{"id":2958,"date":"2022-02-28T04:10:00","date_gmt":"2022-02-28T04:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2958"},"modified":"2022-02-26T08:04:31","modified_gmt":"2022-02-26T08:04:31","slug":"casa-igreja-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/casa-igreja-humanidade\/","title":{"rendered":"Casa \u2014 Igreja \u2014 Humanidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Na linguagem e cultura b\u00edblica, a <em>casa<\/em> desdobra-se em v\u00e1rias significa\u00e7\u00f5es e ramifica\u00e7\u00f5es, segundo os contextos em que aparece. Sendo, em sentido pr\u00f3prio, um edif\u00edcio para habita\u00e7\u00e3o, pode ser met\u00e1fora que aponta para realidades superiores: para o templo, \u201ccasa de Deus\u201d (Mc 2,26; Mt 23,38), \u201ccasa de ora\u00e7\u00e3o\u201d (Mc 11,17) e \u201ccasa de meu Pai\u201d (Lc 2,49; Jo 2,16), para uma dinastia (como na express\u00e3o \u00abcasa de David\u00bb), fam\u00edlia, linhagem, tribo (\u201ccasa de Jacob\u201d) e at\u00e9 indicando todo o povo israelita: \u201ccasa de Israel e casa de Jud\u00e1\u201d. \u201cCasa de Deus\u201d no cristianismo primitivo alargava o seu sentido metaf\u00f3rico at\u00e9 \u00e0 comunidade dos crentes em Jesus (Ef 2,19; 1Ped 4,17; 1Tim 3,15). A carta aos Hebreus 3,1-6 usa a equa\u00e7\u00e3o \u00abcomunidade = casa de Deus\u00bb, vendo o \u201cCristo \u00e0 frente da sua pr\u00f3pria casa, que somos n\u00f3s\u201d. Ef 2,22 desenvolve a met\u00e1fora: \u201cno Senhor tamb\u00e9m v\u00f3s estais a ser edificados com eles [familiares de Deus] para ser morada de Deus no Esp\u00edrito\u201d. A comunidade crist\u00e3 \u00e9 chamada \u201ccasa espiritual, para um sacerd\u00f3cio santo\u201d (1Ped 2,5), ligada figurativamente ao templo de Jerusal\u00e9m e remetendo como ele para a transcend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Expandindo a met\u00e1fora da <em>casa<\/em>, Jesus alargou as rela\u00e7\u00f5es familiares e fraternas que come\u00e7am a tornar-se reais em casa. Quando lhe falaram nos \u00abirm\u00e3os\u00bb dentro do c\u00edrculo da fam\u00edlia, ele respondeu alargando-o para al\u00e9m da pr\u00f3pria casa, \u201c\u00e0queles que fizerem a vontade de Deus: esse \u00e9 meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3\u201d (Mc 3,31-35). Insistiu na mesma ideia \u201cfalando \u00e0s multid\u00f5es e aos disc\u00edpulos: v\u00f3s sois todos irm\u00e3os\u201d (Mt 23,8). Assim dava \u00e0 <em>casa<\/em> a m\u00e1xima extens\u00e3o metaf\u00f3rica, fazendo da humanidade uma \u00abcasa comum\u00bb, <em>Fratelli tutti<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A abrang\u00eancia metaf\u00f3rica que a Escritura d\u00e1 \u00e0 <em>casa<\/em> ilumina bem o caminho sinodal que a Igreja aponta a si pr\u00f3pria sob a guia de Francisco. Disp\u00f5e-se a sair de casa, sem perd\u00ea-la, para ir ao encontro de todas as pessoas, num abra\u00e7o universal. \u00c9 a f\u00e9 que p\u00f5e a Igreja em movimento sob orienta\u00e7\u00e3o da palavra de Deus. As primeiras comunidades que seguiam Jesus davam ao seu movimento para ele o nome de \u201cCaminho\u201d, tamb\u00e9m por ele se ter autodefinido como \u201cCaminho\u201d (Jo 14,6). Paulo, que perseguiu os \u201cseguidores do Caminho\u201d (Act 9,2) e teve como estrat\u00e9gia excluir todos os crist\u00e3os enquanto seita a riscar do livro da vida, fazendo o seu caminho para Jesus tornou-se o maior agente de expans\u00e3o da f\u00e9 e de inclus\u00e3o das pessoas \u00e0 volta dele. Como Jesus, abriu a casa do cristianismo para al\u00e9m do juda\u00edsmo, fazendo caber nela a humanidade inteira e anunciando-lhe a salva\u00e7\u00e3o que a \u201ccasa de Israel\u201d julgava destinada a uma etnia. Alguns judeo-crist\u00e3os viam a Igreja nascente como a <em>sua<\/em> casa, deixando fora os que n\u00e3o cumprissem as leis judaicas. Foi pela l\u00facida vis\u00e3o dos ap\u00f3stolos que a for\u00e7a do \u201cEsp\u00edrito que d\u00e1 vida por Cristo Jesus\u201d (Rm 8,2) desde as origens alargou os horizontes da evangeliza\u00e7\u00e3o aos chamados <em>pag\u00e3os<\/em>, isto \u00e9, aos n\u00e3o-judeus, \u201cat\u00e9 aos confins da terra\u201d (Act 1 e 15). A compreens\u00e3o que a Igreja tinha de si pr\u00f3pria sentia a responsabilidade da casa aberta, ventilado lugar de encontro de todos os humanos que procuram Deus e a felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 na sua g\u00e9nese. Na caminhada sinodal, a Igreja escolher\u00e1 sempre a inclus\u00e3o e recusar\u00e1 a exclus\u00e3o; escolhe a cultura da busca conjunta, que medita e formula as express\u00f5es da f\u00e9 sob o signo do <em>novo<\/em>. Esta renova\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica prescindir de riquezas reunidas e purificadas ao longo da grande Tradi\u00e7\u00e3o. Mas os que se sentem fora da casa da Igreja podem contribuir, com as pr\u00f3prias intui\u00e7\u00f5es e procuras religiosas, para o alargamento da percep\u00e7\u00e3o eclesial do mist\u00e9rio de Deus. \u00c9 insustent\u00e1vel ficarmos satisfeitos com a riqueza que fomos entesourando na nossa casa. Imp\u00f5e-se abri-la bem para continuar a procura tamb\u00e9m fora de portas, entre os que se dizem descrentes. Sinceramente, a Igreja precisa deles. O que eles pensam de bom, verdadeiramente humano, nobre, justo, puro e am\u00e1vel (Fl 4,8), n\u00e3o \u00e9 alheio \u00e0 Igreja: f\u00e1-la crescer. O bem que est\u00e1 nos \u2018outros\u2019 n\u00e3o nos afasta do rumo do evangelho: d\u00e1 espessura \u00e0 sua leitura. Dialogar com esses fil\u00f5es de humanidade e de bondade oferecendo o que temos em casa e recebendo o que podemos integrar nela fertiliza e enaltece a necessidade de anunciar o amor de Jesus: \u201cquem n\u00e3o \u00e9 contra n\u00f3s \u00e9 por n\u00f3s\u201d (Mc 9,40).<\/p>\n\n\n\n<p>De resto, tamb\u00e9m dentro de portas acontecem males \u00e0 nossa casa; tamb\u00e9m dentro dela h\u00e1 noites, trovoadas, medos e esc\u00e2ndalos. Estes geram desiludidos dentro e desencantados fora. Temos toda a compreens\u00e3o pelos seus sentimentos de decep\u00e7\u00e3o, devida a uma institui\u00e7\u00e3o da qual esperariam s\u00f3 o bem. Se fosse poss\u00edvel deslindar a Igreja-institui\u00e7\u00e3o da Igreja querida por Jesus, aceitar\u00edamos a cr\u00edtica \u00e0 casa pecadora (sem fugir dela). Mas as duas realidades sobrep\u00f5em-se. O pr\u00f3prio Jesus n\u00e3o conseguiu evitar o esc\u00e2ndalo dado pelos do grupo que ele escolheu, que deveriam ser fi\u00e9is incondicionais: um saiu-lhe pusil\u00e2nime, outro entregou-o \u00e0s feras e dois cobi\u00e7avam honrarias. O cristianismo n\u00e3o \u00e9 o imp\u00e9rio dos puros nem o clube dos bons. \u00c9 o \u00fanico abrigo dos que s\u00e3o considerados maus e a casa espa\u00e7osa que a todos apresenta Jesus e o evangelho da esperan\u00e7a, para procurarem o sentido \u00faltimo da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na linguagem e cultura b\u00edblica, a casa desdobra-se em v\u00e1rias significa\u00e7\u00f5es e ramifica\u00e7\u00f5es, segundo os contextos em que aparece. Sendo, em sentido pr\u00f3prio, um edif\u00edcio para habita\u00e7\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2959,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2958","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2958"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2958\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2960,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2958\/revisions\/2960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}