{"id":2890,"date":"2021-11-30T11:57:53","date_gmt":"2021-11-30T11:57:53","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2890"},"modified":"2021-11-30T11:57:55","modified_gmt":"2021-11-30T11:57:55","slug":"a-palavra-fez-se-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-fez-se-carne\/","title":{"rendered":"\u00abA Palavra fez-se carne\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p>Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo princ\u00edpio j\u00e1 existia a Palavra. A Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus\u2026 A Palavra <em>fez-se carne<\/em> e acampou entre n\u00f3s\u201d. Para pensar o Natal de Jesus e para o preparar ao longo do Advento, h\u00e1 que voltar sempre aqui, \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o fundamental e misteriosa do princ\u00edpio do evangelho de Jo\u00e3o (1,1.14): a in<em>carn<\/em>a\u00e7\u00e3o de Deus no homem. Se a f\u00e9 crist\u00e3 tem l\u00f3gica, h\u00e1 uma dimens\u00e3o de Deus em toda a carne humana, ao habitar a carne de Jesus (da mesma ra\u00e7a e condi\u00e7\u00e3o que todos os humanos). <em>Carne<\/em> \u00e9 uma palavra-chave para entrar no mist\u00e9rio do Natal. No menino Jesus, o filho de Deus entrou na carne humana, tornou-se carne, imanente, mantendo \u00edntegra a transcend\u00eancia divina. Jesus \u00e9 a carne de Deus, o rosto vis\u00edvel do Deus invis\u00edvel (por assim crerem, a f\u00e9 e a liturgia crist\u00e3s at\u00e9 celebram a festa da Eucaristia como <em>Corpo de Deus<\/em> ou <em>Corpus Christi<\/em>). \u00c9 o inaudito, o mais original, no concerto universal das religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Na f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o h\u00e1 Deus sem carne. A cren\u00e7a num deus desencarnado seria heresia. Identificando-se com Deus (\u201ceu e o Pai somos um\u201d: Jo 10,30), o Jesus dos evangelhos remete-nos para o corpo. Desde o seu natal, permaneceu vivo e cresceu saud\u00e1vel porque foi um corpo entranhadamente amado, pela m\u00e3e, pelo pai, pela fam\u00edlia: teve uns bra\u00e7os a proteg\u00ea-lo, uns seios a amament\u00e1-lo, um colo a mim\u00e1-lo. O Jesus amoroso vivia de amor desde menino. O amor familiar incarnou na sua carne e no seu corpo, um corpo que sofreu, que comeu com bons e maus, que os salvou tocando, acarinhando, morrendo. O Jesus que viria a encher de amor as terras por onde passaria\u2026, o Jesus que repartiria sa\u00fade caldeada de amor dentro das casas e \u00e0 beira dos caminhos\u2026, o Jesus que por amor faria ver os cegos e saltar os coxos, foi antes amado. E, desde a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento, proporcionou ao amor divino a incarna\u00e7\u00e3o no humano: o verdadeiro amor humano tornou-se divino, porque em Jesus foi impregnado pelo divino. A salva\u00e7\u00e3o divina deu-se \u00e0 carne, na carne.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isso, S. Agostinho recomendou aos pedintes da transcend\u00eancia: \u201cVai pelo homem e chegar\u00e1s a Deus\u201d (citado por S. Tom\u00e1s de Aquino, <em>Expositio in\u2026 Joannem<\/em> 14,2). E o evangelho de Jesus permite continuar: ama o homem e amar\u00e1s Deus (Jo 13,20 e paralelos). O caminho mais directo entre o homem e Deus \u00e9 a carne de Jesus, seja adorada nos bra\u00e7os da m\u00e3e, seja chagada nos bra\u00e7os da cruz. Os procuradores de Deus, para o encontrarem, s\u00e3o convidados a fixar-se na humanidade de Jesus. \u00c9 dessa coragem que mais se pode orgulhar o amor gratuito e a busca desarmada, a coragem de sondar e sentir cada fr\u00e9mito de humanidade no evangelho: nos encontros transformadores com os sedentos de luz, no dom da fala e do ouvido, na d\u00e1diva da vis\u00e3o, na liberta\u00e7\u00e3o do mal f\u00edsico e ps\u00edquico, no toque carinhoso aos doentes, no perfume das car\u00edcias \u00e0s crian\u00e7as, no chorar l\u00e1grimas de sangue por uma cidade distra\u00edda do essencial, no acolhimento sem preconceitos de uma mulher atormentada, na proximidade aos considerados dispens\u00e1veis ou desprez\u00edveis, no \u00abmorrer por\u00bb todos eles. Os relatos do evangelho n\u00e3o apresentam um sistema de pensamento te\u00f3rico: reconduzem-nos \u00e0 Humanidade de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>A ela faz-nos voltar tamb\u00e9m a mestra dos cultores do esp\u00edrito que foi S. Teresa de \u00c1vila. Contra a velha corrente <em>espiritualista<\/em>, neoplat\u00f3nica, que no s\u00e9c. XVI espiritualizava a f\u00e9 e a vida crist\u00e3 at\u00e9 ao ponto de excluir tudo o que \u00e9 corp\u00f3reo para se realizar s\u00f3 no esp\u00edrito \u2013 excluindo, portanto, a humanidade de Jesus \u2013, Teresa dava grande relevo \u00e0 hist\u00f3ria evang\u00e9lica, ao Jesus conjuntamente divino e humano, \u00e0 sua ac\u00e7\u00e3o, palavra e paix\u00e3o. A essa doutrina reagiu energicamente: \u201cn\u00e3o a posso suportar!\u201d (6M 7,14). Pensava como verdadeira te\u00f3loga, com todas as consequ\u00eancias para a valoriza\u00e7\u00e3o do essencial no cristianismo, que \u00e9 o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o de Deus num corpo humano (6<em>Moradas<\/em> 7,14-15 e <em>Vida<\/em> 22,18). Promoveu entre as Irm\u00e3s a devo\u00e7\u00e3o a Jesus menino: \u201cGaranto que o vi nascido \/ de uma formosa Zagala. \/ \u2013 Pois se \u00e9 Deus, como h\u00e1 querido \/ estar com t\u00e3o pobre gente? \/ \u2013 N\u00e3o v\u00eas que \u00e9 omnipotente?\u201d (Poesia 12). Exortou-as tamb\u00e9m a gastarem na noite de Natal as reservas de alegria interior e exterior, cantando e bailando. Rivalizava com Jo\u00e3o da Cruz, igualmente devoto do Natal: \u201cFicou o Verbo incarnado \/ em o ventre de Maria. \/ E o que tinha apenas Pai, \/ tamb\u00e9m j\u00e1 M\u00e3e possu\u00eda\u2026 \/Porque das entranhas dela \/ sua carne Ele recebia; \/ pelo qual, Filho de Deus \/ e do homem se dizia\u201d (Roman\u00e7a sobre \u00abIn principio erat Verbum\u00bb).<\/p>\n\n\n\n<p>A vida humana pessoal adquire mais encanto se nela houver um toque de mist\u00e9rio. O Natal, cada Natal, oferece-lhe esse presente: um encontro de Deus com a humanidade, que pede para ser aproveitado com reciprocidade, no esp\u00edrito e no corpo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u201cNo princ\u00edpio j\u00e1 existia a Palavra. A Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus\u2026 A Palavra fez-se carne e acampou entre n\u00f3s\u201d. 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