vida, fecha-se uma porta e abre-se uma janela. O problema do alojamento consegui que, providencialmente, se resolvesse, gra\u00e7as \u00e0 receptividade e acolhimento do prior da comunidade de Carmelitas Descal\u00e7os de Braga. Fui ter com ele para pedir alojamento e ofereceu-me um dos quartos dispon\u00edveis no albergue que t\u00eam preparado, junto da Igreja do Carmo, e onde acomodam estudantes do ensino m\u00e9dio, mestrado e doutoramento de alguns pa\u00edses lus\u00f3fonos (Angola, Mo\u00e7ambique, Timor-Leste, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>No dia vinte e um de janeiro mudei-me para esse quarto, no qual constru\u00ed um <em>ninho<\/em> que me permitia a sana\u00e7\u00e3o que procurava. Nesses primeiros dias ia-se misturando a ambivalente sensa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as \u2013 pela oportunidade que come\u00e7ava a viver \u2013 e a experi\u00eancia de amargura e de sil\u00eancio no <em>acolhimento <\/em>por parte da universidade (para lhe chamar alguma coisa). Entretanto, nas idas e vindas do Carmo ia-me encontrando com a est\u00e1tua do Carmelita Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o que est\u00e1 na rua, junto \u00e0 entrada da igreja. Tinha-me chamado a aten\u00e7\u00e3o como a gente simples, a caminho do mercado ou dos seus afazeres, parava diante dele, com respeito e devo\u00e7\u00e3o. Logo comentei com o prior da comunidade que gostaria de fazer um trabalho etnogr\u00e1fico, perguntando \u00e0s pessoas o que pensavam deste Carmelita Descal\u00e7o. Quando lho disse, indicou-me que, na atualidade, estava em curso um movimento visando resgatar esse irm\u00e3o Carmelita, a quem chamavam Fradinho. Ali\u00e1s, logo acrescentou, que para as pessoas simples da cidade, j\u00e1 ele era um santo desde os seus \u00faltimos anos de vida, na segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi neste contexto que se me atravessou, como um rel\u00e2mpago, a ideia deste livro. Alheado de tudo, numa situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 que viveu um autor de espiritualidade muito importante para mim, Henry Nouwen, antes de ter come\u00e7ado a escrever um dos seus livros mais conhecidos e que mais me influenciaram: <em>Mi diario en la Abad\u00eda Genesee<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup><strong><sup>[4]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em>. Nesse livro, Nouwen pede permiss\u00e3o a um conhecido prior trapista dos E.U.A., para partilhar a vida da comunidade durante sete meses, como se fosse um dos monges. Tendo sido aceite conseguiu escrever um dos livros mais sinceros e profundos que j\u00e1 li sobre espiritualidade crist\u00e3 e amadurecimento pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre o que eu aqui apresento e o seu livro s\u00e3o muitas. Para come\u00e7ar, eu n\u00e3o estou a viver na comunidade Carmelita. Tamb\u00e9m n\u00e3o sou te\u00f3logo nem pastoralista, e menos ainda um autor destacado. Mas d\u00e1-me impress\u00e3o de que existe um ambiente e uma procura similares, que me levam a tentar encontrar um sentido para a situa\u00e7\u00e3o que, a pouco e pouco, se ia carregando de aus\u00eancia de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que, na encruzilhada em que se encontra a minha vida, e perante o vazio de expectativas de aprofundar a minha colabora\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica com a universidade de acolhimento, para l\u00e1 do plano de trabalho m\u00ednimo acordado, me veio a ideia de escrever um di\u00e1rio da minha vida aqui, em Braga. Neste di\u00e1rio, juntamente com os avan\u00e7os e retrocessos do meu trabalho de encontrar um sentido para a cadeia de acontecimentos que se foram sucedendo na minha vida (e que, brevemente, acabei de introduzir), iria entretecendo o conhecimento dessa imagem magn\u00e9tica e enigm\u00e1tica do Fradinho.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras coisas que li sobre ele conduziram-me a uma identifica\u00e7\u00e3o que me surpreendeu: antes que chegasse a notifica\u00e7\u00e3o formal da proclama\u00e7\u00e3o da desastrosa not\u00edcia da dissolu\u00e7\u00e3o das ordens religiosas \u2013 na sequ\u00eancia do processo de exclaustra\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> iniciado no sec. XIX \u2013 o Fradinho decidiu p\u00f4r-se a caminho, de Lisboa para Braga, com um pequeno grupo de jovens professos. Existem aqui, de novo, algumas analogias poss\u00edveis: tamb\u00e9m eu me pusera a caminho, num ato de sobreviv\u00eancia, antes que as desastrosas not\u00edcias e os ambientes t\u00f3xicos acabassem comigo! Tamb\u00e9m eu chegava a Braga com a esperan\u00e7a de que, pelo caminho, as coisas se fossem aclarando e ganhando sentido. Al\u00e9m disso, creio que, salvo as dist\u00e2ncias contextuais, a experi\u00eancia de f\u00e9 do Fradinho, vivida num ambiente que proclamava o desaparecimento de Deus da vida social, pode ter alguma coisa a dizer ao atual contexto de indiferen\u00e7a religiosa em que, de outras formas, se vivem atitudes similares. Por isso, meditar sobre a sua figura pode ajudar-me a encontrar pistas para viver e anunciar a mensagem crist\u00e3 aos nossos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o leitor e a leitora t\u00eam entre m\u00e3os \u00e9, pois, o di\u00e1rio que, ao vivo e em direto, fui escrevendo nos dias que passei em Braga. \u00c9 um livro escrito em paralelo com a vida, tal qual ela me foi chegando e eu a fui vivendo e percebendo. Mudei alguns nomes, na tentativa de ser respeitoso com quem se foi cruzando comigo. Outros acontecimentos ou viv\u00eancias, n\u00e3o aparecem diretamente: em alguns casos, para manter a intimidade e privacidade que muito valorizo, por exemplo, com os meus filhos, mulher e familiares, a quem mais amo nesta vida; noutros casos, como no trato com os restantes h\u00f3spedes do albergue porque, como dizem os futebolistas, h\u00e1 quest\u00f5es que ficam no campo de jogo, e dali n\u00e3o devem sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo que fui lendo <em>Mi diario en la abad\u00eda Genesee<\/em> a pequenos sorvos, saboreando as p\u00e1ginas que se referiam a um ou dois dias do protagonista, e deixando que as suas viv\u00eancias, medita\u00e7\u00f5es, preocupa\u00e7\u00f5es e desejos calassem fundo em mim. Umas eram profundas. Outras eram escandalosamente prosaicas e, mais ainda, num t\u00e3o destacado autor de espiritualidade. Mas assim creio que \u00e9 a vida real: tem dias cheios de sentido e outros rotineiramente med\u00edocres.<\/p>\n\n\n\n<p>Do igual modo, eu gostaria que fosse lido este livro: a pequenos sorvos. Para ver como se vai produzindo esse \u00e1rduo esfor\u00e7o de dar sentido a tanta aus\u00eancia de sentido e, em paralelo, para se avaliar como esse trabalho se vai entretecendo com o meu processo de conhecimento da figura do Fradinho que, desde o princ\u00edpio, est\u00e1 ali, oferecendo-se-me e interpelando-me. N\u00e3o creio que tenha conseguido plenamente este objetivo. Talvez algum leitor ou leitora, \u00e0 vista dos factos, e do meu modo de os viver, veja mais claramente o que eu tenho muita dificuldade em perceber. Tamb\u00e9m n\u00e3o creio que a minha vida seja espetacular, nem que o meu modo de enfrentar as dificuldades tenha sido heroico. Pelo contr\u00e1rio, estou certo de que outras pessoas poderiam relatar acontecimentos muito mais duros e de uma experi\u00eancia de f\u00e9 mais profunda. Talvez seja o prosaico dos factos, unido \u00e0 debilidade da minha f\u00e9 e \u00e0s minhas d\u00favidas, que fa\u00e7a gerar mais proximidade a quem leia estas p\u00e1ginas. O que me anima, seguindo as pegadas do texto inspirador de Henry Nouwen, \u00e9 o desejo de andar na verdade, de olhar cara a cara a vida e tentar ilumin\u00e1-la a partir da luz da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me anima, portanto, a cren\u00e7a de que a minha vida tenha alguma coisa de exemplar. Pelo contr\u00e1rio:&nbsp; espero que o que aqui se relata ajude outras pessoas, nos seus caminhos pessoais, a encontrar a Luz, a encontrar-se com os outros, a sua abertura ao Mist\u00e9rio e ao sentido da vida. E, al\u00e9m de tudo isso, que este trabalho sirva tamb\u00e9m, para ajuntar mais um gr\u00e3ozinho de areia \u00e0 tarefa de resgatar a imagem e a mem\u00f3ria do Fradinhonas pessoas dos nossos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>(NOTA: <a href=\"https:\/\/carmelo.pt\/\">O livro est\u00e1 \u00e0 venda no Carmo do Fradinho<\/a>, em Braga. PVP 9,00\u20ac. Pedidos: braga@carmelitas.pt)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <em>\u201cAgora a pessoa explora-se a si mesma e pensa que se est\u00e1 a realizar\u201d.<\/em> Assim dizia o cabe\u00e7alho dum artigo de informa\u00e7\u00e3o sobre o autor coreano, assinado por Carles Geli no di\u00e1rio <em>El Pa\u00eds<\/em>, em 2018. Em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de autoexplora\u00e7\u00e3o, diz o seguinte: <em>\u00abna opini\u00e3o do fil\u00f3sofo passou-se \u201cdo dever de fazer\u201d uma coisa ao \u201cpoder faz\u00ea-la\u201d. \u201cVive-se com a ang\u00fastia de n\u00e3o se fazer sempre tudo o que se pode\u201d e, se n\u00e3o se triunfa, \u00e9 por culpa pr\u00f3pria. \u201cAgora a pessoa explora-se a si mesma imaginando que se est\u00e1 a realizar; \u00e9 a p\u00e9rfida l\u00f3gica do neoliberalismo, que culmina na s\u00edndrome do esgotamento do trabalhador\u201d\u00bb.<\/em> Em: https:\/\/elpais.com\/cultura\/2018\/02\/07\/actualidad\/1517989873_086219.html<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Disrup\u00e7\u00e3o: rotura ou interrup\u00e7\u00e3o brusca de um processo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; TAC, sigla de Tomografia Axial Computadorizada, um exame auxiliar de diagn\u00f3stico mediante o qual se faz uma pesquisa da parte do corpo que se deseja verificar, com um <em>scanner<\/em> de raios X.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Publicado, em espanhol, na editora PPC, em 1999, a partir da experi\u00eancia de Henry Nouwen (1932-1996) de viver no mosteiro trapista do Estado de Nova York, em 1974, quando contava 42 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exclaustra\u00e7\u00e3o foi um processo impulsionado pelos governos liberais, em Portugal e em Espanha, em datas similares, com o fim de expropriar a Igreja e levar a cabo, entre outras medidas, a dissolu\u00e7\u00e3o das ordens religiosas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00edctor Manuel Mar\u00ed S\u00e1ez, Universidade de C\u00e1diz. 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