{"id":3292,"date":"2023-01-31T02:45:00","date_gmt":"2023-01-31T02:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3292"},"modified":"2023-01-30T11:46:29","modified_gmt":"2023-01-30T11:46:29","slug":"do-religioso-a-oracao-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/do-religioso-a-oracao-crista\/","title":{"rendered":"Do religioso \u00e0 ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo de \u2018sociologia do religioso\u2019 hoje concluiria que muitos cat\u00f3licos valorizam a ora\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos at\u00e9 cresceu o n\u00famero de pessoas que atribuem import\u00e2ncia ao \u2018factor Deus\u2019. Mesmo assim, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 entendida, por muitos crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, como dif\u00edcil de fazer, assunto com o qual n\u00e3o se sabe lidar, algo para o qual n\u00e3o se encontra tempo, algo sem o qual as pessoas bem podem passar. Seja como for, \u00e9 inquestion\u00e1vel que no panorama crist\u00e3o e noutras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, sempre houve e h\u00e1 pessoas com vidas inteiras dedicadas \u00e0 ora\u00e7\u00e3o ou que vivem em ora\u00e7\u00e3o os momentos mais acarinhados do seu quotidiano. Ela acompanhou tanta vida vivida, sofrida e gozada que n\u00e3o se pode subestimar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos duvidar\u00e3o de que a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o da ess\u00eancia do ser humano, um espa\u00e7o di\u00e1fano que alarga o leque das suas rela\u00e7\u00f5es estruturantes. Constitui a respira\u00e7\u00e3o vital da alma, na qual se exprime a identidade humana de ser para os outros. Ali\u00e1s, a exig\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o brota da pr\u00f3pria natureza humana, na medida em que, de modo mais ou menos expl\u00edcito, o ser humano ainda acentua mais a consci\u00eancia da sua radical limita\u00e7\u00e3o ao fechar-se em si pr\u00f3prio. Rezando, especialmente em situa\u00e7\u00f5es-limite de sofrimento angustiante, as pessoas exprimem a sua tend\u00eancia para, sem sair dessas situa\u00e7\u00f5es, se suplantarem em Deus. Se a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o encontro do ser humano com Deus, ent\u00e3o, ao interrogar-se, ao exprimir as suas s\u00faplicas, os seus louvores, a sua gratid\u00e3o, os seus lamentos e os seus dramas diante d\u2019Ele, o orante n\u00e3o s\u00f3 faz um acto de f\u00e9 no ser de Deus mas tamb\u00e9m exprime muito de si pr\u00f3prio: v\u00ea-se, n\u00e3o como ser fechado na conting\u00eancia e nas limita\u00e7\u00f5es do humano, mas como ser \u00e0 procura de Deus, com a necessidade de Deus como maior verdade do <em>ser<\/em>. Orar e rezar honestamente n\u00e3o \u00e9 um mero acto de piedade ou um gesto de devotos dignos de piedade. \u00c9, para al\u00e9m de muitas outras coisas, uma forma elevada de ser, de <em>ser<\/em> humano. \u00c9 uma forma de o ser humano se experimentar em profundidade, se compreender na autenticidade e se exprimir na m\u00e1xima eleva\u00e7\u00e3o-dignidade. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o exerc\u00edcio que com mais lucidez vive a esperan\u00e7a em Deus e com mais vigor nutre a chama da transcend\u00eancia. Projecta a pessoa, n\u00e3o para fora, mas para al\u00e9m de si mesma. N\u00e3o a aliena. Abre-lhe mais uma janela, para ver um pouco mais do que aquilo que v\u00ea com o conhecimento cient\u00edfico e profissional, com a vida social e familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, falar a Deus em col\u00f3quio amig\u00e1vel, descoberto e livre, em atitude de abertura no olhar, no escutar e no esperar, tem a ver com a ess\u00eancia doser de Deus e com a pergunta sobre o mist\u00e9rio de Deus: significa que Ele quer ser entendido como o Deus para as pessoas; e que quem lhe reza se v\u00ea como um \u2018ser para o divino\u2019, como um ser que se realiza plenamente na rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tudo isto a f\u00e9 b\u00edblica acrescenta a sua vis\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o como vida, express\u00e3o e alimento da f\u00e9 que culminou na proposta de Jesus de Nazar\u00e9 e na ora\u00e7\u00e3o que ele praticou. A ora\u00e7\u00e3o de Jesus e a que ele ensinou \u00e9 um <em>lugar<\/em> em que amadurece e se agiganta a estatura crist\u00e3 do ser humano. Tem a ver com a ess\u00eancia do ser crist\u00e3o, que, em sintonia com o evangelho de Jesus, \u00e9 uma hist\u00f3ria aberta para o definitivo. Segundo se centra ou n\u00e3o na ora\u00e7\u00e3o de Jesus a Deus como Pai, a ora\u00e7\u00e3o p\u00f5e \u00e0 prova a qualidade e a capacidade da f\u00e9. Feita sobre o modelo da de Jesus, n\u00e3o s\u00f3 distingue o orante crist\u00e3o de outros orantes mas tamb\u00e9m deveria distinguir as suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade humana em geral. O crist\u00e3o pode rezar pelos familiares e amigos, pelos doentes e pelo fim da guerra, pela resolu\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de refugiados, de car\u00eancia e de carestia, pela uni\u00e3o dos crist\u00e3os separados\u2026 Mas em todos estes casos, a necessidade \u00e9 sintoma de uma necessidade mais profunda, a da necessidade de Deus indicada por Jesus. Ali\u00e1s, enquanto p\u00f5e o orante a falar com o Deus de Jesus, a ora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o p\u00f5e em comunh\u00e3o com Jesus: \u201cPara mim \u2013 diz S. Teresa do Menino Jesus \u2013, a ora\u00e7\u00e3o\u2026 \u00e9 algo grande, algo sobrenatural, que me dilata a alma e me une a Jesus\u201d (<em>Manuscritos autobiogr\u00e1ficos, C <\/em>25r-25v).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 faz com que a esperan\u00e7a promova a pessoa a uma maior dignidade. Ela \u00e9 o movente da hist\u00f3ria humana para alcan\u00e7ar n\u00edveis de qualidade sempre mais altos. Enquanto aproxima do Deus das pessoas que \u00e9 o Deus da f\u00e9 b\u00edblica, revela a dignidade do ser humano a si pr\u00f3prio e \u00e9 express\u00e3o dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, como diz S. Paulo, \u201co Esp\u00edrito de Deus habita em v\u00f3s\u201d (1Cor 3,16), \u00e9 no Esp\u00edrito de Deus que o crist\u00e3o ora a Deus. Assim, a dignidade da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o deriva s\u00f3 da beleza exterior do templo onde se ora, mas especialmente da beleza do \u201ctemplo do Deus vivo que somos n\u00f3s\u201d (2Cor 6,16), do interior do cora\u00e7\u00e3o puro ou que tende a purificar-se na ora\u00e7\u00e3o: \u201c\u00d3 alma formos\u00edssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber onde est\u00e1 o teu Amado para te encontrares com Ele e para te unires a Ele, tu mesma \u00e9s o aposento onde Ele mora, o ref\u00fagio e o esconderijo onde se oculta\u201d (S. JO\u00c3O DA CRUZ, <em>C\u00e2ntico espiritual<\/em>, 1, 7).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Um estudo de \u2018sociologia do religioso\u2019 hoje concluiria que muitos cat\u00f3licos valorizam a ora\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos at\u00e9 cresceu o n\u00famero de pessoas que atribuem import\u00e2ncia ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3293,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3294,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292\/revisions\/3294"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}