{"id":2937,"date":"2022-01-31T03:23:00","date_gmt":"2022-01-31T03:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2937"},"modified":"2022-01-28T10:25:23","modified_gmt":"2022-01-28T10:25:23","slug":"amamos-um-rei-menino-e-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/amamos-um-rei-menino-e-deus\/","title":{"rendered":"Amamos um Rei, Menino e Deus"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Depois que de nossos l\u00e1bios se escoam os hinos de louvor ao Menino das palhinhas, logo Jesus, grande de trinta anos, desce \u00e0s \u00e1guas lamosas do Jord\u00e3o e a\u00ed, com a celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica do mergulho baptismal, a Igreja clausura o tempo de Natal e inicia o Comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Aberto que foi o Tempo Comum, eis-nos j\u00e1 no seu segundo domingo; ou at\u00e9 um pouco mais al\u00e9m&#8230;. Curiosamente para n\u00f3s, Carmelitas Descal\u00e7os, o segundo domingo comum prolonga o sabor e cheiro ao Infante Suav\u00edssimo, visto que de acordo com uma antiga tradi\u00e7\u00e3o espiritual, o segundo domingo ap\u00f3s a Epifania \u00e9 do Menino Jesus de Praga. Por tal raz\u00e3o, na nossa jornada lit\u00fargica deste domingo centramos de novo a ternura do nosso olhar e o afecto do nosso cora\u00e7\u00e3o em Jesus, menino e rei e Deus, que entre n\u00f3s, carmelitanos, recebe tal t\u00edtulo, de Praga, por ter sido no Carmo daquela cidade que se manifestou poderosamente atento, miraculosamente pr\u00f3ximo dos que O adoram e a Ele se confiam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.&nbsp;&nbsp; <\/strong>N\u00e3o se pode ser crist\u00e3o sem refer\u00eancia a Jesus, \u00e0 vida de Jesus, aos sentimentos, gestos e palavras de Jesus. Tanto grande como pequenino. Como, por\u00e9m, os Santos Evangelhos quase O ignoram infante e quase s\u00f3 relatam as andan\u00e7as do seu an\u00fancio da Boa Nova, o processo da sua condena\u00e7\u00e3o, a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o mais n\u00f3s O contemplamos adulto e menos infante. Acresce que toda a catequese no-lo impele a seguir, desde pequeninos, caminho adiante e encosta acima; e ent\u00e3o l\u00e1 vamos n\u00f3s seguindo o Mestre, e ignorando o acerto de que, j\u00e1 desde a inf\u00e2ncia, podemos ajustar os nossos pelos Seus passos infantes. Seguir-Lhe os passos pequeninos \u00e9 tamb\u00e9m fonte de salva\u00e7\u00e3o. Seguir \u00e9 verbo t\u00e3o forte que talvez seja mais apropriado dizer ser Ele quem mais procura ou, v\u00e1 l\u00e1, nos sai ao caminho e se faz encontradi\u00e7o dos nossos passos. Ali\u00e1s, qual pastor bom \u2014 al\u00e9m Dele n\u00e3o h\u00e1 nenhum bom, \u00e9 bom que o entendamos \u2014 pronto abandona o rebanho para sair em busca de ovelha perdida ou de cabrito arrevesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscar \u00e9 of\u00edcio de pastor cabal, que ao urgir-se se imp\u00f5e como incess\u00e1vel, a horas e a desoras, sem respeitar nem cansa\u00e7os nem canseiras, augurando mais a rendi\u00e7\u00e3o desvalida que a conquista por for\u00e7a de raz\u00f5es. Assim nos busca o Senhor, de facto. Que Ele nos busca, n\u00e3o haja d\u00favidas; que a toda a hora nos saibamos buscados j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o certo. Que a Ele queiramos render-nos t\u00e3o-pouco ser\u00e1 certo. Mas se Ele nos busca, \u00e9 por andar atento e por perto, rondando e sondando-nos o cora\u00e7\u00e3o. Afinal, ningu\u00e9m como Ele conhece o emaranhado dos nossos desvarios. Azar nosso e lamento de Deus \u00e9 n\u00e3o sentirmos \u2014 ou disso ignobilmente nos mostrarmos desapercebidos \u2014 o calor da Sua presen\u00e7a buscadora e o sofrido palpitar do Seu cora\u00e7\u00e3o pelos nossos passos perdidos. Tudo isso porque s\u00f3 ama&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que outra raz\u00e3o para ter Ele nascido, descido \u00e0 lama do Jord\u00e3o ou subido \u00e0 Cruz? \u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Os melhores dos melhores da nossa f\u00e9 sempre nos ensinaram que n\u00e3o pode haver f\u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo: Ele \u00e9 o cume do nosso caminho e o z\u00e9nite do nosso horizonte, o mais fundo abismo em que nos revemos, o centro em torno do qual tudo gravita. A Cristo nosso tudo, n\u00f3s, Carmelitas, vemo-lO, honr\u00e1mo-lO e am\u00e1mo-l\u2019O como senhor, mestre e companheiro e, sobretudo, como amigo verdadeiro. E menino Deus, tamb\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp;&nbsp; E bem vemos que Ele nos v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos percorrendo sem parar os pobres caminhos da Galileia, como peregrino do reino e arauto da Boa Nova. Jamais as suas palavras foram dirigidas apenas a uma classe, a uma elite ou s\u00f3 aos deserdados da sorte; falando falou a todos, e aben\u00e7oando aben\u00e7oou a todos, por isso, em seus dias, os seus passos semearam a Boa Nova no maior n\u00famero de cora\u00e7\u00f5es poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos lutando infatig\u00e1vel contra o mal, devolvendo dia \u00e0 noite, esperan\u00e7a aos mirrados do povo, sa\u00fade aos leprosos, cura aos loucos, impondo ou abrindo as m\u00e3os para recolher e afagar l\u00e1grimas, e no cora\u00e7\u00e3o lavar beijos tra\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos temperado de solitude, olhos cheios de c\u00e9u, irmanado de estrelas e anjos, formigas e lacraus, cora\u00e7\u00e3o posto no do Pai, jamais isentado dos sofridos da terra, recolhido, mas n\u00e3o absorto, unido, mas n\u00e3o dilu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos na d\u00e1diva central da \u00daltima Ceia, reunido com os amigos mais amigos e mais \u00edntimos, aben\u00e7oando, partindo e repartindo-lhes o p\u00e3o do seu corpo e a copa do seu sangue de eterna alian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos desungido por um beijo; preso, manietado, torturado, amaldi\u00e7oado e abandonado na sua horr\u00edvel Paix\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos sofredor ao extremo e exangue redentor, na cruz. No corpo desnudo e no peito rasgado \u2014 quebrado foi o frasco da mais bela e suave frag\u00e2ncia! \u2014 todo dado para a todos salvar. Pendente dos bra\u00e7os da cruz, vemo-lO, olh\u00e1mo-lO e lembramo-nos de que, sem protesto, passo a passo, Ele a carrejou monte acima, e depois a ela se abra\u00e7ou e por ela se deixou afagar, a fim de que, para sempre, nos fale de um amor doado por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s O vemos, olhamos e contemplamos num len\u00e7ol de linho amortalhado, e poisado um len\u00e7o suave como um suspiro lhe cobre o rosto. Partindo em busca de Ad\u00e3o, o corpo cansado desceu \u00e0 morada mais profunda; e dormido o sil\u00eancio ignominioso da noite despertou para o esplendor do dia glorioso da ressurrei\u00e7\u00e3o, quando o amor O resgatou e O devolveu \u00e0 luz do dia inaugural da nova cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como candeeiro nocturno seduz as cativas borboletas, n\u00f3s, crist\u00e3os, olhamos e amamos Jesus no redondo seio da M\u00e3e. E vemo-lO e ador\u00e1mo-lO ao seu colo, ora dormindo, ora amamentando-se dos seus seios. E vemo-lO e ador\u00e1mo-lO ao colo de Jos\u00e9, ou subido \u00e0s patriarcais cavalitas. E vemo-lO e ador\u00e1mo-lO brincando com as fitas da madeira, ou carpinteirando um barquito ou um p\u00e1ssaro. E vemo-lO, am\u00e1mo-lO e ador\u00e1mo-lO jogando ao pi\u00e3o e \u00e0 cabra-cega, e a caminho da sinagoga, e peregrino de Jerusal\u00e9m, e atento e obediente, crescendo em estatura, sabedoria e gra\u00e7a diante de Deus e dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada de Jesus, infante ou profeta, nos \u00e9 alheio, nem a b\u00ean\u00e7\u00e3o do suor nem a un\u00e7\u00e3o das palavras, nem a for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o, a firmeza do trabalho e dos sinais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.&nbsp;&nbsp; <\/strong>O crist\u00e3o \u00e9 de Cristo, para ser outro Cristo como Cristo. N\u00e3o h\u00e1 como ser de outra modo, que jamais \u00e9 de outro ou de si mesmo. N\u00e3o tem, ali\u00e1s, outro modo de ser, nem pode ser de outra maneira, que s\u00f3 assim pode ser: Cristo no centro, Cristo no alto, Cristo em baixo, Cristo por todos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longos dos s\u00e9culos, muitos santos \u2014 e n\u00e3o apenas os do Carmo \u2014 se enterneceram com a Divina Inf\u00e2ncia, olhando para Jesus com pequeninos lacinhos de ternura. Por exemplo, olhar Jesus menino dormindo mansinho ao colo da M\u00e3e, pacifica-nos, acalma-nos e diz-nos que, mesmo dormindo, Ele nos d\u00e1 a Sua gra\u00e7a, a Sua luz e a Sua paz. Sim, se ronrona sossegado no colo da adormecida M\u00e3e, n\u00f3s, Carmelitas, tamb\u00e9m dali nos saciamos. Olhando enternecidos a serenidade da M\u00e3e que O tem nos bra\u00e7os, serena comungando da gozosa intimidade com o Filho, compreendemos que tamb\u00e9m n\u00f3s O devemos acolher no nosso colo, deit\u00e1-lO sobre o nosso peito e adormecer ouvindo o seu cora\u00e7\u00e3ozito bater baixinho, chamando pelo nosso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Qu\u00e3o doce \u00e9 pedir ao Menino Jesus que venha ao nosso colo e ali adorme\u00e7a. E se adormecer \u00e9 certo que tamb\u00e9m n\u00f3s adormeceremos embalados pela gra\u00e7a de O ter respirando sossego ao nosso ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.&nbsp;&nbsp; <\/strong>Decorria o ano de 1628. Havia em Praga, hoje capital da Rep\u00fablica Checa, um empobrecido e enfriolado convento do Carmo. No auge do frio veio uma princesa e ofereceu uma imagenzinha do Menino Jesus. A imagem era de um fr\u00e1gil menino de doze anos revestido das ins\u00edgnias de sacerdote e de rei, que logo se mostrou prodigamente miraculosa, n\u00e3o apenas para os frades Carmelitas, mas tamb\u00e9m para as gentes da cidade. Da pequenina imagem pronto se manifestou uma mensagem: <em>\u00abQuanto mais Me honrardes, mais Eu vos favorecerei\u00bb<\/em>. E assim foi, que Deus promete e cumpre; e foi de tal maneira que a sua fama pulou para fora dos muros do Carmo praguense, passou fronteiras, e chegou a todo o mundo. Literalmente. At\u00e9 hoje. At\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mundo fora e pelos s\u00e9culos adiante, muit\u00edssimas igrejas, e n\u00e3o apenas as do Carmo, e muit\u00edssimos altares em tantos lares, resguardam hoje bel\u00edssimas imagens do Menino Jesus de Praga. Tais imagens s\u00e3o mensagens de esperan\u00e7a e confian\u00e7a. \u00c9 como se o Rei Pequenino nos garantindo nos dissera: Leva-Me contigo, Leva-Me pela m\u00e3o. Leva-Me pelos teus caminhos, pelas tuas preocupa\u00e7\u00f5es, pelos teus medos, pelos teus pesadelos, pelos teus sonhos, correrias e \u00eaxitos, trabalhos e derrotas, para a tua fam\u00edlia. Sim, d\u00e1-me o teu cora\u00e7\u00e3o e jamais caminhes s\u00f3! Leva-Me contigo e aperta-Me docemente contra o teu cora\u00e7\u00e3o! E Eu te aben\u00e7oarei!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp; Depois que de nossos l\u00e1bios se escoam os hinos de louvor ao Menino das palhinhas, logo Jesus, grande de trinta anos, desce \u00e0s \u00e1guas lamosas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2938,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2937","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2937"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2939,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2937\/revisions\/2939"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}