{"id":3077,"date":"2022-06-30T02:13:00","date_gmt":"2022-06-30T02:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3077"},"modified":"2022-06-27T07:31:19","modified_gmt":"2022-06-27T07:31:19","slug":"a-mais-bela-devocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-mais-bela-devocao\/","title":{"rendered":"A mais bela devo\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong>&nbsp;Na segunda sexta-feira ap\u00f3s o Corpo de Deus, n\u00f3s, cat\u00f3licos, celebramos a solenidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. No perfume desta solenidade nos encontramos, pois, bem imersos tamb\u00e9m nos dias do m\u00eas do mais terno Cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.&nbsp;<\/strong>Dizer devo\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer beleza de rela\u00e7\u00e3o e conhecimento, dedica\u00e7\u00e3o e entrega a&#8230;; no caso, ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O melhor uso de palavra t\u00e3o densa e t\u00e3o intensa s\u00f3 o aceitamos referir a Deus, por antonom\u00e1sia, dizemos. Afinal, s\u00f3 Deus merece de n\u00f3s uma rela\u00e7\u00e3o que se apelide de devo\u00e7\u00e3o, porque s\u00f3 Deus \u00e9 digno de receber o que \u00e9 apropriado dizer-se que s\u00f3 Dele \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que uma pessoa tenha devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus quer, pois, dizer, simplesmente, que se dedica a co-responder amorosamente a Jesus \u2014 pois \u00e9 isso que o cora\u00e7\u00e3o significa: a sede e a fonte do amor! Sim, um cora\u00e7\u00e3o pede um cora\u00e7\u00e3o, uma amor sonha com outro que se lhe corresponda, tal como um abismo sempre convoca um outro. Assim, dizer \u00abCora\u00e7\u00e3o de Jesus\u00bb \u00e9 o mesmo que dizer Jesus, Jesus aut\u00eantico, o Jesus hist\u00f3rico, do Evangelho. Logo, portanto, dizer:&nbsp;<em>\u00abCora\u00e7\u00e3o de Jesus, eu tenho confian\u00e7a em v\u00f3s!\u00bb<\/em>, \u00e9 dizer, com doce firmeza e terna determina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 em Jesus que confiamos, s\u00f3 em Jesus confiamos, tudo Lhe confiamos! \u00c9 dizer-lhe em bom portugu\u00eas: por que te amo, em ti espero e em ti confio, Cora\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong>&nbsp;A raiz primeira da devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus tem, pois, a ver com a Santa Incarna\u00e7\u00e3o, mormente com o que a confiss\u00e3o de f\u00e9 da Igreja considera ser o intenso amor do Filho que, incarnado, primeiro, nos amou, bem antes de n\u00f3s Lhe co-respondermos; desde sempre tanto nos amou que nasceu para nos amar, para nos beijar, e se se revestiu de carne da nossa carne foi para que n\u00e3o nos assust\u00e1ssemos quando nos dissesse que nos amava. E ama-nos (e amou-nos) sempre primeiro, sempre antes de sermos capazes de balbuciar uma resposta \u00e0 altura de t\u00e3o imenso, t\u00e3o original e t\u00e3o puro amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem poderia imaginar ou prever que Deus (nos) amasse at\u00e9 \u00e0 loucura, dando-nos, gratuito, um amor de entrega total, de bra\u00e7os sempre abertos, de valente cora\u00e7\u00e3o rasgado? Quem poderia imaginar um tal mart\u00edrio de amor? Um amor que ama cada um e cada uma de n\u00f3s \u2013 correspondamos-Lhe ou n\u00e3o \u2013, sem lamentar o corpo retalhado, o peito sem f\u00f4lego, o cora\u00e7\u00e3o ferido?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em boa verdade, n\u00f3s acreditamos que Jesus era e amava verdadeiramente como homem, verdadeiramente como Deus; e que s\u00f3 podendo dispor de Si, como, inteiro, s\u00f3 Deus e mais ningu\u00e9m o pode fazer, e sendo e sentindo, inteiramente e ao mesmo tempo, como humano, e como divino, s\u00f3 assim nos p\u00f4de amar para nos salvar. Amando-nos, ficou com o corpo desfeado, irreconhec\u00edvel e rasgado? Ficou; porque tal \u00e9 o custo de amar as rebeldes e mordazes formiguitas que somos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, pois, Jesus Cristo tinha cora\u00e7\u00e3o; o mais gentil, o mais terno e mais nobre de todos e que, como todos, batia, amava, sentia, se alegrava, rejubilava e sofria, como humano que era. E como Deus que era; que se Deus n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o, que amar dev\u00edamos, uma pedra? Pode um seixo despertar a amar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>&nbsp;De todos os disc\u00edpulos o que mais atento e mais pr\u00f3ximo esteve do cora\u00e7\u00e3o do Mestre foi Jo\u00e3o, o adolescente, depois Ap\u00f3stolo e Evangelista. Jo\u00e3o e Jesus eram, de facto, muito amigos, amigos \u00edntimos mesmo. Ali\u00e1s, a amizade de Jesus por Jo\u00e3o ia bem al\u00e9m da t\u00edpica de um mestre \u2014 era a de um amigo maior. Sabemos que, durante a \u00daltima Ceia, na Hora, a mais \u00e1lgida da nossa f\u00e9 \u2014 \u00e9 o pr\u00f3prio Jo\u00e3o quem o conta \u2014, o disc\u00edpulo, que era pouco mais que menino, adormilou-se e tombou a cabe\u00e7a no peito de Jesus e&#8230; E naquele confiado sono ouviu maravilhas e confid\u00eancias \u00fanicas do cora\u00e7\u00e3o do Amigo! O que ali ele ouviu, ele o sabe; o certo, por\u00e9m, \u00e9 que jamais algu\u00e9m, como Jo\u00e3o, sondou o cora\u00e7\u00e3o divino de Jesus, nem jamais algu\u00e9m aprendeu mais ou melhor do que o disc\u00edpulo ali bebeu!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong>&nbsp;Celebrar a festa do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9, pois, celebrar a Sua vida e ternura por n\u00f3s, por cada um e cada uma de n\u00f3s, seus (ingratos) amigos! Amigos sim, mas bem distantes da dedica\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a de Jo\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os primeiros mil anos da nossa f\u00e9 estiveram bem longe de se encantar com a devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, j\u00e1, por\u00e9m, em finais do s\u00e9culo XIII, S\u00e3o Boaventura (+1274) exclamava:&nbsp;<em>\u00abQuem existe que n\u00e3o amaria aquele cora\u00e7\u00e3o ferido? Quem n\u00e3o amaria em troca Dele, que tanto ama?\u00bb<\/em>. Este movimento, por ser quase s\u00f3 individual, est\u00e1, por\u00e9m, muito longe da devo\u00e7\u00e3o multitudin\u00e1ria que brotar\u00e1 por todos os poros das sociedades do s\u00e9c. XVIII.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong>&nbsp;Nas \u00faltimas cent\u00farias, a divulga\u00e7\u00e3o desta devo\u00e7\u00e3o \u2013 apesar de tudo, algo antiga&#8230; \u2013 muito deve a duas religiosas, uma das quais dedicou a sua vida e apostolado \u00e0 cidade do Porto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante dezassete anos e at\u00e9 ao dia da sua morte, na e depois da festa de S\u00e3o Jo\u00e3o Evangelista de 1673, Jesus apareceu diversas vezes a Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa visitandina de Paray-le-Monial, Fran\u00e7a. Tinha ela, \u00e0 data, 26 anos e acabara de entrar como monja, na Visita\u00e7\u00e3o, quando, durante a exposi\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento, Jesus lhe exp\u00f4s pela primeira vez o seu Cora\u00e7\u00e3o Dilacerado. Numa das apari\u00e7\u00f5es seguintes disse-lhe:&nbsp;<em>\u00abEis o cora\u00e7\u00e3o que tanto amou a humanidade. E em vez de gratid\u00e3o, recebo da maior parte da humanidade apenas ingratid\u00e3o!\u00bb<\/em>. Foi este o rastilho para que, por todo o mundo, se viesse a impor a devo\u00e7\u00e3o ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus alavancada num maior amor e devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Eucaristia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda ap\u00f3stola da devo\u00e7\u00e3o foi a Irm\u00e3 Maria do Divino Cora\u00e7\u00e3o, Maria Droste zu Vischering, origin\u00e1ria da mais elevada nobreza alem\u00e3, e que foi superiora no Convento do Bom Pastor, no Porto. Escrevendo sobre a sua voca\u00e7\u00e3o, disse:&nbsp;<em>\u00abEsperei nesse dia&nbsp;<\/em>[o da Primeira Comunh\u00e3o]<em>&nbsp;a gra\u00e7a da voca\u00e7\u00e3o religiosa, mas em v\u00e3o\u2026\u00bb<\/em>; tal sucederia quando aos 15 anos escutou uma prega\u00e7\u00e3o sobre a passagem b\u00edblica que diz:&nbsp;<em>\u00abAmar\u00e1s o Senhor teu Deus com todo o teu cora\u00e7\u00e3o e com toda a tua alma\u00bb<\/em>. Atra\u00edda desde a inf\u00e2ncia pelo Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, Maria Droste sempre uniu a devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus com a devo\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo Sacramento, conforme ela pr\u00f3pria declarou:&nbsp;<em>\u00abNunca pude separar a devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus da devo\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo Sacramento; e nunca serei capaz de explicar como e quanto o Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus se dignou favorecer-me no Sant\u00edssimo Sacramento da Eucaristia\u00bb<\/em>. Depois de outras dilig\u00eancias, no dia 6 de Janeiro de 1899, ela enviou uma carta ao Papa pedindo-lhe que o mundo fosse consagrado ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u2013 tal como Jesus lhe sugerira \u2013 e se observassem as primeiras sextas-feiras do m\u00eas em sua homenagem e agradecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Irm\u00e3 Maria do Divino Cora\u00e7\u00e3o morreu, por fim, quando a Igreja entoava as primeiras v\u00e9speras do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, a 8 de Junho de 1899. No dia seguinte, o Papa Le\u00e3o XIII consagrou o mundo ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7.<\/strong>&nbsp;Em 2018 o Papa Francisco declarou ser esta devo\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>\u00abn\u00e3o \u00e9 um santinho para os devotos, mas o cora\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o [crist\u00e3], o cora\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9 porque Cristo se fez pequeno, escolhendo humilhar-se a si pr\u00f3prio e aniquilar-se at\u00e9 \u00e0 morte na cruz\u00bb<\/em>. O Papa Le\u00e3o XIII, por sua vez, resumira j\u00e1 a devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus em dois actos ou movimentos devidos \u00e0 nossa vontade: consagra\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acto de consagra\u00e7\u00e3o brota do reconhecimento de Jesus como o Senhor que nos outorga toda a ternura do seu amor e nos pede que s\u00f3 nele confiemos, fazendo tudo por amor a Ele e rejeitando tudo que Lhe entristece e magoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez, o acto de repara\u00e7\u00e3o \u00e9 o reconhecimento de que aquele Cora\u00e7\u00e3o que tanto nos ama e que, em paga do seu amor por n\u00f3s, ainda hoje recebe repetidas ingratid\u00f5es, indiferen\u00e7as e ultrajes, mormente dos seus maiores amigos, deve suscitar-nos um redobrado amor e dedicada ternura expressos na proximidade e amizade a Jesus, na participa\u00e7\u00e3o da Eucaristia, na intensifica\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o e na visita a Jesus Solit\u00e1rio no sacr\u00e1rio. Assim seja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.<\/strong>&nbsp;Eis, pois, a mais bela devo\u00e7\u00e3o entre as devo\u00e7\u00f5es, porque Jesus, o mais belo dos amigos, faz do amor por n\u00f3s o seu mais belo atributo e sinal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;Na segunda sexta-feira ap\u00f3s o Corpo de Deus, n\u00f3s, cat\u00f3licos, celebramos a solenidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. 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