{"id":3189,"date":"2022-10-31T02:42:00","date_gmt":"2022-10-31T02:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3189"},"modified":"2022-10-28T08:43:44","modified_gmt":"2022-10-28T08:43:44","slug":"das-flores-que-nadam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/das-flores-que-nadam\/","title":{"rendered":"Das flores que nadam"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.\u00a0 <\/strong>N\u00e3o alcan\u00e7o imaginar jardim de uma s\u00f3 flor, embora umas vezes muito m\u2019espante e outras tanto m\u2019admire com a que desponta por entre calhaus, alguns com olhos. Mas \u00e9 \u00f3bvio que uma flor s\u00f3 n\u00e3o faz jardim. E tamb\u00e9m me parece \u00f3bvio que se a flor chegou a s\u00ea-lo, muitas for\u00e7as se congeminaram para que o seja: a ousadia do sol e um nico de terra h\u00famida; pelo menos estas tr\u00eas: sol, terra e humidade; ah, e muito \u00e9 tamb\u00e9m de considerar que por ali n\u00e3o haja passado tesoura de rufia, p\u00e9 de b\u00e1rbaro, ou bocarra de caprino; que se focinho de um dos tr\u00eas por perto passar, a flor j\u00e1 era.<\/p>\n\n\n\n<p>E considero tamb\u00e9m que flor alguma o seja, sem que algu\u00e9m a reconhe\u00e7a e a nomeie como tal. Ora vejamos: que importa \u00e0 flor ser flor, porventura a mais bela do mundo, se n\u00e3o existirem olhos que a apreciem, cora\u00e7\u00e3o que a cheire, abelhas que a beijem? Sim, que importa? C\u00e1 para mim, uma flor assim n\u00e3o o \u00e9, e pronto. Entenda-se que se aprecio uma jarra de flores numa sala de jantar ou numa igreja, junto de uma imagem, de igual aprecio um prado esmaltado de pequeninas margaridas selvagens levemente acariciadas pelo sol e pela brisa suave! S\u00e3o coisas, que querem que lhes diga.<\/p>\n\n\n\n<p>As flores falam comigo; falam e mexem muito comigo. Mesmo aquelas cuja exist\u00eancia \u00e9 um instante pequenino, como a papoila crescendo despreocupada na rachadura de um velho muro antigo em derrocada. Em boa verdade, n\u00e3o \u00e9 preciso ser-se muito sens\u00edvel para perceber uma flor; basta, talvez, um pouco de luz no olhar. E isso at\u00e9 os cegos t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. <\/strong>Com isto quero apenas dizer o seguinte: uma flor s\u00f3 \u00e9 uma flor s\u00f3; mas s\u00f3 \u00e9 flor se for vista, que toda a flor para que o seja precisa da luz do olhar de algu\u00e9m. De contr\u00e1rio, mirra antes de se realizar, bem antes de chegar a jardim, mesmo que d\u00ea fruto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. <\/strong>Conhe\u00e7o pessoas com nome de flores, sobretudo mulheres. \u2013 De facto, tirando Jacinto e Narciso, assim de repente, n\u00e3o lembro nenhum outro nome masculino que seja flor; porque ser\u00e1? \u2013 E tamb\u00e9m conhe\u00e7o mulheres de nome Flor, e outra que a si pr\u00f3pria se apelidou de Florzinha Branca. E tenho por mui excelso que, ao despontar para o mundo, ressoando ainda l\u00e1grimas e dores, a m\u00e3e nomeie: \u00c9s linda como uma Rosa! \u00c9s belo como um Narciso!<\/p>\n\n\n\n<p>Que uma flor se realize, tal \u00e9 a beleza sem par. \u00c9 verdadeira beleza. Isto \u00e9, que um ger\u00e2nio se realize como sardinheira, eis a beleza! Ou que no outono um amor perfeito flores\u00e7a em pleno, nisso est\u00e1 a sua completa formosura, mesmo que fr\u00e1gil!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. <\/strong>Sei de ci\u00eancia certa que as flores n\u00e3o possuem cora\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes duvido, mas n\u00e3o possuem, n\u00e3o. Mas s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 delicada aten\u00e7\u00e3o que lhes prestamos, \u00e0 do\u00e7ura do nosso carinho e ao tempero do nosso tacto \u2013 \u00e9 preciso conversar com elas!, ou\u00e7o dizer; ou seja, muitas vezes s\u00e3o mais sens\u00edveis que algumas que o t\u00eam! Sim, se as flores n\u00e3o t\u00eam cora\u00e7\u00e3o, as Flores e as Florzinhas t\u00eam-no. Embora, como digo, \u00e0s vezes tal n\u00e3o transpare\u00e7a. Ora ter cora\u00e7\u00e3o, ao menos para n\u00f3s, europeus, \u00e9 muito mais que ter uma bomba que irriga de vida as pontas dos dedos, o c\u00e9rebro, os rins, a l\u00edngua, e a raiz dos cabelos. Bem sabemos que se a bomba cessar de bombear, tudo o resto para. \u2013 E agora reparo na s\u00e1bia resili\u00eancia da flor: n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o, logo n\u00e3o tem bomba; mas tal como n\u00f3s, tamb\u00e9m ela subsiste dentro do tempo que o Criador lhe determinou, e cumpre-se! \u2013 .<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, repare-se bem, \u00e9 mais que um motor, porque para n\u00f3s, humanos, ele \u00e9 a sede dos sentimentos. E curioso \u00e9 verificar que na linguagem comum dizemos bom cora\u00e7\u00e3o e mau cora\u00e7\u00e3o, significando com isso pessoa de bons e pessoa de maus sentimentos, porque \u00e9 ali que residem os sentimentos, os de cote, os mais nobres e elevados, os mais vis e baixos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais que um motor-bomba que nos move e eleva, \u00e9 tamb\u00e9m a sede dos sentimentos e, sobretudo, lugar de interioridade, santu\u00e1rio secreto, morada interior aonde s\u00f3 Deus cabe, entra e mora!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, \u00e9 isso que hoje aqui me traz \u00e0 eira destas p\u00e1ginas: afirmar e declarar a serena certeza de que no mais profundo e puro centro do cora\u00e7\u00e3o humano, tantas vezes vil, Deus mora! Deus mora, sim, em mim, em ti; sen\u00e3o no aposento maior \u2013 porque lho n\u00e3o cedeste \u2013 , pelo menos no mais esconso e ignorado dos arrumos da alma. Sim, sim, Deus mora e demora-se em mim, em ti. Se aqui ou ali, se no trono que s\u00f3 Dele \u00e9, ou se naquele lugar que nem para ti quererias, isso j\u00e1 \u00e9 decis\u00e3o tua. Mas que mora, mora. E se aqui ou ali, Ele ri, chora ou acabrunha-se; mas a verdade mais sincera \u00e9 a de que Ele jamais desespera.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas que mora, mora. E demora-se.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.\u00a0 <\/strong>O que aqui escrevinho, fa\u00e7o-o no dia de Santa Teresa, a Grande. Sim, a Grande; para desgosto de alguns, bem grande! Grande, s\u00e1bia e santa. E mulher. Mulher t\u00e3o s\u00e1bia e t\u00e3o santa, que alguns para a reconhecerem Magna tiveram de dizer que se parecia um homem! Pobre Teresa, pobre mulher \u2013 mulher e anjo, embora, dizem, mais anjo que mulher! E logo tu que te sabias bela! Ent\u00e3o os var\u00f5es no turno do mando para reconhecerem a tua eleva\u00e7\u00e3o, espiritual e carism\u00e1tica, houveram de obrigar-se a dizer-te parecida a um homem e dos mui barbados? Valha-nos Deus, Nosso Senhor, sua M\u00e3e Sant\u00edssima, a Virgem da Caridade, e as Almas que l\u00e1 est\u00e3o! Pois, agora, com os olhos nas m\u00e3os de Teresa, a Grande, digo: eu sou, e tu \u00e9s, meu irm\u00e3o e minha irm\u00e3, morada de Deus!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu sou e tu tamb\u00e9m \u00e9s morada de Deus!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, \u00e9s. Poder\u00e1s neg\u00e1-l\u2019O, poder\u00e1s manter cerrada a porta, poder\u00e1s ignor\u00e1-l\u2019O, poder\u00e1s esquec\u00ea-l\u2019O; poder\u00e1s esconjur\u00e1-l\u2019O, virtualiz\u00e1-l\u2019O ou obliter\u00e1-l\u2019O, mas tu \u00e9s morada de Deus! Poder\u00e1s, distra\u00edda ou intencionalmente, malquer\u00ea-l\u2019O, ostraciz\u00e1-l\u2019O, ou preencher o tal aposento interior de lixo f\u00e9tido. Sim, poder\u00e1s fazer tudo isso, ou pior, mas ainda assim, seguir\u00e1s sendo morada de Deus. Poder\u00e1s n\u00e3o ser a maior, a mais aconchegada e florida, ou a mais bela das moradas, mas \u00e9-lo. Isso \u00e9 assim de inegoci\u00e1vel e irrenunci\u00e1vel, porque n\u00e3o prov\u00e9m do veio ou do c\u00edrculo da tua vontade, mas da de Deus; logo a tua interioridade \u00e9 jardim de Deus! Ser\u00e1 o que for e como for, nas condi\u00e7\u00f5es que forem, mas a tua interioridade \u00e9, declaradamente, lugar de Deus e para Deus!<\/p>\n\n\n\n<p>Nisto discorri durante a novena da Santa Madre: Como \u00e9 isso de ser-se morada de Deus? E, como aceita Deus morar t\u00e3o frequentemente em choupana t\u00e3o ruim e t\u00e3o in\u00f3spita? E se somos morada de Deus \u2013 e de facto, ou somos casas ou choupaninhas habitadas por Deus \u2013 como \u00e9 que, t\u00e3o frequentemente, encontramos pessoas sentindo-se t\u00e3o s\u00f3s, t\u00e3o isoladas, t\u00e3o sem jardim? E ainda: a quem farei eu companhia e com quem andarei eu, ou de Quem me desandarei eu, para me sentir t\u00e3o s\u00f3, t\u00e3o em solid\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.\u00a0<\/strong> Para mim, viver o dia de Santa Teresa de Jesus, e lembr\u00e1-la como minha m\u00e3e, impele-me obrigatoriamente a aprofundar o valor da amizade, e a consci\u00eancia de ser lugar de e para Deus. E que bem me faz lembrar a m\u00e3e! Bem merce ser lembrada sobre muitos aspectos; lembr\u00e1-la-ei, agora, aqui, apenas sobre um: o da amizade. De facto, n\u00e3o se pode falar de Santa Teresa sem se falar de amizade. Ignorar ou n\u00e3o valorizar o valor que ela lhe atribu\u00eda \u00e9 n\u00e3o a conhecer, visto ela tanto estimar e promover a rela\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o entre duas pessoas, como forma de colabora\u00e7\u00e3o no m\u00fatuo bem, e como meio da mais aut\u00eantica realiza\u00e7\u00e3o como pessoa. Creio at\u00e9 ser imposs\u00edvel lembrar na hist\u00f3ria da Igreja quem t\u00e3o bem tenha sabido fazer amigos, t\u00e3o bem os tenha tratado e apreciado, e tanto deles tenha sabido precisar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.\u00a0<\/strong> Na fam\u00edlia nascemos, os amigos conquist\u00e1mo-los.<\/p>\n\n\n\n<p>De si, Teresa dizia que quem lhe desse meia sardinha ali acharia amiga para sempre! E parece que era verdade, pois o seu car\u00e1cter gentil, emp\u00e1tico e extrovertido sempre lhe foi prop\u00edcio para arregimentar amigos! Era bem popular, reconhe\u00e7a-se\u2026 Ali\u00e1s, quando de si fala, n\u00e3o sabe n\u00e3o falar de amizade entre amigos e da amizade com o seu <em>\u00abamigo verdadeiro\u00bb<\/em>. Diz-nos, por exemplo, que na adolesc\u00eancia foi muit\u00edssimo amiga de seus primos, e quase se perdeu porque a levaram a amar <em>\u00abas vaidades do mundo\u00bb<\/em>! \u2013 Exagera! \u2013 . Teve tamb\u00e9m uma profunda amizade com uma criada, mas esta, sim, esta se revelou mais perniciosa que a dos primos. Em face destes perigos, don Alonso, seu pai, atento e cuidadoso, logo tratou de intern\u00e1-la como donzela secular no vizinho mosteiro das Gra\u00e7as, donde, abrupta, regressar\u00e1 a casa, ano e meio depois, por quest\u00f5es de sa\u00fade. Granjeara, por\u00e9m, naquele col\u00e9gio, a estima e a amizade da Irm\u00e3 Maria Brice\u00f1o, e ser\u00e1 gra\u00e7as a esta que a sua vida come\u00e7ar\u00e1 a mudar de rumo \u2013 dos amigos para o Amigo; de facto, o modo como aquela religiosa agostinha falava de Deus, e o testemunho da sua viv\u00eancia pessoal, levou Teresa a ponderar tornar-se freira, ao menos <em>\u00abpara n\u00e3o se condenar eternamente\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>De novo em casa, reacende, por sua vez, a amizade com a Irm\u00e3 Juana Su\u00e1rez, carmelita do mosteiro da Encarna\u00e7\u00e3o, e decide ir-se de freira para aquela comunidade. Quando o comunicou a seu pai, pronto e veemente ele se lhe op\u00f4s \u2013 que fosse depois que fechasse os olhos! Ante a negativa paterna Teresa cala-se. Calada, mas n\u00e3o vencida, acabar\u00e1 entrando ali, aos vinte anos, aproveitando a madrugada do dia de Fi\u00e9is Defuntos para fugir da casa do velho don Alonso. E pela m\u00e3o levar\u00e1 consigo a seu irm\u00e3o Ant\u00f3nio, cinco anos mais novo, largando-o na portaria do convento dos dominicanos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.\u00a0<\/strong> E ei-la no Carmelo. N\u00e3o \u00e9 ali de todo uma freira imperfeita, mas longe est\u00e1 de ser um arauto da maior perfei\u00e7\u00e3o ou um galaaz dos <em>\u00abamigos fortes de Deus\u00bb<\/em>. Ali passar\u00e1 vinte e sete c\u00f3modos anos, resplandecendo jovialidade, prud\u00eancia, amabilidade e caridade, virtudes que a todas e a todos, de dentro e de fora, conquistavam. Ah, e outra coisa tomar\u00e1 sempre a peito, durante aquele tempo: <em>\u00abprestar aten\u00e7\u00e3o aos serm\u00f5es, por piores que fossem\u00bb<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>Vivia ali havia 25 anos, quando numas tert\u00falias de amigas que tinham lugar na sua cela \u2013 tert\u00falias integradas por jovens monjas e jovens senhoras seculares de \u00c1vila \u2013 a sua sobrinha Maria Ocampo, de dezassete anos, a desafiou a empreender a maior aventura da sua vida: a funda\u00e7\u00e3o do pequenino carmelo de S\u00e3o Jos\u00e9, de \u00c1vila \u2013 o mesmo \u00e9 dizer, sabemos agora, a reforma da Ordem do Carmo! Embora a ideia lhe agradasse, Teresa resistiu o mais que p\u00f4de, at\u00e9 que um dia, depois de comungar, o seu bom Amigo Jesus a confirmou e animou a deitar m\u00e3os \u00e0 funda\u00e7\u00e3o. Esta se far\u00e1, de facto; e de ora em diante, Teresa jamais far\u00e1 algo sem bater \u00e0 porta e entabular di\u00e1logo com o seu Bom Amigo que lhe habita o jardim do cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>E despedindo-se do mosteiro da Encarna\u00e7\u00e3o, das mudas e bem amadas testemunhas da sua aben\u00e7oada trajet\u00f3ria religiosa e espiritual \u2013 a porta pela qual ingressara no mosteiro, as s\u00f3lidas paredes como um castelo, o locut\u00f3rio onde Nosso Senhor a repreendera por deter-se em conversas mundanas, a cela em que habitara e onde tantas vezes com Ele se entretivera em col\u00f3quios sobrenaturais, a escada onde certa vez encontrara um bel\u00edssimo Menino que lhe declarou ser <em>\u00abJesus de Teresa\u00bb<\/em> \u2013 ligeira e leda subiu ela a colina de \u00c1vila, levando consigo <em>\u00abquatro pobres \u00f3rf\u00e3s e grandes servas de Deus\u00bb<\/em>, e o indispens\u00e1vel para a sua funda\u00e7\u00e3o de mulheres <em>\u00abdescal\u00e7as\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E ei-la no Carmelo Descal\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A inaugura\u00e7\u00e3o da primeira funda\u00e7\u00e3o deu-se a 24 de agosto de 1562; e t\u00e3o-s\u00f3 as portas se fecharam em p\u00f3s si, t\u00e3o-logo se alevantou enorme rebuli\u00e7o na cidade. Nessa mesma tarde, os superiores chamaram-na \u00e0 pedra e repreendem-na, mas n\u00e3o lhe coibiram a funda\u00e7\u00e3o, apesar do mosteiro ter estado a pontos de ser demolido pelas autoridades! Valer-lhe-\u00e3o no gume da tempestade os amigos; a saber: S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara, S\u00e3o Luis Beltr\u00e3o, S\u00e3o Francisco de Borja, o bispo D. Alvaro Mendoza, o Cavaleiro Santo, o Padre Gaspar Daza, o Padre Domingo Ba\u00f1ez, do\u00f1a Guiomar de Olloa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.\u00a0<\/strong> Restam-lhe vinte anos de vida e Teresa ainda o n\u00e3o sabe nem pode saber. Naquele curto espa\u00e7o de tempo fundar\u00e1 17 mosteiros de freiras \u2013 15 em pessoa; e dois de frades. Como \u00e9 que tal se consegue? Pois, assim de f\u00e1cil: animando jovens voca\u00e7\u00f5es a encher mosteiros de monjas e conventos de descal\u00e7os contemplativos, apoiando-se nos amigos, rezando e confiando em Deus, e vivendo sem jamais perder a paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos seus empreendimentos e funda\u00e7\u00f5es foram-lhe imprescind\u00edveis todas as amizades, de todas as classes sociais, sem, por\u00e9m, jamais cair no erro de as adular: as seculares, homens e mulheres, monjas, bispos, padres e frades; gente de neg\u00f3cios, das universidades, da nobreza \u2013 incluindo o rei \u2013 , magistrados e escriv\u00e3es, e outros muitos de n\u00edvel mais humilde: lavradores, pedreiros, carroceiros, mo\u00e7os de recados, criadas; e tamb\u00e9m nobres falidos, crian\u00e7as e pedintes! E se uns, com o tempo, se volveram seus inimigos, ou no m\u00ednimo, advers\u00e1rios, jamais ela, por\u00e9m, perder\u00e1 o p\u00e9; ao passo que outros, mesmo na mis\u00e9ria, a ajudar\u00e3o a ser fundadora e santa, a avan\u00e7ar no caminho da perfei\u00e7\u00e3o e a dar o melhor de si. E teve um companheiro de alma que lha soube ler e clarear com a luz do fogo do Esp\u00edrito Santo: S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, o <em>\u00abpai da sua alma\u00bb<\/em>! Ah, e sobretudo, confiou em Deus, porque: <em>\u00abningu\u00e9m tomou a Deus por amigo que Ele lhe n\u00e3o pagasse\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E isto, sim, isto ela, do in\u00edcio ao fim, nos insistiu e ensinou: a sermos <em>\u00abamigos fortes de Deus\u00bb<\/em>, e a sabermos estar com Ele a s\u00f3s, e com muita frequ\u00eancia, porque aqui todos havemos de ser amigos, entre n\u00f3s, e com Ele, mesmo que o mundo em volta se inunde ou se afunde!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>10. <\/strong>Alguns dias h\u00e1, fora de qualquer calend\u00e1rio, em que me vejo atirado para as bimilenares e gastas ruas de Braga. Quando por a\u00ed andarilho, uma h\u00e1, para os lados dos Biscainhos, que me recebe com um dizer pinchado numa parede. V\u00e1rias vezes por l\u00e1 passei desarmado. Da \u00faltima vez, n\u00e3o. Ao ver-me mais uma vez assaltado, logo saquei do telem\u00f3vel e z\u00e1s-p\u00e1s-traz, cliquei. A frase que cacei s\u00e3o duas. Aqui me explico: escrevendo-a de primeiro, algu\u00e9m nos denunciou em uma mensagem. Por\u00e9m, e isto \u00e9, creio eu, o di\u00e1logo no seu melhor, outrem acresceu algo \u00e0 frase e lhe mudou o sentido. E agora melhor reparo, talvez a diferen\u00e7a esteja entre vivermos ou n\u00e3o em jardim\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos; a frase original anuncia: A VIDA N\u00c3O VALE NADA.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, \u00e9 como se uma flor me dissera: de que me vale s\u00ea-lo, se ningu\u00e9m me cheira? Por\u00e9m, a t\u00e3o frio e cru pessimismo, algu\u00e9m lhe ajuntou t\u00e3o-s\u00f3 quatro letras e um ponto de exclama\u00e7\u00e3o, e tudo mudou ali; confira: NA VIDA N\u00c3O VALE NADAR S\u00d3! Talvez este que por \u00faltimo nos interpela, viva em jardim, discorro eu. E por isso a segunda \u00e9, obviamente, mais calorosa e esperan\u00e7osa.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 bem visto, est\u00e1 bem visto: Jardim de uma s\u00f3 flor n\u00e3o existe. Ou dito em modo outro: As flores tamb\u00e9m sabem nadar, mas na vida n\u00e3o vale mesmo nadar s\u00f3; vai que te d\u00e1 a breca?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.\u00a0 N\u00e3o alcan\u00e7o imaginar jardim de uma s\u00f3 flor, embora umas vezes muito m\u2019espante e outras tanto m\u2019admire com a que desponta por entre calhaus, alguns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3162,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3189"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3192,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3189\/revisions\/3192"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}