{"id":3386,"date":"2023-04-30T02:35:00","date_gmt":"2023-04-30T02:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3386"},"modified":"2023-04-28T08:36:27","modified_gmt":"2023-04-28T08:36:27","slug":"eles-la-sabem-do-que-falam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/eles-la-sabem-do-que-falam\/","title":{"rendered":"Eles l\u00e1 sabem do que falam"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o sem paix\u00e3o, sem morte. E eis que, depois da paix\u00e3o e morte de Jesus, aconteceu o que tinha de acontecer, e Ele tinha prometido: ressuscitou. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus (e n\u00e3o a sua morte) \u00e9 o que celebramos ao longo dos dias da P\u00e1scoa. Levamos, ali\u00e1s, um dia do tamanho de uma semana \u2013 \u00e9 hoje a Pascoela \u2013 a celebrar a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. E n\u00e3o bastando tal dia, celebr\u00e1-la-emos durante cinquenta como um s\u00f3! Celebr\u00e1-la-emos durante a longa jornada da f\u00e9 de cada um! O que mais neste tempo de luz nova haja de considerar-se \u00e9 que se quase todos Lhe falharam (salvou-se a M\u00e3e, um pequenino punhado de mulheres e um menino, Jo\u00e3o), Ele n\u00e3o, Ele n\u00e3o nos falhou! E jamais nos falhar\u00e1. Se, primeiro, uns se acobardaram ou Dele se esconderam, Ele saltou do sepulcro onde O haviam encarcerado por tr\u00eas dias, e veio ao seu encontro! E se outro O traiu amargamente, e um outro negou abertamente conhec\u00ea-l\u2019O, Ele veio, depois, sempre depois, ao seu encontro, para os confirmar na amizade que os unia, e que jamais Ele rasgou ou declinou. E se agora todos se sentem envergonhados, temerosos e arruinados, Ele apressa-se a trazer-lhes o que mais falta lhes faz: o perd\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o, o consolo e a paz \u2013 e \u00e9 Ele quem os d\u00e1 sem que sejamos n\u00f3s a pedir. O Ressuscitado vem, pois, com cicatrizes \u2013 e tem mesmo de t\u00ea-las e tem mesmo de exibi-las \u2013, mas n\u00e3o com m\u00e1goas; tem boa mem\u00f3ria, e tem, sobretudo, perd\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>2. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Leio no Expresso desta semana um ensaio de J. Gameiro sobre a dignidade relacional. O que aquele psiquiatra escreve naquele jornal leio tudo; n\u00e3o \u00e9 para concordar ou discordar da sua escrita leve, profunda, experiencial, humana, mas para desfrutar e aprender dela. Neste s\u00e1bado (15 de abril) li-o para discordar. Apressada por ali encontrei a palavra perd\u00e3o e fui ler com aten\u00e7\u00e3o: <em>\u00ab<\/em><em>O perd\u00e3o<\/em><em> <\/em><em>resolve, tempor\u00e1ria ou definitivamente, a raiva, a zanga e d\u00e1<\/em><em> <\/em><em>novo ar a uma rela\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o<\/em><em> <\/em><em>consegue limpar a indignidade dos actos praticados<\/em><em>\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Discordo, obviamente. Tal como discordo quando oi\u00e7o: <em>\u00ab<\/em><em>Perdoo, mas n\u00e3o<\/em><em> <\/em><em>esque\u00e7o<\/em><em>\u00bb<\/em>. Perdoar \u00e9 perdoar, esquecer \u00e9 esquecer. S\u00e3o verbos diferentes, n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f3nimos nem concomitantes. Por isso discordo. Tal como discordo de J. Gameiro que, obviamente, escreve fora das linhas em que me inscrevo e revejo. Ele \u00e9 m\u00e9dico, eu padre; de algum modo cientista, eu nem aprendiz. Tenho, por\u00e9m, um n\u00e3o sei qu\u00ea que me diz que o perd\u00e3o tem algo de fundante e eterno: lava uma \u00e1rvore inteira, desde as folhas e os frutos por nascer at\u00e9 \u00e0s ra\u00edzes mais profundas da alma. Lava e cura, j\u00e1 agora. Serena e engrandece. Engrandece e enobrece, jamais diminui.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Perdoar lava a m\u00e3o que fere e abranda a dureza da cicatriz que persiste.<\/p>\n\n\n\n<p>3.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E eis que vejo uma sala obscura, obscurecida, fechada, depressiva. De repente, n\u00e3o sei situ\u00e1-la no tempo. Sei, sim, que existe. Pode ter sido h\u00e1 dois mil anos, pode estar a acontecer agora. Uns quantos homens rondam por ali, mas talvez nem sejam homens, talvez, espectros, fantasmas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o sei dizer como, sei que o escuro da sala \u00e9 irrompido e iluminado por dentro; sei que a fria laje de pedra \u00e9 quebrada e removida por dentro, como se o Morto sempre tivesse estado ali e, agora, fendendo o bafo escuro com o vigor de um c\u00edrio aceso, poderosamente se erguesse para alumiar a sala, o cora\u00e7\u00e3o e o rosto dos espectros, para lhes falar, os inundar de vida, os afogar em alegria nova.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma coisa tenho por certa: o Morto que ora naquela sala se alevanta e luminosamente se imp\u00f5e, \u00e9 o Ressuscitado, \u00e9 Jesus Crucificado \u2013 o Homem das cicatrizes. Isso mesmo foi o que sentiram os primeiros disc\u00edpulos quando, na auto-reclus\u00e3o imposta naquele obscuro cen\u00e1culo pres-sentiram a brisa suave de Jesus irrompendo-lhes por ali dentro, pelos olhos, pelas m\u00e3os, pelas narinas, at\u00e9 \u00e0 alma! Foi aquilo t\u00e3o veementemente forte, t\u00e3o luminosamente verdade, que jamais duvidaram estar na presen\u00e7a de Jesus \u2013 ali\u00e1s, dariam e deram a vida por isso! N\u00e3o \u00e9 que tenham encontrado palavras para dizer ou perceber a ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. Simplesmente viram as marcas das feridas no corpo de Jesus e identificaram-no com o Mestre outrora t\u00e3o amado e depois negado e depois ultrajado e morto. O n\u00e3o saber compreender como, luminoso e majestoso, estava Ele ali, no meio deles, rasgando a noite e dissuadindo-os do medo escuro, s\u00f3 tem paralelo na alegria que neles estralejou. Uma alegria assim, a \u00fanica que por si s\u00f3 pode arrebentar o cora\u00e7\u00e3o, s\u00f3 explode quando sente e sabe que temos por inexoravelmente alcan\u00e7ada a vit\u00f3ria sobre um inimigo invenc\u00edvel que contra n\u00f3s arremetera para nos devorar \u2013 e n\u00e3o h\u00e1 inimigo mais omn\u00edvoro que a morte! Por isso que o Morto estivesse Vivo n\u00e3o sabiam eles explicar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sabiam como suster a alegria que dali irrompia porque ali estava Ele, novo, de novo e invenc\u00edvel, com eles!<\/p>\n\n\n\n<p>4. &nbsp;&nbsp;&nbsp; Das palavras at\u00e9 agora ditas re-sublinho tr\u00eas: trai\u00e7\u00e3o, morte, perd\u00e3o. O homem tra\u00eddo por seus amigos mais \u00edntimos \u2013 \u00edntimos e eleitos para o ser \u2013 fora conduzido \u00e0 morte por seus inimigos. Sim, estivera morto; mas ao \u00danico que podia e p\u00f4de visitar os mortos para lhes quebrar as cadeias que os prendiam \u00e0 escura morte foi dado o f\u00f4lego mais forte: o de erguera-se do escuro po\u00e7o da morte, vir para o meio dos seus amigos \u2013 que traidores eram, que med\u00edocres eram, entendamo-lo bem! \u2013 para&#8230; para os perdoar, e perdoando-os, reergu\u00ea-los, firmar-lhes a f\u00e9 e a amizade, e envi\u00e1-los como seus mensageiros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isto a mim me basta; isso me basta, sim: digam-me n\u00e3o existir perd\u00e3o, digam-me da impossibilidade do perd\u00e3o para sempre, digam-me que por trai\u00e7\u00e3o, ci\u00fame, cobardia ou indiferen\u00e7a as m\u00e3os e a consci\u00eancia ficam manchadas e impossibilitadas de purificar-se e branquear-se. Digam-me todas essas impossibilidades, digam-me, que isso mais me recorda que um Homem se ergueu do reino da morte para ser constitu\u00eddo seu vencedor; e erguendo-se Vencedor do pior dos inimigos, o primeiro passo seu foi ir \u00e0 sala onde jantara pela \u00faltima vez com aqueles amigos \u2013 precisamente os que O haviam tra\u00eddo e abandonado nas m\u00e3os dos inimigos. Bem sabia o Homem que, vencidos e humilhados, ali os encontraria; bem sabia que se o arrependimento matasse mortos ao haveria de ver; bem sabia que lambendo as chagas do remordimento os acharia. E, por\u00e9m, quando definitivamente se poderia deles vingar, atirando-lhes tudo \u00e0 cara, culpando-os e humilhando-os, Ele, afinal os perdoou! E dando-lhes de seguida um abra\u00e7o de paz, engrandeceu-os!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim \u00e9 Jesus, o Homem das cicatrizes! S\u00f3 um cora\u00e7\u00e3o tra\u00eddo, rasgado e macerado e, por\u00e9m, ardentemente vitorioso, pode perdoar!<\/p>\n\n\n\n<p>5. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como certo dia reflectiu o Papa Bento XVI, tamb\u00e9m a mim me impressiona que no in\u00edcio de cada Missa, sempre cada um e cada uma de n\u00f3s haja de confessar a sua culpa, sua culpa, sua <em>\u00ab<\/em><em>t\u00e3o<\/em><em> <\/em><em>grande culpa<\/em><em>\u00bb<\/em>, e logo ali, humilde, haja de fazer o seu pedido pessoal de perd\u00e3o. Ou seja: \u00f3bvio \u00e9 que somos perdoados antes de O recebermos como Palavra e como P\u00e3o \u2013 pedir perd\u00e3o e ser perdoados vem sempre em primeiro lugar. Havemos, por isso, de reparar que n\u00e3o nos basta com\u00ea-l\u2019O! Obrigados somos a, previamente, nos deixarmos ser preparados, afei\u00e7oados e alindados por Ele, e s\u00f3 depois, obrigatorimente depois, dignos de abrir boca e comung\u00e1-l\u2019O&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O perd\u00e3o existe e \u00e9 eficaz. Perdoar n\u00e3o \u00e9 esquecer nem ignorar o mal feito ou sofrido. \u00abPerdoar, como dizia aquele velhinho Papa, <em>n\u00e3o \u00e9 ignorar, mas transformar, ou seja, depois da morte na Cruz, Deus deve entrar neste mundo e opor ao oceano da injusti\u00e7a um oceano maior de bem e de amor\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim, sim, depois da morte e sepultura, sendo j\u00e1 livre das peias do tempo e do espa\u00e7o, podendo escolher fugir para o c\u00e9u, Jesus preferiu reentrar no mundo e construir uma hist\u00f3ria nova. Poderia ter-nos abandonado, mas preferiu vir para o meio daquela sala escura e depressiva, e amar-nos, e abra\u00e7ar-nos. Podia ter-se negado, mas \u00e9 \u00f3bvio preferiu voltar para n\u00f3s para nos perdoar! Quem isto pode perceber?<\/p>\n\n\n\n<p>6.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aquele Papa Velhinho t\u00e3o mal-amado em seus dias, escreveu no seu testamento espiritual: \u00abDo fundo do cora\u00e7\u00e3o pe\u00e7o perd\u00e3o a todos aqueles a quem fiz mal de algum modo\u00bb. Sim, Deus o perdoe, e em cada dia Ele nos perdoe tamb\u00e9m a cada um e a cada uma de n\u00f3s, para que em n\u00f3s se acrescente a consola\u00e7\u00e3o do perd\u00e3o por maior que possa ser a nossa culpa pessoal. Poder\u00e1, afinal, existir grandeza maior do que a de ver que Deus acredita em mim e na minha for\u00e7a de mudan\u00e7a e de transforma\u00e7\u00e3o? E perdoados que somos, n\u00e3o nos dever\u00edamos ver a n\u00f3s mesmos como um rio de bem que mais se acrescenta e cada vez se volve maior que o oceano de maldades no nosso mundo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o sem paix\u00e3o, sem morte. 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