{"id":2834,"date":"2021-09-30T02:23:00","date_gmt":"2021-09-30T02:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2834"},"modified":"2021-09-29T12:41:04","modified_gmt":"2021-09-29T12:41:04","slug":"a-palavra-lugar-de-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-lugar-de-encontro\/","title":{"rendered":"A Palavra, lugar de encontro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O humano \u00e9 ser de rela\u00e7\u00e3o: <em>ser de<\/em> (nasce de outros), <em>ser com<\/em> e <em>ser para<\/em> o outro. O seu viver \u00e9 com-viver, \u00e9 uma teia, um tecido: \u00e9 viver em rede, hoje mais do que nunca. A rela\u00e7\u00e3o faz dele um ser de <em>encontro<\/em>: gera encontros e \u00e9 feita de encontros (\u00e0s vezes, desencontros). Como diria o fil\u00f3sofo judeu Martin Buber, \u201ctoda a verdadeira vida \u00e9 encontro\u201d (<em>Eu e Tu<\/em> [Paulinas; Prior Velho 2014] 15). Quando um <em>eu<\/em> se abre a um <em>tu<\/em>, funda um mundo de rela\u00e7\u00f5es, sobretudo no sentido de elas ultrapassarem o campo da neutralidade e penetrarem no mundo da consci\u00eancia e do mist\u00e9rio. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 doa\u00e7\u00e3o m\u00fatua num encontro procurado ou fortuito. Ent\u00e3o o encontro \u00e9 i<em>media<\/em>to, isto \u00e9 sem <em>meios<\/em>: tudo nele \u00e9 presen\u00e7a e dom.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Serve este arrazoado para pensar a leitura da B\u00edblia. Com efeito, a\u00ed o mais importante \u00e9 um encontro: do leitor com a <em>p\u00e1gina sagrada<\/em>, mas sobretudo consigo mesmo e com Deus ou com Jesus ressuscitado atrav\u00e9s do Esp\u00edrito de ambos, que est\u00e1 presente na Escritura que ele inspirou e no cora\u00e7\u00e3o do leitor que nele cr\u00ea. Pelo menos, o ideal \u00e9 que a leitura crente da Escritura se torne encontro com o Senhor que \u00e9 <em>a<\/em> Palavra incarnada. De facto, os grandes encontros com ele mudaram toda a vida de quem o encontrou. O que fez com que os experientes pescadores da Galileia naufragassem das suas pobres seguran\u00e7as para aportarem a um Reino constru\u00eddo com o cora\u00e7\u00e3o, com fios de esperan\u00e7a e de sentido para a vida n\u00e3o foi a sofisticada doutrina de um fil\u00f3sofo, nem a invenc\u00edvel pot\u00eancia de um conquistador de imp\u00e9rios: foi o encontro desarmante com o pescador de homens. Pensemos por momentos na \u201cmulher pecadora p\u00fablica\u201d do evangelho (Lc 7,36-50). Sabia que n\u00e3o merecia nada de Jesus, mas confiava no amor que supera qualquer erro. O seu corpo \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o vendido e comprado como instrumento de desejo \u2013 teve finalmente um encontro com o amor aut\u00eantico, que \u201c\u00e9 a responsabilidade de um <em>eu<\/em> por um <em>tu<\/em>\u201d (M. Buber, <em>Eu e Tu<\/em>, p. 19). Ent\u00e3o tornou-se sujeito de amor e capaz de gratuidade. O que era a vida dela? Pergunta fr\u00e1gil e delicada que o seu cora\u00e7\u00e3o sentiu respondida no encontro com o cora\u00e7\u00e3o que lhe dizia: \u201cA tua f\u00e9 salvou-te: vai em paz\u201d (Lc 7,50). No ponto definitivo da sua vida esteve o encontro com o Homem que lhe falou como mais nenhum homem. Percebeu da palavra dele que na vida apenas uma coisa importa: um grande amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m os grandes chamados do evangelho responderam ao apelo do Mestre, porque sentiram a for\u00e7a irrecus\u00e1vel do amor num encontro inolvid\u00e1vel: os doze ap\u00f3stolos, Nicodemos, a samaritana, um funcion\u00e1rio real, um doente junto a uma piscina, um cego, Zaqueu, Maria Madalena\u2026 Todos eles foram reabilitados pelo encontro com Jesus. Antes, cada um era um desgra\u00e7ado distante da felicidade, um pecador, um procurador, um moribundo \u00e0 margem da vida. Mas no olhar e no toque de Jesus e no encontro com ele nasceu o arder do cora\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a do amanh\u00e3 que ilumina as epidemias de ontem e as pandemias de hoje e as cura: \u201cHomem, os teus pecados est\u00e3o perdoados\u201d (Lc 5,20). S\u00f3 os encontros vivos \u2013 n\u00e3o as obriga\u00e7\u00f5es, os bons prop\u00f3sitos ou as leis \u2013 mudam a vida, como a Abra\u00e3o, a Mois\u00e9s, a Samuel, a Isa\u00edas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o definitivo lugar de encontro de Deus com os homens e dos homens com Deus \u00e9 Jesus, a ele encontramo-Lo agora na palavra da Escritura, cuja leitura \u00e9 um acto radical humano e um acto de f\u00e9 que abre o leitor \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o, num frente-a-frente cujo efeito positivo \u00e9 proporcional ao grau de exposi\u00e7\u00e3o a ela e \u00e0 abertura do esp\u00edrito do leitor ao Esp\u00edrito de Deus. O esp\u00edrito\/<em>rua\u1e25<\/em> humano \u2013 a dimens\u00e3o perme\u00e1vel que se abre a outro esp\u00edrito e permite participar num fen\u00f3meno novo, que supera o f\u00edsico, biol\u00f3gico e emp\u00edrico \u2013 faculta um encontro com o Esp\u00edrito\/<em>rua\u1e25<\/em> divino e comunga com ele. A Escritura guia o leitor a descobrir o pr\u00f3prio mist\u00e9rio, abrindo-lhe janelas onde n\u00e3o h\u00e1 paredes: \u201cfaz-te ao largo! (Lc 5,4); \u201cprocurai e encontrareis\u2026, pois quem procura encontra\u201d (Mt 7,7-8). Atesta que de um encontro marcante nasce a luz de uma sar\u00e7a-ardente e brota a beleza da comunh\u00e3o; ou desponta o chamamento para uma miss\u00e3o, como testemunha Isa\u00edas: \u201cA voz do Senhor dizia: A quem enviarei?&#8230; Eu disse: Eis-me aqui, envia-me\u201d (Is 6,8). Ela \u00e9 a Palavra que se expande para al\u00e9m das palavras e soa mais viva na caixa-de-resson\u00e2ncia que a espessura da vida lhe oferece. O esp\u00edrito que a perpassa afasta a cultura da intoler\u00e2ncia, da pequena irrita\u00e7\u00e3o ou zanga, gerando a cultura do encontro e da fraternidade, do di\u00e1logo e da compreens\u00e3o m\u00fatua. O seu conte\u00fado \u00e9 a vida humana salva. Questionando e sugerindo, mant\u00e9m o leitor na interroga\u00e7\u00e3o e na escuta: \u201cQuem \u00e9 este a quem os ventos e o mar obedecem?\u201d (Mt 8,27). \u201cE v\u00f3s, quem dizeis que Eu sou?\u201d (Mc 8,29).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD O humano \u00e9 ser de rela\u00e7\u00e3o: ser de (nasce de outros), ser com e ser para o outro. 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