{"id":2961,"date":"2022-02-28T04:02:00","date_gmt":"2022-02-28T04:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2961"},"modified":"2022-02-26T14:48:17","modified_gmt":"2022-02-26T14:48:17","slug":"cinzas-tao-nada-e-tao-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cinzas-tao-nada-e-tao-tudo\/","title":{"rendered":"Cinzas: t\u00e3o nada e t\u00e3o tudo"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>1. Na vida n\u00e3o dispensamos jamais os sinais, que eles, orientando-nos os passos, o olhar e o cora\u00e7\u00e3o, iluminam e ajudam-nos a caminhar rumo a uma meta. Sejam quais forem os caminhos \u2014 da ci\u00eancia, da pol\u00edtica ou das artes, gastron\u00f3micos, desportivos ou das peregrina\u00e7\u00f5es a santu\u00e1rios mais pr\u00f3ximos ou mais long\u00ednquos, para a cama de um hospital, uma sala de aula, um gin\u00e1sio ou a cela de uma pris\u00e3o \u2014 n\u00f3s precisamos de sinais. Tamb\u00e9m na f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem a nossa f\u00e9 crist\u00e3 sinais maiores e menores; maiores ou sacramentos, menores ou sacramentais. E \u00e9 \u00f3bvio que a peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 os n\u00e3o pode dispensar. Entre os sinais menores podemos nomear as cruzes, escapul\u00e1rios, ter\u00e7os, medalhas, \u00e1gua benta, velas e, entre outros muitos, as cinzas. Todos estes sinaizinhos nos aproximam a Deus \u2014 estas, ademais, abrem-nos para o caminho quaresmal.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Sendo t\u00e3o fr\u00e1geis e t\u00e3o nada dir-se-ia que as cinzas nada diriam; mas dizem e dizem muito. Na sua imperturbabilidade dizem que ali houve fogueira, cujo furor se alimentou do combust\u00edvel que lhe foi fornecido. Sempre as cinzas s\u00e3o de algo que se reduziu; n\u00e3o importa de qu\u00ea: se restos de ouro ou de lixo, de m\u00e1scaras ou poemas de amor, se de manuais de instru\u00e7\u00f5es ou leis caducas. N\u00e3o importa; o certo \u00e9 que as cinzas s\u00e3o sinal de algo que terminou e que, enquanto durou, era importante para algu\u00e9m. E agora, apesar de nada, s\u00e3o eloquentemente falantes de algo que foi importante (e j\u00e1 n\u00e3o o \u00e9 mais!).<\/p>\n\n\n\n<p>3. A cada in\u00edcio do trilho quaresmal a Igreja sempre prop\u00f5e aos seus fi\u00e9is abaixarem a cabe\u00e7a, h\u00familes, como cinza. Isto \u00e9, que recebam sobre si um sinal de nada, que lhes lembre \u2014 e ainda por cima algu\u00e9m se encarrega de lho recordar em voz alta&#8230; \u2014 <em>\u00abque \u00e9s p\u00f3 e ao p\u00f3 voltar\u00e1s\u00bb<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>4. Convir\u00e1 lembrar que nisto, como em muitas outras coisas, n\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o somos originais, pois n\u00e3o fomos n\u00f3s quem come\u00e7ou por reconhec\u00ea-las como sinal de humildade, humilha\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No Antigo Testamento, os judeus tinham por costume, quando necess\u00e1rio, cobrir-se de cinzas para significar uma mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. Quem se vestisse de <em>\u00absaco de cinza\u00bb<\/em>, isto \u00e9, mui grosseiramente, ou at\u00e9 mesmo literalmente de saco, quem se sentasse sobre cinzas e com elas cobrisse a sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a, sinalizava-se publicamente em sofrido arrependimento do pecado pessoal e\/ou tribal.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se julgue que\u00a0 fosse este um exerc\u00edcio s\u00f3 para a arraia mi\u00fada ou gente pe\u00e3 feita dos beatos de circunst\u00e2ncia porque, na verdade, gente nobre (os anci\u00e3os de Jerusal\u00e9m, Lamenta\u00e7\u00f5es 2:10), profetas (Daniel, Daniel 9,3) e reis (Ezequias, Isa\u00edas 37,1; Eliaquim, 2 Reis 19,2; e Acab, 1 Reis 21,27) se cobriram frequentemente de saco e de cinza em sinal de reconhecimento do seu pecado e do pecado do povo. Dir-se-\u00e1 que vestir-se de saco tinha o seu qu\u00ea de espectacular, mas n\u00e3o era isso que mais valia, porque o que mais importava era que Deus visse que os cora\u00e7\u00f5es mudavam volvendo-se humildes, abandonando a m\u00e1 condu\u00e7\u00e3o da vida por troca de uma com Deus ao volante.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Jorge \u00e9 homem c\u00e1 da terra. J\u00e1 recebeu todos os sacramentos, <em>\u00abmenos o dos padres\u00bb<\/em>! N\u00e3o direi que os colecionou; simplesmente que as voltas da vida por a\u00ed o levaram. Andou, portanto, na catequese, mas isso j\u00e1 foi h\u00e1 tanto tempo que j\u00e1 n\u00e3o lembrava que <em>\u00abna Igreja, depois do carnaval, os padres p\u00f5em cinza na cabe\u00e7a das pessoas\u00bb<\/em>, disse-me, rindo, ao lembrar os dias da juventude, quando fora estudar para uma prestigiada universidade dos EUA, e ali, de repente, se apercebera que, <em>\u00aba certa altura do ano\u00bb<\/em> alguns amigos <em>\u00abapareciam nas aulas, de garbosa cruz de cinza na testa\u00bb<\/em>! O jovem cat\u00f3lico tuga da viragem do s\u00e9culo j\u00e1 n\u00e3o lembrava como \u00e9 que tal cruz ali aparecia, pelo que na di\u00e1spora da f\u00e9 infantil teve de re-aprender o valor dos sinais cat\u00f3licos!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sina. E sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>6. A verdade \u00e9 que foi com os nossos irm\u00e3os mais velhos, os judeus, que aprendemos, desde pequeninos, o valor das insignificantes cinzas.<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa come\u00e7ou assim: obviamente os primeiros disc\u00edpulos de Cristo (que eram judeus) e os disc\u00edpulos de Mois\u00e9s partilharam duram algum tempo os mesmos ritos lit\u00fargicos; sim, foi na sinagoga, no \u00e2mago da cultura judaica, que o Cristianismo aprendeu que, vestindo-se de cinza, melhor transpareceria o desejo de mudar de vida segundo o c\u00f3digo de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim continua a ser, \u00e0s portas de cada quaresma.<\/p>\n\n\n\n<p>7. Sempre a P\u00e1scoa foi celebra\u00e7\u00e3o maior, para a qual os crist\u00e3os se preparavam com tr\u00eas dias de anteced\u00eancia, primeiro, com 40 dias, depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi por volta do ano de 350 que passou a ser de quarenta dias \u2014 pois j\u00e1 ent\u00e3o urgia alargar o que pouco \u00e9. E a convers\u00e3o, como se saber\u00e1, sempre \u00e9 assunto demorado.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o ainda, hoje, as cinzas, porta para a rua, e falam como um serm\u00e3o \u2014 <em>Eu, pecador, me confesso: estou em penit\u00eancia pelos meus pecados<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que, \u00e1 altura, tal como entre os judeus, o rito n\u00e3o era lit\u00fargico; apenas dom\u00e9stico. N\u00e3o custa crer que, em casa, o pai se impusesse a si e aos seus as cinzas, que o pecado nunca \u00e9 s\u00f3 pessoal. Mais tarde, o rito alargou-se a todos os fi\u00e9is \u2014 tamb\u00e9m aos que n\u00e3o eram de origem judaica \u2014 e passou a integrar a Missa. Tal entrada ocorre quando a prepara\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus passou a ser de 40 dias. \u00c9 que n\u00e3o se pode chegar \u00e0 luz sem lavar o negro da alma \u2014 e isso sim, as cinzas, lavam mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Lavam e branqueiam!<\/p>\n\n\n\n<p>8. S\u00f3 uma vez vi um o\u00e1sis. Confirmo: sabe a b\u00ean\u00e7\u00e3o refrescante. Aquele que vi n\u00e3o era muito verde, e talvez n\u00e3o houvera maneira que mais fosse, mas s\u00f3 de v\u00ea-lo alegrou-se-me a alma em hinos. Depois de horas de viagem em autocarro, por um calorento deserto de sal, como bem me soube chegar ao lugar de descanso. Sempre lembro essa b\u00ean\u00e7\u00e3o antiga quando, em cada ano, aben\u00e7oo as cinzas, pois sempre me vem \u00e0 mem\u00f3ria que elas primeiro foram rebento, depois arbusto, por fim palmeiras altaneiras postadas como muralha defensiva diante de um deserto!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como esconder: as cinzas primeiro s\u00e3o verde guerreiro frente ao p\u00f3 amea\u00e7ador. Elas resistiram-lhe, sim, mas agora s\u00e3o p\u00f3 que unge e lava pecados. Coloc\u00e1-las sobre a cabe\u00e7a lembra que o p\u00f3 nos lembra o dever de enfrentar todo a desmem\u00f3ria de Deus que o pecado em n\u00f3s urde. Logo para mim, jamais elas s\u00e3o l\u00fagubres ou f\u00fanebres, t\u00e3o-s\u00f3 que somos passageiros como o p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada. Que passa.<\/p>\n\n\n\n<p>E creio-as s\u00e3s, curativas e regenerativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro sempre, por isso, a meu pobre tolo cora\u00e7\u00e3o que, um dia, Jesus ungiu os olhos de um cego com lodo, servindo-se daquele p\u00f3 que dos caminhos se alevanta, quando um pequeno sapo cambaleia por alhures ou depois do rastejo de uma sardanisca. E lembro-lhe que Ele lhe ajuntou da sua saliva, com o que fez o lodo bento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Passe-se o desigi\u00e9nico gesto de Jesus que, hoje, seria desestimado, e valide-se a for\u00e7a que soma o nada ao sopro de Deus! E n\u00e3o \u00e9 que ali, mais uma vez, o tudo precisou do nada?&#8230; \u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, pois, no umbral da quaresma, sobre mim e sobre os fi\u00e9is, aspirjo as cinzas, logo lembro que n\u00e3o passo de p\u00f3 que passa de nada em nada; p\u00f3 dos caminhos por onde o tempo passa como sapo sem repouso. P\u00f3 dispersivo e sem alento que o sopro do Criador pode unir para, a outros, dar sa\u00fade e vida.<\/p>\n\n\n\n<p>9. Ah, que t\u00e3o pouco e t\u00e3o anda somos; t\u00e3o nada. T\u00e3o nada que o tomamos para ungir como sinal do absoluto por alcan\u00e7ar. T\u00e3o nada, nada, nada; por\u00e9m, mais uma vez os Anjos foram privados de tanto aspirar ser!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Na vida n\u00e3o dispensamos jamais os sinais, que eles, orientando-nos os passos, o olhar e o cora\u00e7\u00e3o, iluminam e ajudam-nos a caminhar rumo a uma meta. 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