{"id":3360,"date":"2023-03-31T02:42:00","date_gmt":"2023-03-31T02:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3360"},"modified":"2023-03-28T07:43:38","modified_gmt":"2023-03-28T07:43:38","slug":"um-violino-no-carmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/um-violino-no-carmo\/","title":{"rendered":"Um violino no Carmo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao cumprir um ano da Tomada de Posse da Arquidiocese de Braga, D. Jos\u00e9 Manuel Cordeiro subiu ao Carmo \u2014 foi no passado dia 12 de fevereiro de 2023. Quase se poderia dizer que peregrinou, pois chegou a p\u00e9, ledo descendo a rua do Carvalhal. \u00c0 porta da nossa igreja cumprimentou as muitas pessoas que o aguardavam, afectuoso saudou o <em>Santo Fradinho<\/em>, rezou, abra\u00e7ou a comunidade e connosco celebrou a Eucaristia daquele domingo. Esta quase inesperada visita tinha uma raz\u00e3o de ser: rezar; rezar com a sua comunidade do Carmo, com este pequenino redil que aqui tem neste jardim. E tamb\u00e9m para dar gra\u00e7as a Deus connosco, pelos 60 anos da restaura\u00e7\u00e3o da nossa presen\u00e7a carmelitana em Braga; ao n\u00e3o poder faz\u00ea-lo no dia pr\u00f3prio \u2014 na sexta-feira seguinte, 3 de mar\u00e7o \u2014 D. Jos\u00e9 veio, sol\u00edcito, e p\u00f4s-nos a celebrar a efem\u00e9ride em antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A data da funda\u00e7\u00e3o do convento do Carmo de Braga \u00e9 1 de fevereiro de 1652, dia em que Frei Jos\u00e9 do Esp\u00edrito Santo, bracarense ilustre, tomou posse de umas casas no Campo de S\u00e3o Sebasti\u00e3o das Carvalheiras, \u00e0 freguesia da S\u00e9, e nelas, descal\u00e7os, os Carmelitas ali entr\u00e1mos e inici\u00e1mos a vida regular. (O investigador Pe. Marco Caldas aventa, por\u00e9m, a hip\u00f3tese, de que a vida carmelitana possa ter sido iniciada em Braga algo mais cedo, depois do achamento feliz de uma carta de Frei Andr\u00e9 da Encarna\u00e7\u00e3o datada de 9 de julho de 1639, que a isso d\u00e1 p\u00e9; e a n\u00e3o ser assim, cr\u00ea aquele, no m\u00ednimo, as dilig\u00eancias para a nossa vinda para a cidade arcebispal achegar-se-iam \u00e0quela data e n\u00e3o a alguma outra mais tardia!).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Posteriormente, depois de haver comprado uns terrenos fora das vetustas muralhas da cidade, situs <em>\u00abao fundo da rua do Carvalhal, e princ\u00edpio da rua do Lameiro\u00bb<\/em>, o fundador e prior prim\u00edcio do Carmo, Frei Jos\u00e9 do Esp\u00edrito Santo, lan\u00e7ou a primeira pedra do actual convento, no dia 4 de novembro de 1654.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em menos de um ano as obras tinham crescido o suficiente para albergar os Carmelitas, de tal forma que no dia 22 de outubro de 1655, o fundador mandou que se procedesse ao ingresso no novo convento, o que se fez com uma solene prociss\u00e3o do Sant\u00edssimo, desde as Carvalheiras para o Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">5.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O andamento inicial da vida carmelitana foi muito prec\u00e1rio; tenha-se em vista, por exemplo, que a conclus\u00e3o da igreja, depois de erguida a portada, demorou quase 150 anos, pois s\u00f3 foi conclu\u00edda em 1695, merc\u00ea de uma piedosa ajuda do Senhor Arcebispo D. Jos\u00e9 de Meneses, que faleceria nos in\u00edcios do ano seguinte! Por simpatia, o demais, celas, anexos e diversos outros acondicionamentos mostravam-se e prolongaram-se muito modestos, pobres, mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">6. &nbsp;&nbsp;&nbsp; Pese embora o desprovimento de confortos, desde as primeiras horas, por\u00e9m, a vida desta comunidade ficou marcada pelo atencioso cuidado do confession\u00e1rio, pela dedicada vida pastoral entregue \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, e pela entrega \u00e0 doc\u00eancia neste seu col\u00e9gio superior onde se ensinou filosofia, teologia e moral em ordem \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novos sacerdotes carmelitas descal\u00e7os. E se aqui ensinaram mestres c\u00e9lebres, daqui tamb\u00e9m partiram mission\u00e1rios com o Evangelho ardendo-lhes no cora\u00e7\u00e3o; partindo daqui cruzaram mares, adentraram-se pelos perigos de selvas e de desertos sem olhar a desconfortos, nem a empecimentos de frios ou calores, nem a tantos outros constrangimentos, s\u00f3 por que eram acesos carv\u00f5es da Palavra que liberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">7. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m as gl\u00f3rias dos claustros deste mundo s\u00e3o ef\u00e9meras. E assim foi que por um decreto governamental de 26 de maio de 1834 o governo do reino procedeu \u00e0 extin\u00e7\u00e3o das Ordens Religiosas, pelo que tamb\u00e9m neste Carmo de Maria se encerraram as portas \u00e0 vida conventual. Foi seu \u00faltimo prior Frei Jo\u00e3o das Dores, com quem ou a mandato de quem desapareceram os objectos do culto. Por essa raz\u00e3o, segundo parece, no dia 19 de maio de 1834, as autoridades entraram no Carmo e inventariaram m\u00f3veis e im\u00f3veis, assim sumariados: <em>\u00abobjectos de adega, dispensa, celeiro, cozinha, dispensa de lou\u00e7a (da f\u00e1brica do Porto) e roupa, trastes de pau, botica <\/em>[\u2026] <em>livraria\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De 1655 a 1834 residiram no claustro carmelita bracarense v\u00e1rios ilustres religiosos: o fundador, Frei Jos\u00e9 do Esp\u00edrito Santo, Frei Luis de Santa Teresa, Frei Jo\u00e3o da Cruz, Frei Crist\u00f3v\u00e3o dos Reis; Frei In\u00e1cio de S\u00e3o Caetano; Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o \u2014 o muito famoso e jamais olvidado <em>Santo Fradinho do Carmo<\/em>, e outros muitos, cujos m\u00e9ritos e virtudes comporiam generoso elenco que honraria galerias bem mais lucentes que a deste Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>9.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desclaustrados de Braga e de Portugal (ou no m\u00ednimo, impedidos de viver em comunidade ou de se mostarrem revestidos da libr\u00e9 carmelitana) os Carmelitas Descal\u00e7os s\u00f3 restaurar\u00edamos o nosso estilo de vida nas terras de Santa Maria no decorrer do ano de 1929; e em Braga, a 3 de mar\u00e7o de 1963.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>10.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Depois da expuls\u00e3o das sand\u00e1lias dos Descal\u00e7os de Braga, o convento e sua cerca, segundo nos demonstrou a professora Maria da Concei\u00e7\u00e3o Ferraz de Sousa Gama, foram arrematados pelo senhor Governador Civil de Braga, Dr. Ant\u00f3nio Vieira de Ara\u00fajo, no dia 17 de junho de 1843, pelo valor de 54.000 reis; foi sua herdeira D\u00aa Maria das Dores Vieira de Ara\u00fajo, solteira. No \u00ednterim de 1834 a 1913 o convento serviu como hospital militar, vindo, entretanto, a ser comprado \u00e0quela, em 1881, por Francisco Lopes Ferraz, um <em>brasileiro de torna viagem<\/em>, e posteriormente vendido, por herdeiros deste, em 14 de fevereiro de 1930, a D\u00aa Maria Jos\u00e9 Ogando que, vindo da vila do Prado, ali instalou, e por v\u00e1rias d\u00e9cadas manteve aberto o Col\u00e9gio de Dublin, at\u00e9 quase aos in\u00edcios do s\u00e9c. XXI; por sua vez, a cerca conventual que destinada fora, inicialmente, para cemit\u00e9rio, viu gorada tal finalidade, pelo que o mesmo <em>brasileiro de torna viagem<\/em> nela construiu um palacete t\u00edpico do tra\u00e7ado dos brasileiros; a igreja ficou, entretanto, aos cuidados da Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo que viria a ced\u00ea-la aos Padres Carmelitas Descal\u00e7os, com o acordo do Senhor Arcebispo D. Ant\u00f3nio Bento Martins J\u00fanior, do Presidente da Irmandade do Carmo, Senhor Ant\u00f3nio (?) Granja, e contando ainda com a assinatura do Delegado Provincial, Pe. Isidoro da Nossa Senhora do Carmo Maguna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>11.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Entretanto, \u00e0 Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, se ficaram a dever importantes melhoramentos na nossa bela igreja do Carmo que aquela zelosamente cuidava desde 1865; a saber: a constru\u00e7\u00e3o da actual tribuna e da actual fachada, que se ergueram com as esmolas oferecidas pelos romeiros e peregrinos \u00e0 sepultura do <em>Santo Fradinho do Carmo<\/em> durante d\u00e9cadas a fio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>12.<\/strong> &nbsp; Desclaustrados que fomos, a Igreja do Carmo logo ficou ao cuidado do capel\u00e3o de turno nomeado pelo Senhor Arcebispo; v\u00e1rios foram, portanto. E talvez o mais c\u00e9lebre tenha sido o Pe. Jo\u00e3o Pedro Airosa (1836-1931) \u2014 Monsenhor Airosa \u2014 que, ainda jovem, <em>\u00abera dos poucos que aqui se dignou confessar\u00bb<\/em> e que, um dia, ao escutar uma confiss\u00e3o de uma mulher que desejava sair dos grilh\u00f5es da prostitui\u00e7\u00e3o, a si mesmo se interrogou: <em>\u00abQue posso eu fazer pelas mulheres que aqui se achegam nesta situa\u00e7\u00e3o?\u00bb<\/em>; e foi assim que no Carmo brotou o Instituto Monsenhor Airosa, que na primeira hora recebeu o nome de Casa d\u2019Abrigo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>13.<\/strong>&nbsp;&nbsp; A igreja esteve ainda entregue aos Padres Franciscanos, que a seu cuidado j\u00e1 detinham Montariol, e as capelanias dos Terceiros e a da Penha (?). N\u00e3o era pouco o trabalho nem menores os cuidados.&nbsp; Aqui foram eles capel\u00e3es <em>\u00abpor mais de quarenta anos\u00bb<\/em>, pelo que se entrega da igreja aos Carmelitas se deu em 1963&#8230; Consta ainda que, ao menos nos \u00faltimos tempos, <em>\u00abnem sempre aqui celebravam missa ao domingo, e isto sem pr\u00e9vio aviso ao povo!; e aqui confessavam mui raramente\u00bb<\/em>, pelo que \u00e0 data em que a recebemos, se pode considerar que a Igreja do Carmo se encontrava quase fechada e ao abandono. E o todo n\u00e3o era bonita de se ver\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>14.<\/strong>&nbsp;&nbsp; O restauro da vida dos Carmelitas em Braga muito se deve ao interesse e dilig\u00eancia da Irmandade do Carmo, nas pessoas dos senhores Joaquim Costa Duarte (tesoureiro) e Francisco da Cunha Ferreira (secret\u00e1rio), com a anu\u00eancia do presidente da mesma, Senhor Granja. E n\u00e3o menos se deve \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, inteligente dilig\u00eancia e apurada diplomacia do Pe. Isidoro Maguna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>15.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Se o povo da cidade, a Irmandade do Carmo e os Padres Franciscanos chamaram e anu\u00edram \u00e0 presen\u00e7a dos Carmelitas Descal\u00e7os, j\u00e1 n\u00e3o assim outros que, por serem quem eram, detinham maior responsabilidade nas coisas de Deus e da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>16.<\/strong> &nbsp; Os primeiros habitantes do Carmo restaurado foram o Pe. Rom\u00e3o de Jesus Crucificado Knorr e o Irm\u00e3o Francisco Xavier da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, quem receberam a incumb\u00eancia de preparar a igreja e as adjac\u00eancias <em>\u00ablimpando-as do p\u00f3 que ao longo de 129 anos se tinha ido lentamente depositando em muitos lugares, a fim de permitir uma digna entrada das capas brancas dos carmelitas\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>17.<\/strong> &nbsp; No domingo&nbsp; 3 mar\u00e7o de 1963, pelas quatro da tarde, na presen\u00e7a de muitos Irm\u00e3os da Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, de muitos surpresos bracarenses que de novo fizeram fervilhar as ruas do entorno do Carmo, de muitos Terceiros Carmelitas e de muitos Confrades dos Escapul\u00e1rio do norte do Pa\u00eds, dos fil\u00f3sofos do Santu\u00e1rio do Menino Jesus de Praga (e entre eles, o Pe. Jos\u00e9 Carlos Vechina), e dos seminaristas do Semin\u00e1rio Mission\u00e1rio Carmelita de Viana do Castelo, com primacial pontualidade, o Delegado Provincial recebeu \u00e0 porta da igreja Sua Excel\u00eancia o Senhor Bispo Auxiliar de Braga D. Francisco Maria da Silva que logo entrou no templo e celebrou missa; e que na sua alocu\u00e7\u00e3o com <em>\u00absentidas palavras n\u00e3o regateou elogios ao bem espiritual que futurava com a entrada nos Carmelitas Descal\u00e7os em Braga\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>18.<\/strong> &nbsp; Desde a nossa rechegada, em 1963, at\u00e9 ao ano de 1986, a mais relevante marca pastoral desta comunidade do Carmo de Braga foi a fiel e pressurosa aten\u00e7\u00e3o ao confession\u00e1rio \u2013 o que, com toda a naturalidade, se tem prolongado no tempo; de facto, a di\u00e1rio, mas mais relevantemente nos tempos fortes do Advento e da Quaresma, o Carmo era demandado por milhares de pessoas que aqui pontualmente vinham confessar-se \u2013 foram e s\u00e3o milhares de milhares de horas ininterruptas a ouvir, aben\u00e7oar e a enxugar l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois de umas obras de urgente requalifica\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o da casa, do outono de 1987 ao ver\u00e3o de 1996, a comunidade gratamente assumiu a responsabilidade de acolher e formar os jovens postulantes da nossa Prov\u00edncia Carmelitana, isto \u00e9, os jovens candidatos na sua primeira fase de forma\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o na vida de carmelitas descal\u00e7os. E de 1991 a 2011, ocupou-se ainda da condu\u00e7\u00e3o dos destinos da comunidade paroquial de S\u00e3o Vicente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 de somenos registar o que o cronista escreveu no fim do ano de 1984: <em>\u00abdistribu\u00edram-se na nossa igreja ao longo deste cerca de 50.000 comunh\u00f5es\u00bb<\/em>; e em 1985, escrupuloso, e mais assertivo, registou: <em>\u00abdistribu\u00edram-se mensalmente cerca de 4.000 comunh\u00f5es, e nos meses em que caiu a P\u00e1scoa e o Natal, mais de cinco mil!\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>19.<\/strong> &nbsp; Porque \u00e9 t\u00edpico do carmelitanismo as nossas igrejas serem de portas abertas \u2013 mesmo numa cidade com muitas igrejas \u2013 al\u00e9m da celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o sempre \u00e0 nossa porta bateram com frequ\u00eancia, e foram recebidos com solicitude, todos quantos exigiram um tempo de escuta qualificada; tanto ontem como hoje. Procurando responder a estes e outros anseios, especialmente dos muitos adolescentes e jovens, em 1969 nasceu o Grupo Coral e Instrumental do Carmo, que se mant\u00e9m activo, e cuja exist\u00eancia e anima\u00e7\u00e3o musical incomodou as aves mais canoras e os tubos mais selectos de Braga. Al\u00e9m do acompanhamento deste grupo houve depois de acompanhar-se o grupo de ora\u00e7\u00e3o e canto \u2013 Apocalipse \u2013 nascido em Maio de 1989, e que tamb\u00e9m ainda se mant\u00e9m em exerc\u00edcio. Este grupo nasceu da vertigem da nossa ac\u00e7\u00e3o pastoral com jovens, primeiro com o Movimento Shalom \u2014 1970 a 1995 \u2014, e depois, noutro modelo, e de forma mais alargada, na colabora\u00e7\u00e3o com a pastoral juvenil da cidade (1986-1996) ao ponto de, mensalmente, se reunirem na nossa Igreja do Carmo, em rota\u00e7\u00e3o com alguma outra capelania desta cidade arcebispal, cerca de um milhar de jovens rezando <em>\u00abao estilo Taiz\u00e9\u00bb<\/em>. Ali\u00e1s o Carmo foi a porta de entrada da espiritualidade de Taiz\u00e9 em Braga; e os do Carmo foram os primeiros, e s\u00f3 depois, os muitos outros jovens bracarenses, a peregrinar (agosto, 1990) \u00e0quela localidadezinha da Borgonha francesa, que se atreveu a sonhar com o Irm\u00e3o Roger uma maneira outra de se ser Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>20.<\/strong> &nbsp; Entretanto, e porque o santo Esp\u00edrito, generosa e gentil for\u00e7a de amor, tira coisas velhas e coisas novas de velhos ba\u00fas que na casa haja, no ano de 2008, uma fraternidade de irm\u00e3os seculares come\u00e7ou a caminhar connosco, sob a invoca\u00e7\u00e3o de Santa Teresinha do Menino Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>21.<\/strong> &nbsp; E depois de havermos cruzado a dolorosa travessia do deserto da covide, o longo ano de 2021 esplendeu em outubro, com a oportunidade de resgatar a figura de Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o, o <em>Santo Fradinho do Carmo<\/em> (1787 \u2013 1861), atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de um livro biogr\u00e1fico \u2013 O Resgate \u2013 e da constru\u00e7\u00e3o de uma est\u00e1tua posicionada defronte da nossa igreja. \u00c9 justo referirmos que, em seus dias, este santo var\u00e3o foi carmelita descal\u00e7o inteiro, jamais desvestindo o h\u00e1bito do Carmo, mesmo quando correu risco de pris\u00e3o, e foi preso; tamb\u00e9m n\u00e3o pode jamais ser esquecido que o povo, especialmente o de Braga, mas tamb\u00e9m o de Coimbra, \u00c9vora e Lisboa o tratou como mestre, Mestre Neiva. \u00c9 ainda mui not\u00e1vel de registar que na mem\u00f3ria das pessoas mais antigas da freguesia de S\u00e3o Vicente, de S\u00e3o Rom\u00e3o de Neiva e n\u00e3o s\u00f3 perdura ainda hoje uma suave frag\u00e2ncia do <em>Fradinho do Carmo<\/em> como o amigo e benfeitor dos pobres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As celebra\u00e7\u00f5es da efem\u00e9ride dos 160 anos da sua morte mexeram com Braga e Viana do Castelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 ainda justo referir que tendo <em>O Fradinho<\/em> morrido no dia 16 de mar\u00e7o de 1861, s\u00e1bado, dia de Nossa Senhora, foi sepultado no dia 18, depois dos bracarenses terem corrido ao Carmo para dele se despedirem. A sepultura foi aberta no ch\u00e3o da igreja, junto \u00e0 grade do presbit\u00e9rio, do lado do Evangelho, e ali ele descansou at\u00e9 ao ver\u00e3o do ano de 1969. Temos, pois, por certo, e \u00e9, ali\u00e1s, sabido, que por mais de cem anos, no escuro ch\u00e3o da Igreja do Carmo, brilhou uma l\u00e2mpada que vontade alguma, mesmo se arcebispal, jamais conseguiu apagar; antes, ao rev\u00e9s, mais e mais gente aqui atraiu e encandilou. Foi naquele infausto ver\u00e3o que a comunidade se decidiu pela instala\u00e7\u00e3o de um soalho novo na igreja. E, consequentemente, foi tamb\u00e9m nessa data que os ossos do <em>Santo Fradinho<\/em> dali foram retiradas e trasladadas para a Capela das Rel\u00edquias, adjacente e com entrada pelo templo. Na sequ\u00eancia desta traslada\u00e7\u00e3o a pedra tumular levou indocumentado e misterioso sumi\u00e7o; apesar de tudo, por\u00e9m, a presen\u00e7a das rel\u00edquias do <em>Fradinho<\/em> ficou ali identificada por uma l\u00e1pide na parede da referida capela. Posteriormente, as obras de requalifica\u00e7\u00e3o dos anexos do Carmo \u2013 iniciadas em meados de 1987 \u2013 levaram a novo reposicionamento das rel\u00edquias do <em>Fradinho<\/em>, para o lugar em que hoje se encontram: um anexo da sacristia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>22. &nbsp; <\/strong>Na sua primeira visita ao Carmo, no dia 12 de Fevereiro de 2023, o Senhor Arcebispo D. Jos\u00e9 Cordeiro dirigindo-se aos fi\u00e9is que enchiam o templo saudou e agradeceu aos Padres Carmelitas Descal\u00e7os <em>\u00abo muito bem que t\u00eam feito \u00e0 Cidade e \u00e0 Arquidiocese mantendo vivo o seu carisma\u00bb<\/em>. Desde o amb\u00e3o e tendo diante de si a porta que se abria para a Rua do Carmo \u2014 onde o tr\u00e1fego de carros e de pessoas n\u00e3o cessava de subir \u2014, D. Jos\u00e9 agradeceu ainda <em>\u00aba paz que deste templo irradia e daqui corre em benef\u00edcio de todos desta cidade e mais al\u00e9m, crentes e n\u00e3o crentes\u00bb<\/em> e estimou que \u00aba bela luz branquinha da Senhora do Carmo nunca aqui se apague\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>23.<\/strong> &nbsp; Rezam as cr\u00f3nicas orais da comunidade que ao longo destes \u00faltimos 60 anos, nem sempre a vida dos Carmelitas Descal\u00e7os de Braga foi f\u00e1cil, e que em algum momento se houve de vender os an\u00e9is para n\u00e3o se perderem os dedos e se manter a cabe\u00e7a erguida. (Ainda entre n\u00f3s vive e reza quem aqui, por anos a fio, passou apertos v\u00e1rios e indig\u00eancias sublimes \u2014 ali\u00e1s, como as demais fam\u00edlias pobres da cidade; e mais declara aquele que se mais houvera de mais passar, mais passaria. E n\u00e3o duvidamos que fale verdade, mesmo se positivamente no-lo disse mais que uma vez, embora n\u00e3o precisemos de ser muito s\u00e1bios que o n\u00e3o adivinh\u00e1ssemos com inteireza.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>24.<\/strong> &nbsp; O primeiro prior do Carmo de Braga restaurado foi o Pe. Dario do Sant\u00edssimo Sacramento (1963-1965), que era m\u00fasico e tocava violino; n\u00e3o era virtuoso, e at\u00e9, dizem, era mais santo que m\u00fasico. Naquelas assaz mui duras horas primeiras, e de continuado aperto, felizmente, nunca o Padre Dario e os seus companheiros tremeram perante as tribula\u00e7\u00f5es que as sucessivas comunidades aqui houveram de sofrer. Isso os de hoje temos muito presente, e prometido est\u00e1 lembr\u00e1-las sempre; e jamais esquec\u00ea-las, porque elas costumam ser mais incentivo que empecilho. Mas l\u00e1 que houveram e h\u00e1 dificuldades, isso sim; \u00e9 o de sempre, pois nunca a fagueira nau falha agreste tempestade que a desafie. Conta-se, ali\u00e1s, que nas alturas de maior afogo, pronto o Padre Dario se revestia de h\u00e1bito e de capa branca, puxava do violino e, terno e confiante, ia para o presbit\u00e9rio da igreja dar m\u00fasica e encantar o cora\u00e7\u00e3o da Senhora do Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">25.&nbsp;&nbsp; \u00c9 esse tamb\u00e9m hoje o nosso esp\u00edrito. Venha o que vier, suceda o que suceder, traga o futuro no ventre o que quiser trazer, aqui queremos continuar a cantar, com alma, os louvores da excelsa Virgem M\u00e3e e Irm\u00e3 do Carmo. Assim Deus tamb\u00e9m aqui nos queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amen.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao cumprir um ano da Tomada de Posse da Arquidiocese de Braga, D. 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