{"id":3099,"date":"2022-07-31T02:09:00","date_gmt":"2022-07-31T02:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3099"},"modified":"2022-07-28T08:10:07","modified_gmt":"2022-07-28T08:10:07","slug":"tres-notas-e-um-apontamento-em-jeito-de-cronica-do-dia-de-nossa-senhora-do-carmo-de-2022-e-mais-uns-pos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/tres-notas-e-um-apontamento-em-jeito-de-cronica-do-dia-de-nossa-senhora-do-carmo-de-2022-e-mais-uns-pos\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas notas e um apontamento em jeito de cr\u00f3nica do dia de Nossa Senhora do Carmo de 2022, e mais uns p\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>I. O anjo da flauta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em dia da Senhora do Carmo, come\u00e7ado luminoso e quente, celebrava eu, pelas 09:00, no seu altar. O povo tinha o olhar preso nas m\u00e3os da M\u00e3e, e os que l\u00e1 n\u00e3o estavam para l\u00e1 os ia atirando eu. Ali\u00e1s, como sempre me fa\u00e7o, quando \u00e0 sua presen\u00e7a vou, mas, sobretudo, quando de l\u00e1 saio, num mirar-lhe, demorado, o escapul\u00e1rio, aproveitando para lho pedir de empr\u00e9stimo para as lidas que o dia trouxer.<br>Celebrando com muito mais do que o acostumado ajuntamento de povo, pr\u00e9vio me revestira de sentimentos e louvores achados na arca velha de meu cora\u00e7\u00e3o, visto que nenhum outro olhar como o da M\u00e3e me enternece.<br>Aviso atempado recebera da cantora de turno das dificuldades que o salmo do dia impunha. Que no bornal outro havia, mas n\u00e3o daquela liturgia, avisou. Pelas almas de quem l\u00e1 tem, pedi, quanta voz nela ainda morasse, com ela nos elevasse para o doce colo virginal, certo estar de que, com nuvem ou sem ela, pronto ela se abaixaria para nos amparar e al\u00e7ar. \u2013 Sei, ali\u00e1s, de h\u00e1 anos que, tal voz, j\u00e1 n\u00e3o condiz com a alma que, cantando com toda, mais e mais se lhe aveluda quanto mais a voz se lhe mirra \u2013. Apenas uma coisa se me dava: que cantasse com alma, minguada lhe fosse a voz.<br>Seja qual seja a solene liturgia de hebdomad\u00e1rio dia, sempre aqui se canta sem acompanhamento musical. Por isso quase pulei no in\u00edcio do bendito salmo, ao sentir, subindo igreja acima, uns sons de flauta. Eram am\u00e1veis e achegavam-se-me das entranhas dos tempos para nos lavar. Confesso-me: n\u00e3o ouvi o salmo, que n\u00e3o sei para onde me refugiei ou fui transportado. Cri-me ou vi-me, n\u00e3o sei, l\u00e1 para oitocentos anos atr\u00e1s, num terreiro de uma montanha, com barbados e curtidos homens, em volta de uma fogueira acendida na frontaria de uma igrejinha velha. Se a flauta era de saltimbanco ou de trovador de tal long\u00ednquo horizonte chegado n\u00e3o sei nem jamais soube. \u2013 Nem sei dizer como acabei a Missa, que mais disse, como disse, ou o que por dizer ficasse. A comunh\u00e3o devo ter dado, que ningu\u00e9m ma veio reclamar \u2013.<br>Bem de compreender \u00e9 que dei a b\u00ean\u00e7\u00e3o final ao ritmo da flauta e, incr\u00e9u que sou, logo fui apalpar com o olhar que anjo andarilho aterrara por aqui em dia da M\u00e3e do Carmo e do Carmelo. Se anjo fora, n\u00e3o soube nem ainda sei. Apenas por ali vi um cachorro e uma debotada mochila com a bandeira da Inglaterra, e umas moedas numa lata. Faz sentido, todo o profeta merece comer do seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>II. Jos\u00e9, simplesmente Jos\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias h\u00e1 em que, de quando em quando, me cabem id\u00eanticos movimentos aos de certo sacerdote de Silo. Quando tal acontece vou e venho sem mirar caras ou almas. Hoje, de uma, outra e outra vez, vi Jos\u00e9 \u2013 s\u00f3 no fim \u00e9 que soube ser assim chamado \u2013 atento e recolhido em paz, em sil\u00eancio, em ora\u00e7\u00e3o. \u00c0s seis j\u00e1 ali n\u00e3o estava, mas \u00e0s seis e meia, sim. Voltara, portanto. \u00c0 hora certa chegou a restante comunidade o que, logo ap\u00f3s, devotos, recit\u00e1mos as V\u00e9speras da Solenidade da M\u00e3e do Carmo.<br>Ao contr\u00e1rio de outros noutras Horas, Jos\u00e9 ficou no lugar \u2013 o mais oposto ao meu. Rez\u00e1vamos o Comum de Nossa Senhora e, a espa\u00e7os, senti que fazia coro comigo. Deduzi-o fiel \u00e0 Liturgia das Horas, mas que n\u00e3o realizara acerto com a certa. No fim, a comunidade sempre fica em ora\u00e7\u00e3o silenciosa. Mas n\u00e3o hoje. Jos\u00e9 erguera-se ou, melhor, levantaram-no as asas de um sorriso, e cumprimentou um a um os membros da comunidade. Ao se me achegar vi-o moreno e j\u00e1 curtido pela idade. Fiz-lhe sinal para que se sentasse e questionei-lhe que brisa o trouxera. N\u00e3o posso identific\u00e1-lo pelo apelido nem pela fun\u00e7\u00e3o h\u00e1 pouco assumida. Mas posso dizer a forma apressada e delicada com que se despediu: Hoje \u00e9 dia a M\u00e3e e eu tinha de passar o dia com a M\u00e3e. Afinal sou dela. Foi um dia delicioso. S\u00f3 daqui sa\u00ed para ir \u00e0 missa \u00e0 S\u00e9; mas como sei que a porta do Carmo sempre est\u00e1 aberta, voltei; ainda tinha umas coisas a dizer-lhe, mas, sobretudo, ainda precisava de a ouvir!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>III. Virgem Imperfeita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um t\u00edtulo assim \u00e9 um atrevido atrevimento; mais se ele apostrofa a Virgem Maria. N\u00e3o \u00e9 inteiramente meu, mesmo que nele haja um leve tresmalhe de um texto do Pe. Miguel Maria. Sucedeu que, por ocasi\u00e3o da solenidade da M\u00e3e do Carmo de 2022, o Prep\u00f3sito Geral escreveu uma carta a toda a Ordem, onde aponta para um \u00edcone que se encontra \u00e0 porta de um orat\u00f3rio de certo convento por ele t\u00e3o amado. O \u00edcone \u00e9 de Maria. E est\u00e1 inacabado. Inacabado \u00e9 imperfeito, digo eu em meu tresmalhe. Mas n\u00e3o julgo incorrer em heresias chamando-lhe Virgem Imperfeita que, se algo \u00e9 imperfeito, \u00e9 o \u00edcone. E as palavras minhas.<br>A carta li-a no dia 15, depois que m\u00e3o sol\u00edcita ma achegou ao princ\u00edpio da noite. Nela me tocou a nota do inacabado, da imperfei\u00e7\u00e3o. E que a vida de cada ser humano \u00e9 um tender sempre para mais al\u00e9m, mais um passo, mais um degrau, um degrau acima, um cent\u00edmetro al\u00e9m, um voo mais alto, um pique mais profundo, um repique mais suavemente sonoro. Enfim, n\u00f3s, e a gra\u00e7a de Deus connosco, somos sempre para ir mais al\u00e9m, mais longe, mais longe, mais longe. Mais.<br>Alargar horizontes \u00e9 o que nos cabe como jubilosa tarefa, n\u00e3o como dura pena ou degredado castigo. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um c\u00edrculo nem uma montanha russa; \u00e9 um voo de bico em riste. E n\u00e3o \u00e9 tarefa que termine, nem mesmo quando termina; \u00e9 um sempre volver \u00e0 ac\u00e7\u00e3o ou, sobretudo, \u00e0 in-ac\u00e7\u00e3o; digo melhor, a um deixar Deus fazer o que por Ele iniciado j\u00e1 est\u00e1 em n\u00f3s e, depois, com Ele melhor tem de ser feito.<br>Aceito o repto do Pe. Miguel Maria: pare\u00e7a-me eu melhor a Maria que, afinal, filho dela sou; e visto que dela sou, jamais a outra me pare\u00e7a.<br>Pare\u00e7amo-nos a Maria; mais e mais nos pare\u00e7amos a ela, que os filhos ou tiram \u00e0 m\u00e3e, ou enteados s\u00e3o. Pare\u00e7amo-nos mais a quem mais temos de nos parecer \u2013 \u00e0 Virgem do perfeito amor \u2013, e complete-se, atrav\u00e9s de n\u00f3s, e tamb\u00e9m em n\u00f3s, a sua imagem, o seu rosto inacabado de Mulher, de M\u00e3e e de Virgem.<br>Aqui estou, Senhor.<br>Faz de meu barro o que quiseres,<br>contanto que em mim se complete<br>a beleza inacabada da M\u00e3e,<br>mesmo que minha f\u00e9 e meu amor<br>n\u00e3o passem de um greiro.<br>\u2013 Que n\u00e3o passam \u2013.<br>Toma o meu greiro,<br>que n\u00e3o \u00e9 belo nem feio.<br>Aceita-o. Querou dar-lho,<br>na esperan\u00e7a de que a seu cora\u00e7\u00e3o fiel<br>eu n\u00e3o falhe,<br>e mais e mais, o seu rosto ilumine<br>o mundo.<br>Amen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E um apontamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rolam na net uns v\u00eddeos que me maravilham. N\u00e3o \u00e9 que seja adicto, mas gosto de os ver. S\u00e3o de meninos, meninos travessos, ainda que inconscientemente travessos, perceba-se. Quem me l\u00ea certamente j\u00e1 os viu. Ah, melhor, quem \u00e9 que em seus dias, se escusou de ser travesso? Quem nunca foi ao tarro do a\u00e7\u00facar surripiar um tarolo? Quem nunca pisou o risco ou ficou \u00e0 beira do abismo?<br>Pois, o que lhes quero dizer \u00e9 que por a\u00ed existem uns v\u00eddeos que s\u00e3o de ir \u00e0s l\u00e1grimas. S\u00e3o inocentes e, em geral, imagina-se, gravados pelos pap\u00e1s. Babados, \u00e9 claro. S\u00e3o travessuras inocentes, do mais estapaf\u00fardio que existir possa, e alguns deles a sair para o carote \u00e0 fam\u00edlia.<br>Explico-me: o \u00faltimo que vi era de artista. \u2013 Geralmente eles s\u00e3o de pendor art\u00edstico, porque pintores e poetas, somo-lo todos at\u00e9 aos dezoito! \u2013. O \u00faltimo, portanto, em pouco mais de meio minuto, mostrava-me o lindo servi\u00e7o de um garoto de uns dois ou tr\u00eas anitos: uma casa de banho pintada a la Picasso. Imagine Voc\u00ea que \u2013 imagine quem possa, mas era melhor ter visto! \u2013, servindo-se duma caneta de grosso risco vermelho, tudo, tudo, tudo \u00e0 altura do mi\u00fado, e tamb\u00e9m o ch\u00e3o e a loi\u00e7a sanit\u00e1ria, por dentro e por fora, fora sarrabiscado a vermelho! Eu ri-me, claro, porque o pintor nem a si se poupara, antes, despreocupado, embelezava roupa, m\u00e3os e p\u00e9s, bra\u00e7os e rostinho! O que eu me rio com estas pantominas! Alguns pais, choram de desespero, de j\u00fabilo, outros; o que se compreende. \u2013 Eu nem imagino o quanto possam custar certas recupera\u00e7\u00f5es, nem o tempo de limpeza que tal possa exigir! Enfim, ao que quero chegar: quem pode imaginar as tropelias que uma crian\u00e7a abandonada a si mesma possa fazer? \u2013. Por isso, com uma certa obviedade, neste dia da Senhora do Carmo, dei comigo a pensar na seguran\u00e7a e no aconchego do seu escapul\u00e1rio. E pedi-lhe:<br>Leva-nos, M\u00e3e, pela m\u00e3o<br>e jamais de n\u00f3s te distraias,<br>ou viramos pantomineiros ferozes.<br>Tem-nos sempre sob teu manso olhar,<br>ou ningu\u00e9m pode dizer<br>aonde possa ir parar.<br>O teu cora\u00e7\u00e3o imaculado<br>nos seduza e atraia<br>ou, todos e tudo,<br>sarapintaremos \u00e0 nossa volta.<br>\u00c1men.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>E mais tr\u00eas notas a fechar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Senhora Maria \u00e9 fiel de todos os dias. Menos naqueles em que vai para os filhos que traz esparzidos por mundo e meio. Qualquer coisa como meio ano c\u00e1, meio ano por onde Deus ou a prole a reclamam. N\u00e3o \u00e9 de espalhafatos nem de espaventos; simplesmente voa para onde seja preciso um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e e av\u00f3. E aqui ou ali, fica, discreta e assertiva, no seu cantinho. Sempre a sa\u00fado nem que seja com o olhar. Hoje, uns tr\u00eas meses depois, dei-lhe um abra\u00e7o.<br>\u2013 A Festa da Senhora do Carmo cando \u00e9?<br>\u2013 Ora, Maria\u2026<br>\u2013 N\u00e3o \u00e9 isso! Cando \u00e9 que voc\u00eas d\u00e3o o escapul\u00e1rio?<br>\u2013 J\u00e1 demos; ent\u00e3o! Foi na festa dela!<br>\u2013 E cando tornam a dar?<br>Desconfiado:<br>\u2013 Que se passa?<br>Ent\u00e3o, tomando-me as m\u00e3os nos calos das suas, chora-me:<br>\u2013 Senhor Padre, o meu filho est\u00e1 mal. Tem tr\u00eas filhos e cinco netinhos. Apareceu-lhe uma coisinha m\u00e1 na cabe\u00e7a. Queria mandar-lhe um escapul\u00e1rio para a B\u00e9lgica.<br>\u2013 Mas, o escap\u2026<br>\u2013 Ele n\u00e3o vai \u00e0 Missa, sabe. Mas \u00e9 meu filho. E acardito que tamb\u00e9m \u00e9 da Senhora do Carmo. Iria ela abandon\u00e1-lo na hora que mais precisa? Que m\u00e3e deixaria o filho por cobrir na hora mais fria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos dias depois da festa, os militares da Brigada de Tr\u00e2nsito vieram aqui rezar pelos colegas falecidos. No fim da Missa cumprimento-os. Reafirmo-lhes que Nossa Senhora do Carmo \u00e9 tamb\u00e9m sua Padroeira:<br>\u2013 N\u00f3s sabemos, Senhor Padre; porque julga que \u00e9 aqui que gostamos de rezar pelos nossos guerreiros ca\u00eddos?<br>\u2013 Pois; aqui estamos todos em boas m\u00e3os, de facto\u2026<br>\u2013 E sabe uma coisa: at\u00e9 ao ano de 1982, no dia da incorpora\u00e7\u00e3o, era-nos oferecida uma imagenzinha da nossa Padroeira. Mas agora deixaram-se disso\u2026<br>\u2013 Ent\u00e3o?!<br>\u2013 Entraram militares de outras religi\u00f5es, outros s\u00e3o agn\u00f3sticos; sabe como \u00e9\u2026<br>\u2013 Ok. Isto fica aqui entre n\u00f3s: a Senhora do Carmo aben\u00e7oa-vos a todos; e quer que todos sejais bons, bons profissionais em favor da lei e da grei, e que sejais santos ou n\u00e3o mereceis ser filhos e filhas dela. Pode ser?<br>Com os olhos h\u00famidos, responde o mais velho:<br>\u2013 Obrigado, Senhor Padre! Olhe, todos n\u00f3s precisamos de ouvir coisas assim. \u00c9 que n\u00f3s n\u00e3o somos daqui, nenhum \u00e9 s\u00f3 daqui. E o mais importante da vida \u00e9 ajudar os outros a seguir, seguros, o seu caminho!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vejo a Isabel h\u00e1 para mais de meio ano. Ou bem mais. N\u00e3o estranho porque lhe sei o marido gravemente enfermo. Vi-a hoje \u00e0 hora da comunh\u00e3o. Vinha a chorar. \u2013 Fala ela mais com l\u00e1grimas que com palavras \u2013. Apeteceu-me dar-lhe um abra\u00e7o, mas em vez dei-lhe P\u00e3o dos Anjos. Bem falta lhe h\u00e1-de fazer. No fim veio \u00e0 sacristia desfiar-me os dolorosos do ros\u00e1rio, enquanto dos olhos lhe esbarroncavam dois ribeiros. O seu ros\u00e1rio s\u00e3o mais que muit\u00edssimos mist\u00e9rios carregados montanha acima montanha abaixo. As l\u00e1grimas lavam-me a alma, garante-me. As suas, a mim tamb\u00e9m, afian\u00e7o-lhe. E de seguida garante-me ainda que a cruz \u00e9 um mist\u00e9rio feliz. Pura do\u00e7ura, pura gra\u00e7a. A cruz \u00e9 por ora a doen\u00e7a oncol\u00f3gica do marido, a inexplic\u00e1vel doen\u00e7a da filha, a doen\u00e7a do genro, o chumbo escolar da neta, a covide que a todos ca\u00e7ou, a vida virada do avesso. Como n\u00e3o sabia como parar aqueles ribeiros nasceu-me um \u00edmpeto de fugir dali, mas aguentei firme; afinal, n\u00e3o poucas vezes ouvi dizer \u2013 e vi \u2013 que a cruz mais nos ampara que nos derruba. E restei de atalaia, no escuro. No fim daquele chuveiro de l\u00e1grimas de luz \u2013 s\u00e3o de luz, garanto-vos \u2013 dou-lhe um abra\u00e7o, que nada mais tenho para dar-lhe. Nada, lamento-lhe; mas eis que o olhar se me descai para a mesinha da sacristia e vejo um escapul\u00e1rio que sei n\u00e3o estar ali h\u00e1 mais de dois segundos \u2013 donde veio n\u00e3o sei, garanto-me; s\u00f3 sei que antes ali n\u00e3o estava nem esteve \u2013. E dou-lho. \u00c9 para a sua filha, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e, digo.<br>\u2013 Posso-lhe dizer que vai da parte da M\u00e3e.<br>E eu que n\u00e3o posso dizer-lhe que bem acho que dela vem, contesto:<br>\u2013 Se n\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e, quem lho mandaria?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD I. O anjo da flauta Em dia da Senhora do Carmo, come\u00e7ado luminoso e quente, celebrava eu, pelas 09:00, no seu altar. 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