{"id":2814,"date":"2021-08-31T02:15:00","date_gmt":"2021-08-31T02:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2814"},"modified":"2021-08-27T14:32:11","modified_gmt":"2021-08-27T14:32:11","slug":"um-ano-com-o-santo-fradinho-do-carmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/um-ano-com-o-santo-fradinho-do-carmo\/","title":{"rendered":"Um ano com o Santo Fradinho do Carmo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1.&nbsp; Permita-me quem l\u00ea que volte ao meu tema favorito dos \u00faltimos tempos: a vida do Vener\u00e1vel Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o, Carmelita Descal\u00e7o portugu\u00eas (1787-1861).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem a vida voltas em que n\u00e3o h\u00e1 volta a dar. Assim foi que, algures nos in\u00edcios da d\u00e9cada de noventa do s\u00e9culo passado, acabados os meus estudos teol\u00f3gicos no Porto, me enviaram para Braga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Para que cumpra com a verdade devo dizer que apenas ali passara tr\u00eas augustas horas, pelo que nada conhecia de Braga, a n\u00e3o ser o Bom Jesus do Monte, onde estivera uma vez, a s\u00e9 catedral e o t\u00famulo de S\u00e3o Martinho de Dume, onde estivera de uma segunda vez, e uma portaria escura, h\u00famida e g\u00e9lida que eu vira, tinha eu, talvez, dez ou doze anos e que me levou a jurar, com firme convic\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a, que jamais ali volveria a entrar\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegado, n\u00e3o me apresentaram a casa por julgarem desnecess\u00e1rio. O certo \u00e9 que num dia de inspira\u00e7\u00e3o o Pe Jos\u00e9 Carlos me falou do <em>\u00abSanto que aqui viveu h\u00e1 muito e ainda hoje aqui guardamos!\u00bb<\/em>.&nbsp; A not\u00edcia n\u00e3o me entusiasmou por a\u00ed al\u00e9m, talvez por jamais dele ter ouvido falar. Passados, por\u00e9m, mais de vinte e cinco anos volvi a Braga e ao conv\u00edvio com <em>Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o Neiva, o Santinho do Carmo, o Santo Fradinho, o Mestre Neiva <\/em>\u2013 cognomes com que os bracarenses lhe tributam preito. Para t\u00e3o pronta aproxima\u00e7\u00e3o muito contribuiu o facto de no curto horizonte da minha chegada ocorrerem os 160 anos da sua morte. Foi, pois, mais amadurecido e melhor espevitado que agucei a curiosidade, furei as barreiras do p\u00f3 e o duro v\u00e9u de sil\u00eancio e me encontrei com meu irm\u00e3o, Jo\u00e3o Lu\u00eds \u2013 no nosso claustro, Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse encontro nasceu um livro. O livro n\u00e3o relata o encontro, t\u00e3o-s\u00f3 a biografia poss\u00edvel; \u2013 chama-se: <em>O Resgate de Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o<\/em>. Escrev\u00ea-lo exigiu afoiteza. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 uma biografia, nem uma grande investiga\u00e7\u00e3o, apenas o resultado de um mergulho num mar de indiferen\u00e7a sondando, rebuscando e unindo restos esparsos de naufr\u00e1gio. Sim, foi um ousado mergulho em que muitas vezes me faltou o f\u00f4lego e, no restante, a arte suficiente para desenhar como era mister o rosto e a alma de t\u00e3o veneranda figura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2.&nbsp; Por uns meses virei <em>rato de biblioteca<\/em>, li jornais, li rascunhos de <em>vidas<\/em>, li milagres, falei dele, falei com s\u00e1bios, vasculhei papelada solta, em portugu\u00eas e em latim, vi pinturas, corrigi uma manca translitera\u00e7\u00e3o de uns Apontamentos que parecem ser de um disc\u00edpulo, visitei-o no t\u00famulo que n\u00e3o o dignifica, antes mais contribui para o seu desd\u00e9m e obl\u00edvio. E, antes de tudo isso, como \u00e9 sabido, mandei fazer tr\u00eas gravuras dele. A primeira, em outubro de 2020, a Sofia Maria de Oliveira; \u2013 \u00e9 um corpo inteiro a carv\u00e3o t\u00e3o leve que mais parece que o ilustrado plana no ar, e que est\u00e1, desde essa data, no cruzeiro desta Igreja do Carmo. E nos in\u00edcios de 2021, H\u00e9lder Carvalho produziu mais duas, um carv\u00e3o algo misterioso, e uma sangu\u00ednea com o seu qu\u00ea de et\u00e9reo e m\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E em breve inauguraremos a sua est\u00e1tua na frontaria da igreja. O autor \u00e9 tamb\u00e9m H\u00e9lder Carvalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3.&nbsp; Agora que os dias foram passando e fui descansando do parto do livro, dou-me conta de que n\u00e3o foi um exerc\u00edcio t\u00e3o arreliador assim. N\u00e3o foi; apenas cansativo e compensador. Entretanto, reconhe\u00e7o que n\u00e3o sei desenhar nem pintar, mas que se me puser a sonhar aparecem-me gravuras minhas no c\u00e9u. Por isso, se houvera de pint\u00e1-lo iria ele determinado, encosta acima, de seu descal\u00e7o h\u00e1bito carmelitano revestido. Assobio n\u00e3o tem, a palavra \u00e9 mansa como as rolas das veigas, os olhos oferecem-se aos passarinhos para fazerem ninhos, e ao andar, em alevantando-se os p\u00e9s, do ch\u00e3o nascem flores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o assim os santos \u2013 mansos \u2013 ainda que de onde em onde os n\u00e3o vejamos como tal. \u00c9 \u00f3bvio que quem assim o vir, ama-o. Mas quem n\u00e3o gostar de ninhos, passarinhos, flores e b\u00e1lsamo, ignora-o ou odeia-o. E se o odiaram! E se o amaram! Meu Deus, como os dois opostos se entrecruzaram na mesma pessoa para lhe transpassar ou abra\u00e7ar o cora\u00e7\u00e3o tenaz! Se bem sei s\u00f3 amou, sobretudo os pobres, os indigentes envergonhados, os necessitados de \u00faltima hora, os atribulados, os doentes, os jovens sonhadores, os que amavam a Deus, os que ansiavam consagrar-se-Lhe, a Igreja, o Papa, Nossa Senhora, o h\u00e1bito e a Regra do Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4.&nbsp; Como me tem sido grato o conv\u00edvio com Frei Jo\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois que o Resgate apareceu, da sua terra escrevem-me pedindo-me exemplares do livro que fala da sua <em>\u00abalma luminosa\u00bb<\/em> e que foi escrito <em>\u00abcom alma e cora\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em>. (Se \u00e9 certo que \u00e0s vezes os leitores n\u00e3o percebem os livros, tamb\u00e9m \u00e9 certo que outras h\u00e1 em que os autores se surpreendem com os leitores\u2026). O livro anda, pois, por a\u00ed, de m\u00e3o em m\u00e3o, de porta em porta, pelas casas de S\u00e3o Rom\u00e3o de Neiva e, obviamente, por Braga e por Portugal abaixo. E vai dar frutos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Braga, durante este ver\u00e3o, apresentei-o na Biblioteca Professor Domingos Alves e na Feira do Livro da cidade. A primeira foi mais c\u00e1lida que a segunda vez; mas n\u00e3o deixa de ser interessante que os leitores tamb\u00e9m fazem os livros, como j\u00e1 atr\u00e1s arrisquei. Em S\u00e3o Vicente estavam os que conheciam e estimavam o biografado, na Feira do Livro, profissionais da investiga\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 mais fria, claro, que o c\u00e9rebro sempre foi mais \u00e1lgido que o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meados de agosto levei-o at\u00e9 \u00e0s portas da Figueira da Foz, a reclamo da Senhora da Sa\u00fade. Ora se a M\u00e3e chama, o filho vai. Ali choquei-me com a quantidade de gente a acariciar o livro, a quer\u00ea-lo porque fala de um santo, a pedir-me que volvesse para falar da leitura que todos dele faremos at\u00e9 ao Outono. E eu irei, que a comunh\u00e3o dos santos sempre fez bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Figueira enterneci-me ademais com as pessoas idosas sentadas em cadeiras e em degraus, dedicando-se, prontas, \u00e0 leitura lenta, ignorando, e ainda bem, o que do palanque ia eu debitando. De arrepiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 n\u00e3o tenho mais livros, que os mil j\u00e1 voaram; andam por a\u00ed a incendiar. De quando em vez achegam-se-me ecos; alguns estranhos: um amigo atribui-lhe um milagre imposs\u00edvel; uma mulher reza-lhe metades de ave marias nas horas de ins\u00f3nia: n\u00e3o as reza por inteiro porque adormece a meio! E outra pede-me que n\u00e3o me canse de falar dele, pois tem uma hist\u00f3ria para me contar sobre um milagre, mas ainda n\u00e3o se atreve\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Ah, e agora me dou conta de que se o pintasse o pintaria suavemente sorridente, um sorriso ameno num rosto pl\u00e1cido, que todo o b\u00e1lsamo \u00e9 delicado, terno e suave.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">5.&nbsp; Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o caminha de novo entre n\u00f3s. Melhor dito, caminha no cora\u00e7\u00e3o de muitos, nos sonhos de muitos, nas \u00e2nsias de muitos, nas tribula\u00e7\u00f5es de muitos. Caminha, que caminhar sempre foi seu of\u00edcio. Julgo, portanto, ter cumprido o que numa conversa me pediu o Senhor D. Jorge Ortiga: \u00ab\u2014 <em>\u00abPe\u00e7o-lhe um favor: fale muito do vener\u00e1vel Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o, fale muito dele, muito, muito, por favor! O Santo Fradinho veio ao meu encontro como mestre da causa social. Olhe que ningu\u00e9m ama o que n\u00e3o conhece; \u00e9 por isso que deve falar muito dele. Eu estimo-o muito, voc\u00ea nem imagina! Sabe: na sua aten\u00e7\u00e3o aos pobres e na sua caridade diligente, o Santinho do Carmo resume todo o meu pontificado<\/em>\u00bb!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">6.&nbsp; No dia 26 de outubro pr\u00f3ximo cumprir-se-\u00e3o os 234 anos do seu feliz nascimento. Ser\u00e1 dia de jubilosa ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as porque, se ao nascermos nossos pais e av\u00f3s se perguntaram: \u2014 Quem vir\u00e1s a ser tu, meu filho, quem vir\u00e1s a ser tu, minha filha?, isso mesmo foi o que de Jo\u00e3o Lu\u00eds se perguntaram os seus porque, tal como n\u00f3s, tamb\u00e9m eles nada sabiam das venturas e caminhos futuros de menino algum. Volvidos, por\u00e9m, tantos anos, e nisso claramente nada h\u00e1 de sortil\u00e9gio, dele, felizmente, muito sabemos, porque uma suave brisa ajudou a que se alevantassem alguns dos v\u00e9us que embrumavam a luz que esplandecia do seu rosto. Sim, sabemos que \u00e9 <em>santo<\/em> e que do c\u00e9u nos alcan\u00e7a favores. Sabemos que caminha, que nos atrai ao Carmo e nos eleva para o cora\u00e7\u00e3o do Bom Deus. Nesse dia inauguraremos a sua est\u00e1tua, abriremos as janelas a uma exposi\u00e7\u00e3o de pintura \u2013 dos mestres e alunos da Alvo, escola de pintura de Viana do Castelo \u2013 e lan\u00e7aremos mais um livro sobre ele, da autoria de Jos\u00e9 M. Cruz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, valeu a pena, porque a companhia e o exemplo dos santos sempre reconforta e anima os desvalidos. Mas o que mais me alegra em toda esta discreta odisseia \u00e9 o refrescar das ra\u00edzes. Para que se saiba a que me refiro, sempre direi que meu pai era agricultor e, na arte da poda, sempre tinha como \u00faltimo cuidado para com a videira, fosse velha, fosse nova, mas especialmente se era nova, cavar-lhe e a maciar-lhe a terra em volta, libertando-a das duras grilhetas das ra\u00edzes do <em>rengo<\/em>, que assim <em>\u00aba vide respira melhor\u00bb<\/em>. Verdadeiramente hoje muito me m\u00f3i a for\u00e7a daninha das ra\u00edzes da desmem\u00f3ria, da inc\u00faria, do olvido intencional ou negligente, do ostracismo dos valores que nos fundam como comunidade. Isso tanto me impressiona que julgo tarefa urgente volvermos o olhar e debru\u00e7ar o cora\u00e7\u00e3o sobre o passado. E n\u00e3o basta faz\u00ea-lo como indiv\u00edduos, tamb\u00e9m como comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">7.&nbsp; Sim, valeu a pena, porque tamb\u00e9m eu caminho acreditando que s\u00f3 se pode ser fiel ao futuro se se auscultar o passado! As ra\u00edzes s\u00e3o sempre uma boa escola: segui-las ajuda a enfrentar tempestades de ignor\u00e2ncias e jact\u00e2ncias. Em boa verdade, n\u00e3o postulo o restauracionismo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceito que se rasure o passado, se rasguem folhas da hist\u00f3ria ou se queimem bibliotecas. E sei tamb\u00e9m que n\u00e3o urge ser-se engenheiro para se saber que o cerceamento das ra\u00edzes condiz com o lavrar da senten\u00e7a de morte da \u00e1rvore, ou por sede ou por for\u00e7a da ventania. E alguns at\u00e9 garantem que as verdadeiras ra\u00edzes s\u00e3o as que apontam ao c\u00e9u e dali bebem gra\u00e7a, ar e sol\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daqui somos para o infinito. O conv\u00edvio e a amizade com os santos s\u00e3o das nossas melhores ra\u00edzes; quem, por\u00e9m, no-las cerceie cimentando-nos, em volta, com argamassa bela, docemente nos agrilhoa, prestando-nos o mau servi\u00e7o de nos anestesiar e amesquinhar a alma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, Senhor Arcebispo, acredite que dei os passos que julguei que tinha que dar para cumprir o que me mandou: <em>\u00ab\u2013 Falem muito dele e retomem a causa de beatifica\u00e7\u00e3o de Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito obrigado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp; Permita-me quem l\u00ea que volte ao meu tema favorito dos \u00faltimos tempos: a vida do Vener\u00e1vel Frei Jo\u00e3o d\u2019Ascens\u00e3o, Carmelita Descal\u00e7o portugu\u00eas (1787-1861). 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