{"id":3053,"date":"2022-05-31T04:12:00","date_gmt":"2022-05-31T04:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3053"},"modified":"2022-05-27T16:13:05","modified_gmt":"2022-05-27T16:13:05","slug":"palavras-cruzadas-na-visitacao-de-maria-a-isabel-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavras-cruzadas-na-visitacao-de-maria-a-isabel-ii\/","title":{"rendered":"Palavras cruzadas na Visita\u00e7\u00e3o de Maria a Isabel \u2013 II"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na linha de interpreta\u00e7\u00e3o que h\u00e1 um m\u00eas d\u00e1vamos da visita de Maria a Isabel, ela aparece como visita de Jesus ao seu povo pela media\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, envolvida neste mist\u00e9rio: \u00e9 Deus a visitar o seu povo por meio de Jesus. Se Maria nasce no tempo da antiga alian\u00e7a e morre na nova, a sua visita a Isabel pode simbolizar o di\u00e1logo entre o Novo Testamento e o Antigo, que incorporam o mesmo e \u00fanico projeto salvador de Deus para a humanidade. Quando a nova alian\u00e7a (representada por Jesus no seio de Maria) sa\u00fada a antiga (representada por Jo\u00e3o no seio de Isabel) e a completa, a antiga \u201csalta de alegria\u201d. A sauda\u00e7\u00e3o de Maria a Isabel \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o definitiva da nova alian\u00e7a \u00e0 antiga. O significado dessa cena-charneira da <em>hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 determinante na viragem da antiga para a nova alian\u00e7a. Foi percebido pela Isabel \u201ccheia do Esp\u00edrito Santo\u201d: \u201cBendita \u00e9s tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre\u201d. Assim o <em>magnificat<\/em> surge da m\u00e3e do Messias, primeira m\u00e3e da nova alian\u00e7a, como resposta \u00e0 m\u00e3e da \u00faltima grande personagem da antiga alian\u00e7a, que foi o arauto do Messias.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esta interpreta\u00e7\u00e3o do relato tem fundamento, ficaria refor\u00e7ada ao pensar que nos relatos da inf\u00e2ncia, com inumer\u00e1veis refer\u00eancias expl\u00edcitas e impl\u00edcitas, Lucas queria mostrar que Jesus veio dar cumprimento aos conte\u00fados humanos e religiosos do Antigo Testamento: veio cumprir o projeto de Deus para a humanidade e come\u00e7ou o cumprimento pleno j\u00e1 na conce\u00e7\u00e3o e no nascimento. Por isso, Isabel declara a Maria: \u201ccumprir-se-\u00e3o at\u00e9 ao fim as coisas que te foram ditas da parte do Senhor\u201d, isto \u00e9, as coisas ditas pelo \u2018anjo da anuncia\u00e7\u00e3o\u2019, os acontecimentos e palavras relativas a Jesus enquanto realizador do des\u00edgnio divino j\u00e1 descrito no Antigo Testamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato completo deste encontro \u2013 que inclui o <em>magnificat<\/em> \u2013 encerra o lugar de Maria no quadro da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e todo o mist\u00e9rio das suas rela\u00e7\u00f5es: a de Maria com a Palavra de Deus, a de Maria com o pr\u00f3prio Deus, a de Maria com Jesus, a de Maria com a outra m\u00e3e, a de Maria na sua maternidade, a de Maria na sua f\u00e9, a de Maria na sua obediente resposta \u00e0 Palavra de Deus: \u201cfa\u00e7a-se em mim\u201d. Foram estas rela\u00e7\u00f5es que suscitaram e fundamentaram a devo\u00e7\u00e3o a Maria ao longo das muitas \u201cgera\u00e7\u00f5es que a proclamaram feliz\/bem-aventurada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato p\u00f5e-nos frente ao Mist\u00e9rio. De Nazar\u00e9, Maria levava para casa da parente a Palavra de Deus, que ia ganhando textura, nervos, sangue e vida no seu seio de m\u00e3e e que ela iria dar \u00e0 luz como Mist\u00e9rio. Mas o relato tamb\u00e9m atravessa as ondas psicol\u00f3gicas, os n\u00f3s e os la\u00e7os das rela\u00e7\u00f5es humanas e familiares. A sauda\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o de bondade e de admira\u00e7\u00e3o ajudaram a descobrir o Mist\u00e9rio e inundavam de mist\u00e9rio a vida familiar e social. Para Lucas, o Mist\u00e9rio \u00e9 Jesus que vinha escondido no seio de Maria. Mas revela o sentido das grandes e pequenas coisas da vida quotidiana, quando a <em>f\u00e9<\/em> lhes d\u00e1 horizonte de salva\u00e7\u00e3o, como fez em Maria, que teve f\u00e9 inquebrant\u00e1vel no Mist\u00e9rio que veio at\u00e9 ela: \u201cfeliz de ti que <em>acreditaste<\/em>\u2026\u201d. Impregnada da Palavra de Deus, Maria foi \u00e0 pressa ter com a fam\u00edlia. Estava habitada por Jesus: havia urg\u00eancia em dar testemunho dele, em forma de <em>evangelho<\/em>, partilhando essa alegria na amizade com os mais \u00edntimos, os familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>O de Isabel e o de Maria s\u00e3o dois c\u00e2nticos cruzados, retrato da alma de duas mulheres gr\u00e1vidas, que partilham sentimentos de alegria e fecundidade, eco das rela\u00e7\u00f5es pessoais e consagra\u00e7\u00e3o de todos os encontros humanos. No relato da anuncia\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica o Mist\u00e9rio transcendente era vivido s\u00f3 por Maria. Agora, no epis\u00f3dio da visita\u00e7\u00e3o comunica esse Mist\u00e9rio \u00e0 fam\u00edlia, que o reconhece e louva. Na fam\u00edlia, Isabel \u00e9 a primeira pessoa das muitas \u201cgera\u00e7\u00f5es que a proclamar\u00e3o <em>feliz<\/em>\u201d: \u201c<em>feliz<\/em> de ti que acreditaste\u2026\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Significativa liga\u00e7\u00e3o: <em>feliz<\/em> porque <em>acreditaste<\/em>. Acreditar contribui para ser feliz. Tornou Maria ativa levando-a at\u00e9 \u00e0 fam\u00edlia. Exige valentia, pois o caminho da vida \u00e0s vezes tem de ser feito no meio da noite, no deserto, com sabor a sil\u00eancio, nas bordas do absurdo e do sem-sentido. Maria \u00e9 feliz porque acreditou na Palavra, que deu cores de beleza e de generosidade \u00e0 vida! A sua f\u00e9 sustentou a sua hist\u00f3ria: convidou-a a superar barreiras, na abertura a Deus, para que Ele escrevesse a sua hist\u00f3ria nela.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, estas duas figuras da inf\u00e2ncia de Jo\u00e3o Baptista e de Jesus, que s\u00e3o as respetivas m\u00e3es que deram os seus filhos ao mundo, mant\u00eam altos os valores e mant\u00eam viva a ess\u00eancia da humanidade, aviltada e rebaixada por pessoas e grupos, come\u00e7ando logo pelos poderosos que, para manter o pr\u00f3prio poder e os seus interesses, mataram Jo\u00e3o e Jesus. Se o despotismo \u00e9 pai da maldade, a humildade \u00e9 m\u00e3e da b\u00ean\u00e7\u00e3o: \u201cBendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre\u201d. A b\u00ean\u00e7\u00e3o, <em>dizer<\/em> e desejar <em>bem<\/em>, \u00e9 a for\u00e7a de vida que vem do Alto e influencia a vida eficaz e positivamente. Declama a preval\u00eancia e a vit\u00f3ria do bem sobre o mal. Isabel e Maria, que s\u00f3 se gloriam da pr\u00f3pria humildade (\u201cquem sou eu para que venha a mim a m\u00e3e do meu Senhor?\u2026 olhou para a humildade da sua serva\u201d), exalam e exaltam a bondade, a simplicidade e a alegria, fazendo acreditar que o futuro da humanidade n\u00e3o ser\u00e1 de viol\u00eancia, guerra e vilip\u00eandio da dignidade humana, mas ser\u00e1 de solidariedade e compaix\u00e3o. O encontro entre Maria e Isabel refunda e fecunda sinfonicamente a comunidade humana em vista da fraternidade universal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na linha de interpreta\u00e7\u00e3o que h\u00e1 um m\u00eas d\u00e1vamos da visita de Maria a Isabel, ela aparece como visita de Jesus ao seu povo pela media\u00e7\u00e3o da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3040,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3053"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3054,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions\/3054"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}