{"id":3358,"date":"2023-03-31T02:42:00","date_gmt":"2023-03-31T02:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3358"},"modified":"2023-03-28T07:42:45","modified_gmt":"2023-03-28T07:42:45","slug":"maos-vazias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/maos-vazias\/","title":{"rendered":"M\u00e3os vazias<sup>*<\/sup>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teresa Martin viveu t\u00e3o-s\u00f3 24 anos. O fechar dos seus olhos (1897) quase coincide com o cerrar do s\u00e9culo XIX. Passado o s\u00e9c. XX, e quase no fim do primeiro quartel do s\u00e9c. XXI, os jovens de hoje est\u00e3o, ao contr\u00e1rio dela, apenas a acordar para a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00e3o poucos surpreendeu a elei\u00e7\u00e3o de Teresinha para o calend\u00e1rio evocativo da UNESCO: primeiro, porque o proponente era a Fran\u00e7a, pa\u00eds laico por antonom\u00e1sia que ousava relevar este t\u00e3o proeminente \u00edcone da Igreja Cat\u00f3lica; e, segundo, por prescindir evocar Gustave Eiffel (1832 \u2013 1923), no centen\u00e1rio da sua morte! Na verdade, por\u00e9m, o olhar que sobre ela se prop\u00f5e \u00e9 o de algu\u00e9m que merece ser celebrado porque <em>\u00abmulher de cultura, de educa\u00e7\u00e3o e de paz\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que nos calha perguntar \u00e9: o que de relevante fez esta jovem mulher para que o 150\u00ba anivers\u00e1rio do seu nascimento mere\u00e7a ser universalmente recordado? E mais ainda: onde aprendeu ela, a fim de que possa erigir-se como refer\u00eancia para a sociedade em geral (e modelo imprescind\u00edvel para a espiritualidade crist\u00e3, em especial)?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fique dito de in\u00edcio: N\u00e3o frequentou nem Harvard, Sanford ou Cambridge, nem o MIT, Berkeley ou Princeton. N\u00e3o, nada. Apenas o ensino b\u00e1sico, e este inconcluso. E a casa de uma ama at\u00e9 aos 16 meses; o colo da m\u00e3e \u2013 <em>\u00abuma educadora espiritual de excel\u00eancia!\u00bb<\/em> \u2013 at\u00e9 aos quatro anos e pouco; e a aten\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s mais velhas que, at\u00e9 aos nove anos, lhe ministraram os rudimentos do conhecimento. Ao ingressar no col\u00e9gio das Irm\u00e3s Beneditinas, ali se revelou como a melhor aluna da turma, com especial predile\u00e7\u00e3o para a narrativa e o catecismo. Era ali, por\u00e9m, v\u00edtima de bullying; e isso, mas sobretudo, a violenta rutura advinda da separa\u00e7\u00e3o da sua segunda mam\u00e3, Paulina, prostra-a t\u00e3o violentamente, com t\u00e3o frequentes dores de cabe\u00e7a e de corpo, a que haja de associar-se a perman\u00eancia invenc\u00edvel de um sentimento de escr\u00fapulos e de uma imbat\u00edvel tristeza, que levou a que n\u00e3o conclu\u00edsse a escolaridade obrigat\u00f3ria. Cuidadoso e preocupado, o sr. Louis Martin, por\u00e9m, jamais se poupou para que a filha tivesse aulas particulares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizem os bi\u00f3grafos que depois da morte da m\u00e3e tardou dez anos a curar-se, sofrendo de permeio, como sucede com todas as crian\u00e7as, um sem n\u00famero de naturais sucessos que ora a revigoravam, ora por demais a submergiam e entorpeciam. Se a entrada de Paulina, e depois, de Maria, no Carmelo, a prostraram, muito a espevitaram as explica\u00e7\u00f5es da primeira, quando esta, conscienciosa e atempadamente, lhe descreveu o que era o dia a dia do Carmelo; ent\u00e3o, para si mesma, logo Teresinha intuiu ser algo belo, porque s\u00f3 pode ser bela a vida com Jesus e s\u00f3 para Jesus! E concluiu ser esse, tamb\u00e9m para si, o seu destino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Donde, pois, lhe veio a sabedoria que a constituiu como mulher de cultura (e doutora da Igreja)? Ao arrepio de tudo o que possamos imaginar e at\u00e9 aceitar \u2014 a realidade n\u00e3o nos d\u00e1 p\u00e9 para algum vi\u00e9s \u2014, esta chega-lhe por vias inesperadas e por veios hoje tidos por imposs\u00edveis de assumir pela nossa sociedade: a frequ\u00eancia da dor e do sofrimento ao longo dos seus curtos dias \u2014 n\u00e3o foi a sua vida uma cont\u00ednua e dolorosa separa\u00e7\u00e3o, para mais amplificada pelas cordas da sua hipersensibilidade? Sim, as ruturas, as separa\u00e7\u00f5es, as m\u00e1goas e os sofrimentos atrozes foram o duro p\u00e3o do seu dia a dia, do qual se alimentou para crescer a alturas inauditas; e ainda: uma vida familiar carinhosa e piedosa \u2014 onde se lia e rezava todas as manh\u00e3s e fins de tarde, al\u00e9m das habituais passagens pelas igrejas de Lisieux para breves momentos de adora\u00e7\u00e3o! \u2014; uma sofrida e inacabada vida escolar \u2014 <em>\u00abos piores dias da minha vida!\u00bb<\/em> \u2014; uma m\u00e3e atenta e exigente; umas irm\u00e3s mais velhas cuidadoras; um pai encantador que, inclusive, na viuvez, soube ser pai e m\u00e3e, e que s\u00f3 de o ver rezar dava para ver como <em>\u00abcomo s\u00e3o os santos\u00bb<\/em>; o sil\u00eancio, a contempla\u00e7\u00e3o, e a abertura ao rio da gra\u00e7a que a discreta vida absc\u00f4ndita do Carmelo proporciona a quem aquele jardim \u00e9 chamado!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O escopo de Deus \u00e9 a santidade dos seus filhos e filhas; os meios, os que Ele disp\u00f5e, e a vida a cada um concede. N\u00e3o por acaso ao olharmos para Santa Teresinha nos dispomos a aprender que no fim da escola da vida o que Deus mais em n\u00f3s aprecia s\u00e3o <em>\u00abas m\u00e3os vazias\u00bb<\/em>. Tudo o que haja para saber e aprender \u00e9 o que Ele l\u00e1, gr\u00e1tis, possa dispensar. Por isso, a concluir, propomos que ou\u00e7a Jes\u00fas Adrian Romero cantando C<em>on Manos Vac\u00edas, em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2LwBFKH2cUI<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><sup>* <\/sup><em>Publicado no Di\u00e1rio do Minho de 2 mar\u00e7o 2023<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Teresa Martin viveu t\u00e3o-s\u00f3 24 anos. O fechar dos seus olhos (1897) quase coincide com o cerrar do s\u00e9culo XIX. Passado o s\u00e9c. 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