{"id":3362,"date":"2023-03-31T02:43:00","date_gmt":"2023-03-31T02:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3362"},"modified":"2023-03-28T07:44:39","modified_gmt":"2023-03-28T07:44:39","slug":"a-cruz-palavra-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-cruz-palavra-de-amor\/","title":{"rendered":"A cruz, palavra de amor"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJesus fez esta pergunta aos seus disc\u00edpulos\u2026: E v\u00f3s, quem dizeis que eu sou?\u201d (Mt 16,15). A \u00abresposta anda a soprar ao vento\u00bb (<em>The answer is blowing in the wind<\/em>) \u2013 canta Bob Dylan. Mas quer ser apropriada por cada pessoa, estudada, meditada, orada em sil\u00eancio e dada com alma. Qualquer conhecedor da f\u00e9 crist\u00e3 poder\u00e1 confrontar-se com ela. Por sua parte, Pedro respondeu com uma solene profiss\u00e3o de f\u00e9: \u201cTu \u00e9s o Messias\/Ungido, o Filho de Deus vivo\u201d (Mt 16,16). Mas este \u00e9 o mesmo Pedro que logo a seguir pretendeu impedir Jesus de avan\u00e7ar para a morte na cruz (\u201cSenhor, isso nunca te acontecer\u00e1!\u201d: v. 22), porque ainda n\u00e3o a compreendia: n\u00e3o tinha da vida a necess\u00e1ria vis\u00e3o global. A ades\u00e3o a Jesus tem algo de dram\u00e1tico, porque, ou damos sentido \u00e0 vida com ela ou sentimos o fracasso recusando-a. E, se lhe queremos dar sentido, n\u00e3o o podemos fazer sem a cruz, porque ela est\u00e1 esculpida na noite da dor que a vida humana integra juntamente com o dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como para Pedro, tampouco para os disc\u00edpulos a morte de Jesus na cruz era revela\u00e7\u00e3o plena de Deus: como \u00e9 que Deus se poderia revelar numa morte tr\u00e1gica? Mas Jesus tinha sido claro: \u201cera <em>necess\u00e1rio<\/em> ele partir para Jerusal\u00e9m, sofrer muito da parte dos anci\u00e3os, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia\u201d (v. 21). Este final da hist\u00f3ria de Jesus aqui anunciado por ele torna-se aos olhos de muitos humanos uma hist\u00f3ria sem futuro. S\u00f3 d\u00e1 para falar de uma esperan\u00e7a frustrada, lacrada com a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para Jesus, a morte na cruz \u00e9 mesmo lugar de revela\u00e7\u00e3o. \u00c9 neste registo que se entende a interpreta\u00e7\u00e3o feita pelo Ressuscitado aos disc\u00edpulos a caminho de Ema\u00fas: \u201cn\u00e3o era <em>necess\u00e1rio<\/em> que o Messias <em>padecesse<\/em> estas coisas e entrasse assim na sua gl\u00f3ria?\u201d (Lc 24,26). Necess\u00e1rio? Porqu\u00ea? Porque o Pai o tinha mandado vir \u00e0 terra para morrer? O sofrimento e a morte foram impostos por Deus a Jesus? Pensar assim, seria, como m\u00ednimo, her\u00e9tico: uma imagem perversa de Deus. Isto faz lembrar o profeta Isa\u00edas (53,10): \u201caprouve ao Senhor esmag\u00e1-lo com o sofrimento\u201d. Deve-se ler, n\u00e3o como se Deus o quisesse fazer sofrer, mas neste sentido: se Jesus continuasse fiel a Deus e bom para com as pessoas, viria a conhecer o sofrimento por parte dos malvados poderosos, incomodados com a mensagem libertadora. A vida que acabou na cruz foi o resultado de uma vida a fazer o bem segundo a vontade de Deus e a denunciar o mal que os poderes estabelecidos faziam. Jesus n\u00e3o quis que o matassem, nem quis sofrer ou morrer. At\u00e9 resistiu a beber aquele \u201cc\u00e1lice\u201d: \u201cMeu Pai, se \u00e9 poss\u00edvel, passe de mim este c\u00e1lice\u201d (Mt 26,39). Mas a um dado momento a sua morte cruenta tornou-se um facto inevit\u00e1vel, <em>necess\u00e1rio<\/em>, para <em>revelar<\/em> de forma suprema at\u00e9 onde chegava o amor de Deus pela humanidade. Foi na aceita\u00e7\u00e3o da morte por amor que Jesus \u201cmanifestou a sua <em>gl\u00f3ria<\/em>\u201d, ou seja, <em>quem era <\/em>ele, e revelou em plenitude a <em>gl\u00f3ria<\/em> de Deus, ou seja, que Ele <em>\u00e9 amor<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que a cruz \u00e9 s\u00edmbolo do cristianismo: n\u00e3o por ser pat\u00edbulo de morte ou instrumento de supl\u00edcio para executar um condenado, nem por ser trono de inf\u00e2mia que exp\u00f5e ao vento dos transeuntes a dilacera\u00e7\u00e3o interior de um fracassado. Simboliza o cristianismo por ser o lugar da revela\u00e7\u00e3o superlativa do amor humano sem conta nem modera\u00e7\u00e3o ou condi\u00e7\u00e3o: revela\u00e7\u00e3o de tanto amor que este teria de ser tamb\u00e9m divino, sugerindo que quem assim morre de amor s\u00f3 pode ser Filho de Deus. E revela que Deus \u00e9 um \u201cDeus para n\u00f3s\u201d e um \u201cDeus por n\u00f3s\u201d. Num mundo de injustos, o justo \u00e9 rejeitado e tem de padecer, como resultado, seja de aceita\u00e7\u00e3o, seja de rejei\u00e7\u00e3o. Num mundo injusto, o inocente tem um fim injusto. Jesus morreu de morte cruenta, n\u00e3o por vontade de Deus, mas por vontade dos poderes pol\u00edticos in\u00edquos: n\u00e3o foi v\u00edtima do Pai, foi presa f\u00e1cil de criminosos; o Pai aceitou-lhe a morte como redentora, por a ter aceitado por amor. Jesus salvou os humanos pelo amor com que se deixou livremente morrer. E porqu\u00ea os injustos se voltam contra o sumo Inocente? Porque ele est\u00e1 do lado do bem; porque ele revela amor aos que est\u00e3o do lado do \u00f3dio. \u201cQuantas mortes s\u00e3o precisas para eles saberem que j\u00e1 morreu demasiada gente?\u201d \u2013 continua Bob Dylan a cantar. Para eles saberem, n\u00e3o foi suficiente a morte inocente de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso, por\u00e9m, compreender que, se Jesus n\u00e3o tivesse aceitado morrer, n\u00e3o teria revelado Deus tal como Ele \u00e9, diferente de como muitos o imaginavam ou queriam que Ele fosse. O imenso amor levou \u00e0 imensa dor e a dor, por sua vez, revelou o imenso amor. Morrendo por amor, Jesus proclamou que viver \u00e9 amar, mas amar \u00e9 morrer, \u00e9 <em>n\u00e3o ser sen\u00e3o<\/em> pelos outros e para os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE v\u00f3s, quem dizeis que eu sou\u201d? N\u00e3o importa uma bonita frase decorada e floreada. S\u00f3 uma resposta sa\u00edda do nervo da vida, que tamb\u00e9m <em>diga quem eu sou<\/em> e me ligue com amor \u00e0 cruz de Jesus \u00e9 que ser\u00e1 verdadeira e interessante. O <em>amar<\/em> de Jesus at\u00e9 \u00e0 cruz tamb\u00e9m quer que o amado seja o que deve ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u201cJesus fez esta pergunta aos seus disc\u00edpulos\u2026: E v\u00f3s, quem dizeis que eu sou?\u201d (Mt 16,15). 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