{"id":3407,"date":"2023-05-31T02:32:00","date_gmt":"2023-05-31T02:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3407"},"modified":"2023-05-29T10:33:42","modified_gmt":"2023-05-29T10:33:42","slug":"teresinha-jovem-leiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/teresinha-jovem-leiga\/","title":{"rendered":"Teresinha, jovem leiga"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo no horizonte a proximidade da celebra\u00e7\u00e3o das Jornadas Mundiais da Juventude, no pr\u00f3ximo Ver\u00e3o, em Lisboa, imp\u00f5e-se-nos um olhar sobre Teresinha, jovem leiga. Se de carmelita descal\u00e7a foi mulher de excepcional calibre, e no c\u00e9u \u00e9 uma santa \u00edmpar, jovem leiga antes o fora de igual envergadura. Uma e outra condi\u00e7\u00e3o as viveu ela intensamente, radicalmente, modelarmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-nos \u00f3bvio que Teresinha bem pode representar a juventude cat\u00f3lica francesa do seu tempo: \u00e9 eucaristicamente fervorosa, de profunda piedade mariana, devota do Menino Jesus e da Paix\u00e3o do Senhor, amiga da ora\u00e7\u00e3o, do sil\u00eancio e da contempla\u00e7\u00e3o, da leitura ass\u00eddua da B\u00edblia, e da figura do Santo Padre, Le\u00e3o XIII, no caso. Mas ser\u00e1 esta menina muito diferente da juventude cat\u00f3lica de hoje? \u2013 N\u00e3o; nos modos talvez, no demais n\u00e3o, porque um cat\u00f3lico se o \u00e9 vive Cristo inteiro como centro, a M\u00e3e como caminho para Ele, os sacramentos como presen\u00e7a, a ora\u00e7\u00e3o como encontro profundo, intenso e radical. Muda, sim, naturalmente, a figura do Pont\u00edfice M\u00e1ximo, ah, e talvez, a firme radicalidade que os santos possuem quando, em p\u00f3s tamanhas prova\u00e7\u00f5es, alcan\u00e7am caminhar para Deus, e viver <em>\u00abnuma grande paz\u00bb<\/em>,apesar da guerra que se lhes mova.<\/p>\n\n\n\n<p>Marquemos, portanto, uma data: 9 de abril de 1888, segunda-feira, festa (atrasada) da Anuncia\u00e7\u00e3o. Esta data feliz marca em definitivo o fim da sua inf\u00e2ncia (o mesmo \u00e9 dizer, do seu ninho fofo e feliz). Trata-se, afinal, do dia da sua entrada no Carmelo de Lisieux. Mas o que a menina teve de andar para aqui chegar!<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos, por isso, outras duas datas da sua vida: Pentecostes de 1883 (tem ela pouco mais de dez anos), e Natal de 1886 (com quase quatorze). S\u00e3o datas em que se assinalam curas na sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Fruto dos sucessivos rasg\u00f5es afectivos ligados \u00e0 figura materna: morte da m\u00e3e (aos quatro anos), entrada de Paulina, sua segunda m\u00e3e, no Carmelo de Lisieux (aos 8 anos), Teresinha \u00e9, \u00e0 data, e em p\u00f3s longu\u00edssimos e escur\u00edssimos anos, uma menina enfermi\u00e7a, excessivamente sens\u00edvel, excessivamente chorona, cuja exist\u00eancia n\u00e3o acaba nunca de firmar-se num mundo t\u00e3o frio, incerto, desabrido e cambaleante que n\u00e3o lhe oferece jamais nem consolo nem apoio algum. Quando m\u00e9dico algum encontra medicina que a cure e a espevite, curar-se-\u00e1 ela, instantaneamente, no Pentecostes de 1883, daquela inexplic\u00e1vel enfermidade, uma <em>\u00abdoen\u00e7a muito grave, da qual nunca uma crian\u00e7a tinha sofrido\u00bb<\/em>; a inesperada cura \u00e9, afinal, devida ao <em>\u00abencantador sorriso\u00bb<\/em> que a Sant\u00edssima Virgem \u2013 a Virgem do Sorriso \u2013 lhe prodigaliza naquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, em outubro de 1886 Maria, sua terceira mam\u00e3, entrou tamb\u00e9m no mesmo Carmelo (da\u00ed a tr\u00eas meses Teresinha completaria os 14 anos); convenhamos, n\u00e3o lhe foi f\u00e1cil tragar mais aquele amargo c\u00e1lice, nem cerzir novo rasg\u00e3o afectivo, por isso Teresinha segue amorda\u00e7ada pelas fraldas de beb\u00e9; \u00e9 um facto. Ora, sucedeu que na noite de Natal, o pai, e as tr\u00eas filhas que em casa lhe restam \u2013 Le\u00f3nia, Celina e Teresinha \u2013, participam na Missa do Galo na catedral de Lisieux. De regresso, o sr. Martin sobe pesado e cansado \u2013 ou por causa da hora tardia, ou pelo peso das frequentes birras da filha mais nova, Teresinha \u2013 as escadas dos Buissonnets, e desabafa com Celina: <em>\u00abFelizmente este ser\u00e1 o \u00faltimo ano<\/em> [do ritual do sapatinho e dos presentes do Menino Jesus]\u00bb. Teresa, desde o andar de cima, ouve a conversa entre ambos e logo desata a chorar. \u00c9 o normal, pelo que ei-la que chora mais uma vez, e logo na noite de Natal! Celina que tudo percebe da irm\u00e3 recomenda-lhe que n\u00e3o des\u00e7a \u00e0 sala naquele momento, mas ela recomp\u00f5e-se num instante, logo enxuga as l\u00e1grimas, desce correndo alegremente, e ajoelhando-se perto da lareira, p\u00f5e-se a abrir os seus presentes com id\u00eantica alegria \u00e0 dos natais anteriores! Tinha-se operado naquele instante um pequeno milagre: o Menino Jesus conseguira o que a menina vinha almejando h\u00e1 quase dez anos: o estancar da fonte das l\u00e1grimas e a <em>\u00abrecupera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de alma que perdera\u00bb<\/em> desde a morte da m\u00e3e! De facto, tal como no pres\u00e9pio o fr\u00e1gil Menino Jesus revela toda a for\u00e7a de Deus, assim Teresinha, se liberta naquela hora <em>\u00abdas fraldas\u00bb<\/em> de menina<em>, <\/em>e qu\u00e1si encerra ali a sua inf\u00e2ncia; e, sem passar pela adolesc\u00eancia, volve-se mulher forte, verdadeira mulher mulher!<\/p>\n\n\n\n<p>E foi assim que \u00e0s primeiras horas do dia 25 de dezembro de 1886, Teresinha, decidida, arranca a r\u00e1pida recta final, que a levar\u00e1 \u00e0 porta da clausura do Carmelo de Lisieux. A sua entrada no Carmelo est\u00e1, de facto, bem no horizonte do seu cora\u00e7\u00e3o e da sua vontade. \u00c9 verdade que, de todo, n\u00e3o cessar\u00e3o ali as l\u00e1grimas, \u00e9 certo, mas as que sobrevierem nunca de derrota ser\u00e3o sinal, antes de maior motiva\u00e7\u00e3o para o combate. Por mais feroz que seja ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quem \u00e9, afinal, esta jovem mulher que assim encerra a segunda parte da sua vida \u2013 a dos quatro aos quatorze anos \u2013, um t\u00e3o longo per\u00edodo de lutas, prova\u00e7\u00f5es e purifica\u00e7\u00f5es travadas num corpo t\u00e3o pequenino, que mais e mais a prepararam para a gra\u00e7a da sua elei\u00e7\u00e3o como carmelita descal\u00e7a? \u00c9 uma jovenzinha normanda, de longos cabelos loiros sobre os ombros, de 1,62m de altura. Os olhos s\u00e3o azuis e, apesar do permanente conflito interior, \u00e9 vivaz, gentil, alegre, interessada por tudo, sens\u00edvel \u00e0 leitura pela qual sente um desejo incontrol\u00e1vel, e \u00e0 pintura (existem telas suas\u2026), \u00e1vida de conhecimento espiritual, amiga de viagens (declinar\u00e1, contudo, por fim, visitar a amada Terra Santa para entrar a horas no Carmelo\u2026), e a primeira santa de quem conhecemos verdadeiramente o rosto por ter sido fotografada por seu pai e suas irm\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra sua data \u00e9 digna de mem\u00f3ria: algures em Julho de 1887, n\u00e3o sabemos se num domingo \u2013 \u00e9 poss\u00edvel que sim, \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o \u2013 Teresinha assiste \u00e0 missa na catedral de S\u00e3o Pedro de Lisieux. Inadvertidamente os seus olhos recaem sobre uma estampa do seu missal (\u00e9 de crer que a estampa repouse ali h\u00e1 longos dias ou meses\u2026): \u00e9 de Jesus na cruz. Das m\u00e3os do Crucificado derrama-se todo o sangue&#8230; Sobressaltada com o que entrev\u00ea, Teresa para diante da estampa, e sust\u00e9m o olhar: ningu\u00e9m recolheu ou recolhe o Sangue que se esvai do corpo de Jesus crucificado, espanta-se! Ningu\u00e9m? Ningu\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p>Teresa sofre com aquela fulminante revela\u00e7\u00e3o: como \u00e9 poss\u00edvel que se perca o sangue do Salvador derramando-se todo ele por sobre a terra? Pronto toma uma resolu\u00e7\u00e3o \u00e0 qual jamais renunciar\u00e1: ficar\u00e1 ela pr\u00f3pria, por toda a vida, em p\u00e9, diante da cruz do Senhor, para recolher o seu divino sangue, e oferec\u00ea-lo-\u00e1 \u00e0s almas. Ouve, ent\u00e3o, a exclama\u00e7\u00e3o de Jesus: <em>\u00abTenho sede\u00bb;<\/em> sede f\u00edsica, sede de almas, intui ela. E \u00e0quela hora, Teresa, mais jovem adulta que crian\u00e7a, mais ap\u00f3stola que adolescente ing\u00e9nua ou choramingas, assume: esta \u00e9 tamb\u00e9m a minha sede. E sentindo-se pescadora de almas decide-se a trabalhar inteiramente pela convers\u00e3o dos pecadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a concluir, propomos que ou\u00e7a a can\u00e7\u00e3o <em>Elle s\u2019appelait Th\u00e9r\u00e8se<\/em>, executada por Natasha St-Pier e Thomas Pouzin: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nB_qdTPZdA8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nB_qdTPZdA8<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>* <\/sup><em>Publicado no jornal Di\u00e1rio do Minho de 3 maio 2023<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Tendo no horizonte a proximidade da celebra\u00e7\u00e3o das Jornadas Mundiais da Juventude, no pr\u00f3ximo Ver\u00e3o, em Lisboa, imp\u00f5e-se-nos um olhar sobre Teresinha, jovem leiga. 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