{"id":3117,"date":"2022-08-31T02:22:00","date_gmt":"2022-08-31T02:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3117"},"modified":"2022-08-29T14:24:05","modified_gmt":"2022-08-29T14:24:05","slug":"rosa-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/rosa-branca\/","title":{"rendered":"Rosa branca"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre me estremeceram as cenas do estilo que a seguir contarei. Primeiro, por\u00e9m, \u00e9 precis\u00e3o que vos conte que este ano a imagem da Senhora do Carmo ficou todo o seu<em> <\/em>m\u00eas num trono que lhe prepar\u00e1ramos, \u00e0 entrada do presbit\u00e9rio. Pusemos-lhe flores e lamparinas, e os devotos trouxeram-lhe flores, ora\u00e7\u00f5es, novenas e pedidos e, por estranho que pare\u00e7a, um pequenino canivetezinho, um alfinete de ama, grande, por sinal, e um pin das Guias de Portugal. As flores eu compreendo, e que, dia em p\u00f3s dia, volvessem a trazer mais, tamb\u00e9m, e velas tamb\u00e9m, novenas e ora\u00e7\u00f5es e l\u00e1grimas e pedidos, \u00f3bvio que sim. Mas j\u00e1 n\u00e3o encontrei explica\u00e7\u00e3o para lhe terem trazido o canivetezinho, o alfinete e o pin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro esclarecimento: nada me atreveria a contar se n\u00e3o tivesse claramente visto o que a seguir descreverei. Sim, uma rosa seria apenas mais uma rosa, se eu a n\u00e3o tivesse visto chegar e ao modo como chegou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coisa sucedeu no dia 5 de agosto, mem\u00f3ria lit\u00fargica da dedica\u00e7\u00e3o da Bas\u00edlica de Santa Maria Maior. Sim, notaram bem, quase uma semana depois do fim do m\u00eas do Carmo, a imagem da Senhora do Lugar permanecia plantada no presbit\u00e9rio, n\u00e3o por in\u00e9rcia ou esquecimento, mas por algo me bater por dentro, impedindo-me de a retirar dali. De facto, sempre que pensava em retir\u00e1-la, terna m\u00e3o mo empecia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estava eu, pois, posto em ledo sil\u00eancio, na igreja, dispondo os livros para o dia da Transfigura\u00e7\u00e3o, e eis que o olhar se me alevantou, logo que algo me disse: levanta os olhos! Eu alevantei e vi subir pelo lusco-fusco adentro um homem nem baixo nem alto, algo para o magro, de barba rebelde e agreste, j\u00e1 velho, cambado e gasto. No andar percebi solenidade, nos p\u00e9s umas botas pesadas rematando debotado fato, passageado aqui e ali. Estacou a tr\u00eas metros da imagem e, num embara\u00e7o que lhe atava a l\u00edngua, apontou com o olhar para a Senhora. Embara\u00e7ado me vi eu tamb\u00e9m, sem me inteirar se por causa de alheio embara\u00e7o, ou se por ter visto que ele vira que o espreitara subindo igreja acima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Uma coisa garanto: continua a ser verdade que quem v\u00ea caras n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00f5es!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos, pois, reconhe\u00e7o, dois homens embara\u00e7ados, um diante do outro, e os dois diante da Mulher. Foi ent\u00e3o que inteira luz se abriu sobre a singela rosa branca que ele portava na m\u00e3o. Percebi a\u00ed que ele a queria deixar no escasso trono da Senhora. Ah, a\u00ed virei Marta sol\u00edcita, que sim, que sim, por aqui e tal, desta maneira ou como voc\u00ea quiser, dizia-lhe, enquanto afastava uma lamparina para escancarar espa\u00e7o. E o homem nada, nada dizia. Nada se movia. Embara\u00e7ado ou n\u00e3o, nada disse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomei-lhe a rosa e coloquei-a aos p\u00e9s da Senhora. Mirei-o, e ele assentiu. E pensei: se bem n\u00e3o est\u00e1, melhor n\u00e3o sei, e a Senhora nos aceite assim. E como melhor n\u00e3o sei, \u00e9 assim que fica. E assim ficou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditai: como naquela hora n\u00e3o sabia como desla\u00e7ar o impasse, aberta lhe estendi a m\u00e3o direita e ele a sua. Apertamo-nos tanto quanto dois cora\u00e7\u00f5es se podem afagar. Era a sua calosa, estriada e mais forte que a minha. Os olhos mirei-lhos mal, porque sobre eles chuva grossa descia. Agradeci-lhe, sim, o terno gesto, com um singelo obrigado. Ele virou costas e ajoelhou no terceiro ou quarto banco em frente da Mulher, e eu naquele que mais ilumina o olhar de S\u00e3o Jos\u00e9, que \u00e9 donde melhor eu lhe fa\u00e7o mira aos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recolhido ali aguardei pelo meu companheiro de V\u00e9speras. \u00c9 justo que diga n\u00e3o recordar o tempo da demora; sei sim, que a vespertina r\u00e9cita foi das mais breves, por ser aquela a tarde com os salmos mais pequeninos. Rez\u00e1mos tudo sem mudar um til ou uma v\u00edrgula das r\u00fabricas, ou n\u00e3o fosse canonista o meu s\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como quem preside, \u00e9 quem d\u00e1 a b\u00ean\u00e7\u00e3o, ao d\u00e1-la, virei-me e vi o homem a meu lado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 O senhor \u00e9 padre, questionou-me a medo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sou frei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E isso que \u00e9?! Pensei que por rezar dessa maneira\u2026 mas n\u00e3o \u00e9 padre?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim, descanse; tamb\u00e9m sou padre!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ah, bem me queria parecer!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim, amigo, n\u00e3o se enganou, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ent\u00e3o, confesse-me!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Confess\u00e1-lo?! Estou aqui descal\u00e7o, de cal\u00e7\u00f5es e t-shirt\u2026 O senhor acredita que sou padre?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 \u00c9 qu\u2019eu precisava de ser confessado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Mas, e se eu n\u00e3o sou padre?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Deve ser: para rezar dessa maneira\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confessei-o. Soube-lhe o nome e a longa travessia por sofridos mares nunca dantes navegados; ou quase. \u2013 H\u00e1 cada hist\u00f3ria, Jo\u00e3o, dizia-me eu de mim para mim, enquanto o ouvia. H\u00e1 cada sofrido monumento, meu Deus!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Como \u00e9 sabido, n\u00e3o contarei nada do que ali me foi dito; mas do de fora sim, ainda que licen\u00e7a n\u00e3o tenha tirado.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem oitenta e nove anos, \u00e9 emigrante sem bandeira, ou andarilho impenitente, n\u00e3o soube bem; mas, de cando em b\u00eaz bira a quilha p\u2019ra Portugal, por ter c\u00e1 ber\u00e7o de vimes colhidos nas bordas de vetusto arroiozinho, escorrendo, algures, pelo profundo verde Minho a baixo; e ama a Estrela do mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Eu tinha de c\u00e1 bir, senhor padre, eu tinha de c\u00e1 bir, insistia-me. Eu tinha de c\u00e1 boltar, \u00f3messa. Depois desta pedemia, antes q\u2019o barco se m\u2019afunde, eu tinha de c\u00e1 boltar. E boltei. E Ela estaba aqui, esperaba-me aqui, aqui nesta igreija, nesta tarde, para me aben\u00e7oar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, de chap\u00e9u desleixado na m\u00e3o, debitando sem parar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Conhece a can\u00e7\u00e3o colomba nera? Aprendi-a num beilho cargueiro, que n\u00e3o parava de ringer \u2013 h\u00e1 navios assim, sabe? \u2013, durante uma tempestade, no alto mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roncou-me uns versos num dialecto que n\u00e3o reconheci.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conhecia tal can\u00e7\u00e3o, lhe confirmei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Saiba, senhor padre, com todo o respeito lho digo, eu nasci com uma colomba nera no cora\u00e7\u00e3o. Esta foi a minha condi\u00e7\u00e3o: cando ao mundo cheguei, j\u00e1 trazia comigo uma colomba nera, bem mais beilha do que eu. \u00c9; eu que sou antigo, trago h\u00e1 muntos s\u00e9culos uma negra colomba no cora\u00e7\u00e3o. Nunca a assustei porque at\u00e9 tenho tido mais sorte q\u2019outros, onde s\u00f3 medram cardos e lacraus. Mas no meu, ao nascer, vinha aninhada uma colomba nera. Tenho sorte; apesar de tudo, para passar o que eu passei, at\u00e9 sou home de sorte. Embora fosse mol\u00e9stia, nunca so\u00e7obrei totalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Alguma b\u00eaz ajoilhei diante da negrura, mas nunca inteiramente vencido. Tamb\u00e9m nunca pedi a Deus que ma \u2018spantasse ou q\u2019a botasse borda fora. \u00c9 verdade que, com\u2019a outros, nunca os lacraus me envenenaram. Mas ela ficou-me aqui, aqui, note bem, ela ficou-me aqui, aqui, noite e dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E apontava para o batente do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ela restou-me aqui, negra, negra, da cor da noite, negra, com\u2019\u00f3 mar profundo! Sabe, s\u00f3 tive dias da cor da noite, negros, sem luz, sem dia. \u00c9 bem berdade, na vida n\u00e3o \u2018xprimentei mais q\u2019o sabor do p\u00e3o \u2018scuro. O senhor n\u00e3o pode imaginar; nem sei s\u2019algu\u00e9m poder\u00e1 \u2018xperimentar o mesmo q\u2019eu: tudo negro, negro! Tudo negro em bolta; que coisa, senhor padre!\u2026 At\u00e9 o p\u00e3o pr\u00e1 boca era negro. As l\u00e1grimas, negras; e o sangue\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Olhe q\u2019eu cego num sou, mas tamb\u00e9m num conheci outra cor na minha bida! Mas h\u00e1 em mim uma coisa do tamanho duma sementinha: por maor que fosse a noite nunca deixei que m\u2019arrebatasse, porque eu cria que al\u00e9m, mais al\u00e9m, \u00e0s vezes muito al\u00e9m, pr\u2019\u00e1l\u00e9m do olhar, ou por cimas das nubens negras, eu sentia que h\u00e1 uma Estrela do mar que nos guia. Ao menos, a mim, sim, guia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E ent\u00e3o, neste ber\u00e3o eu bim \u00e0 terra. Falaba-se tanto de secura que eu bim ber s\u2019o meu bolh\u00e3o d\u2019oiro secaria. Mas n\u00e3o. Tinha limo, era um fiozinho que acaijo num cantaba, mas ainda corria. E ent\u00e3o, senhor padre, abanquei-me. Quedei-me ali sem dar de mim nem ber as horas passar. Sabe com\u2019\u00e9: a jente n\u00e3o tem quem no\u2018spere, por isso \u00e9 igual que chegue a qual hora chegue, que todas s\u00e3o neras. E bota que num bota, por ali fiquei. O dia tinha-se desapertado quente e a tarde ia muito pr\u00f3 abafado. At\u00e9 que\u2019s\u2019estaba bem ali, compriende? Al\u00e9m disso, tirando as bordas do ribeirico j\u00e1 nada em bolta \u2018staba verde: \u2018taba tudo seco e amarelado com\u2019a doen\u00e7a. Num \u00e9 qu\u2019em bolta se bisse fogo, mas par\u2019cia q\u2019o mundo ardia por todo o lado, l\u00e1 p\u2019los altos. E eu ali, a ber, a ber, a ber aquele bolh\u00e3ozinho a nascer, a nascer, a nascer, a correr. Que mist\u00e9rio \u00e9 a bida! O senhor beija bem: era eu e ele, \u00e0 conversa. Num sei se me\u2019xplico, porque ele corria na mesma, pelas leiras a baixo, pelos montes a baixo, pelo caminho dele, bem entendido, mas n\u00f3s \u2018st\u00e1bamos ali, os dois, cada um a chegar-se \u00e0 fala, \u00e0 conversa com o oitro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Por momentos, parou para retomar o f\u00f4lego, ou a coragem, ou ambos.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Bota da\u00ed, o senhor padre julgar\u00e1 que sou tolo. Mas num sou. E num bebi, que\u2019me deixei disso h\u00e1 munto; ou, vai da\u00ed, i num intende nada do que le digo; mas bem l\u2019agrade\u00e7o que \u2018steija aqui pra m\u2019oubir, porqu\u2019eu preciso muito de ser ouvisto, sabe? Ent\u00e3o \u2018staba eu a falar q\u2019o c\u00f3rregozinho, que naquele lugar \u00e9 coisa miudada\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabe, um ribeirinho num fala; mas tamb\u00e9m h\u00e1 falar e falar. E s\u2019a gente se dispor a oubir, at\u00e9 que fala. E a gente pode falar qu\u2019ele oube-nos. Mas Vossemec\u00ea num s\u2019estranhe, q\u2019a cousa \u00e9 mais ou menos assim, como le sigo dizendo. Segue-se: est\u00e1bamos os dois assim, e a tarde, quente com\u2019um braseiro, ia pra mais de meio. E ent\u00e3o num \u00e9 que beio uma palomica mansa beber ali no arroiozinho? O senhor padre at\u00e9 que pode \u2018stranhar, mas eu digo-le mais, e at\u00e9 gostaria de saber a sua opini\u00e3o: pois fiqu\u2019a saber qu\u2019a palomica era blanca! Blanca, senhor padre, com\u2019\u00e1s da paz! Beija se m\u2019intende, senhor padre: eu nunca tinha bisto uma palomica blanca na minha vida; e \u00f3 se sou velho! Em mim sempre amandou a colomba nera; beija bem o senhor se m\u2019intende, percebe?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Que sim, assenti.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E ent\u00e3o, explique-me agora: o que quer dizer aquela palomica blanca, qu\u2019eu nunca bi e s\u00f3 bi naquela tarde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 N\u00e3o sei, senhor; confessei, humilde. Ser\u00e1 que\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Olhe, foi a\u00ed que m\u2019alembrei da Sinhora do Carmo, a \u2018Strela do mar e cura do mundo. E disse: Albino, tens d\u2019ir a Braga, \u00e0 Sinhora do Carmo, lebar-lhe uma rosa branca! Merquei uma na bila, e aqui \u2018stou eu, plantado diante de si! E agora, diga-me: o senhor padre quando acha que bou morrer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por dentro, o cora\u00e7\u00e3o desempertigou-se-me num pinote ao rev\u00e9s; atarantado fui \u00e0 procura de palavras e, sem mais desembrulhar, atirei-lhe as primeiras que encontrei:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Olhe, senhor Albino, novo \u00e9 que o senhor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9; e cada um morre na sua vez. Mas uma coisa lhe garanto: por agora, o senhor n\u00e3o vai ao fundo! Ainda tem muito pra navegar! E, j\u00e1 agora: alguma vez reparou que depois do navio passar, o caminho do mar volta a fechar e ningu\u00e9m sabe dizer por onde ele \u00e9 ou era? Pois \u00e9, ou muito me engano, ou o senhor \u00e9 como um navio: passou e vai passando, e passar\u00e1, pelos caminhos deste mundo, sem o ferir nem o dividir! E isso \u00e9 muito agrad\u00e1vel a Deus! V\u00e1 descansado para casa, fale \u00e0 vontade com o seu c\u00f3rregozinho tudo o que tiver de lhe falar, porque maluco Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9! Nem se assuste com a colomba nera, que ela \u00e9 irm\u00e3 da palomica da paz! E a Estrela do mar o guie!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 \u00d3 Senhor padre, pois essa \u00e9 qu\u2019\u00e9 essa! O milagre da \u2018Strela do mar \u00e9 mesmo esse: agora, desde h\u00e1 dias, a \u00fanica colomba que trago em mim \u00e9 palomica blanca, sabia?\u00ad<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, marujando-se-lhe os olhos, marujou-me os meus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Sempre me estremeceram as cenas do estilo que a seguir contarei. 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