{"id":3120,"date":"2022-08-31T03:24:00","date_gmt":"2022-08-31T03:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3120"},"modified":"2022-08-29T14:25:51","modified_gmt":"2022-08-29T14:25:51","slug":"fraternidade-essencia-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/fraternidade-essencia-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Fraternidade, ess\u00eancia da humanidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria b\u00edblica de Caim e Abel (G\u00e9nesis 4), o narcisista Caim conheceria melhor o seu <em>eu<\/em> se o visse ao espelho do irm\u00e3o Abel, que com ele partilhava origem, sangue e vida. De facto, n\u00e3o era irm\u00e3o por lei. Era irm\u00e3o por sangue, por dom e generosidade dos pais. Rompendo os la\u00e7os de sangue, profanou a fraternidade, perdeu os direitos e os bens que o sangue d\u00e1 aos irm\u00e3os. Por isso, o relato figurativo faz do assassino do irm\u00e3o um <em>falhado<\/em>, um fugitivo sem lar, desnaturado sem meta e sem repouso, sem objectivo pelo qual viver, degradado sem rumo e sem Deus, amea\u00e7ado pelo desamparo: \u201cobrigado a ocultar-me longe da Tua face, terei de andar fugitivo e n\u00f3mada pela <em>terra<\/em>\u201d. A viol\u00eancia torna-o des<em>terra<\/em>do, expatriado, deserdado do solo f\u00e9rtil. A expuls\u00e3o para longe do solo ar\u00e1vel simboliza eficazmente a aliena\u00e7\u00e3o do fratricida, que matou a harmonia de si pr\u00f3prio com o seu mundo ambiente. A viol\u00eancia mort\u00edfera fez dele um vivo morto, ao fazer-lhe perder a fam\u00edlia e o lar, primeira estrutura de acolhimento e refer\u00eancia espacial fundamental do ser <em>humano<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato insinua ainda: na rede social entre irm\u00e3os de sangue, a agress\u00e3o brutal volta sempre ao seu autor, em forma de <em>boomerang<\/em>: depois de fazer mal aos familiares e causar cat\u00e1strofes no c\u00edrculo dos vizinhos, mata muita coisa no pr\u00f3prio agressor. E n\u00e3o \u00e9 Deus que aplica o castigo. Se a hist\u00f3ria de Caim e Abel p\u00f5e Deus a punir o fratricida, significa com essa ac\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que o castigo \u00e9 inapelavelmente aplicado pela pr\u00f3pria vida: nem Deus o consegue evitar; tamb\u00e9m significa que o mal feito \u00e9 grav\u00edssimo. Faz entender que Deus n\u00e3o larga o violador da harmonia da cria\u00e7\u00e3o em curso (na narra\u00e7\u00e3o): a consci\u00eancia pr\u00f3pria condu-lo ao horror do seu acto execr\u00e1vel, ao subsolo que engoliu o sangue\/vida da sua v\u00edtima. Sugere que \u00e9 imperioso estimar a vida antes de qualquer outra coisa, pois s\u00f3 tendo vida se pode dar sentido \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a palavra <em>irm\u00e3o<\/em> em hebraico estende o seu alcance a v\u00e1rios graus de parentesco, consanguinidade e afinidade, cobrindo com a sua significa\u00e7\u00e3o os membros da grande fam\u00edlia, da tribo, da comunidade, do povo e os amigos, este processo de expans\u00e3o sem\u00e2ntica alarga o sentido de <em>fraternidade<\/em> a todos os humanos. Se \u00e9 verdade que a hist\u00f3ria de Caim e Abel os apresenta figurativamente como irm\u00e3os de sangue, a for\u00e7a transfiguradora deste relato das origens transfere a fraternidade do plano biol\u00f3gico para o plano universal e para o campo da vontade, do amor afectivo e efectivo, no mais amplo sentido de <em>irm\u00e3o<\/em> em hebraico. Foi o que Jesus fez declarando aos disc\u00edpulos: \u201cv\u00f3s sois todos irm\u00e3os\u201d (Mt 23,8). Este alcance universal da fraternidade, que institui a cultura da vida e rejeita a cultura da morte, fica mais aberto pelo profeta Malaquias: \u201cN\u00e3o temos todos um \u00fanico pai? N\u00e3o nos criou um s\u00f3 Deus? Porqu\u00ea ent\u00e3o uma pessoa atrai\u00e7oa o seu irm\u00e3o profanando a alian\u00e7a dos nossos pais?\u201d (2,10). Ter uma \u00fanica origem, divina, \u00e9 o fundamento mais exigente de fraternidade, biol\u00f3gica e universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao n\u00edvel da <em>re<\/em>leitura existencial, a pergunta divina ao fratricida (\u201conde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u201d) pede aos humanos contas da irmandade que formam. A resposta a essa pergunta poder-se-ia articular com outra que, em contexto diferente, a B\u00edblia p\u00f5e<em> na boca dos \u201c<\/em><em>advers\u00e1rios que me insultam e me v\u00e3o repetindo todo o dia: \u00abonde est\u00e1 o teu Deus?\u00bb\u201d (Sl 42,4.11). O Novo Testamento responderia que Deus est\u00e1 em ti, meu irm\u00e3o: \u201cSempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos a mim o fizestes\u201d (Mt 25,40); \u201cse algu\u00e9m disser \u00abeu amo Deus\u00bb mas tiver \u00f3dio ao seu irm\u00e3o, \u00e9 mentiroso, pois aquele que n\u00e3o ama o seu irm\u00e3o a quem v\u00ea n\u00e3o pode amar Deus a quem n\u00e3o v\u00ea. E n\u00f3s recebemos dele [Jesus] este mandamento: Quem ama Deus ame tamb\u00e9m o seu irm\u00e3o\u201d (1Jo 4,19-21)<\/em><em>. <\/em>Mas j\u00e1 em Gn 4 o irm\u00e3o irrompe na vida do outro e interpela-o pedindo respeito, exigindo <em>respo<\/em>sta, isto \u00e9, <em>respons<\/em>abilidade de \u2018estar l\u00e1\u2019 para ele, porque lhe diz respeito, responsabilidade que tamb\u00e9m \u00e9 diante de Deus, criador da fraternidade: procura o teu irm\u00e3o e encontrar\u00e1s a verdade de ti mesmo. Nenhum humano pode demitir-se de ser irm\u00e3o: \u201cO<em>u somos irm\u00e3os ou tudo se desmorona\u201d<\/em><em> (<\/em>Papa FRANCISCO, Mensagem para o Dia Internacional da Fraternidade Humana, 4.2.2022)<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho de Jo\u00e3o (8,44) <em>re<\/em>interpreta o fratric\u00eddio de Caim, sugerindo que a morte violenta n\u00e3o \u00e9 tolerada por Deus: \u201cO diabo&#8230; foi homicida desde a origem e n\u00e3o estava pela verdade, porque nele n\u00e3o h\u00e1 verdade. Quando diz o que \u00e9 mentira, fala a partir do que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, porque \u00e9 mentiroso e pai da mentira\u201d. De facto, o mal de Caim fora enganar-se a si pr\u00f3prio. Ao ouvir a sua pr\u00f3pria mentira, deixou de ver a verdade e a for\u00e7a da fraternidade institu\u00edda pela cria\u00e7\u00e3o, perdendo o respeito por si e pelo irm\u00e3o. \u00abFalhou o alvo\u00bb, permitindo \u00e0 inveja produzir a viol\u00eancia. De facto, a inveja n\u00e3o valoriza o outro nem acarreta prazer ao pr\u00f3prio; \u00e9, por ess\u00eancia, contra a fraternidade e contra a igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo Gn 4, o ser humano n\u00e3o foi criado para a viol\u00eancia mas para a fraternidade.<\/em> <em>A viol\u00eancia n\u00e3o faz parte da natureza humana. \u00c9 filha do \u00f3dio. N<\/em>\u00e3o tem mem\u00f3ria. Esquece que todos os humanos s\u00e3o irm\u00e3os. A carta aos Hebreus (11,4), arquivo de mem\u00f3rias do Antigo Testamento, <em>re<\/em>l\u00ea assim a figura de Abel: \u201cestando morto, ainda fala\u201d. Enquanto o fratricida se tornou um vivo morto, Abel \u00e9 um morto vivo. A personagem simb\u00f3lica e o seu sangue derramado continuam a gritar nesta p\u00e1gina b\u00edblica, emprestando a sua voz <em>original<\/em> \u00e0s v\u00edtimas inocentes da hist\u00f3ria humana e denunciando a viol\u00eancia fratricida como negadora da pr\u00f3pria humanidade. Abel mant\u00e9m altos os valores e a ess\u00eancia da humanidade, aviltada pelos fratricidas. Faz acreditar que o futuro da humanidade n\u00e3o ser\u00e1 de viol\u00eancia mas de solidariedade e de fraternidade ilimitada, em que o ser humano n\u00e3o ser\u00e1 <em>lobo<\/em> para o homem, mas <em>irm\u00e3o<\/em> para o homem. A resposta \u00e0 pergunta da irresponsabilidade \u201csou porventura guarda do meu irm\u00e3o?\u201d estar\u00e1 no hino \u00e0 alegria fraterna: \u201cOh, que bom e am\u00e1vel \u00e9 conviverem os irm\u00e3os em harmonia!\u201d (Sl 133,1).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na hist\u00f3ria b\u00edblica de Caim e Abel (G\u00e9nesis 4), o narcisista Caim conheceria melhor o seu eu se o visse ao espelho do irm\u00e3o Abel, que com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3121,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3120"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3122,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3120\/revisions\/3122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}