{"id":3223,"date":"2022-11-30T03:13:00","date_gmt":"2022-11-30T03:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3223"},"modified":"2022-11-29T09:15:06","modified_gmt":"2022-11-29T09:15:06","slug":"as-palavras-e-a-musica-do-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/as-palavras-e-a-musica-do-natal\/","title":{"rendered":"As palavras e a m\u00fasica do Natal"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o abre o seu evangelho com uma nota dram\u00e1tica relativa ao Jesus que ele vai apresentar: \u201cO mundo n\u00e3o o conheceu. Veio para o que era seu, mas os seus n\u00e3o o acolheram\u201d (1,10-11). Com o passar dos s\u00e9culos, o mundo foi-o reconhecendo. Como express\u00e3o de reconhecimento, dedicou-lhe capelas, igrejas, bas\u00edlicas, catedrais, que foi enriquecendo de ouro, cores, m\u00e1rmore, imagens, quadros, vitrais, mosaicos e pinturas. Embora conscientes de que Jesus se identificou com \u201cestes meus irm\u00e3os mais pequenos\u201d (Mt 25,40.45) e que ele est\u00e1 em solidariedade com os que mais sofrem, os artistas de todas as \u00e9pocas e de todas as na\u00e7\u00f5es, como que representando-os e dando-lhes voz, encheram templos e museus de evoca\u00e7\u00f5es do seu nascimento. O canto dos poetas, as cores e a eleg\u00e2ncia das artes verteram o encantamento da humanidade perante o Natal de Jesus. Se focarmos s\u00f3 a reac\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, vemos como ela o encheu de sons mir\u00edficos e de vozes maviosas. Nem poderia haver Natal sem m\u00fasica, elemento imprescind\u00edvel para solenizar a grandeza do evento e exteriorizar a alegria da festa. Os s\u00e9culos fizeram da liga\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e Natal um bin\u00f3mio indissoci\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros c\u00e2nticos natal\u00edcios foram compostos em fun\u00e7\u00e3o da liturgia crist\u00e3. No I mil\u00e9nio o canto gregoriano brindou-a de inumer\u00e1veis melodias, que inicialmente eram executadas pelas <em>scholae<\/em> e pelos monges e escutadas pelos fi\u00e9is em sil\u00eancio. Do s\u00e9c. XI em diante tamb\u00e9m se compuseram, ainda em latim, melodias populares, que depois foram sendo traduzidas para as l\u00ednguas medievais, com adapta\u00e7\u00f5es e reelabora\u00e7\u00f5es. Eram cantos para-lit\u00fargicos que integravam pe\u00e7as dram\u00e1ticas de teatro sobre o Natal, representadas nas igrejas e nos adros da Europa medieval. Nalgumas regi\u00f5es chamavam-se <em>Mist\u00e9rios de Natal<\/em>, que no s\u00e9c. XVI evolu\u00edram para o nome de <em>pastorais<\/em>. No vasto repert\u00f3rio musical natal\u00edcio, temas provenientes dos respectivos \u00e2mbitos culturais assumiram caracteriza\u00e7\u00e3o distintiva, como os <em>carols<\/em> ingleses, os <em>no\u00ebl<\/em> franceses, os <em>canti di questua<\/em> italianos, os <em>villancicos<\/em> espanh\u00f3is e os <em>vilancicos<\/em> portugueses. Em 1582, quando Teresa de \u00c1vila, que reelaborou <em>villancicos<\/em>, morria em Alba de Tormes, um finland\u00eas publicou 17 <em>Can\u00e7\u00f5es piedosas<\/em>, tradicionais, de Natal. Inspiraram posteriores m\u00fasicos n\u00f3rdicos. Algumas ainda se cantam hoje. E por todo o mundo crist\u00e3o par\u00e1frases dos evangelhos transformaram-se em poesia, sublinhando a dimens\u00e3o humana do neonato que deu voz a Deus. Outros cantos aliavam a fr\u00e1gil humanidade do menino \u00e0 sua omnipot\u00eancia de Deus, a virgindade de Maria \u00e0 realeza do rec\u00e9m-nascido, o sil\u00eancio de Jos\u00e9 ao \u201ccoro celeste que louvava Deus\u201d (Lc 2,13). A m\u00fasica contemplativa tomava consci\u00eancia da grandeza do <em>acontecimento Natal<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A um dado momento, a m\u00fasica culta enriqueceu a tradi\u00e7\u00e3o de cantatas, corais, orat\u00f3rias\u2026 J\u00e1 em 1690, Corelli legou-nos o seu <em>Concerto<\/em> <em>grosso<\/em> n.\u00ba 8, <em>fatto per la notte di Natale<\/em>, cheio de espiritualidade. Em 1716 a <em>Cantata pastorale per la Nativit\u00e0<\/em>, de Alessandro Scarlatti, mandava uma mensagem de paz a todo o mundo. Mais c\u00e9lebre \u00e9 o monumental <em>Weihnachts Oratorium<\/em> (1734-35) de Bach, seis cantatas para o tempo de Natal, em que vozes e instrumentos concorrem para caracterizar os temas tomados de Mateus 1-2 e de Lucas 1-2. A 1739 remonta a melodia de Felix Mendelssohn, <em>Ouvi! Os anjos do arauto cantam<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a j\u00f3ia musical do tempo do Natal \u00e9 a grandiosa orat\u00f3ria <em>Messias<\/em> (1741), de H\u00e4ndel, que une magistralmente o canto polif\u00f3nico \u00e0 orquestra. Embora cubra toda a vida de Jesus, ficou inextricavelmente associada ao Natal, em virtude do esplendente <em>Aleluia<\/em>. Depois de citar Isa\u00edas 7,14 (relido por Mateus 1,23) no recitativo \u201ceis que a virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho, que ser\u00e1 chamado com o nome de <em>Emanuel<\/em>, que significa <em>Deus connosco<\/em>\u201d, remete para outra p\u00e1gina de Isa\u00edas (9,1-5), que se abre com uma estrofe de luz e de alegria, como se o profeta lido no Advento e profeta da esperan\u00e7a, em contraponto com Mateus 4,15-16, intu\u00edsse uma nova cria\u00e7\u00e3o: \u201cO povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; para os que viviam em terra de sombras brilhou uma luz; multiplicaste a alegria, aumentaste o j\u00fabilo\u201d. A primeira narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o divina j\u00e1 come\u00e7ava assim: \u201cDeus disse: \u2018Fa\u00e7a-se a luz\u2019. E a luz foi feita\u201d (Gn 1,3). O Natal de Jesus \u00e9 assim entendido como inaugura\u00e7\u00e3o de uma nova humanidade, de uma humanidade salva pelo nascimento do absolutamente novo. As causas da alegria irrefre\u00e1vel eram a liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o dos tiranos, a paz sustentada e <em>Deus connosco<\/em>, \u201cporque um menino nasceu para n\u00f3s, foi-nos dado um filho\u2026: o seu nome ser\u00e1 <em>Pr\u00edncipe da paz<\/em>\u201d. Para a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 este o retrato completo do Messias.<\/p>\n\n\n\n<p>Se H\u00e4ndel \u00e9 vibrante, Mozart faz-nos estremecer com a incompar\u00e1vel harmonia do <em>Ave verum Corpus natum de Maria Virgine<\/em>, de 1791. O s\u00e9c. XIX abunda em corais e cantatas, que refrescavam o fulgor do mist\u00e9rio natal\u00edcio. Como as alem\u00e3s, tamb\u00e9m se compuseram orat\u00f3rias francesas sobre o Natal. Berlioz em 1854 comp\u00f4s <em>L\u2019enfance du Christ<\/em>. Como ele, tamb\u00e9m Saint-Saens comp\u00f4s <em>Oratorio de No\u00ebl<\/em> sobre um texto latino. Para Dezembro de 1876, Tchaikovsky escreveu a valsa <em>Natal<\/em>. At\u00e9 no s\u00e9c. XX a mensagem natal\u00edcia foi musicada. Messiaen comp\u00f4s em 1935 <em>La Nativit\u00e9 du Seigneur<\/em> e em 1944 <em>Vingt regards sur l\u2019Enfant J\u00e9sus<\/em>, olhares que pousam nele, desde o olhar bondoso do Pai ao olhar doce da m\u00e3e, desde o dos anjos ao dos magos. Perosi (\u2020 1956) comp\u00f4s com profus\u00e3o mel\u00f3dica<em> Il Natale del Redentore<\/em>. E com a <em>Sinfonia n.\u00ba 2<\/em> \u2018<em>de Natal<\/em>\u2019 (1980) Penderecki recuperou a cl\u00e1ssica forma da sonata.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocupados com a grande m\u00fasica, n\u00e3o podemos esquecer as populares melodias <em>Adeste fideles<\/em> (atribu\u00edda a D. Jo\u00e3o IV), <em>O Tannenbaum<\/em> (que remonta ao s\u00e9c. XVI ou XVII), <em>Tu scendi dalle stelle<\/em> (de S. Afonso Maria de Lig\u00f3rio, em 1754, difundida como pastoral), <em>Gloria in excelsis Deo<\/em> (tradicional francesa, de autor desconhecido, do s\u00e9c. XVIII),<em> Stille Nacht<\/em>, de Franz Gruber, executada por primeira vez em 24.12.1818 (declarada \u2018patrim\u00f3nio cultural imaterial da humanidade\u2019 pela UNESCO em 2011). Estas melodias v\u00e3o evidenciando a expans\u00e3o \u2013 ou distanciamento \u2013 da representa\u00e7\u00e3o sagrada do Natal para uma representa\u00e7\u00e3o humana ou profana, que sublinha outros elementos: a neve, o pinheiro ou abeto, o Pai-Natal e a renas&#8230; Esta tend\u00eancia alastra mais nos s\u00e9culos XX e XXI, como no famoso <em>White Christmas<\/em>, que na vers\u00e3o original s\u00f3 canta a nostalgia pelo Natal com neve. De qualquer modo, a m\u00fasica emerge como s\u00edmbolo de procura e de compreens\u00e3o da f\u00e9, contemplando o menino Jesus como vindo n\u00e3o s\u00f3 de humanos mas tamb\u00e9m de Deus e vendo-o como <em>Deus connosco<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Jo\u00e3o abre o seu evangelho com uma nota dram\u00e1tica relativa ao Jesus que ele vai apresentar: \u201cO mundo n\u00e3o o conheceu. 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