{"id":2917,"date":"2021-12-31T04:12:00","date_gmt":"2021-12-31T04:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2917"},"modified":"2021-12-28T18:50:00","modified_gmt":"2021-12-28T18:50:00","slug":"novas-figuras-do-meu-presepio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/novas-figuras-do-meu-presepio\/","title":{"rendered":"Novas figuras do meu pres\u00e9pio"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia Tavares tem um pres\u00e9pio grande, hoje, talvez, com mais de duas mil e quinhentas figuras. Al\u00e9m de colossal, o pres\u00e9pio tinha uma outra curiosidade \u2014 o seu princ\u00edpio fundacional: a figura\u00e7\u00e3o deveria crescer de ano para ano. Tudo come\u00e7ara em torno \u00e0s figuras centrais, em cer\u00e2mica Lladr\u00f3. Nem tudo, por fim, ali era Lladr\u00f3, claro. Havia, ali\u00e1s, muito pechisbeque pelo meio; mas crescia, e isso importava e muito, pois se mantinha a inten\u00e7\u00e3o: acrescentar em cada Natal alguma figura nova \u2014 nem que fora o Darth Vader. Durante v\u00e1rios anos o pres\u00e9pio montou-se numa sala do Santu\u00e1rio do Menino Jesus de Praga, em Avessadas, e ali se revelou uma atrac\u00e7\u00e3o muito estimada e concorrida pelos peregrinos daquele Santu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste Natal em que tamb\u00e9m a mim me recrudesce a nostalgia e encanto do pres\u00e9pio, veio-me \u00e0 ideia a ousadia de acrescentar doze figuras ao pres\u00e9pio. N\u00e3o aquele, mas o universal. N\u00e3o s\u00e3o figuras felizes, diga-se, mas aquelas que as sucessivas ondas da covide tragicamente maculou e aproximou do horizonte do meu cora\u00e7\u00e3o ao longo de 2021. Lembrei-me, pois, de tamb\u00e9m eu acrescer algo ao pres\u00e9pio; pelo menos uma coisa \u00e9 certa: n\u00e3o excluo ningu\u00e9m de se aproximar e de se abrigar junto do calor da Luz. Ali\u00e1s, o que melhor combina com o meu of\u00edcio, \u00e9 ajudar a aproximar da Luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentindo-me, pois, impelido a ajuntar novas personagens ao pres\u00e9pio, dei comigo a lembrar que os primeiros a ir ao primeiro pres\u00e9pio \u2014 os pastores \u2014 estavam bem longe de serem personagens fi\u00e1veis e cred\u00edveis, e nem creio, ali\u00e1s, que tenham percebido o mist\u00e9rio que ali lhes foi dado contemplar \u2014 viram um menino numa manjedoira, e pronto. Saltava \u00e0 vista que&nbsp; era pobre, que os pais eram pobres ou n\u00e3o estariam ali.&nbsp; E ali deixaram ficar algo da pobreza que com eles comungavam: um peda\u00e7o de queijo, uma pele de anho para aquecer o Infante, talvez, uma cabra leiteira; e parecendo que n\u00e3o, um c\u00e3o e uma galinha tamb\u00e9m dariam o seu jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o, pois, as figuras que neste ano de 2021 acrescento ao pres\u00e9pio:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Professor M\u00e1rio<\/strong> \u2014 \u00c9, de facto, professor, n\u00e3o estou nem preciso de inventar. J\u00e1 o conhe\u00e7o h\u00e1 uns anos, mas s\u00f3 agora vai para o pres\u00e9pio. Se exerce n\u00e3o \u00e9 na sala de aula, apenas com o exemplo de vida; o que n\u00e3o \u00e9 pouco. N\u00e3o d\u00e1 \u00e9 dinheiro para o sustento. \u00c9 bom trabalhador, mas um trabalhador dispens\u00e1vel \u2014 o turismo est\u00e1 em dura crise, j\u00e1 se v\u00ea! At\u00e9 h\u00e1 quase nada fazia de tudo um pouco numa unidade hoteleira, e vendia caquinhos santos; agora que o hotel e a loja fecharam caiu no desemprego. N\u00e3o foi o \u00fanico, mas foi o primeiro a ser despejado na rua. Depois de tudo dar, sentiu-se dispens\u00e1vel, sentiu-se nada, sentiu-se lixo desprez\u00edvel. \u00c9, por muitos lados e raz\u00f5es, uma das v\u00edtimas da covide: agora que n\u00e3o tem emprego nem sal\u00e1rio, cresceu-lhe a ang\u00fastia e a depress\u00e3o \u2014 que fa\u00e7o eu aqui, neste mundo frio, neste deserto por onde Deus n\u00e3o parece ter passado, apesar de que aqui venham regulamente todos os Papas, pergunta-se?<\/p>\n\n\n\n<p>Ponho-o, por isso, de joelhos bem perto da manjedoira \u2014 de joelhos e cabe\u00e7a baixa, porque sei que n\u00e3o consegue olhar de frente a Luz que ali brilha e aquece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Eir\u00f3 Ex-quase tudo <\/strong>\u2014 V\u00ea-se bem que ainda \u00e9 novo, mas j\u00e1 tem experi\u00eancia de velho em demasiadas coisas. Ou me engano, ou vive s\u00f3 nalgum quartito pequeno ou nalguma casa sem conforto. Tem ar disso. N\u00e3o \u00e9 triste. \u00c9 desleixado. Sabe bem que o amor vale mais que a justi\u00e7a \u2014 isso mo garante uma vez por m\u00eas \u2014, mas ateima-me, por \u00faltimo, que a justi\u00e7a h\u00e1 que faz\u00ea-la e cumpri-la, e ai de quem insista no contr\u00e1rio, porque para ele a justi\u00e7a suplante o amor como um indeclin\u00e1vel imperativo. N\u00e3o gostou dos livros da escola, j\u00e1 passou pelo tr\u00e1fico, pela toxicodepend\u00eancia e pela pris\u00e3o. Por esta ordem. Dos primeiros livrou-se; da lacra da pris\u00e3o, nem por isso. Aprendeu, por\u00e9m, a li\u00e7\u00e3o e n\u00e3o quer voltar a um lugar em que se entra farrapo de gente e, se desprecavido, se sai pior, com a honra em farrapos. \u00c9 o que acha. \u00c9 o que me garante. Agora mata o tempo por aqui e por ali; compra raspadinhas, mas n\u00e3o a eito, que nisso esperto \u00e9 ele. Mas remexe a horas certas e nos lugares certos escavando o seu El Dorado \u2014 os caixotes de lixo da cidade \u2014, onde, garante-me, tem encontrado boletins de Raspadinhas abastadamente premiados. S\u00e3o pepitas que encontra quase a di\u00e1rio e lhe d\u00e3o mais para a pinga de aguardente que para o p\u00e3o e o arroz. Ali\u00e1s, aquela n\u00e3o lhe pode faltar ou o dia arranca iracundo e a destempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou coloc\u00e1-lo de p\u00e9, com rosto cheio, um sorriso e uma m\u00e3o erguida, como quem sa\u00fada ou mostra estar alegre depois do feliz achado de uma boa nova qualquer. Ele gosta da Boa Nova. Ali\u00e1s, nunca falha a ouvi-la.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Henriqueta S\u00f3<\/strong> \u2014 De c\u00e1 n\u00e3o \u00e9, mas anichou-se c\u00e1. Veio para o frio sem gostar do frio. Mas foi ficando. Ao frio. \u00c9 nobre, e n\u00e3o apenas de alma e cora\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nova. \u00c9 pequenina. Ficou ainda mais pequenina quando, h\u00e1 trinta anos, o pai morreu. Agora que a m\u00e3e tamb\u00e9m morreu, de velhinha, ela ficou muito mais pequenina, muito mais an\u00e3, mais s\u00f3, mais pobre, mais \u00f3rf\u00e3, mais solit\u00e1ria, mais sem mundo, sem ra\u00edzes, sem asas, sem esperan\u00e7a, sem sorriso, sem l\u00e1grimas. Sem tudo. S\u00f3. Sabe o que \u00e9 o Natal, claro, e se necess\u00e1rio, escreveria um tratado sobre o tema. \u00c9 culta, portanto. N\u00e3o suporta pass\u00e1-lo numa terra com muitas torres e todas as torres com sinos, que a ideia de Natal n\u00e3o lhe faz qualquer sentido \u2014 por qu\u00ea ouvir, portanto, hora a hora, ou ainda mais intermitentemente, o cantar feliz dos sinos das igrejas? Ir\u00e1 pass\u00e1-lo \u2014 se \u00e9 que o lugar existe \u2014 aonde n\u00e3o haja nem sinos nem s\u00edmbolos natal\u00edcios crist\u00e3os. Sem pai, sem m\u00e3e, sem irm\u00e3os, sem irm\u00e3s, sem asas, sem sonhos; como poderia sentir-se feliz e em paz onde quase tudo lhe fala de Natal? Qual alegria qual qu\u00ea no Natal! Henriqueta S\u00f3 decidiu come\u00e7ar mais cedo os seus exerc\u00edcios quaresmais. E vai cumprir.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou coloc\u00e1-la dentro da manjedoira, aconchegadinha, perto do cora\u00e7\u00e3ozinho do Menino Jesus, e um c\u00e1lice de fria solid\u00e3o por perto. Pode que se d\u00ea uma transmuta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Daniel Esperante<\/strong> \u2014 Chegou da gentil \u00c1frica com sabor a sal e a sol, j\u00e1 o inverno impusera seu frio chicote a Portugal. Vinha empolgado. Trazia na ideia que \u00e9ramos uma grande na\u00e7\u00e3o, um povo admir\u00e1vel, um conquistador destemido, insiste-me. \u00c9 grande na hist\u00f3ria, sim, e na verdade, em territ\u00f3rio \u00e9 bem maior que o seu pa\u00eds. Mas \u00e9 um pa\u00eds pequeno; talvez at\u00e9 amesquinhado; ego\u00edsta \u00e9-o de certeza; tamb\u00e9m nos sonhos e na esperan\u00e7a. Por mais que lho diga, ele n\u00e3o acredita. Custa-lhe perceber a ironia, o ego\u00edsmo e a frieza no trato, ele que vem dum povo que reparte fraternalmente o p\u00e3o e a \u00e1gua que n\u00e3o h\u00e1 para que todos tenham menos fome e menos sede.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel \u00e9 um rapaz jovem muito jovem, intacto de sonhos, valente de cora\u00e7\u00e3o, grandiloquente nas vis\u00f5es, virgem de esperan\u00e7a, audaz nas certezas de triunfo e engrandecimento da sua na\u00e7\u00e3o. Assim seja, meu Deus! Tem todo o caminho pela frente e a for\u00e7a ind\u00f3mita de quem ignora o que seja a trai\u00e7\u00e3o. Vou coloc\u00e1-lo entre os Magos com uma enorme esmeralda nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Rainha Isabel<\/strong> \u2014 Ela existe, acreditem. Mas ningu\u00e9m sabe ao certo o seu nome. Pode, por isso, n\u00e3o se chamar Isabel. Mas tem tudo para ser Casa de Deus \u2014 apetecia-me dizer barraca, mas estamos em tempo de Natal\u2026 Conhecemo-la, sobretudo, pela fun\u00e7\u00e3o: pedir. E isso \u00e9 mais do que suficiente para a grande maioria que, ao depositar-lhe a moedita \u2014 n\u00e3o pode ser \u00e9 das negras, que despreza! \u2014 lhe evita os olhos, e nem um bom dia lhe d\u00e1. Quer lhe deem ou n\u00e3o a moedita, nada em volta lhe escapa. Claro que sabe de toiletes das madamas e se s\u00e3o novas ou repetidas! Judicativa como \u00e9, nada lhe escapa, como digo.<\/p>\n\n\n\n<p>Move-se como uma rainha, em torno ao trono, a esquina que lhe coube e ela defende a capa e espada. E, de ceptro na m\u00e3o, sente-se outra eg\u00edpcia, a todos sentenciando desde onde v\u00ea sem ser vista. Vou, por\u00e9m, ajoelh\u00e1-la em frente ao pres\u00e9pio, de bon\u00e9 no ch\u00e3o, virado de boca para cima; afinal, diante de Deus, at\u00e9 os reis s\u00e3o pobres pedintes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. Z\u00e9 Monge<\/strong> \u2014 Z\u00e9 vive, por inconsciente op\u00e7\u00e3o, como um eremita antigo; n\u00e3o numa gruta, n\u00e3o distante do mundo, n\u00e3o recoberto de penit\u00eancias e austeridades, mas num pal\u00e1cio cheio de arte antiga, conforto contempor\u00e2neo, piscina aquecida, jacuzzi, moto4, ah e de toda a parafern\u00e1lia da net que o liga a tudo e a nada, lhe virtualiza os sentimentos e as penas, os amores que n\u00e3o tem ou parece n\u00e3o ter. Joga online com amigos japoneses, croatas e russos (detesta os americanos!) e perdeu uma fortuna em bitcoins. J\u00e1 n\u00e3o vive na real e, na verdade, rejeita todo o conforto que possa ter \u2014 prefere n\u00e3o tomar banho, n\u00e3o mudar nem a roupa nem a cama \u2014, porque lhe falta abertura para quem poderia dar sentido a tudo isso \u2014 os confratelos. Apenas come pizza e bebe \u00e1gua e, ultimamente, rapou o cabelo por um voto, mas n\u00e3o sabe dizer por qual voto. Talvez at\u00e9 tenha sido por desespero, por den\u00fancia ou apelo de salva\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m sabe bem. Para este Natal tem como projecto passar as 24 horas do dia sem ver algu\u00e9m, que isso de humanos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 bem com ele. Vai, por isso, matar o tempo a jogar na net o Jogo da Cobrinha; mas h\u00e1 quem pense que \u00e9 jogo mais violento que esse. A comunidade \u2014 imagino que da Cobrinha&#8230; \u2014 sussurra-lhe que d\u00e1 dinheiro e reconhecimento por feitos nunca dantes vistos. Vou coloc\u00e1-lo junto ao cajado firme de S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;7. \u00c2ngela Alterada<\/strong> \u2014 Tem vida de luzente e invejado sucesso, roupas permanentemente novas e lindas, felizmente combinadas. \u00c9 gira. \u00c9 jovem. \u00c9 o centro. Onde quer que v\u00e1 ou esteja \u00e9 o centro das conversas, das invejas e das selfies. N\u00e3o h\u00e1 quem se lhe compare, ou isso julga. Mora no Baile da Par\u00f3quia do Rui Veloso, embora seja mais em modo N\u00e3o H\u00e1 Estrelas no C\u00e9u. Vou coloca-la no pres\u00e9pio que ela arrenega por causa dos cheiros; vai ficar ao lado da silenciosa Maria, virgem e m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8 <\/strong><strong>e 9. VELHOS Irm\u00e3os \u00d3rf\u00e3os<\/strong> \u2014 N\u00e3o s\u00e3o daqui, desta terra calorosamente fria; e talvez de lugar algum. Vivem reclusos numa bolha a que se renderam e afei\u00e7oaram e de que n\u00e3o se querem ver livres \u2014 uma bela su\u00edte de cinco estrelas, que a tanto d\u00e1 a jubila\u00e7\u00e3o. Esfaimaram-se muito para a alcan\u00e7ar, est\u00e1 bem de ver. E agora que a alcan\u00e7aram, agarrou-os o medo de morrerem felizes. S\u00e3o t\u00e3o infelizes quanto pode ser quem vive rodeado de medo de morrer, apenas parlapateando com velhos livros de ci\u00eancia cujo modelo n\u00e3o previu nem podia prever a covide. E tamb\u00e9m n\u00e3o sabem como sair do labirinto por ela gerado. N\u00e3o t\u00eam amigos, vizinhos ou afectos \u2014 t\u00eam criados de luvas, m\u00e1scara e viseira; e falam esoterismos entre si e com os livros antigos que trouxeram numa grande mala. Estes s\u00e3o amigos seguros, visto que n\u00e3o transmitem covide, dizem-me. Tiveram, mas j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam vida social porque preferem a armadura e o casulo. De t\u00e3o s\u00f3s e t\u00e3o s\u00e1bios vou coloc\u00e1-los no pres\u00e9pio junto ao anjo que anuncia o \u00abN\u00e3o temais!\u00bb e sob a luz da estrela, pois at\u00e9 para eles h\u00e1 luz e caminho!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>10. MOIS\u00c9S MEDITERR\u00c2NICO<\/strong>. H\u00e1 perto de n\u00f3s um cemit\u00e9rio com nome de mar \u2014 Mediterr\u00e2neo. \u00c9 uma vergonha, mas \u00e9 o que \u00e9. Por estes dias mais uma barca\u00e7a foi ao fundo: abriu-se-lhe repentinamente o ch\u00e3o, e o mar engoliu-a num instante. Iam quinze pessoas onde s\u00f3 deveriam caber cinco. Entre os passageiros navegava um rapaz de quinze anos e a m\u00e3e. O rapaz salvou-se, a m\u00e3e n\u00e3o. Ali\u00e1s, ningu\u00e9m mais se salvou. O rapaz fez tudo o que p\u00f4de para a salvar; o que p\u00f4de e o que n\u00e3o p\u00f4de: nadou, esbracejou, lutou como um Mois\u00e9s contra o mar, gritou \u00abn\u00e3o desistas, n\u00e3o desistas!\u00bb, mas a m\u00e3e tinha cumprido a miss\u00e3o: apontar ao filho a terra prometida \u2014 a Europa. E foi-se.<\/p>\n\n\n\n<p>E o rapaz ficou \u00f3rf\u00e3o. Sup\u00f5e-se que j\u00e1 o era de pai. Uma outra barca de migrantes apercebeu-se da trag\u00e9dia e misericordiou-se: resgatou-o e levou-o para terra. A nova terra \u00e9-lhe estranha, o que se compreende. Mas na terra estranha encontrou cora\u00e7\u00f5es que se condoeram da sua hist\u00f3ria, do seu drama, dos seus sonhos rotos: se um dia tiver filhos eles n\u00e3o ser\u00e3o netos! D\u00f3i-lhe isso, isso e a falta de uma irmandade que o reconhe\u00e7a como irm\u00e3o de ventre e de cora\u00e7\u00e3o. A este Mois\u00e9s vou coloc\u00e1-lo no pres\u00e9pio a olhar para o sono sossegado de Jesus, para o seu manso respirar, o sereno e doce sussurrar do seu cora\u00e7\u00e3o, silabando-lhe: MOI-S\u00c9S, MOI-S\u00c9S, MEU IR-M\u00c3O, EU GOS-TO DE TI! GOS-TO MUI-TO DE TI!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>11. MENINO DO MAR<\/strong> \u2014 A barca\u00e7a que recolheu Mois\u00e9s partira, como aqueloutra, de algures das costas africanas, e trazia setenta e cinco negros homens. E atracou em Lampedusa com setenta e sete. A cifra inclui o tal Mois\u00e9s salvo das \u00e1guas frias do Mediterr\u00e2neo, e um beb\u00e9. A hist\u00f3ria do beb\u00e9 \u00e9 a seguinte \u2014 s\u00f3 os contornos, que o drama mais profundo \u00e9 igual a todos e diferente de cada qual \u2014: Na hora do embarque gerou-se uma confus\u00e3o qualquer sem justifica\u00e7\u00e3o. (Nem imagino o que este ambiente de m\u00e1fias negreiras seja, mas o injustificado alarido foi por demais criminoso, como se ver\u00e1.) A m\u00e3e do beb\u00e9 \u00e9 acicatada e mais uma vez espoliada. Impedida de subir, desde a imaculada areia da praia ergueu os bra\u00e7os e entregou o filho envolto em panos a um desconhecido que j\u00e1 embarcara, e prontificou-se a justificar-se a mais uma extors\u00e3o. \u00abSegure-me o beb\u00e9, por favor. \u00c9 s\u00f3 um instante; explico-me, pago e j\u00e1 subo para o barco\u00bb. Engano. O abuso era abuso e pronto. E, ou veio um golpe de mar, ou o barco arrancou de um supet\u00e3o previamente preparado e levou-lhe \u00e1guas fora o filho beb\u00e9. E foi assim que ele chegou \u00e0 Ilha de Lampedusa, ao colo de um estranho, protegido por aquele batalh\u00e3o de infelizes, comovendo meio mundo, e as autoridades tamb\u00e9m que agora andam l\u00e1 pela L\u00edbia \u00e0 procura da m\u00e3e. E esta \u00e9 a raz\u00e3o por que este ano o meu pres\u00e9pio tem duas manjedoiras, uma com o Salvador, outra com o salvado das \u00e1guas do mar!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>12. OSEIAS E O C\u00c3O<\/strong> \u2014 Quando subo a rua vejo-os sempre no mesmo lugar, sempre na mesma porta fechada. Do lado de fora, claro est\u00e1. Hoje chovia \u2014 e se chovia \u00e1gua fria, meu Deus! \u2014 e l\u00e1 estavam Oseias e o c\u00e3o. A ler. Digo que era Oseias que lia. O c\u00e3o parece s\u00e1bio, sim. Ouve atentamente a leitura do dono que l\u00ea baixinho. Ler baixinho \u00e9 uma das melhores maneiras de ler. Talvez Tobias n\u00e3o perceba o que o dono cicia, mas segue atento e \u00e0 risca o que ele l\u00ea. Escutar atento \u00e9 uma maneira de se ser s\u00e1bio. Tomara muitos homens! Parece-me o bicho mais feliz do mundo. E quase adivinho que pensa ser o c\u00e3o mais sortudo que existe banhado pela chuva fria. Dorme numa caminha nada improvisada. Tem manta ou mantas, de acordo com as ondas de frio que descem do Ger\u00eas. E em chovendo, socorre-o um guarda chuva que n\u00e3o livra da chuva, mas ele pensar\u00e1 que sim. E n\u00e3o se lamenta. Encolhe-se mas n\u00e3o se lamenta. N\u00e3o sei que coisas leia o Oseias, sei que deve ser religioso, pois l\u00ea sempre \u00e0 mesma hora, tal como frade piedoso, penitente e s\u00e9rio, rec\u00e9m-convertido \u00e0 pausada r\u00e9cita das Horas. Claro que o c\u00e3o deve perceber da r\u00e9cita porque, postado de frente, parece fazer coro. Bem, se n\u00e3o responde aos salmos, corresponde aos beijos que isso j\u00e1 eu vi suceder.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro anos que ali os vejo, mas n\u00e3o garanto que o livro seja o mesmo e n\u00e3o ser\u00e1, que at\u00e9 o brevi\u00e1rio s\u00e3o quatro volumes. \u00c9 \u00f3bvio que este ano tamb\u00e9m v\u00e3o para o pres\u00e9pio. Oseias fica junto dos pastores, porque afeito ao relento. Tobias, pela primeira vez, separa-se do dono e vigiar\u00e1 o sono dos dois infantes, entre ambas manjedoiras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD A fam\u00edlia Tavares tem um pres\u00e9pio grande, hoje, talvez, com mais de duas mil e quinhentas figuras. 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