{"id":2870,"date":"2021-10-31T03:15:00","date_gmt":"2021-10-31T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2870"},"modified":"2021-10-29T13:02:16","modified_gmt":"2021-10-29T13:02:16","slug":"sem-palavras-face-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/sem-palavras-face-a-morte\/","title":{"rendered":"Sem palavras face \u00e0 morte"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falar da morte do ser humano soa quase a ligeireza: por muito s\u00e9rio que seja o discorrer \u00e0 frente dela, ser\u00e1 sempre uma incurs\u00e3o no desconhecido. T\u00e3o profunda e arrebatadora sendo a sua intensidade dram\u00e1tica, enfrent\u00e1-la com o pensamento \u00e9 como sair vencido \u00e0 partida. N\u00e3o \u00e9 por essa raz\u00e3o que hoje as rela\u00e7\u00f5es humanas e as tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e da informa\u00e7\u00e3o p\u00f5em em cima da ideia da morte uma laje de sil\u00eancio, evitando falar dela, na tentativa de a enterrar: se tem de emergir, ent\u00e3o que seja o mais tarde poss\u00edvel \u2013 pensa-se. Ela torna-se embara\u00e7osa na conversa; por isso, n\u00e3o se deixa l\u00e1 entrar. Nem se pronuncia a palavra. Substitui-se por suced\u00e2neos com o vocabul\u00e1rio alternativo de <em>partir<\/em> ou outro. Pais e familiares afastam as crian\u00e7as do cemit\u00e9rio e dos funerais. N\u00e3o falam dela porque n\u00e3o sabem o que fazer com ela nem t\u00eam uma solu\u00e7\u00e3o para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante essa fuga \u00e0 realidade, o realismo di\u00e1rio da morte imp\u00f5e-se-nos. Tem a marca do inevit\u00e1vel. N\u00e3o a conseguimos eludir. Obriga-nos a falar dela. Obriga\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, pens\u00e1-la pode ter reflexos positivos na vida: \u201cEm todas as tuas ac\u00e7\u00f5es\/palavras recorda-te do teu fim e assim nunca errar\u00e1s\u201d (Sir 7,36). Desde logo, viver na perspectiva do fim da vida f\u00edsica gera sentimentos de igualdade entre todos os humanos, s\u00e1bios ou med\u00edocres, abastados ou carenciados, enamorados ou abandonados, doentes ou sadios. Dado que a morte n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 margem mas no cora\u00e7\u00e3o da vida qual presen\u00e7a invis\u00edvel, ela pesa na balan\u00e7a do sentido da vida cada decis\u00e3o que tomamos e faz-nos viver como precioso e \u00faltimo cada instante da nossa exist\u00eancia. Quanto mais consci\u00eancia tivermos da realidade da morte, mais maravilhosa aparecer\u00e1 a aventura da vida. Porque a morte afecta a exist\u00eancia em cheio, meditar nela \u00e9 meditar no sentido \u00faltimo da vida. E \u2013 o que \u00e9 fundamental \u2013 amplia a vis\u00e3o global da vida. Quem n\u00e3o quer pensar na morte tem uma perspectiva estreita da vida. N\u00e3o conhece bem toda a vida se no seu c\u00edrculo n\u00e3o inclui a morte. Ela faz parte da vida tanto como a vida faz parte da morte: \u201cDeve-se esperar sempre pelo \u00faltimo dia do homem: ningu\u00e9m deve ser considerado feliz antes de morrer e antes de receber as honras finais [<em>funera<\/em>]\u201d (Ov\u00eddio,<em> Metamorfoses<\/em>, III, 135-137). Pensar a morte constr\u00f3i a vida sobre fundamentos humanos e humanizantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A eleva\u00e7\u00e3o de uma religi\u00e3o pode medir-se pela sa\u00edda que d\u00e1 ao problema da morte. O cristianismo, que v\u00ea realisticamente a vida humana gravada na areia da transitoriedade, sente, ao mesmo tempo, dentro de si o desejo \u00edntimo de fazer frente \u00e0 caducidade. O crist\u00e3o enfrenta todos os dias esse paradoxo: nascido para a morte, tende para a vida. No cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 a morte mas a vida. De facto, Jesus fala abertamente da morte integrando-a na vida: \u201cEu vos asseguro: se algu\u00e9m guardar a minha palavra, nunca saber\u00e1 o que \u00e9 morrer\u201d (Jo 8,51); \u201ceu sou o p\u00e3o vivo que desceu do c\u00e9u; se algu\u00e9m comer deste p\u00e3o, viver\u00e1 para sempre\u2026 e eu ressuscit\u00e1-lo-ei no \u00faltimo dia\u201d (Jo 6,51.54). No seu discurso inovador introduz uma palavra conhecida: a ressurrei\u00e7\u00e3o. Garante que a vida n\u00e3o acaba com a morte: prolonga-se depois dela. Entende que a \u00faltima pergunta sobre a vida n\u00e3o pode ser respondida pela <em>f\u00edsica<\/em> mas s\u00f3 pela <em>metaf\u00edsica<\/em>. Quando diz \u201ceu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida: quem tem f\u00e9 em mim, ainda que morra, viver\u00e1\u201d (Jo 11,25), sugere que o sentido \u00faltimo da vida se funda na identifica\u00e7\u00e3o com a dele, com o que disse, com o que fez. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a linguagem da supera\u00e7\u00e3o da morte. Recusa que a vida possa ser uma busca em torno do vazio e do \u2018po\u00e7o da morte\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo crist\u00e3o desde o s\u00e9c. V dedica um dia do ano \u00e0 ora\u00e7\u00e3o pelos que passaram pela morte, dia que desde o s\u00e9c. XIV \u00e9 o 2 de Novembro. A tradi\u00e7\u00e3o popular antecipa j\u00e1 para a v\u00e9spera festiva de Todos os Santos essa \u00f3ptima forma de recordar as pessoas amadas falecidas, querendo significar a liga\u00e7\u00e3o de umas com os outros. A inten\u00e7\u00e3o, estimulante, \u00e9 ligar na saudade a perda de um familiar com o amor a ele. Como dizia Nietzsche, \u201camar e perder: h\u00e1 muito que as duas palavras v\u00e3o juntas. Querer amar \u00e9 aceitar mesmo a morte\u201d (<em>Assim falava Zaratustra<\/em>; Presen\u00e7a; Oeiras 2010; p. 145). Porque todos temos familiares defuntos amados, e Jesus, Maria e Jos\u00e9, a f\u00e9 intui que, quando morremos, somos esperados. \u00c9 sugestiva a ideia que a B\u00edblia p\u00f5e na boca de grandes personagens \u2013 ou diz delas \u2013 ao morrerem: \u201cvou reunir-me com os meus\u201d (Jacob aos filhos), vou juntar-me aos meus pais, \u201cir\u00e1s reunir-te com os teus\u201d (Deus a Mois\u00e9s), \u201cfoi reunir-se com o seu povo\u201d (Abra\u00e3o e Isaac)\u2026 \u201cN\u00e3o temas estar destinado \u00e0 morte: recorda os que te precederam\u201d (Sir 41,3). No drama da morte, d\u00e1 conforto pensar que em Deus os nossos entes queridos, pelos quais dobram os sinos com um toque de mem\u00f3ria que faz ressoar a saudade, o afecto e a piedade, est\u00e3o \u00e0 nossa espera e que n\u00f3s nos juntaremos a eles, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o. E quando se juntam os que se amam, tudo de bom pode acontecer, mesmo o fisicamente imposs\u00edvel (mas cr\u00edvel): \u00e9 a festa crist\u00e3 da comunh\u00e3o dos santos, a jubilosa sinfonia da esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Falar da morte do ser humano soa quase a ligeireza: por muito s\u00e9rio que seja o discorrer \u00e0 frente dela, ser\u00e1 sempre uma incurs\u00e3o no desconhecido. 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