{"id":2940,"date":"2022-01-31T03:25:00","date_gmt":"2022-01-31T03:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2940"},"modified":"2022-01-28T10:26:41","modified_gmt":"2022-01-28T10:26:41","slug":"amor-e-uma-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/amor-e-uma-casa\/","title":{"rendered":"Amor e uma casa!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 duas grandezas que uma vida n\u00e3o dispensa, para ser humana e realizada: um amor a quem dar-se e uma casa onde acolher e recolher os que desse amor florescerem. Casa e amor n\u00e3o se deixam dissociar, t\u00e3o \u00edntima \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o: o amor que pede intimidade e o espa\u00e7o onde sentir-se amado. De facto, a pr\u00f3pria casa \u00e9 o ref\u00fagio seguro e confort\u00e1vel, onde a pessoa se sente bem, como se fosse o seu castelo. Podemos visitar casas de amigos ou alugadas, umas mais bonitas que outras. Mas <em>viver mesmo<\/em> \u00e9 na nossa pr\u00f3pria casa. Ela \u00e9 o espa\u00e7o mais frequentado e assiste ao melhor da nossa vida. Atesta que o amor materno e paterno, filial e fraterno e as rela\u00e7\u00f5es humanas, com o mist\u00e9rio para que apontam, s\u00e3o o melhor da vida. \u00c9 o espa\u00e7o onde a vida se sente como bem supremo, mesmo \u2013 e porventura mais ent\u00e3o \u2013 quando l\u00e1 a vida \u00e9 vilipendiada. A casa \u00e9 a primeira estrutura de acolhimento da pessoa ao nascer. \u00c9 o espa\u00e7o onde se vive e se morre, o santu\u00e1rio do crescimento amparado, aconchegado no seio de uma fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m na B\u00edblia, dizer <em>casa<\/em> \u00e9 dizer comunh\u00e3o de vida, vida em comunh\u00e3o, vida familiar, onde o existir traduzia em gozo indel\u00e9vel o repouso restaurador, os gestos de maior amizade, o encontro com os outros \u00e0 mesa posta, festiva: \u201cum fariseu pediu-lhe que comesse com ele; entrando na casa do fariseu, p\u00f4s-se \u00e0 mesa\u201d (Lc 7,36; cf. Jo 12,2). A casa era um apelo a desfrutar da polifonia da vida, a construir rela\u00e7\u00f5es humanas e a inventar o futuro juntos. Os que l\u00e1 viviam e l\u00e1 se juntavam \u2018faziam casa\u2019, isto \u00e9, esbo\u00e7avam afectos e emo\u00e7\u00f5es, partiam e repartiam o p\u00e3o da vida, o p\u00e3o da ternura e da amizade, o p\u00e3o que quase fala ao dar-se e ao ser comido: \u201cpartiam o p\u00e3o nas casas e tomavam a refei\u00e7\u00e3o com alegria\u201d (Act 4,46). Na casa, o centro estava na rela\u00e7\u00e3o das pessoas, na procura e no encontro, nos n\u00f3s e nos la\u00e7os que vinculam as vidas sem as prenderem. L\u00e1, as pessoas aprendiam a ensopar a vida de sentido e de alegria partilhada e contagiante (Lc 15,8-10: mulher varre a casa, encontra a dracma: \u201calegrai-vos comigo\u201d). Nela celebravam as alegrias necess\u00e1rias e a tristeza contingente. Sendo espa\u00e7o interior, era lugar de maturidade. Al\u00e9m de habita\u00e7\u00e3o, era tamb\u00e9m o lugar onde mais livremente se vivia a dimens\u00e3o emocional da pessoa, onde mais provavelmente aconteciam as coisas importantes e se escreviam as hist\u00f3rias decisivas de uma vida \u00e0 escuta: \u201c[Jesus] entrou numa aldeia; uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa\u201d (Lc 10,38). A casa era o clima onde a vida humana vivia de amor, educando para a afectividade em cada dia que passava. Era o lugar onde a vida era gerada, cuidada e protegida em todas as fases, desde a inf\u00e2ncia \u00e0 fase crepuscular (Lc 2,51-52). Era sacr\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es familiares e mais \u00edntimas, uma cerca de amada solid\u00e3o e privacidade, a zona de conforto do cora\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o abandona a casa onde pulsou de amores. Espa\u00e7o privilegiado para os encontros pessoais e para tecer rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas em rede espont\u00e2nea, a casa punha em ac\u00e7\u00e3o o recomendado e desejado amor fraterno. Nela, a fam\u00edlia podia n\u00e3o ser perfeita, mas vivia unida pelo travejamento da voz do sangue e pelo entran\u00e7ado das ra\u00edzes profundas: \u201cVida dura \u00e9 andar de casa em casa\u201d sem ter uma pr\u00f3pria (Si 29,24). A casa crist\u00e3 constru\u00eda o amor que podia ser sincero sem ser agressivo, que podia pedir sem reivindicar, escutar antes de falar, compreender mesmo quem errava: \u201cRevesti-vos\u2026 de sentimentos de bondade, mansid\u00e3o\u2026 perdoando-vos mutuamente se algu\u00e9m tem raz\u00e3o de queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, perdoai tamb\u00e9m v\u00f3s. Por cima de tudo isto, por\u00e9m, cingi-vos com o amor m\u00fatuo, que \u00e9 o <em>cinto<\/em> perfeito\u201d (Cl 3,12-15).<\/p>\n\n\n\n<p>A casa tamb\u00e9m sossega os medos e a inseguran\u00e7a. \u00c9 s\u00edtio certo para estar. Proporciona um calmo porto de abrigo para quebrar a press\u00e3o do cansa\u00e7o, da agita\u00e7\u00e3o e do barulho. Na B\u00edblia sugeria o desejo corp\u00f3reo da seguran\u00e7a salv\u00edfica a que somos devolvidos depois de termos estado perdidos: \u201cLevanta-te, toma a tua enxerga e vai para tua casa\u201d (Lc 5,24-25). Era sobretudo na casa \u2013 onde as pessoas eram <em>pr\u00f3ximo<\/em>, onde as vidas se fundiam e se tornavam mais afectuosas \u2013 que se instaurava a presen\u00e7a reinante e salv\u00edfica de Deus no meio das pessoas que se abriam a ela. E onde se dava lugar ao reino de Deus sentia-se vontade de fazer o bem a todos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos fixando s\u00f3 na fachada da casa, sabemos que ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ch\u00e3o de virtudes humanas. Nos rinc\u00f5es escuros tamb\u00e9m pode despertar o desejo da posse e a vontade de parecermos grandes, a cultura do prazer, do ter e do \u2018\u00fatil\u2019 da casa que facilmente conduz ao consumismo, a tenta\u00e7\u00e3o de viver a hist\u00f3ria em primeira pessoa e de n\u00e3o olhar para l\u00e1 dos limites da pr\u00f3pria casa. At\u00e9 \u00e9 o lugar onde facilmente discutimos, ultrapassando as paredes e os limites do decoro familiar. Mas as casas b\u00edblicas estavam destinadas a ser casas de paz: \u201cEm qualquer casa em que entrardes dizei primeiro: \u2018Paz a esta casa!\u2019. E se l\u00e1 houver algu\u00e9m de paz, repousar\u00e1 sobre ele a vossa paz\u201d (Lc 10,5-6). O bem-estar em casa favorecia uma exist\u00eancia de harmonia e de ordem interior dentro dela, cultivada tamb\u00e9m com a paz que vinha de fora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD H\u00e1 duas grandezas que uma vida n\u00e3o dispensa, para ser humana e realizada: um amor a quem dar-se e uma casa onde acolher e recolher os que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2941,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2940","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2940"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2940\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2942,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2940\/revisions\/2942"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2941"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}