{"id":3260,"date":"2022-12-31T02:26:00","date_gmt":"2022-12-31T02:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3260"},"modified":"2022-12-22T14:28:41","modified_gmt":"2022-12-22T14:28:41","slug":"o-dom-e-a-exigencia-do-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-dom-e-a-exigencia-do-natal\/","title":{"rendered":"O dom e a exig\u00eancia do Natal"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Natal \u00e9 a festa que mais toca os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es humanas. P\u00f5e-nos a pensar numa m\u00e3e que concentra no filho toda a ternura do mundo, uma m\u00e3e que d\u00e1 \u00e0 luz um menino apresentado como filho de Deus, mas que n\u00e3o \u00e9 posto num ber\u00e7o de ouro e \u00e9 \u201creclinado numa manjedoura (<em>praesepio<\/em>, em latim)\u201d (Lc 2,7), um menino que n\u00e3o aparece vestido de luz mas envolto em humildes panos. O menino que escolheu precisar em vez de exigir atrai-nos para a sua humanidade, t\u00e3o desarmante que transparece divindade. Humanidade de Jesus, \u00e9 o primeiro que o Natal contempla, amando tamb\u00e9m a carne em que ele assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana. O que foi indicado aos pastores \u2013 os primeiros a quem foi enviado \u201cum mensageiro do Senhor\u201d, eles, sim, \u201cenvoltos de luz\u201d ultra-terrena \u2013 \u00e9 muito humano: \u201cN\u00e3o tenhais medo! Anuncio-vos uma boa nova, que ser\u00e1 grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje na cidade de David um salvador, que \u00e9 Cristo, Senhor. E isto ser\u00e1 para v\u00f3s o sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura\u201d (Lc 2,10-12). E o verificado coincide com o anunciado: \u201cForam com pressa e encontraram Maria, Jos\u00e9 e o menino deitado na manjedoura\u201d (v. 16). Ao fim notifica-se a surpresa. Viram o humano, contemplaram o divino: \u201cOs pastores regressaram glorificando e louvando Deus [proclamando a sua exist\u00eancia] por tudo o que tinham ouvido e visto\u201d (v. 20). A f\u00e9 sugeriu-lhes que a m\u00e3e fez entrar a vida eterna do Filho de Deus na vida limitada do Filho do Homem, Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>O mist\u00e9rio que envolvia o seu nascimento fez parar tudo no tempo. Os livros ap\u00f3crifos que o relatam deixam-se surpreender pela medita\u00e7\u00e3o: \u201cNaquela hora, tudo parou no m\u00e1ximo sil\u00eancio com temor reverencial. Os ventos deixaram de soprar. N\u00e3o se movia uma folha das \u00e1rvores, nem se ouvia o murmurar das \u00e1guas. Os rios ficaram im\u00f3veis e o mar sem ondula\u00e7\u00e3o. Calaram-se todas as nascentes das \u00e1guas e cessou o eco de vozes humanas. Reinava grande sil\u00eancio. At\u00e9 o pr\u00f3prio p\u00f3lo abandonou o seu vertiginoso curso. As medidas das horas j\u00e1 quase tinham passado. Todas as coisas se tinham abismado no sil\u00eancio, atemorizadas e estupefactas. N\u00f3s esper\u00e1vamos a vinda de Deus das alturas, meta dos s\u00e9culos\u201d (<em>Livro sobre a Inf\u00e2ncia do Salvador<\/em>, 72). Com a met\u00e1fora do vagar e da paragem de qualquer movimento, o evangelho ap\u00f3crifo tomava consci\u00eancia da import\u00e2ncia de tal acontecimento e de que Jesus era a paz e a causa de prosperidade para o universo; talvez sugeria que \u201cos maiores acontecimentos\u2026 [se d\u00e3o] nas horas do mais profundo sil\u00eancio\u201d (F. NIETZSCHE, <em>Assim falava Zaratustra<\/em> [Presen\u00e7a; Oeiras 2010] 156).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta nota do nascimento de Jesus fora de casa, na manjedoura de uma gruta, entrela\u00e7a-se com a da sua morte fora de casa, na cruz de uma colina. Aquele que no seu nascimento tinha sido \u201cenvolto em panos e reclinado numa manjedoura\u201d de animais, na sua morte foi \u201cenvolto num len\u00e7ol limpo e posto no sepulcro novo\u201d, emprestado (Mt 27,59-60). Ele, que \u201cfoi posto \u00e0 prova em tudo como n\u00f3s, excepto no pecado\u201d (Heb 4,15), partilhava assim com a humanidade de hoje os h\u00e1bitos de nascer, n\u00e3o em casa, mas na maternidade, e de morrer, n\u00e3o em casa, mas no hospital. Mesmo em vida, \u201co Filho do Homem n\u00e3o teve onde reclinar a cabe\u00e7a\u201d (Lc 9,58).<\/p>\n\n\n\n<p>O relato do Natal, que p\u00f5e \u201cuma multid\u00e3o do ex\u00e9rcito celeste\u201d a cantar \u201cgl\u00f3ria no c\u00e9u a Deus e na terra felicidade salv\u00edfica entre os homens que Ele ama\u201d, mostra os c\u00e9us a abrirem-se definitivamente, ponto de chegada de uma longa procura da compreens\u00e3o da vida pela f\u00e9: com Jesus, acreditar significa compreender, ver melhor. Acontece o maravilhoso radical, revelador: o menino anunciado por mensageiros celestes, adorado pelos humildes pastores da terra e apresentado pela m\u00e3e, vem mesmo de Deus. Assim, o menino liga Deus \u00e0 hist\u00f3ria dos homens. O Natal de Jesus, cujo mist\u00e9rio cobre toda a sua vida terrena, d\u00e1 o \u00faltimo toque \u00e0 imagem de Deus: mostra que \u201cAquele que \u00e9\u201d (Ex 3,14) \u00e9 \u2018Deus para n\u00f3s\u2019, imanente sem deixar de ser transcendente, n\u00e3o distante de n\u00f3s mas \u201cDeus connosco\u201d. Deus em si continuou com a mesma identidade. Mas o Natal de Jesus revelou definitivamente o que o povo b\u00edblico j\u00e1 sabia em boa medida: a suma import\u00e2ncia que Deus d\u00e1 ao ser humano. Tanta que, com o Natal, o Filho de Deus assumiu a natureza humana, elevando assim ainda mais a dignidade dela: tornou-a <em>capaz de Deus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um passa a vida em busca de si pr\u00f3prio, em busca da sua identidade, que evolui para o encontro consigo pr\u00f3prio e passa pelo encontro com os outros e com o Outro em superlativo: nas contas da nossa identidade, a B\u00edblia inclui Deus, que nasceu para\/em n\u00f3s em Jesus. Ele \u201cdeu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, \u00e0queles que acreditam no seu <em>nome<\/em>\u201d (Jo 1,12), semitismo que significa \u00abna sua <em>pessoa<\/em>\u00bb, porque o nome a identifica e a torna presente. Ora, ningu\u00e9m recebe a identidade de outra pessoa, sem mais. O Natal de Jesus inseriu na pequena e na grande Hist\u00f3ria um dinamismo espiritual novo que humaniza as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, familiares, comunit\u00e1rias e internacionais; trouxe de Deus tudo para viver em perfeita harmonia, sim. Mas esse <em>poder<\/em> dado n\u00e3o actua automaticamente, nem pela \u2018magia do Natal\u2019: implica a responsabilidade de o assumir e viver. O Natal \u00e9 o ideal a chamar por n\u00f3s. E da parte humana est\u00e1 muito por \u2018cumprir\u2019. N\u00e3o interessa o poder de mudar o Natal em \u00e9poca comercial. Importa mais o poder de deixar que o Natal mude as pessoas segundo o esp\u00edrito do pres\u00e9pio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD O Natal \u00e9 a festa que mais toca os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es humanas. 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