{"id":3028,"date":"2022-04-30T05:05:00","date_gmt":"2022-04-30T05:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3028"},"modified":"2022-04-29T16:06:23","modified_gmt":"2022-04-29T16:06:23","slug":"e-nao-e-que-tinha-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/e-nao-e-que-tinha-fe\/","title":{"rendered":"E n\u00e3o \u00e9 que tinha f\u00e9!"},"content":{"rendered":"\n<p><br><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eis-nos em P\u00e1scoa. Ainda n\u00e3o a definitiva, mas a sempre urgente e real passagem de bem a melhor; ou, de quase bem para melhor. Vamos passando, vamos indo, \u00e9 o que por agora se me ocorre deste processo.<br>Cada novo ano nos traz, algures na Primavera, a grande festa da f\u00e9. Ora se por aqui a celebramos hoje, tal significa que ainda a n\u00e3o celebramos em plenitude, que se \u00e9 p\u00e1scoa n\u00e3o \u00e9 de todo aquela P\u00e1scoa que inteira nos alumiar\u00e1 pela uni\u00e3o plena ao Ressuscitado. De notar, tamb\u00e9m, que se para uns a P\u00e1scoa voltou, tal se deve apenas ao volver das prociss\u00f5es e compassos para o terreiro dos nossos dias! N\u00e3o assim para n\u00f3s, mesmo se, na verdade, as prociss\u00f5es e os compassos trouxeram \u00e0 cidade a ebuli\u00e7\u00e3o dos turistas! E tamb\u00e9m a n\u00f3s nos impeliram a sair \u00e0 rua! E \u00e9 que vieram e \u00e9 que sa\u00edmos mesmo! Tanto assim foi que as actuais cifras de visitantes ultrapassaram, entre n\u00f3s, as pr\u00e9-pand\u00e9micas. Temo, por\u00e9m, que tal p\u00e1scoa seja um fen\u00f3meno demasiado \u00e0 flor da pele. \u00c0 flor da pele porque apenas visto e acompanhado, desde a bancada, e apenas celebrado na esplanada entre finos e gritos a saudar os golos. E isso \u00e9 t\u00e3o pouco e at\u00e9 t\u00e3o nada para os disc\u00edpulos Daquele que suspenderam na cruz!<\/p>\n\n\n\n<p>Eis-nos em P\u00e1scoa, portanto. Liturgicamente falando, ao menos. Passado o Grande Dia \u2013 vai de domingo a domingo \u2013 eis-nos no segundo, o da Divina Miseric\u00f3rdia. Pousando o olhar sobre o evangelho (Jo\u00e3o 20:19-31) a cabe\u00e7a concentra-se-me na figura principal \u2013 Tom\u00e9, g\u00e9meo nosso. Hesito, por\u00e9m, na atribui\u00e7\u00e3o da primazia, e acabo, tamb\u00e9m eu, por me inclinar, sobre o lugar dos cravos. E que lugar!<br>E j\u00e1 que g\u00e9meo sou, fito e contemplo aquele locus. E que loca! Porque, afinal, ela n\u00e3o desapareceu quando o Ressuscitado se manifestou aos temerosos disc\u00edpulos. Eis que me foco, sim, em tal lugar e naquele que exigiu ver o lugar \u2013 o disc\u00edpulo sem f\u00e9.<br>Sem f\u00e9? Calma, calma, calma\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Tom\u00e9 era, de longe, um homem de f\u00e9. Era determinado, corajoso, talvez desabrido; e parece ter sido, inclusive, dos disc\u00edpulos, aquele que mais f\u00e9 tinha. Talvez at\u00e9 mais que todos juntos; sei que isto \u00e9 temer\u00e1rio de dizer-se, mas \u00e9 o que me parece. Haja em conta um sucesso acontecido pouco antes da morte do Senhor. Conta-nos o evangelista Jo\u00e3o que antes da paix\u00e3o e morte de Jesus, o pr\u00f3prio devolveu a vida a um morto \u2013 L\u00e1zaro. Era amigo seu. Tendo-lhe sido anunciado a sua doen\u00e7a, Jesus, que se encontrava em Jerusal\u00e9m, demorara-se a ir v\u00ea-lo e o amigo morreu. A demora \u00e9 intencional, por\u00e9m. Para que Deus seja glorificado no sinal que est\u00e1 prestes a manifestar-se, diz o Evangelista. Acossado que era por toda a parte, os dias de Jesus n\u00e3o lhe vinham correndo nem levandeiros nem f\u00e1ceis. E os disc\u00edpulos sabiam-no. Experimentavam-no, quero dizer. Por isso, quando o Mestre lhes anuncia que empreenderiam a jornada para Bet\u00e2nia, na Judeia, eles tentaram evitar a viagem recordando-lhe o \u00f3bvio: ainda h\u00e1 pouco fora v\u00edtima de uma tentativa de apedrejamento por parte dos judeus. Jesus, por\u00e9m, n\u00e3o se demove pelo que, decidido, Tom\u00e9 retorque: \u00ab\u2014Vamos n\u00f3s tamb\u00e9m para morrermos com ele\u00bb. Ou seja, envolvidos numa nebulosa de nada saber e sem ainda algo entender, pela voz de Tom\u00e9, os disc\u00edpulos est\u00e3o dispostos a morrer com Jesus! Que bravura! Que amizade pelo Mestre Bom!<br>\u00c9 \u00f3bvio que isto n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pouca f\u00e9 assim, embora, talvez, seja apenas uma f\u00e9 impulsiva. Avalie e esquadrinhe quem for te\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora e o que sucedeu a seguir? Aconteceu que em pouco tempo e em menos de um nada, como desde h\u00e1 tempos vinha sendo cozinhado na sombra, lhes mataram o Mestre. Como era de esperar \u2014 como, ironicamente, era de esperar \u2014 valia mais que um morresse por todos, que todos sofressem por um. E em vistas disso, o acabrunhamento e o medo apossaram-se de tal modo deles que, quando, como prometido, Ele ressuscitou ao terceiro dia, os foi visitar, por que amigos e disc\u00edpulos. No alforge e \u00e0 chegada n\u00e3o trazia nem chicote nem palavras de recrimina\u00e7\u00e3o, apenas o lugar dos cravos e o lado aberto. Aberto chegava, pois. E eles fechados! T\u00e3o fechados que ao serem visitados pelo Ressuscitado todos se assustaram e Nele ningu\u00e9m acreditou. Excepto Tom\u00e9, que n\u00e3o estava com eles. E onde estaria o homem, onde se teria encafuado? O evangelho de Jo\u00e3o n\u00e3o o diz; apenas nota que estava ausente do grupo. Tomarei, portanto, esta nota de aus\u00eancia n\u00e3o como uma fuga ao grupo, mas um recuo para a rectaduarda, para casa, por causa de uma depress\u00e3o tal, que bem pode corresponder ao inverso da impulsividade anteriormente assinalada e demonstrada. Fora da comunidade \u2013 em sua casa, talvez \u2013 Tom\u00e9 nem for\u00e7as tem para lamber as feridas! Amodorrado, angustiado e deprimido, roto por dentro e por fora, sem vontade de sair da cama nem de comer, vejo-o abatido, volvendo-se e revolvendo-se na dor, lamentando a trai\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria: sim, desinteressava-se da sorte alheia, porque tamb\u00e9m ele fugira ao Mestre, e isso tinha de ser assumido. Creio, sinceramente, que remoendo a culpa, mais a pr\u00f3pria, menos a alheia, Tom\u00e9 n\u00e3o se atrevia a ver-se ao espelho nem a rever-se jamais no rosto dos companheiros. Fora como fora, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o estava com eles na volta do Ressuscitado. Eis que, entretanto, e porque n\u00e3o, os companheiros o visitaram para lhe dar a feliz not\u00edcia. E ele que nada sabe de ressurrei\u00e7\u00e3o, nem tem condi\u00e7\u00f5es para tal, n\u00e3o acredita; sim, n\u00e3o acredita; n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o acredite em Deus: n\u00e3o acredita no testemunho dos colegas, pelo que exige ver as provas do corpo Martirizado. Se ele pr\u00f3prio n\u00e3o acreditava em si mesmo, como poderia acreditar nos demais? Se aquele bando de incr\u00e9us tinha provado ter menos f\u00e9 que ele, como haveria de acreditar neles agora?<\/p>\n\n\n\n<p>O certo \u00e9 que, naqueles entrementes, e por uma raz\u00e3o qualquer \u2013 luziria ainda alguma luzinha morti\u00e7a em seu cora\u00e7\u00e3o? \u2013 Tom\u00e9 foi ter com eles \u00e0 casa da comunidade. E assim, quando oito dias depois, reocupado ali o seu lugar, a comunidade que j\u00e1 vive da boa not\u00edcia continua a reunir-se de portas fechadas, isto \u00e9, com medo. Ou seja, ela sabe, sim, sabe tudo o que deve saber, pois j\u00e1 se encontrara com o Ressuscitado, mas n\u00e3o se transformara como deveria e, por isso, o seu testemunho n\u00e3o reencantara \u2014 nem podia reencantar! \u2014 o cora\u00e7\u00e3o de Tom\u00e9.<br>E Tom\u00e9, o decepcionado e deprimido, tem raz\u00e3o: se tem de acreditar no que ningu\u00e9m bem sabe dizer-lhe \u2014 a ressurrei\u00e7\u00e3o \u2014, como pode crer em tais testemunhas que nenhum m\u00e9rito apresentam que credibilize tal an\u00fancio? Como pode, hoje, crer quem n\u00e3o viu? Como chegar \u00e0 f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o se quem fala dela nada sabe, mal vive, pouco ou nada pode dizer? Se nem os que dizem ter visto o Ressuscitado \u2013 e comido com Ele! \u2013 se mostraram convincentes no seu testemunho de f\u00e9, como acreditar? Eles viram, sim, mas seguem na tristeza e com medo dos assassinos de Jesus, e por isso seguem aferrolhados e sem gosto de viver. Como poderiam, desse jeito, ser boas e avantajadas testemunhas duma not\u00edcia t\u00e3o feliz? Sim, talvez Tom\u00e9 tenha raz\u00e3o: ainda que afastado do grupo, talvez arda, ind\u00f3mita e rebelde, em seu cora\u00e7\u00e3o, uma chamazinha de esperan\u00e7a que urge ser espevitada! Mas n\u00e3o pelos companheiros, parece-lhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Tom\u00e9 tem f\u00e9 como, ali\u00e1s, sempre teve. Por\u00e9m, na sua profunda decep\u00e7\u00e3o \u2013 prova de que se encontra em processo de matura\u00e7\u00e3o na f\u00e9\u2026 \u2013 exige ver as marcas da continuidade da identidade de Jesus, o Senhor. E quando alcan\u00e7a v\u00ea-las, logo exclamou em alta voz a mais alta profiss\u00e3o de f\u00e9 de todos os evangelhos: \u00abMeu Senhor e meu Deus!\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava conquistada e certificada a testemunha que os nossos tempos urgem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Eis-nos em P\u00e1scoa. 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