{"id":2816,"date":"2021-08-31T02:16:00","date_gmt":"2021-08-31T02:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2816"},"modified":"2021-08-27T14:33:01","modified_gmt":"2021-08-27T14:33:01","slug":"tendo-a-palavra-como-guia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/tendo-a-palavra-como-guia\/","title":{"rendered":"Tendo a Palavra como guia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na ambival\u00eancia e relatividade das experi\u00eancias da vida, o ser humano agradece a ajuda para discernir o bem do mal, para orientar-se por caminhos de verdade, liberdade e felicidade. Para isso, recorre ao melhor dos guias humanos, procurando mesmo o divino, como pensava Plat\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026Escolhemos, de entre as palavras humanas, a melhor de todas e menos fal\u00edvel; e, por ela levados como numa jangada, arriscamos a travessia da vida\u2026, [guiados] por uma palavra divina (<em>F\u00e9don<\/em> 85 d 1).<\/p>\n\n\n\n<p>Escolher o melhor! A religi\u00e3o judeo-crist\u00e3 descobriu uma experi\u00eancia paradigm\u00e1tica na hist\u00f3ria do <em>povo de Deus<\/em>, com o ponto mais alto de orienta\u00e7\u00e3o no homem Jesus Cristo. Conservou-a por escrito na B\u00edblia e fez dela <em>guia <\/em>da sua vida, vendo-a pela f\u00e9 como palavra de Deus. Assim, o crente judeo-crist\u00e3o caminha \u00abcom a <em>B\u00edblia<\/em> numa m\u00e3o e o <em>jornal<\/em> na outra\u00bb (como diria Karl Barth), confrontando e iluminando os acontecimentos do <em>dia-a-dia<\/em> com a luz que vem da <em>revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica<\/em>. Sem o GPS que \u00e9 a B\u00edblia, anda um pouco perdido nos caminhos da vida. Mas o GPS n\u00e3o interessa em abstracto, desligado da terra: sendo um Sistema de Posicionamento Global (<em>G<\/em><em>lobal <\/em><em>P<\/em><em>ositioning <\/em><em>S<\/em><em>ystem<\/em>), a partir do alto dirige pessoas e a sua viagem a cada passo. Tamb\u00e9m a B\u00edblia quer orientar e transformar o percurso vivo de cada uma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso acontecer, o leitor tem de evitar a leitura literalista, \u00e0 letra, leitura fundamentalista que acarreta desvios e extravios do sentido. \u00c9 o que devemos fazer ao ler qualquer texto com mensagem. A leitura fundamentalista da B\u00edblia torna-se uma arma perigosa: o fundamentalismo pode degenerar em fanatismo e o fanatismo em terrorismo (que frequentemente nasce da leitura fundamentalista de textos religiosos). Se as pessoas \u00e0 procura de orienta\u00e7\u00e3o consultam a bola de cristal, o cartomante, o tar\u00f4, o quiromante, os variados testemunhos guardados na B\u00edblia correspondem a diversos holofotes focados sobre cada experi\u00eancia humana que precisa de guia. Basta ligar o caminho da vida aos holofotes ou ao GPS da B\u00edblia, para que interajam com o leitor.<\/p>\n\n\n\n<p>A filosofia, amor \u00e0 sabedoria, exalta o valor do conhecimento da pr\u00f3pria pessoa para ter o melhor que a vida pode dar. A m\u00e1xima estampada \u00e0 entrada do templo de Delfos, atribu\u00edda a Tales de Mileto, mas tamb\u00e9m a S\u00f3crates, a Heraclito e a Pit\u00e1goras, soa assim na sua forma completa: \u201cConhece-te a ti mesmo e conhecer\u00e1s os deuses e o universo\u201d. Quer dizer: o processo de conhecer-se a si pr\u00f3prio tem consequ\u00eancias na forma como se interage com o mundo e com os outros e com o Mist\u00e9rio transcendente e abre a possibilidade de estar sempre a aprender e de ter novos interesses. Ora, a B\u00edblia facilita o conhecimento do ser humano, marcada como est\u00e1 pela rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica dos seus dois protagonistas, Deus e ser humano: \u201cTu examinaste-me, Senhor, e conheces-me\u2026 Est\u00e1s atento a todos os meus passos\u2026 Tu conheces profundamente a minha alma\u201d (Sl 139,1-2.14). Na B\u00edblia, um n\u00e3o est\u00e1 bem sem o outro. Um est\u00e1 sempre \u00e0 procura do outro. Ela testemunha a revela\u00e7\u00e3o de Deus ao Homem e descobre ao Homem o mist\u00e9rio do Homem, ajuda-o na busca da sua verdade plena e abre-lhe janelas que as ci\u00eancias n\u00e3o conseguem abrir. O fil\u00f3sofo judeu Franz Rosenzweig di-lo de forma cativante: \u201cA B\u00edblia e o cora\u00e7\u00e3o dizem o mesmo. Por isso (e s\u00f3 por isso) a B\u00edblia \u00e9 \u2018revela\u00e7\u00e3o\u2019\u201d (Carta a Benno Jacob, de 27.5.1921: Franz Rosenzweig, <em>Werke<\/em>, I, t. 2. pp. 708-709). Ou seja, a B\u00edblia testemunha a revela\u00e7\u00e3o divina, falando ao leitor da sua pr\u00f3pria vida. Realmente, a raz\u00e3o principal da sua atrac\u00e7\u00e3o e para a sua perene actualidade est\u00e1 no facto de ela mexer na vida concreta das pessoas. Tem a ver comigo. Essa velha hist\u00f3ria sagrada n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente. Exerceu t\u00e3o grande influ\u00eancia no desenvolvimento da cultura ocidental, porque durante s\u00e9culos serviu \u00e0s pessoas como clave interpretativa do seu passado, presente e futuro. Da\u00ed a import\u00e2ncia de l\u00ea-la. Efectivamente, o<em> livro que \u00e9 a B\u00edblia<\/em> exprime a verdade do <em>livro que \u00e9 o leitor<\/em> diante de Deus e dos outros. Da correcta interac\u00e7\u00e3o entre B\u00edblia e leitor depende a qualidade da mensagem dela a ele. O leitor compreender\u00e1 o texto que medita, n\u00e3o quando se p\u00f5e em ilus\u00f3ria neutralidade relativamente a ele, mas quando o aborda condicionado pela sua situa\u00e7\u00e3o humana e espiritual, pelas leg\u00edtimas preocupa\u00e7\u00f5es da sua vida, pela sua experi\u00eancia psicol\u00f3gica e afectiva, para descobrir algo de si pr\u00f3prio no texto e para descobrir algo do texto na sua alma. A <em>p\u00e1gina sagrada<\/em> deve ser lida a partir dos valores e contravalores recebidos, amor, amizade, condicionalismos, possibilidades, limita\u00e7\u00f5es que \u2018respiramos\u2019, incoer\u00eancias que enfrentamos. Texto e leitor precisam um do outro. O leitor n\u00e3o pode ficar passivo, \u00e0 espera de que o texto \u2018diga coisas\u2019. Seja activo: \u201cProcurai e encontrareis\u2026, pois quem procura encontra\u201d (Mt 7,7-8). Compreender uma p\u00e1gina da B\u00edblia sup\u00f5e um vaiv\u00e9m, de mim para o texto e do texto para mim, em fecunda colabora\u00e7\u00e3o e impregna\u00e7\u00e3o. Ao ler, o leitor tem de \u00abse deixar ler pelas Escrituras\u00bb. O auto-conhecimento \u00e9 mediado pelo encontro com elas:<\/p>\n\n\n\n<p>A alma e a Escritura, gra\u00e7as \u00e0 refer\u00eancia simb\u00f3lica de uma e da outra, esclarecem-se mutuamente\u2026 S\u00e3o dois livros a ler e a comentar um pelo outro. Se preciso da Escritura para me compreender, tamb\u00e9m compreendo a Escritura quando a leio em mim pr\u00f3prio\u2026 \u00c0 medida que penetro o seu sentido, a Escritura faz-me penetrar no sentido \u00edntimo do meu ser; ela \u00e9, portanto, o sinal que\u2026 me revela a minha alma. Mas tamb\u00e9m o rec\u00edproco \u00e9 verdade. Uma serve de reagente \u00e0 outra (Or\u00edgenes, resumido por H. de LUBAC, <em>Histoire et Esprit<\/em>: <em>Oeuvres Compl\u00e8tes<\/em>, XVI [Cerf; Paris 2002] 347-348).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na ambival\u00eancia e relatividade das experi\u00eancias da vida, o ser humano agradece a ajuda para discernir o bem do mal, para orientar-se por caminhos de verdade, liberdade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2804,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2816","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2816"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2817,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816\/revisions\/2817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2804"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}