{"id":3075,"date":"2022-06-30T02:14:00","date_gmt":"2022-06-30T02:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3075"},"modified":"2022-06-27T07:30:16","modified_gmt":"2022-06-27T07:30:16","slug":"a-palavra-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-da-violencia\/","title":{"rendered":"A palavra da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A B\u00edblia \u00e9 uma auto-estrada de sentido para a vida. Cont\u00e9m textos que, pelas circunst\u00e2ncias que os ditaram, pelo tema que tratam ou pela significa\u00e7\u00e3o que abrem para o presente, est\u00e3o destinados a inspirar a vida de sempre. \u00c9 o caso da bem conhecida hist\u00f3ria de Caim e Abel no cap\u00edtulo 4 do G\u00e9nesis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador hebraico tinha experi\u00eancia de hist\u00f3rias humanas escritas com sangue. Quando os seus actores eram irm\u00e3os de sangue, essas hist\u00f3rias reflectiam o crime tenebroso. Como entender o fratric\u00eddio? Para responder ao \u00f3dio mortal entre irm\u00e3os biol\u00f3gicos, o autor elevou ao n\u00edvel do divino as rela\u00e7\u00f5es estruturantes entre irm\u00e3os. F\u00ea-las remontar ao pr\u00f3prio Deus, dizendo que foi Ele que as criou nas origens de tudo, como princ\u00edpio e fundamento da ideal conviv\u00eancia social e familiar. A fraternidade biol\u00f3gica aparece a\u00ed institu\u00edda por Deus (visto como criador em todos os relatos at\u00e9 G\u00e9nesis 11,9). E os dois protagonistas Caim e Abel, pelo contexto \u2013 das origens da vida humana \u2013, pela estrutura do relato e pela sua linguagem simb\u00f3lica, n\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ricos. Com a ac\u00e7\u00e3o invasiva e o sil\u00eancio simb\u00f3licos querem iluminar aspectos custosos da vida humana. P\u00f5em a nu a radical contradi\u00e7\u00e3o que pode tomar posse do cora\u00e7\u00e3o humano, tornando&nbsp;<em>o homem<\/em>&nbsp;<em>lobo para o homem<\/em>. De facto, a imaginada personagem Caim n\u00e3o respeita o irm\u00e3o, por estar humana e geograficamente muito perto, cont\u00edguo, fazendo-lhe sombra na casa comum. A proximidade de Abel tornava-o inimigo e levou Caim \u00e0 invas\u00e3o fratricida do espa\u00e7o do irm\u00e3o. O muito que tinha n\u00e3o lhe bastava. Sentia-se constrangido, incomodado na sua vida autocentrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Realmente, a fraternidade \u00e9-lhe dada por Abel. Antes de ele nascer, Caim nem tinha irm\u00e3o. Abel \u00e9 que faz dele irm\u00e3o. Ao s\u00ea-lo, Caim&nbsp;<em>era para<\/em>&nbsp;o irm\u00e3o, assim determinado e definido por Deus, que lhe diz: \u201cPor que est\u00e1s zangado e de rosto abatido? Se procederes bem [tratando o irm\u00e3o como irm\u00e3o], poder\u00e1s voltar a ergu\u00ea-lo\u2026\u201d Mas Caim perde de vista o&nbsp;<em>bem<\/em>, cego para a fraternidade. N\u00e3o tem olhos para o irm\u00e3o. Perde o sentido do irm\u00e3o e da ordena\u00e7\u00e3o divina dos la\u00e7os humanos. N\u00e3o quer ter irm\u00e3o, nem como vizinho: \u201cN\u00e3o sei dele; sou porventura o guardi\u00e3o do meu irm\u00e3o?\u201d Com esta resposta ir\u00f3nica, denota cinismo e indiferen\u00e7a para com o alcance da rela\u00e7\u00e3o fraterna. N\u00e3o sente o rosto do irm\u00e3o a dizer-lhe que o seu&nbsp;<em>eu<\/em>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 tudo o que existe no mundo e que se deve medir com as exig\u00eancias do&nbsp;<em>tu<\/em>&nbsp;do irm\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 de notar que, segundo a l\u00f3gica narrativa, Caim n\u00e3o tem nada contra a presen\u00e7a de Deus. At\u00e9 lhe faz ofertas cultuais. O que n\u00e3o suporta \u00e9 a exist\u00eancia e a presen\u00e7a daquele que o relato figurativo lhe aponta como&nbsp;<em>irm\u00e3o<\/em>. N\u00e3o investiu no irm\u00e3o. As suas ofertas a Deus foram religi\u00e3o vaporosa que investiu na radical aniquila\u00e7\u00e3o da pessoa, ao perverter a sua ess\u00eancia pr\u00f3pria, a sua estrutural rela\u00e7\u00e3o fraterna. Investindo contra o irm\u00e3o e matando-o, matou o outro de si pr\u00f3prio, tornando-se o deserto de si pr\u00f3prio: ficou s\u00f3, com o seu remorso. \u00c9 esse o significado da sua \u201cexpuls\u00e3o da terra\u201d por parte de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relato figurativo deixa ver a fraternidade biol\u00f3gica como decis\u00e3o divina que compromete todas as decis\u00f5es existenciais que os humanos tomam e com as quais se aceitam ou se recusam mutuamente no aglomerado familiar. Pondo Deus a pedir contas a Caim do irm\u00e3o Abel (\u201conde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u201d), este relato de cria\u00e7\u00e3o sugere que a guarda do irm\u00e3o pelo irm\u00e3o \u00e9 querida por Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para esta guerra contra o irm\u00e3o de sangue n\u00e3o aparece outra raz\u00e3o que n\u00e3o seja a prepot\u00eancia. O texto hebraico s\u00f3 diz que \u201cCaim disse a Abel, seu irm\u00e3o [as tradu\u00e7\u00f5es antigas acrescentam:&nbsp;vamos para o descampado]. E aconteceu que, quando estavam no descampado, Caim se lan\u00e7ou sobre Abel, seu irm\u00e3o, e o matou\u201d. \u00c9 uma agress\u00e3o especial e extrema que simboliza o pior do ser humano enquanto aniquilador de humanidade; simboliza a sua pot\u00eancia mal\u00e9fica, destruidora at\u00e9 do irm\u00e3o. \u00c9 a linha vermelha aonde o verdadeiro humanismo nunca deveria chegar e para al\u00e9m da qual n\u00e3o se pode dizer mais nada. O \u00f3dio de Caim pelo seu irm\u00e3o, porque \u00e9 seu irm\u00e3o, \u00e9 o excesso do \u00f3dio: \u00e9 o que n\u00e3o deveria existir, porque o \u00f3dio infecta a alma e destr\u00f3i a pessoa. Tamb\u00e9m \u2018diz\u2019 o total \u201cfalhan\u00e7o\/fracasso\u201d (<em>\u1e25<\/em><em>atta\u2019t<\/em>) da voca\u00e7\u00e3o do ser humano, que se diz criado para ser irm\u00e3o, profissionalmente integrado (Caim agricultor \u2013 Abel pastor), mas se torna \u201cfugitivo\u201d de si pr\u00f3prio e da consci\u00eancia de \u00abn\u00e3o realizado\u00bb humanamente. Pondo Caim a confessar a Deus \u201co meu crime \u00e9 demasiado grave para o poder suportar\u201d, o narrador sublinha o desespero dram\u00e1tico do fratricida: o ser&nbsp;<em>humano<\/em>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 capaz de aguentar e gerir a monstruosidade de matar o irm\u00e3o, sangue do seu sangue; essa maldade radical abruma o fratricida com uma carga insuport\u00e1vel, excessiva em consequ\u00eancias: \u201cTenho de esconder-me da Tua presen\u00e7a\u201d (os tradutores gregos e a&nbsp;<em>Vulgata<\/em>&nbsp;latina entenderam o verbo&nbsp;<em>na<\/em><em>\u1e65<\/em><em>a\u2019<\/em>&#8211;<em>suportar<\/em>&nbsp;com o poss\u00edvel sentido de&nbsp;<em>perdoar<\/em>: \u201ca minha culpa \u00e9 demasiado grave para ser perdoada\u201d). Porque perde a humanidade, o fratricida n\u00e3o consegue suportar o olhar de Deus omnipresente: prova permanentemente o fel vertido pela consci\u00eancia, como o livro dos Prov\u00e9rbios dita clamorosamente (28,1): \u201cO malvado foge sem que o persigam\u201d, mesmo parado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A B\u00edblia \u00e9 uma auto-estrada de sentido para a vida. 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