{"id":3050,"date":"2022-05-31T04:10:00","date_gmt":"2022-05-31T04:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3050"},"modified":"2022-05-27T16:11:55","modified_gmt":"2022-05-27T16:11:55","slug":"em-tempos-de-desligada-agitacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/em-tempos-de-desligada-agitacao\/","title":{"rendered":"Em tempos de desligada agita\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp; Nestes dias pascais, logo, superlativamente luminosos, o olhar da alma foge-me e firma-se, repetidamente e sem eu querer, na leitura do livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algures, no meio de tanta luz, logo depois duma missa, atiro-me para a estrada e, na cabe\u00e7a \u2013 ou ser\u00e1, no cora\u00e7\u00e3o? \u2013, as palavras do cap\u00edtulo 15 perseguem-me bolindo-me com as ideias; n\u00e3o me ferem, entendam-me bem, bolem-se-me, quer dizer, viram-se para aqui e viram-se para ali em sereno desconforto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 t\u00e3o actual esta leitura!<\/p>\n\n\n\n<p>O que verifico, em primeiro lugar, \u00e9 que aquele livro narra as ac\u00e7\u00f5es dos Ap\u00f3stolos, n\u00e3o dos anjos; e que foi a mulheres e homens pecadores \u2013 e mais uma vez, n\u00e3o a anjos \u2013 a quem o andar da Igreja ficou encomendado pelo Ressuscitado. O que j\u00e1 n\u00e3o sei \u00e9 como teria sido a hist\u00f3ria se fic\u00e1ssemos sob as asas e o olhar daqueles; mas como foi sobre o andar e o olhar de humanos, por que haveremos de admirar-nos se levamos vinte s\u00e9culos caminhando aos ziguezagues? \u00c9 tudo quanto noto: ziguezagues. Ontem e hoje, ziguezagues. Haveria, por\u00e9m, outra maneira de caminhar e de acertar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp; Em que me firmo eu, pois, ali no cap\u00edtulo 15 dos Actos? Leio ali que a comunidade crist\u00e3 de Antioquia, \u2013 na S\u00edria; actual, Turquia, uma cidade conhecida por ser <em>\u00abbela e dourada\u00bb<\/em> e <em>\u00abrainha do oriente\u00bb <\/em>\u2013 era uma comunidade de f\u00e9 pujante, o que n\u00e3o nos deve admirar. Valha o facto da cidade ser uma enorme colmeia humana de mais meio milh\u00e3o de habitantes, n\u00famero bastante consider\u00e1vel para uma metr\u00f3pole do s\u00e9c. I. Era, ali\u00e1s, um verdadeiro emp\u00f3rio comercial, desportivo, art\u00edstico e tur\u00edstico. Foi, pois, ali que nasceu uma comunidade crist\u00e3 muito viva, que se mostrou capaz de se evidenciar como plataforma de envio mission\u00e1rio. Foi tamb\u00e9m ali que, primeiramente, os disc\u00edpulos do Caminho foram chamados crist\u00e3os, isto \u00e9, disc\u00edpulos de Cristo. Honra lhes seja, pois.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das virtualidades que decorrem do seu estrat\u00e9gico posicionamento geo-pol\u00edtico e financeiro, a comunidade de Antioquia tinha l\u00edderes verdadeiramente capazes e audazes, e nos demais, almas ousadas e ardentes; ou seja, tudo ali conflu\u00eda para que naquela terra pr\u00f3spera o Evangelho desse bons frutos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.&nbsp; <\/strong>Nunca seremos suficientemente gratos a Antioquia por ali termos sido baptizados com o honroso nome de crist\u00e3os, e por ali terem acolhido Paulo, e o terem enviado mundo fora a evangelizar, lado a lado, com Barnab\u00e9. Isto parece-me duma aud\u00e1cia t\u00e3o corajosa, de cujo intr\u00e9pido impulso ainda hoje beneficiamos. A maneira como rezaram, como impuseram as m\u00e3os aos mission\u00e1rios, e como os abra\u00e7aram antes de partirem, ainda hoje me aconchega! Isto, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 tudo, porque:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.&nbsp; <\/strong>A maneira como encararam e enfrentaram os problemas tamb\u00e9m me estremece. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que, estando a comunidade em paz, trabalhando, rezando e missionando em paz, chegaram uns irm\u00e3os, <em>\u00abvindos da Judeia\u00bb<\/em>, e come\u00e7aram a confundir os cora\u00e7\u00f5es ensinando diferentemente do que ali se vivia?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que n\u00e3o vivi o filme original, s\u00f3 posso imaginar o que queira dizer a frase: <em>\u00abIsto provocou muita agita\u00e7\u00e3o e uma discuss\u00e3o intensa\u00bb<\/em>! Era o que eu imaginava: ainda bem que as comunidades crist\u00e3s caminham com p\u00e9s, e n\u00e3o com asas; pensam com cabe\u00e7as e cora\u00e7\u00f5es humanos, e n\u00e3o de anjos!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp; Ah! E como agrade\u00e7o ao Esp\u00edrito Santo esta frase: <em>\u00abIsto provocou muita agita\u00e7\u00e3o e uma discuss\u00e3o intensa\u00bb<\/em>! Sim, meus senhores, n\u00f3s discutimos, n\u00f3s discutimos! Sim, senhores e senhoras conformistas, ao contr\u00e1rio dos anjos, n\u00f3s, pobres disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Cristo, discutimos intensamente! Qu\u00e3o intensamente? Isso j\u00e1 deixo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o de cada um; uma coisa garanto, por\u00e9m: por vezes, \u00e9 mais que acaloradamente, j\u00e1 que aqui n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel que sejamos patos mudos ou ovelhas que se deixam tosquiar e encaminhar para o matadouro s\u00f3 porque sim, s\u00f3 porque apetece ao iluminado de turno&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Digo, que agrade\u00e7o tal frase porque tal me traz outra certeza: aqui \u2013 e este aqui \u00e9 em todos os lugares, muitos deles pequeninos e long\u00ednquos (mas nunca isolados), e tantos, enormes e capazes (mas nunca suficientes em si mesmos) \u2013 aqui, dizia eu, <em>\u00abdecidimos n\u00f3s e o Esp\u00edrito Santo\u00bb<\/em>; ou, ao contr\u00e1rio: <em>\u00abO Esp\u00edrito Santo e n\u00f3s\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.&nbsp; <\/strong>Eu que nada sei e apenas algo entrevejo desde a nesga da janela da minha cela, quero garantir-vos uma coisa: o que trazia na ponta da caneta para aqui reflectir era: como ser-se crist\u00e3o em contexto p\u00f3s-pand\u00e9mico, que \u00e9 o que ultimamente tanto me ocupa a ora\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito. Enfim, nesta hora que \u00e9 a nossa, que desafios nos sobram, e ora nos urgem? Que trilhos haveremos de percorrer: aqueles que entendemos ou almejamos, ou os que o Esp\u00edrito nos aponta? Como haveremos de os percorrer, s\u00f3s \u2014 e nunca um crist\u00e3o s\u00f3 \u00e9 verdadeiro crist\u00e3o! \u2013, com os perfeitos, ou com os estropiados da vida e da f\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta \u00e9 que eu a n\u00e3o sei sarrabiscar \u2013 soubera-o eu&#8230; \u2013, o que, por\u00e9m, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o me pre-ocupe. Que sim, ocupa. Sim, preocupa. E perdoem-me se n\u00e3o acertar (e se acharem bem, at\u00e9 poderemos discutir isso&#8230; pacificamente, claro.), mas parece-me que:<\/p>\n\n\n\n<p><em>a) <\/em>Da ora\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o e equa\u00e7\u00e3o que urgem fazer-se, n\u00e3o podemos jamais excluir quem j\u00e1 tudo sabe e tudo antev\u00ea, o Esp\u00edrito Santo. \u00c9 lei que a busca do espiritual e a de sentido aumentem em tempo de crise. Actualmente, por\u00e9m, essa demanda parece n\u00e3o desejar atravessar os seculares umbrais das igrejas, isto \u00e9, a maioria j\u00e1 n\u00e3o julga necess\u00e1rio prop\u00f4-la dentro dos \u00e1trios sagrados; da\u00ed que mais me pare\u00e7a que o Esp\u00edrito Santo tem de fazer parte, isto \u00e9, deve ser incomodado e invocado e deve acompanhar, a nossa busca;<\/p>\n\n\n\n<p><em>b)<\/em> \u00e9 de f\u00e1cil verifica\u00e7\u00e3o que uma parte consider\u00e1vel dos crist\u00e3os, jovens e menos jovens, vazou da vida da Igreja. Os jovens, porque sim \u2013 e t\u00eam, tantas raz\u00f5es os seus sins\u2026; os velhos porque, entretanto, descobriram que a tudo podem assistir e usufruir desde o sof\u00e1 e em pantufas! Em tempo de individualismo e descompromisso, cada um \u2013 pensa-se \u2013, vai ao que lhe d\u00e1 jeito, como e quando jeito lhe d\u00e1, se lhe d\u00e1 jeito&#8230; Isto \u00e9, vai-se \u00e0 fonte, a qualquer fonte, e bebe-se se se tem sede, sem se perguntar pelo selo de qualidade, que o que interessa \u00e9 que mate a sede, mesmo se, bebendo, ela, afinal, aumenta. Obviamente, por\u00e9m, ainda hoje, nem tudo o que luz \u00e9 \u00e1gua;<\/p>\n\n\n\n<p><em>c) <\/em>\u00e9 not\u00e1vel como hoje t\u00e3o rapidamente nos acomodamos e amodorramos; isto \u00e9, \u00e9 assustador como, entre n\u00f3s, se perdeu a no\u00e7\u00e3o de que devamos caminhar juntos rumo a algo, que nos devamos ajudar a rumar juntos a uma meta que est\u00e1 para al\u00e9m da espuma dos dias, para al\u00e9m do conforto e do gozo que comprar se possa com o nosso pec\u00falio! Para os mais distra\u00eddos, Francisco resumiu isto, fulgurantemente, numa frase: Estamos todos no mesmo barquinho! No barquinho lastramos todos, remamos todos, salvamo-nos ou perecemos todos! E se o barco perigar n\u00e3o ter\u00e1 de ser s\u00f3 Pedro a ter de berrar por quem nos salve! Cuidado, por\u00e9m, senhores; reparem: n\u00e3o v\u00e3o pelo que digo, mas cuidem bem que h\u00e1 uma vida eterna para garantir! Sim, h\u00e1 que garantir que o barco chegue \u00e0 outra margem e, \u00e9 \u00f3bvio, que n\u00e3o pode chegar l\u00e1 vazio ou s\u00f3 com o timoneiro;<\/p>\n\n\n\n<p><em>d) <\/em>a mim agrada-me a austera liturgia cat\u00f3lica onde nasci, me banhei e cresci, e onde me refresco e nado. Mas compreendo bem, sobretudo nestes tempos acendrados, aqueles que a desejam mais jubilosa. E tamb\u00e9m compreendo bem quem, cansado da mesmidade dos ritos, anseia por gestos que os confrontem, face a face, com Cristo, embora n\u00e3o talvez com as chagas dos pobres; e compreendo bem os que clamam por sil\u00eancio e contempla\u00e7\u00e3o e dias de retiro, mesmo sem liga\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade. Mas, e o resto?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong>&nbsp; Certos de que o futuro a Deus pertence e de que o Esp\u00edrito Santo j\u00e1 o entrev\u00ea, e certos ainda de que entre n\u00f3s o caminho se ir\u00e1 fazendo, sempre em ziguezague, uma coisa me exijo e aos demais companheiros pe\u00e7o: N\u00e3o se exclua Deus de entre n\u00f3s, das nossas ruas, pra\u00e7as, empresas, recreios ou casas. N\u00e3o queira ningu\u00e9m encarcer\u00e1-lo no c\u00e9u ou privatiz\u00e1-lo na terra. E lembremos: n\u00f3s, na Igreja, nunca caminhamos s\u00f3s, nunca, que caminhar-se s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 fazer caminho; aqui somos sempre muitos tus, um dos quais, Deus. E todos a caminho. Talvez, talvez, quem sabe, as pessoas deste tempo estejam muito cansadas de caminhar \u2013 e que a pandemia acentuou o cansa\u00e7o e evidenciou maleitas e o carcomido das nossas comunidades, disso n\u00e3o duvido\u2026 \u2013, ou j\u00e1 n\u00e3o saibam o caminho de regresso \u00e0 igreja, ou j\u00e1 nem distingam tal edif\u00edcio dos demais. Talvez que aqui j\u00e1 n\u00e3o haja calor e fofura. Talvez a igreja-edif\u00edcio j\u00e1 n\u00e3o seja o o\u00e1sis que se busque e o que melhor sirva \u00e0 sede espec\u00edfica de cada um. Ou, talvez, j\u00e1 n\u00e3o saibamos nada de sede e de \u00e1guas vivas. Talvez. E se assim for, ainda mais r\u00e1pido urge sair como brigada avan\u00e7ada capaz de ouvir e sarar os que deambulam e jazem cansados e desvalidos nas bermas dos caminhos. Uma coisa \u00e9 certa, o desejo de sentido n\u00e3o desapareceu, antes, reclama, de n\u00f3s, uma proximidade que acolha a singularidade de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.&nbsp; <\/strong>Do que leio nas palavras de Jesus no evangelho deste domingo VI de P\u00e1scoa (Jo 14:23-29), \u00e0 Igreja enquanto n\u00f3s, isto \u00e9, enquanto comunh\u00e3o de tus, cabe-nos guardar a Palavra, amar como Deus nos ama, acolher o que o Esp\u00edrito de Jesus nos diz ou recorda, e permanecer na paz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 grande o desafio, convenhamos. Aceito que me digam que s\u00e3o precisos caminhos novos, mas uma coisa \u00e9 certa: enquanto por c\u00e1 sentirmos a aus\u00eancia de Jesus, \u00e9 o corpo da Igreja reunida e o Esp\u00edrito quem discerne o caminho a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.&nbsp; <\/strong>E \u00e9 que no caminho para Jeric\u00f3 jaz um homem roto no corpo e na alma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp; Nestes dias pascais, logo, superlativamente luminosos, o olhar da alma foge-me e firma-se, repetidamente e sem eu querer, na leitura do livro dos Actos dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3051,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3050","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3050"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3052,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3050\/revisions\/3052"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3051"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}