{"id":2866,"date":"2021-10-31T03:08:00","date_gmt":"2021-10-31T03:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2866"},"modified":"2021-10-29T10:31:37","modified_gmt":"2021-10-29T10:31:37","slug":"teresa-a-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/teresa-a-grande\/","title":{"rendered":"Teresa, a grande"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.&nbsp;&nbsp; <\/strong>Celebr\u00e1mos no passado dia 15 de outubro a Solenidade de Santa Teresa de Jesus. N\u00f3s, carmelitas descal\u00e7os, t\u00ednhamos de celebr\u00e1-la, record\u00e1-la, cant\u00e1-la e louv\u00e1-la e agradec\u00ea-la a Deus que no-la deu como m\u00e3e, irm\u00e3 e companheira do caminho de perfei\u00e7\u00e3o. Teresa que s\u00f3 quis ser de Jesus empenhou-se ardentemente em tudo levar para Jesus. A sua ora\u00e7\u00e3o e o seu cora\u00e7\u00e3o ardente eram como torrente impetuosa: Tudo levavam consigo, sen\u00e3o \u00e0 frente, pelo menos ao lado e tr\u00e1s si!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que grande santa, foi Santa Teresa de Jesus! Que grande mulher! T\u00e3o grande que lhe chamam a Grande! E era-o. E \u00e9-o, claro. O seu nome e a sua santidade tanto brilham no horizonte da Igreja e no da humanidade que muitos a aclamam como a maior mulher depois da M\u00e3e de Jesus! Se tivermos em conta que a ela tamb\u00e9m lhe chamamos M\u00e3e de Deus, fica explicada a estatura de Santa Teresa!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que mulher! Que santa! Mas n\u00e3o uma santa mais, que se ajunte sem mais ao rol dos santos! N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 santa de trazer por casa, mas uma santa descal\u00e7a de percorrer e engrandecer o mundo! Dir-me-\u00e3o: \u2014 Ai! E a Teresinha e a Teresinha? \u2014 Sim, a Teresinha n\u00e3o cabe no mundo, n\u00e3o. Mas se o nome e a ternura do olhar de Teresinha est\u00e3o em todo o mundo foi porque, primeiro, Teresa, a Grande, a m\u00e3e, a ensinou a caminhar, a amar e a rezar pelos mission\u00e1rios e mission\u00e1rias de todo o mundo, sim. Tenhamos isto por certo: N\u00e3o tivera sido antes criado, por Teresa e para Teresa, Deus criaria o mundo! Encontrou Deus em Teresa, a Grande, uma parceira de di\u00e1logo \u00e0 Sua altura; por isso, para Teresa criaria Deus o mundo se j\u00e1 o n\u00e3o houvera, para que ambos, em di\u00e1logo de amigos, depois nele se deleitassem, como quem frequenta um belo jardim! E agora repare-se: s\u00f3 depois, muito depois, seguindo os passos da m\u00e3e Teresa, veio Teresinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.&nbsp;&nbsp; <\/strong>Teresa nasceu h\u00e1 pouco mais de 500 anos, em 1515; e morreu em 1582. Viveu 67 anos \u2014 os \u00faltimos vinte como um impar\u00e1vel fogo ardendo em palha seca! Pode parecer distante de n\u00f3s no tempo, mas n\u00e3o. N\u00e3o mesmo, porque \u00e9 vizinha de aqui ao lado. Afinal, passados estes s\u00e9culos todos o seu nome brilha ainda intensamente entre n\u00f3s, provavelmente mais intensamente que nunca; muitos a celebram no seu dia lit\u00fargico \u2013 15 de outubro \u2013, e n\u00f3s, Carmo de Braga, tamb\u00e9m neste domingo, dia 17 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulher t\u00e3o valente, t\u00e3o santa e t\u00e3o ardente, e t\u00e3o incans\u00e1vel pela Igreja e por Cristo, n\u00e3o merece ser olvidada, n\u00e3o merece ser menosprezada ou subalternizada, menos ainda entre n\u00f3s, comunidade do Carmo, seus filhos e filhas. Louvemo-la, portanto, com orgulho e j\u00fabilo por sermos de quem somos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ajuntemos um outro dado: alguns de n\u00f3s sabemos que os santos da Igreja se agrupam por categorias; n\u00e3o s\u00e3o muitas: Ap\u00f3stolos, M\u00e1rtires, Doutores, Pastores, Virgens. O grupo mais pequenino (depois do dos 12 Ap\u00f3stolos) \u00e9 o grupo dos Doutores da Igreja que, at\u00e9 1970, inclu\u00eda apenas 30, e todos homens. (Actualmente s\u00e3o 36). Em vinte s\u00e9culos a Igreja apenas reconheceu trinta e seis Doutores e, entre eles, apenas quatro mulheres \u2013 Teresa foi declarada como tal em 27 de setembro 1970, pelo Papa Paulo VI e, com a sua proclama\u00e7\u00e3o, quebrou-se a barreira que impedia as mulheres de ensinarem a Igreja Universal! Antes dela, portanto, nenhuma mulher fora reconhecida doutora da Igreja, por uma s\u00f3 raz\u00e3o \u2013 ser mulher!; de facto, S\u00e3o Paulo deixara escrito: <em>\u00abA mulher, quieta e d\u00f3cil, escute o ensino. \u00c0 mulher n\u00e3o lhe permito que ensine ou se imponha aos homens\u00bb&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a coisa cumpria-se \u00e0 risca. Mas n\u00e3o puderam com Teresa, pese embora ser <em>\u00abmulher ruim\u00bb<\/em> \u2014 \u00e9 ela que, matreira, mas n\u00e3o tonta, o diz de si mesma \u2014 !<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(\u00c9 certo que no s\u00e9c. XIX, Santo Henrique de Oss\u00f3 tinha reclamado o t\u00edtulo de Doutora da Igreja para a sua amada mestra; mas o seu reclamo n\u00e3o surtira o efeito devido. \u00c9 certo ainda que, no dia 4 de mar\u00e7o de 1922, a universidade de Salamanca, pela m\u00e3o s\u00e1bia do seu vice-Reitor, D. Miguel de Unamuno, sob assinatura e reconhecimento do rei Afonso XIII, doutorara Santa Teresa como Doutora Honoris Causa. \u00c9 certo isso, sim, mas a Igreja deixara-se ultrapassar pela universidade e, o que \u00e9 pior, tardou cinquenta anos a imit\u00e1-la!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.&nbsp;&nbsp; <\/strong>Mas, enfim, perguntemo-nos: o que se deve fazer para se ser proclamado como Doutor da Igreja? Apenas isto: ser-se reconhecido como exemplo de <em>\u00absantidade de vida, recta doutrina e ci\u00eancia sagrada\u00bb<\/em>; ou seja \u2014 e esta \u00e9 a verdade que h\u00e1 que reconhecer-se \u2014 atrav\u00e9s dos seus escritos, Teresa possu\u00eda estas tr\u00eas caracter\u00edsticas, pois \u2013 e essa era a verdade que ningu\u00e9m podia ocultar \u2014 nos \u00faltimos 500 anos, ensinara todos os grandes te\u00f3logos e os santos da Igreja Cat\u00f3lica (sobretudo, os espirituais!) e, o que poucos saber\u00e3o: atrav\u00e9s das suas obras fora mestra de dois Doutores da Igreja var\u00f5es: S\u00e3o Francisco de Sales (1567-1622) e Santo Afonso Maria de Lig\u00f3rio (1696-1787); um e outro escreveram e guiaram a Igreja com obras espirituais inspiradas pela leitura dos seus livros! Ou seja: era \u00f3bvio e s\u00f3 n\u00e3o via quem n\u00e3o queria ver, que Santa Teresa tinha ocupado c\u00e1tedra na Igreja e desde ali ensinava (e continua hoje a ensinar) santos e santas, te\u00f3logos e doutores, bispos e papas, mestres e mestras, pais e m\u00e3es, gente simples, jovens e crian\u00e7as&#8230; e n\u00e3o apenas dentro da Igreja Cat\u00f3lica, mas tamb\u00e9m fora dela!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos pois em presen\u00e7a de uma GRANDE mulher; mas o que faz dela uma mulher grande? Uma santa incompar\u00e1vel? E o que \u00e9 que a torna um verdadeiro e s\u00e1bio farol da humanidade, tamb\u00e9m hoje?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Contemos ou lembremos o seguinte: Nos seus dias, a Europa, j\u00e1 ent\u00e3o velha, encontrava-se em ebuli\u00e7\u00e3o por v\u00e1rias raz\u00f5es, uma das quais, e n\u00e3o a menor, tinha a ver com as Descobertas que Portugal e Espanha vinham fazendo do Mundo Novo. Por aqueles anos, ambos os pa\u00edses tinham-se empenhado em chegar a novos continentes, abrindo os olhos e a consci\u00eancia para nov\u00edssimas realidades, espantando-se at\u00e9 \u00e0 perplexidade, com o que os seus velhos olhos e ouvidos viam e ouviam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os relatos que por c\u00e1 se liam e ouviam falavam de homens e mulheres de pele negra, vermelha e amarela, novas formas dos humanos se organizarem em sociedade, novas \u00e1rvores e novos frutos, novos e bel\u00edssimos animais, nova luz e novos horizontes! Como espantados ficaram os europeus que alcan\u00e7aram o Brasil, a Col\u00f4mbia e o M\u00e9xico, a costa africana, a \u00cdndia e o Jap\u00e3o! Que fant\u00e1stico era tudo aquilo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Em boa verdade, n\u00e3o sei com que gigas de novidade ter\u00edamos hoje de ser surpreendidos para tocarmos o paroxismo que ent\u00e3o se apossou dos povos europeus perante tanta novidade que os assaltava vinda do admir\u00e1vel mundo novo!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Ora, pois, se a Europa se alegrava com todas essas descobertas (e as riquezas que daqueles longes traz\u00edamos), imagine-se o que se passou com Santa Teresa Jesus, tamb\u00e9m ela testemunha desse paroxismo e que, ao experimentar outras nov\u00edssimas novidades bem maiores, ter\u00e1 dito algo parecido a isto: <em>\u2014 Pois, muito bem, meus car\u00edssimos! \u00d3ptimo que nos encantemos com t\u00e3o grandes descobertas e triunfos que, vindas de t\u00e3o long\u00ednquas paragens, maravilham o nosso olhar europeu! Que \u00f3ptimo, sim! Mas, \u00f3 meus irm\u00e3os e irm\u00e3s que, de tanto olhar para fora, nos espantamos com t\u00e3o maravilhosas maravilhas; reparai: Este \u00e9 tamb\u00e9m o tempo de projectarmos o nosso olhar para o nosso interior. Olhemos para fora, sim, mas, sobretudo, volvamo-nos para dentro, caminhemos, naveguemos para dentro, pois a\u00ed, em nosso cora\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, habita o bom Deus! Deus \u00e9 o nosso interior mais \u00edntimo! Reparai bem: Vedes como na sua bondade Deus faz caber a sua imensa imensid\u00e3o em n\u00f3s? Alcan\u00e7ais perceber que somos casa de Deus? E onde est\u00e1 Deus, est\u00e1 a Virgem Maria! E onde est\u00e1 Deus, est\u00e3o os anjos e os santos! Sim, irm\u00e3os, sim, irm\u00e3s, onde est\u00e1 Deus, a Virgem, os anjos e os santos, a\u00ed \u00e9 o c\u00e9u! Tendes, temos todos o c\u00e9u dentro de n\u00f3s! Vede bem se o c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 maior que as maravilhas que os nossos descobridores andam agora a descobrir! Sejamos audazes! Sejamos valorosos! \u00d3 espirituais: Vamos para dentro! Vamos para dentro! Paremos de nos surpreender com essas poeiras! Se vos quereis surpreender e maravilhar n\u00e3o precisais de cruzar oceanos! Tende coragem e adentrai-vos pelos oceanos infinitos do c\u00e9u do vosso cora\u00e7\u00e3o! Caminhemos, vamos at\u00e9 ao centro de n\u00f3s mesmos, a esse lugar sem lugar, onde s\u00f3 Deus mora! Vamos ao centro, vamos ao seu encontro! Olhai, n\u00e3o vedes que Ele nos espera no mais profundo centro de n\u00f3s mesmos? N\u00e3o vedes mesmo?\u2026 N\u00e3o vedes que cada um de n\u00f3s \u00e9 o c\u00e9u preferido de Deus? N\u00e3o percebeis que n\u00e3o percebemos como Deus nos prefere, ao ponto de fazer o c\u00e9u, isto \u00e9, a sua morada, no cora\u00e7\u00e3o de cada um e cada uma de n\u00f3s? N\u00e3o vedes que n\u00e3o existe maior triunfo, nem maior grandeza, do que poder olhar o Seu olhar, amar o Seu cora\u00e7\u00e3o, e ver a gl\u00f3ria daquele olhar que \u00e9 todo do\u00e7ura e miseric\u00f3rdia em nosso cora\u00e7\u00e3o? Porque tendes de arriscar a vida em pequenas galeras cruzando os mares? Porque ousais descobrir mares e renuncias descobrir-vos a v\u00f3s? Vamos, irm\u00e3os, vamos, irm\u00e3s, vamos descobrir; empreendamos o maior desafio posto ao alcance da intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s: Busquemos a Deus em nosso cora\u00e7\u00e3o com a intensidade dos amigos que se amam e se buscam, e se se buscam \u00e9 porque n\u00e3o podem ficar privados de se verem e se amarem e se abra\u00e7arem! Vinde, vamos para o interior onde nada, s\u00f3 Deus, nos pode tanger!\u00ad<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Grande Santa Teresa, a Grande!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem, tamb\u00e9m hoje, se decida a como ela empreender a gesta da descoberta interior, demandando buscar aqueles ternos olhos divinos e a do\u00e7ura e mansid\u00e3o daquele divino cora\u00e7\u00e3o que em n\u00f3s mora, s\u00f3 pode ser grande. N\u00e3o porque em si seja j\u00e1 grande, mas porque s\u00f3 pode sair engrandecido desse divino encontro!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp; Celebr\u00e1mos no passado dia 15 de outubro a Solenidade de Santa Teresa de Jesus. 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