{"id":2831,"date":"2021-09-30T02:21:00","date_gmt":"2021-09-30T02:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2831"},"modified":"2021-09-29T12:39:13","modified_gmt":"2021-09-29T12:39:13","slug":"monumento-das-folhas-caidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/monumento-das-folhas-caidas\/","title":{"rendered":"Monumento das folhas ca\u00eddas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>(A um amigo em outono)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Passei por Roma. Digo \u00abpassei\u00bb sem presun\u00e7\u00e3o; indo ao que ia, isso faria ali, no interior de um deserto ou em Oliven\u00e7a. \u00c9 um dizer, claro est\u00e1. Mandassem aonde me mandassem, com os demais faria, o que houvera de se fazer e em Roma se fez.<\/p>\n\n\n\n<p>O que em Roma vi, escreverei, se o caso pedir, noutra folha, que hoje narrarei outra coisa: No ledo fluir das horas livres que at\u00e9 as agendas mais cingidas sempre t\u00eam, foi ali que vi anunciar-se e depois chegar o mais quente e belo outono de sempre.&nbsp; A horas sempre certas percorria eu o \u00faltimo tramo \u2014 menos de um quil\u00f3metro\u2026 \u2014 da Via Gregorio VII, aquele que antecede a viragem \u00e0 esquerda e nos entrega ao abra\u00e7o polido da colunata de S\u00e3o Pedro. Tinha aquele tramo vulgar dois tesoiros inesquec\u00edveis: uma bica de \u00e1gua generosa e fresqu\u00edssima, e uns pequenos pl\u00e1tanos que nos ungiam de sombra e de folhas ca\u00edntes. Falarei das folhas, que \u00e9 ao que venho.<\/p>\n\n\n\n<p>(Como todos sabemos, nem todas as \u00e1rvores se desvestem no outono, mas as que disp\u00f5em dessa gra\u00e7a s\u00e3o porventura mais graciosas.)<\/p>\n\n\n\n<p>Passei por Roma e as folhas ca\u00edam. Caindo lentamente as vi e n\u00e3o me ocorreu perguntar-lhes se era por engano, desesperan\u00e7a ou for\u00e7a da lei da vida. Ca\u00edam, simplesmente. E reparei que de quatro em quatro metros, os sem-abrigo se afadigavam em varrer o metro quadrado que lhes cabia, depositando depois o punhado recolhido numa caixinha que elevavam sobre outra \u2014 como num altar, para que v\u00edssemos bem o bem que faziam \u2014 e, logo ao lado, numa cred\u00eancia, ofereciam-nos ao olhar uma caixinha de cart\u00e3o, para que n\u00f3s, turistas do eterno, reconhecidos, ali deposit\u00e1ssemos o nosso \u00f3bolo, por t\u00e3o desinteressado amanho.<\/p>\n\n\n\n<p>(Ah, mas quer-me parecer que em passando a matutina e desprevenida leva de turistas, as folhas eram devolvidas ao ch\u00e3o e, na loja ao lado, as moeditas valeriam uma cervejola. Mas isso sou eu, tuga malvado, a pensar mal do pr\u00f3ximo\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>O certo \u00e9 que caem folhas em volta. E o seu natural cair traz-me mensagens ao cora\u00e7\u00e3o: <em>i)<\/em> todo o \u00f3rg\u00e3o, mesmo o mais simples como uma folhinha, \u00e9 fundamental para a sa\u00fade da \u00e1rvore e a abund\u00e2ncia de frutos: se cada \u00e1rvore cumpre o seu fito, tamb\u00e9m o deve \u00e0s folhas\u2026; <em>ii)<\/em> cumprida a sua fun\u00e7\u00e3o, elas caem; chegada a hora em que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que resgatem energia do sol, e tendo-se finado a esta\u00e7\u00e3o dos frutos, a \u00e1rvore ordena a sua queda, e elas despencam; <em>iii) <\/em>Tem sabedoria a decis\u00e3o: poupa-se energia (j\u00e1 a folha mais n\u00e3o precisa de ser alimentada pela seiva da \u00e1rvore) e a que resta canaliza-a a \u00e1rvore para o cuidado de si mesma; <em>iv)<\/em> e cuidando de si, a \u00e1rvore preserva-se, enfrentando melhor os rigores invernios, a viol\u00eancia das tempestades, porventura o peso das neves; e <em>v)<\/em> em chegando a primavera, pode a \u00e1rvore reabrir de novo o cora\u00e7\u00e3o para a vida nova.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> H\u00e1 quem, como eu, aprecie o outono. N\u00e3o, talvez, tanto como eu: os rebanhos remoendo a passo lento o restolho alargam-me as aduelas do olhar, o cheiro dos marmelos a cozer em lume brando e o da terra seca abrindo-se \u00e0s chuvadas revivem-me, os <em>santieiros<\/em> anunciando-se discretos por sobre a capa de h\u00famus das folhas das vides s\u00e3o mist\u00e9rio a acontecer que ainda n\u00e3o alcancei compreender inteiramente. Ah, e a chegada do tempo fresco, da surpresa das uvas de rebusco, dos figos ser\u00f4dios, das castanhas e das nozes, dos di\u00f3spiros, e do vinho das rom\u00e3s\u2026 S\u00f3 n\u00e3o troco o c\u00e9u por isso!<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 nem falo do mel do vinho novo, que se \u00e9 s\u00e3o, \u00e9 vinho e <em>te deum<\/em> ao Criador! E j\u00e1 nem volto \u00e0s folhas, melhor dito, \u00e0 sinfonia das cores com que as \u00e1rvores adornando-se, garbosas se engalanam e se revestem de jubilosa nobreza, um nada antes de se desvestirem para o inverno! Louve quem quiser as outras, que eu fico com a esta\u00e7\u00e3o que me enche a alma!<\/p>\n\n\n\n<p>Caro amigo, querido roble,<\/p>\n\n\n\n<p>entender\u00e1s, certamente, o que digo, o que daqui te envio. (Sim, eu sei que isto ler\u00e1s e saber\u00e1s que \u00e9 para ti, propositadamente, que o escrevo!) Vais sorrir, eu sei; sei que o Esp\u00edrito te deu o dom de espairecer e fazer sorrir a alma e de iluminar o rosto dos outros, mas antes, o de sorrires, inclusive, de ti. Caro roble, (jamais julguei um dia chamar-te isso, acredita.) por muito que goste e muito me delicie at\u00e9 \u00e0s cavernas mais secretas da alma, nem eu quereria viver sempre em outono; na verdade, s\u00f3 existe outono se antes a relva gentil nos cresceu aos p\u00e9s e depois o sol nos beijou a careca e os bra\u00e7os. Alegra-te, que chegado \u00e9 o tempo de depor os p\u00e9s por sob o tampo da mesa, e de descansar o olhar junto da lareira, e dar gra\u00e7as a Deus. As tulhas est\u00e3o cheias. As arcas est\u00e3o cheias. As pipas est\u00e3o cheias. Os espigueiros est\u00e3o cheios. Os rebanhos cresceram. L\u00e1 fora, as folhas caem, \u00e9 certo, e assim melhor te recordas que n\u00e3o \u00e9 acertado cevar a alma, mas seguir lidando-a com esmero tamb\u00e9m nos dias pequeninos, porque no dia sem dia nem noite, agradecido e manco de miseric\u00f3rdia, a h\u00e1s-de apresentar ao augusto altar do Alt\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiam, pois, as folhas. As tuas e as minhas. E lembrar\u00e1s, tal como lembro eu, que a sua queda gera vida e protege vida. Delas se libertando, a \u00e1rvore descobre que se protege e, caindo, fertilizam as terras, crescem a erva, as \u00e1rvores e os <em>santieiros<\/em>. E se sob a capa que geram, os porcos descobrem bolotas, n\u00f3s, castanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 quando a perda \u00e9 perda, nisso ganho h\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Desculpar-me-\u00e1s o destempero, eu que nada sei nem da vida, nem de folhas ca\u00eddas, nem de bolotas. Um pouco mais perdido que tu, tacteando ando os carreiros lamacentos que levam \u00e0 floresta; por\u00e9m, apesar de vesgo e coxo, dei comigo neste quente outono a exaltar-me com a queda das folhas. At\u00e9 poderia ser com a dos cabelos, mas n\u00e3o, foi das folhas, sim. E n\u00e3o est\u00e3o elas, como eles, contadas e guardadas no cora\u00e7\u00e3o silente do Criador? Est\u00e3o. E a salvo, obviamente. E t\u00eam de cair as que s\u00e3o de cair. Para deslumbre meu.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta altura, mal seria, ter\u00e1s j\u00e1 reparado, que as folhas n\u00e3o ser\u00e3o apenas folhas, as castanhas apenas castanhas e as florinhas apenas pequenas margaridas. Foram tamb\u00e9m pretexto para te contar uma est\u00f3ria. (Eu sei que gostas de est\u00f3rias, e se esta n\u00e3o te servir, enfiarei eu, clara e confiadamente, a carapu\u00e7a.) Conta-se que um vener\u00e1vel abade de um c\u00e9lebre mosteiro deu a profiss\u00e3o a um jovem monge, que a poucos meses de vida monacal, murchou. Vendo o velho abade o lampo cair do juvenil n\u00e3o se sobressaltou, apenas cuidou de o respeitar, sem for\u00e7ar. Um dia, perturbado e atormentado pelas pessoais dificuldades, erros, quedas e escr\u00fapulos, o jovem monge bateu \u00e0 porta da cela para consultar o s\u00e1bio anci\u00e3o. Querendo infundir-lhe confian\u00e7a, contestou-lhe o vener\u00e1vel: \u2014 Tem calma, querido irm\u00e3o, todos os teus limites e defeitos apenas te instauram como um monumento \u00e0 miseric\u00f3rdia divina!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. <\/strong>Caiam, pois, as folhas, que este \u00e9 o tempo. E a mim, quando eu morrer, antes da viagem, serena e ocre, me coloquem uma sobre o calado cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(A um amigo em outono) Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. Passei por Roma. 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