{"id":3329,"date":"2023-02-28T06:01:00","date_gmt":"2023-02-28T06:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3329"},"modified":"2023-02-28T12:48:04","modified_gmt":"2023-02-28T12:48:04","slug":"que-mal-fizeram-os-turcos-a-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/que-mal-fizeram-os-turcos-a-deus\/","title":{"rendered":"\u00abQue mal fizeram os turcos a Deus?\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aquando do terramoto na Turquia em Agosto de 1999, que causou mais de 17 mil mortos, algu\u00e9m fez nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social esta pergunta: \u00abQue mal fizeram os turcos a Deus?\u00bb H\u00e1 mais de 23 anos. Mas a tenta\u00e7\u00e3o de explicar o mal associando-o a um castigo de Deus n\u00e3o ter\u00e1 mudado muito. Sempre houve dificuldades para lidar com o mal moral: apesar de ser o verdadeiro mal, cometido livremente por humanos em desconformidade comportamental com a ordem moral, os crentes rezavam para que Deus varresse as injusti\u00e7as sociais, viol\u00eancia, guerras e agress\u00f5es degradantes da dignidade da pessoa. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 dificuldades para integrar na vida o mal f\u00edsico, natural, ps\u00edquico, sofrido. Diante dele, crentes e descrentes, por raz\u00f5es diferentes, aliviam-se psicologicamente com uma interpreta\u00e7\u00e3o religiosa. Ligam a Deus a dor que n\u00e3o prov\u00e9m da responsabilidade mas da condi\u00e7\u00e3o humana (como as doen\u00e7as) e de cat\u00e1strofes naturais, como terramotos, inunda\u00e7\u00f5es, erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas destruidoras, acidentes: censuram-no por n\u00e3o a evitar, invocam-no para que a evite. Tamb\u00e9m agora naquela noite tr\u00e1gica do sismo de 6 de Fevereiro de 2023 bons crentes ter\u00e3o sentido resigna\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade de Deus, pensando que o mundo \u00e9 pecador e precisa de se purificar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta associa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que perturbadora e labir\u00edntica, tem v\u00e1rias linhas rectas interrogativas: Que tem Deus a ver com o mal? Causa-o? Quere-o? Permite-o? Livra-nos dele? Pode livrar-nos dele? As diversas respostas a estas perguntas dependem da imagem de Deus que a espiritualidade forjar e contribuem para uma imagem coerente ou inaceit\u00e1vel de Deus; jogam com v\u00e1rios atributos de Deus, com o da sua omnipot\u00eancia, o da bondade, o de Deus criador\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Uma forma de enfrentar o problema do mal em associa\u00e7\u00e3o com Deus foi, j\u00e1 desde o fil\u00f3sofo Epicuro (341-270 a.C.), lan\u00e7ar este desafio em jeito de dilema: ou Deus pode mas n\u00e3o quer evitar o mal (e ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bom) ou quer mas n\u00e3o pode (e ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 omnipotente) (<em>Epicurea<\/em> [ed. H. Usener] Leipzig 1887, n.\u00ba 374). Este dilema levantava um problema humano, mas fazia de deus um dos termos do problema: degradava Deus, n\u00e3o respeitando o mist\u00e9rio da sua transcend\u00eancia e n\u00e3o explicando o que ele entendia com o \u00abn\u00e3o pode\u00bb e \u00abn\u00e3o quer\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o que dizemos de Deus fica sempre aqu\u00e9m daquilo que Ele \u00e9 realmente, qualquer afirma\u00e7\u00e3o sobre Ele ter\u00e1 de ser <em>coerente<\/em> com as outras: na plenitude da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o podemos dizer, por um lado, que Deus \u00e9 bom, amoroso, e, por outro, que castiga ou n\u00e3o quer evitar o mal. N\u00e3o podemos construir express\u00f5es da <em>f\u00e9<\/em> em Deus que sejam <em>incr\u00edveis<\/em>. A coer\u00eancia interna delas requer que se reveja e se limpe a imagem de Deus e a sua ac\u00e7\u00e3o no mundo. Deus s\u00f3 quer \u2013 sempre \u2013 o bem e nunca quer o mal para qualquer ser humano. As incoer\u00eancias na medita\u00e7\u00e3o que associa Deus ao mal devem-se em boa medida \u00e0 pressuposi\u00e7\u00e3o de que a f\u00e9 quer dar \u2013 ou deveria dar \u2013 a explica\u00e7\u00e3o da causa f\u00edsica e material do mal, argumentando, por exemplo, que, se Deus \u00e9 o criador do mundo, \u00e9 o respons\u00e1vel pelos mais de 50 mil mortos que o terramoto de Fevereiro de 2023 fez na Turquia-S\u00edria. Na realidade, as afirma\u00e7\u00f5es b\u00edblicas que relacionam Deus com o mal f\u00edsico s\u00e3o uma medita\u00e7\u00e3o religiosa que n\u00e3o atende \u00e0 sua origem fenom\u00e9nica e \u00e0 trama das causas objectivas que contribuem para o desencadear do terramoto (que compete \u00e0s ci\u00eancias). Como a f\u00e9 em Deus criador de tudo, express\u00e3o suprema da sua omnipot\u00eancia, n\u00e3o atende ao acontecido fisicamente mas v\u00ea as coisas em Deus e \u00e0 luz de Deus, assim quando a f\u00e9 associa Deus a um terramoto mort\u00edfero n\u00e3o p\u00f5e a quest\u00e3o dos agentes f\u00edsicos, nem diz que Deus \u00e9 um deles: interroga-se junto de Deus sobre esses fen\u00f3menos naturais, procurando dar-lhes sentido. E se reza pelos mortos do terramoto, \u00e9 consciente de que a sua causa real tem a ver com as leis da natureza e n\u00e3o com Deus. Assim procedeu Jesus perante situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga. O acidente dos dezoito que morreram com o desabar da torre de Silo\u00e9 serviu-lhe para corrigir a mentalidade que via as desgra\u00e7as humanas como consequ\u00eancia do pecado: \u201cjulgais que eles eram mais culpados do que todas as pessoas que habitavam em Jerusal\u00e9m? N\u00e3o, digo-vos. E, se n\u00e3o vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante\u201d (Lc 13,4-5). Jesus demarcou-se dessa vis\u00e3o religiosa: n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o directa entre culpa moral e calamidade. Tirava assim o mordente fatalista ao mal f\u00edsico e explorava-o antropologicamente acentuando o convite ao arrependimento e \u00e0 convers\u00e3o ao bem: \u201cse n\u00e3o vos converterdes\u2026\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, <em>mal<\/em> \u00e9 no\u00e7\u00e3o relativa: \u00e9 priva\u00e7\u00e3o do bem devido \u00e0 intr\u00ednseca natureza de um ser ou que faz falta a um ser para ser o que \u00e9. Logo, do ponto de vista natural o terramoto n\u00e3o \u00e9 um mal: s\u00e3o as placas tect\u00f3nicas a estabilizarem a Terra. J\u00e1 o de Lisboa em 1755 suscitara um aceso debate no mundo ocidental sobre a provid\u00eancia divina e a <em>ira de Deus<\/em>, procurando culpados para a trag\u00e9dia. E j\u00e1 ent\u00e3o as grandes mentes da \u00e9poca (Kant, Voltaire, Rousseau, Leibniz\u2026), suscitando um dos mais vivos debates filos\u00f3ficos da Hist\u00f3ria, se sentiram convocadas para a reflex\u00e3o \u00e0 volta da cat\u00e1strofe, desligando-a da vingan\u00e7a de Deus pelos v\u00edcios da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos, pois, pensar: os turcos n\u00e3o fizeram mal a Deus; e Deus n\u00e3o fez agora nenhum mal aos turcos e aos s\u00edrios quando a sua terra tremeu. Onde estava Deus ent\u00e3o? Estava l\u00e1, a sofrer com as v\u00edtimas e a acolh\u00ea-las no seu colo de Pai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Aquando do terramoto na Turquia em Agosto de 1999, que causou mais de 17 mil mortos, algu\u00e9m fez nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social esta pergunta: \u00abQue mal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3308,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3329","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3329"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3329\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3331,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3329\/revisions\/3331"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}