{"id":2888,"date":"2021-11-30T11:57:06","date_gmt":"2021-11-30T11:57:06","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2888"},"modified":"2021-11-30T11:57:09","modified_gmt":"2021-11-30T11:57:09","slug":"se-viajar-para-o-dubai-nao-leve-este-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/se-viajar-para-o-dubai-nao-leve-este-livro\/","title":{"rendered":"Se viajar para o Dubai n\u00e3o leve este livro"},"content":{"rendered":"\n<p>(A prop\u00f3sito do romance <em>A Perdiz e o Sacrif\u00edcio<\/em>, de Jos\u00e9 Manuel Cruz)<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Os caminhos da vida s\u00e3o salas de aula, ao menos para mim. Juntos todos, uma universidade. Gosto de encruzilhadas mesmo quando, esbaforido e sem tempo, hesito que direc\u00e7\u00e3o tomar. Cada op\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio, uma interjei\u00e7\u00e3o, um espanto, um novelo por desvelar. Nunca me perdi, mas j\u00e1 tive de voltar a tr\u00e1s e escolher outra op\u00e7\u00e3o. J\u00e1 me vi no fim do mundo \u2014 Ah, aquela nua penedia da Peneda! \u2014, dei meia volta, remirei as casas baixinhas da branda, e fui por outro caminho. \u00c9 a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho \u00e9 met\u00e1fora da vida. Eis a rela\u00e7\u00e3o que tenho com eles: percorro-os para chegar ali ou al\u00e9m, mas nem sempre vou pelo mais \u00f3bvio ou pelo mais r\u00e1pido ou pelo mais conhecido e soci\u00e1vel. \u00c0s vezes elejo o mais improv\u00e1vel ou o mais in\u00f3spito, mesmo que o GPS me prove o contr\u00e1rio. Mas, pergunto-me, que sabe da vida o GPS? E ent\u00e3o l\u00e1 vou eu cruzando casarios velhos, ribeiras mansas, serras bravas, deixando para tr\u00e1s pal\u00e1cios derru\u00eddos que me bramem pergaminhos outrora faustosos, e agora s\u00e3o quase nada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> Confio-me reiteradamente a S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz dos Caminhos e, em meu cora\u00e7\u00e3o mendigo, recordo-o peregrino cantante dos salmos de David e de hinos \u00e0 Virgem e a Jesus. Que caminhos percorreu S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz! Que caminhos\u2026 E n\u00e3o, n\u00e3o eram bem trilhos, mas caminhos de p\u00e9 posto, de cabras, de lavoira, barrancos, carreiros, lameiros e lama\u00e7ais e lodais imensos, armadilhas, enfim. Uma vez veio a p\u00e9 a Lisboa, com um burrico ao lado, dispon\u00edvel para os dias mais aziagos, e um companheiro. Foi viagem para bem mais de um m\u00eas, quase dois. (E outro tanto para o regresso.) Foram daquelas viagens que valem uma odisseia das que j\u00e1 n\u00e3o sabemos fazer nem escrever. E que fazia o Santo numa viagem assim? \u2014 Demandava o mar com a sede de um rio! E logo ele que jamais vira o mar. Haveria de v\u00ea-lo, sim, e de ouvi-lo cantar em Alc\u00e2ntara. Ah, as can\u00e7\u00f5es do mar a bater na areia, nas rochas, no casco dos barquinhos ou a embalar peixinhos! E que coisas dizem as conchas \u00e0s ondas, e os peixinhos aos barcos? Toda essa sinfonia auspiciava ouvir S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz quando chegasse a Lisboa. E chegou! E ouviu! Toda essa m\u00fasica ele bebeu e lhe encantou a alma! Mas enquanto n\u00e3o chegou, garboso caminhou, sabendo dever caminhar, sereno e inexaur\u00edvel, como um rio. Dizem que quando lhe tocava subir ao lombo do burrico lia a B\u00edblia, e talvez lesse, apesar de a saber de cor. E lia os salmos das Horas, e encantava-se com o chilreio dos passarinhos, os perfumes das flores, a dan\u00e7a das abelhas, com o \u00abvenha com Deus\u00bb dos pobres, um tarugo de p\u00e3o, mel e um copo de tr\u00eas, o bailado dos rebanhos retou\u00e7ando para esta e aquela banda, e saudaria os lavradores, confessaria alguns, cumprimentaria pastores solit\u00e1rios, anunciaria a outros, pacificava feras desavindas, amainava tempestades desembainhadas. E cantava\u2026 Cantava muito pelos caminhos, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. Ah, o encanto dos caminhos. O encanto\u2026 O encanto dos caminhos ajuda a tecer amizades, a unir almas, a desafogar m\u00e1goas, a desfiar ave marias, a escutar um mestre, a saborear sabedoria de santo, a aprender os segredos da vida, a agradecer as d\u00e1divas pequeninas, a apreciar a beleza do imponder\u00e1vel, a valorizar o essencial, a agradecer uma fonte, uma sombra, o concerto dos grilos, um molho de palha seca que servisse de cama. Eu dava um bra\u00e7o \u2014 a perna v\u00ea-se bem que n\u00e3o dava jeito nenhum \u2026 \u2014 para ter feito uma s\u00f3 viagem daquelas de mais de um m\u00eas \u00e0 sombra de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz! \u00c9 sabido que o Santo abria as dobras da alma a quem com ele caminhasse \u2014 e como eu gostaria de ter bebido dessa \u00e1gua fresca! E como eu teria gostado de p\u00f4r-me \u00e0 janela da sua alma! Digo que dava um bra\u00e7o por isso, mas teria preferido ficar com os dois, como \u00e9 \u00f3bvio\u2026 E nem precisaria de subir-lhe (ou descer?) para a alma, bastar-me-ia ficar \u00e0 janela, que s\u00e3o os olhos. Ali viajaria eu bem, lendo com o seu olhar o infinito do c\u00e9u, as serranias alcantiladas, o voo das aves, o zunir das abelhas e borboletas, o carreiro das formigas, os peixinhos acabados de nascer, os juncos, os alhos silvestres, as ermidas brancas ao longe, as amoras negras, a mansid\u00e3o dos animais bravios, os cavaleiros impantes, a dol\u00eancia dos explorados e famintos, os castelos e os pal\u00e1cios, as choupanas, os soutos e os cor\u00e7os saltitantes, as sementeiras e as cegas e as vindimas, os caminhos intermin\u00e1veis, os prados de verduras, as flores e as fronteiras, as cobras ziguezagueantes, os regatos cantantes, as gentes a rezar. O que eu n\u00e3o daria!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O que eu n\u00e3o daria por poder desafiar S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz a caminhar meia l\u00e9gua \u00e0s arrecuas, t\u00e3o s\u00f3 meia l\u00e9gua, sim! \u00c0s arrecuas? Sim, \u00e0s arrecuas, que \u00e0s arrecuas \u00e9 que n\u00f3s melhor descobrimos o caminho; que \u00e9 como quem diz: por mais que conhe\u00e7amos os caminhos, a inclina\u00e7\u00e3o do sol, as voltas, as curvas, a extens\u00e3o das rectas, as encruzilhadas e as montanhas, os vales e os desfiladeiros, as \u00e1rvores bordejantes, as r\u00e3s saltando para o profundo centro das po\u00e7as, as fontes encantadas, os melros saltadores, os pardais irrequietos, os passarinhos pipilantes, os salt\u00f5es e os l\u00famen-c\u00fas voadores, sim, por mais que saibamos tudo isso, nunca algu\u00e9m verdadeiramente sabe as surpresas que o caminho da vida nos traz. Por isso, digo: gosto de imaginar-me caminhando pela vida \u00e0s arrecuas\u2026 E tamb\u00e9m porque gostaria de saber o que me diria o Santo depois de caminharmos ou corrermos juntos um peda\u00e7o de caminho naquela pantomina; qualquer coisa como: e cria um pai um filho para isto, meu Deus?!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> N\u00e3o foi a ele, que era santo e espabilado \u2014 mas certamente que ele bem o sabia porque, embora dado para a m\u00edstica, era homem advertido \u2014, mas a um outro Carmelita Descal\u00e7o, a quem Santa Teresa recomendou que se cavalgasse muitas horas pelos trilhos velhos de Castela cingisse primeiro as r\u00e9deas da montada \u00e0 correia do h\u00e1bito. N\u00e3o fosse adormilar-se e tombar da cavalgadura e, ao estatelar-se, se lhe espantasse a besta e esta se lhe sumisse com os parcos pertences. \u00c9 certo que os de Frei Jo\u00e3o da Cruz eram bem mais ralos e de bem menor valia que os de um Provincial, mesmo Descal\u00e7o, mas ainda assim, ele saberia como a coisa se faria. E f\u00e1-lo-ia, que avisado era ele. Os caminhos t\u00eam, pois, destas coisas, prosaicas, s\u00e1bias e santas; e sobressaltos intempestivos, e assaltos mort\u00edferos, e inesperadas e torrenciais chuvadas, e tardes t\u00f3rridas, e incertezas quanto aonde acoitar-se e dormir, e corridas \u00e0 pedrada, e cruzeiros e ermidas sossegadas, e coelhos assustados esgueirando-se para as luras, e t\u00edmidas raposas fugindo, e perdizes de incans\u00e1vel chamamento, e cigarras, e o voo das \u00e1guias altaneiras, dos falc\u00f5es e dos p\u00e1ssaros solit\u00e1rios, e gente pobre e minguada, e almas boas e santas, e rios por atravessar, e mortes, e giestas floridas, e\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> Ontem, tresantontem e hoje isso sucede, bastar\u00e1 saber-se por que caminhos impontar os passos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. <\/strong>Isto tudo e algo mais me veio \u00e0 mente quando, por segunda vez, me afundei na viagem que o romance A Perdiz e o Sacrif\u00edcio, de Jos\u00e9 Manuel Cruz, autor bracarense, h\u00e1 pouco nos prop\u00f4s. H\u00e1 coisas v\u00e1rias a dizer sobre tal viagem, como de \u00e2ngulos t\u00eam certos poliedros:<\/p>\n\n\n\n<p><em>i)<\/em> Sobre o Autor ouvi um renomado amigo de inf\u00e2ncia chamar-lhe resiliente, homem que n\u00e3o so\u00e7obra sob tormenta alguma, e se baixar a cabe\u00e7a \u00e9 para que a chuva ou a neve n\u00e3o lhe turbem os olhos e o obste de caminhar. Conhe\u00e7o-o h\u00e1 tr\u00eas ou quatro anos e estou convicto que outras raz\u00f5es o fa\u00e7am inclinar a cabe\u00e7a e o olhar \u2014 as l\u00e1grimas, por exemplo. Conhe\u00e7o-lhe a m\u00e3e e quem melhor conhece um homem \u2014 at\u00e9 melhor que a esposa, a companheira ou os filhos \u2014 \u00e9 a m\u00e3e. E ela disse-me:<em> \u00abEste meu filho \u00e9 rapaz de uma s\u00f3 folha dobrada em quatro no bolso de tr\u00e1s das cal\u00e7as; e de um l\u00e1pis. Era assim que ele, em mi\u00fado, ia para a escola. N\u00e3o era, por\u00e9m, certo que chegasse a casa com a folha dobrada em quatro e o l\u00e1pis\u00bb.<\/em> Eu confirmo que ainda assim \u00e9. Mas quem precisa de uma folha branca e de um toco de l\u00e1pis se tem alma grande onde Deus se acoite? Por\u00e9m, nem mesmo quem assim seja se v\u00ea livre de intemp\u00e9ries e, frequentemente, no ver\u00e3o, ele se apresenta de informais chinelos. (Como se sabe os chinelos s\u00e3o algo distintos de alpergata de frade);<\/p>\n\n\n\n<p><em>ii)<\/em> O t\u00edtulo do romance \u00e9 ardente e engenhoso, no seu quanto. Poderia esmiu\u00e7\u00e1-lo aqui, mas como sei que s\u00e3o Carmelitas que me leem, para qu\u00ea faz\u00ea-lo?;<\/p>\n\n\n\n<p><em>iii) <\/em>O texto merece ser lido, mergulhado, declinado e mastigado; mas n\u00e3o resumido, que \u00e9 o mesmo que tra\u00eddo; seria crime de lesa-literatura. Acrescento, n\u00e3o obstante, que a sua luminosidade acabou impondo-se ao Autor \u2014 o que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que por ele tenha sido perseguida e pescada \u00e0 linha, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se desdiz que o tenha sido. Haver\u00e1 quem se ria do que digo, mas quem se rir \u00e9 porque nunca escreveu nada; s\u00f3 copiou sebentas. Eu que tamb\u00e9m nunca escrevi, sei que textos existem que s\u00f3 saltam para fora, s\u00f3 pulam a cerca de arame ou s\u00f3 pintam a alva folha branca depois de bem nos lerem por dentro. \u00c9 isso: os livros conhecem-nos a alma, o cora\u00e7\u00e3o e as artroses mesmo muito antes de os escrevermos. Eles sabem se, por dentro, somos escuros ou boreais, se confusos, desalinhados ou verticais. Ou com alinhavos. E depois dizem isso de n\u00f3s aos leitores. N\u00e3o resumirei, portanto, o livro. Nem o creio resum\u00edvel. Creio-o justo e seco, desafiante como dois espadachins num torneio. Mas meigo e manso. V\u00e3o l\u00e1 ver se tenho raz\u00e3o;<\/p>\n\n\n\n<p><em>iv) <\/em>N\u00e3o sou quem para dizer que seja obra prima. Da literatura portuguesa n\u00e3o o \u00e9 certamente, e o Autor \u2013 quase invisual \u2013 dir\u00e1 o mesmo. Cego, n\u00e3o vesgo, disse eu. Rezo, por\u00e9m, para que escreva uns par\u00e1grafos mais e nos d\u00ea refrescos ou sombras que nos espantem e acariciem, nos acicatem os sentidos, nos abram para mais uma jornada das vias do esp\u00edrito, nos impilam para a outra extrema da transcend\u00eancia. Talvez tresleia, mas seria pouco l\u00ea-lo como literatura de viagens, reconstitui\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, literatura piedosa ou virtuosa ou mero passatempo. N\u00e3o nos namora, posta-se diante de n\u00f3s; \u00e9 duro como um murro que n\u00e3o chega a amea\u00e7ar-se. Saber que existe um livro assim \u00e9 um desconforto por ainda n\u00e3o t\u00ea-lo lido. Rezo, como disse, para que o Cruz nos desafie de novo, num outro texto, porventura, com outros requebros;<\/p>\n\n\n\n<p><em>v)<\/em> A personagem que por aquelas p\u00e1ginas adentro irrompe e por Portugal acima sobe \u00e9 Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o, Carmelita Descal\u00e7o, do s\u00e9c. XIX. Como se sabe aquele s\u00e9culo acabou com os frades mesmo antes de chegar a meio. Que digo eu, acabou? Acabou nada, restou um. E que um! Amea\u00e7aram-no aqui, perseguiram-no acoli, bateram-lhe acol\u00e1, prenderam-no al\u00e9m. E ele disse, replicou e treplicou: O h\u00e1bito da Senhora do Carmo jamais o desvestirei; prendam-me se querem ou fa\u00e7am-me o que entenderem! Carmelita sou, como Carmelita vivo, Carmelita morrerei, que n\u00e3o sei viver ou morrer de outra maneira. E assim foi, morreu inteiro; mas morreram primeiro os que o perseguiram, prenderam e maltrataram. Foi em Braga, no dia 16 de mar\u00e7o de 1861, onde foi sepultado na Igreja do Carmo. Ali Camilo foi ajoelhar-se e prantear-se. Antes dele, muitos, em id\u00eantica peregrina\u00e7\u00e3o, ali fraguaram as almas, sucedendo igual nos dec\u00e9nios seguintes, at\u00e9 pelo menos 1960;<\/p>\n\n\n\n<p><em>vi) <\/em>Uma coisa me espanta em tudo isto: em seis meses, ou algo parecido, este \u00e9 o segundo livro em que irrompe a figura de Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o. O primeiro foi O Resgate, A Perdiz e o Sacrif\u00edcio, o segundo. N\u00e3o s\u00e3o g\u00e9meos, nem na arte nem no g\u00e9nio. Irmana-os ligeira coincid\u00eancia, que a terra d\u00e1 daqueles frutos quando est\u00e1 madura ou madura ela os leitores. E talvez tamb\u00e9m haja de dizer-se que quando um farol nos urge, lamentamos se este \u00e9 despossu\u00eddo de luz. E este, sim, tem;<\/p>\n\n\n\n<p><em>vii) <\/em>Se o Autor o negar, negar\u00e1 e ter\u00e1 raz\u00e3o. De facto, o que perpassa pelo A Perdiz e o Sacrif\u00edcio \u00e9 o apelo \u00e0 fuga do rame-rame de trazer a cote, a intui\u00e7\u00e3o da luz da fresta, a abertura ao imponder\u00e1vel, a defini\u00e7\u00e3o da verticalidade, a amplid\u00e3o da transcend\u00eancia. \u00c9 claro que \u00e9 uma ousadia, porque de t\u00e3o ignaros e mesquinhos, os dias que correm desavizinharam-se da transcend\u00eancia. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que quando a realidade se nos oferece estreita e virtualizada, parecendo que ou nos aperta ou nos amarfanha, urge aproximar-se de algu\u00e9m como Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o que jamais mudou, pois rumo que mudar n\u00e3o havia, antes eleva e faz elevar o olhar do leitor por uma verticalidade inteira que nos impele para muito acima do p\u00f3. Quem, por\u00e9m, se afei\u00e7oou ao torpor ou \u00e0 hiberna\u00e7\u00e3o ou a viver anestesiado ter\u00e1 dificuldade em ombrear com uma leitura inteligente e desafiadora como esta. De facto, Jos\u00e9 Manuel Cruz n\u00e3o escreve para namorados;<\/p>\n\n\n\n<p><em>viii)<\/em> Se digo que textos existem que s\u00f3 saltam para c\u00e1 das barreiras quando convocados; tamb\u00e9m \u00e9 verdade que este e outros, de improv\u00e1vel similitude, exigem leitores em processo de regresso do ex\u00edlio. \u00c9 not\u00e1vel existir \u00e0 nossa volta, depois de muitas posterga\u00e7\u00f5es, uma ingente demanda do sagrado e da transcend\u00eancia. J\u00e1 algures se diz andar por a\u00ed demasiada gente, de mestre em mestre, de fonte em fonte, de flor em flor, \u00e0 procura de sentido, de luz, de paz. Foram saindo pelas nesgas do aprisco, indo por a\u00ed sem rumo certo, de nega\u00e7\u00e3o em nega\u00e7\u00e3o, de busca em busca, de saber em saber, de migalha em migalha, do hindu\u00edsmo ao tao\u00edsmo, do sufismo \u00e0 cabala, do ocultismo ao nada, ao vazio e \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da divindade; e negando-a, obliteraram a transcend\u00eancia e a sua sombra e, em consequ\u00eancia, mirraram a ideia de humanidade. Buscam fora o p\u00e3o que em casa h\u00e1, e d\u00e3o-lhes ali migalhas de bolor; e, sem pastor, andam cansados e desvalidos. Alguns, se empreendem um rebusco de luz por entre nevoeiros, \u00e9, talvez, quem sabe, por algures nas cavernas da mem\u00f3ria, ainda lhes reverberar algo c\u00e1lido, nost\u00e1lgico, afectivo, comunit\u00e1rio. Dou um exemplo: ainda neste s\u00e1bado, a Renata obrigou-se a vir de Paris para ver a est\u00e1tua do Santo Fradinho. Disse-me que est\u00e1 desesperada porque anda em busca de luz e por a\u00ed e acol\u00e1 s\u00f3 encontrou fragmentos, poeiras e restos que lhe aumentaram a fome e a exauriram. N\u00e3o se atreveu a ajoelhar ali, e ainda bem, mas declarou: <em>\u00abh\u00e1 neste olhar um farol! Talvez esteja aqui o princ\u00edpio do meu regresso, pois tenho fome de luz e de sentido; quero regressar e falta-me um olhar que me acolha. Quem dera acendesse eu aqui a luz da f\u00e9!\u00bb;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ix)<\/em> Faltam refer\u00eancias aos retornados, aos corajosos que retomam o limiar da candeia da f\u00e9. E s\u00e3o tantos os que se quedam naquela fronteira t\u00e9nue, onde de um lado \u00e9 mesmo noite e do outro quase luz. E qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 livrar-se de atavios, achegar-se e transp\u00f4-la! E os que dever\u00edamos apontar a vela ou luz andamos t\u00e3o afogados em mil-afazeres \u2014 afinal, para tanto somos t\u00e3o poucos! \u2014 que muitos se nos esvaem do olhar. Achegam-se-nos n\u00e1ufragos e n\u00e3o temos nem porto de abrigo nem hospitais nem tendas de campanha. E ficam-se-nos ao frio na praia, ningu\u00e9m lhes acende uma fogueira, nem lhes assa um peixe, e constipam-se e finam-se. E dizem que estamos em S\u00ednodo! Valha-me Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><em>x)<\/em> Em Braga, em dias muito pr\u00f3ximos a estes, semeou-se \u00e0 frente do Carmo uma vela no meio da intemp\u00e9rie. N\u00e3o foi h\u00e1 muito tempo, \u00e9 certo, como tamb\u00e9m \u00e9 certo que ela ali resiste e resistir\u00e1. Buscando um sinal, alguns h\u00e3o-de encontr\u00e1-la por entre as brumas da pressa. \u00c9 \u00f3bvio que para a encontrar tamb\u00e9m ajuda andar-se em busca de algo. E quem diz a vela diz A Perdiz e o Sacrif\u00edcio. E uma e outro alguma vez deve buscar-se, mas n\u00e3o no Dubai.<\/p>\n\n\n\n<p>(Nota: O livro A Perdiz e o Sacrif\u00edcio pode ser encontrado \u00e0 venda na portaria do Carmo de Braga, ou pedido por telefone para o mesmo, ou na livraria Cent\u00e9sima P\u00e1gina. Nota Segunda: O Autor do romance \u00e9 avesso a elogios e vacinado face a qualquer desconsidera\u00e7\u00e3o de quem assina este texto e se diz seu amigo.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(A prop\u00f3sito do romance A Perdiz e o Sacrif\u00edcio, de Jos\u00e9 Manuel Cruz) Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. Os caminhos da vida s\u00e3o salas de aula, ao menos para mim. 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