{"id":2792,"date":"2021-07-31T02:29:00","date_gmt":"2021-07-31T02:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2792"},"modified":"2021-07-30T13:11:45","modified_gmt":"2021-07-30T13:11:45","slug":"ferias-tempo-livre-e-libertador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/ferias-tempo-livre-e-libertador\/","title":{"rendered":"F\u00e9rias: tempo livre e libertador"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Europa associa o m\u00eas de Agosto a tempo de f\u00e9rias, de suspens\u00e3o ou de abrandamento dos trabalhos habituais do ano. F\u00e9rias! Tempo de encontros e reencontros, celebra\u00e7\u00f5es e romarias, festas e festins, viagens e visitas, partidas e chegadas, retiros e retiradas \u00e0 praia, \u00e0 montanha\u2026; tempo de sossego e desassossego. F\u00e9rias quietas, na quietude interior e na inquieta\u00e7\u00e3o da f\u00e9 que procura e se conjuga com emo\u00e7\u00f5es e aventuras. Para as deste ano, descansamos a aten\u00e7\u00e3o mais no <em>tempo<\/em> do que nas <em>f\u00e9rias<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um dos pensamentos provocantes com que se enfrenta a intelig\u00eancia e a exist\u00eancia humanas, n\u00e3o tanto pelos contratempos. \u00c9 c\u00e9lebre o discorrer de S. Agostinho filosofando sobre o fen\u00f3meno <em>tempo<\/em>: \u201cQue realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversa\u00e7\u00e3o? E, quando falamos dele, sem d\u00favida compreendemos; e tamb\u00e9m compreendemos quando ouvimos algu\u00e9m falar dele. O que \u00e9, pois, o tempo? Se ningu\u00e9m mo pergunta, sei o que \u00e9; mas, se quero explic\u00e1-lo a quem mo pergunta, n\u00e3o sei\u201d (<em>Confiss\u00f5es<\/em>, XI, 14, 17). Conhecemos o tempo astron\u00f3mico ou c\u00f3smico, o tempo que medimos com rel\u00f3gios e o do calend\u00e1rio. Mais interesse suscita o <em>tempo humano<\/em>, enquanto extens\u00e3o da alma, que, recordando e esperando no presente, vive o passado e o futuro. Embora o tempo c\u00f3smico corra sempre invariavelmente, o tempo humano decorre mais ou menos depressa segundo os estados de alma. Para a pessoa feliz, o tempo de vida \u00e9 brev\u00edssimo; para quem passa horas de infelicidade, \u00e9 infind\u00e1vel. Nos jogos limitados pelo tempo, para a equipa que est\u00e1 a ganhar o tempo passa lentamente: receia vir a perder. Para a que est\u00e1 a perder, passa demasiado depressa: quer mais tempo para vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>No Ocidente do bem-estar, o nevoeiro do tempo torna-se problema sobretudo por causa da brevidade da vida humana. \u00c9 <em>preci<\/em>oso: n\u00e3o tem <em>pre\u00e7o<\/em>. \u00c9 o que mais falta a algumas pessoas. T\u00eam agendas preenchidas e rel\u00f3gios de ouro, mas n\u00e3o disp\u00f5em de tempo para amar. Por isso, \u201ctenho fome da extens\u00e3o do tempo\u201d (Fernando PESSOA, <em>Livro do desassossego<\/em>, fragmento 14). Corre nas nossas veias o pren\u00fancio da insuper\u00e1vel fugacidade da vida: \u201c<em>fugit irreparabile tempus<\/em>\u201d (Virg\u00edlio, <em>Ge\u00f3rgicas<\/em>, III, 284): o tempo foge irrecuper\u00e1vel, irrevers\u00edvel, irrepet\u00edvel. Repetem a ideia os poetas: \u201cTodo pasa y todo queda,&nbsp;pero lo nuestro es passar: Tudo passa e tudo fica, mas o pr\u00f3prio de n\u00f3s \u00e9 passar\u201d \u2013 poetizava Antonio Machado (em <em>Cantares y Proverbios<\/em>, retomando o velho ad\u00e1gio medieval castelhano \u00ablo nuestro es passar\u00bb). Resta-nos viver de modo que \u201cexultemos e nos alegremos todos os nossos dias\u201d \u2013 como reza o b\u00edblico salmo 90 sugerindo: a caducidade da vida \u00e9 inevit\u00e1vel, saber ench\u00ea-la de sentido \u00e9 a grande ci\u00eancia humana. Porque \u201co tempo \u00e9 breve\u201d (1Cor 7,29), somos pressionados a viv\u00ea-lo bem, fazendo o bem quanto antes, porque o mal n\u00e3o perde tempo. De facto, \u201ca vida \u00e9 o que fazemos dela\u201d (Fernando PESSOA, <em>Livro do Desassossego<\/em> por Bernardo Soares: Fragmento 451). Sem perder muito tempo a chorar o tempo passado e \u00aba dimens\u00e3o perdida\u00bb, importa mesmo olhar para o futuro com a esperan\u00e7a de ocupar o tempo na actividade certa com as pessoas certas: as que precisam da minha aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ocupa\u00e7\u00e3o do tempo torna-o <em>humano<\/em>! Realmente, o tempo em si, que interessa \u00e0 filosofia, \u00e9 dif\u00edcil de agarrar, invis\u00edvel. Vemos as coisas, as pessoas e os acontecimentos imersos no tempo. Sentimos a nossa hist\u00f3ria pessoal, familiar, social, envolta na nebulosa do tempo. Mas a ele n\u00e3o o apanhamos. Apanha-nos ele a n\u00f3s se n\u00e3o o aproveitamos. Decisiva \u00e9, pois, a quest\u00e3o do \u00abser e tempo\u00bb, introduzindo nele o factor <em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>: rela\u00e7\u00e3o dele com o ser das pessoas. Da\u00ed sai a solu\u00e7\u00e3o de viver bem a rela\u00e7\u00e3o com o que se situa no tempo: o universo, a Terra, as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A este prop\u00f3sito, note-se que tampouco na B\u00edblia o tempo \u00e9 vazio, o abstracto <em>passar<\/em> segundo um <em>antes<\/em> e um <em>depois<\/em>. Identifica-se com os acontecimentos da vida que nele decorrem e o enchem. A\u00ed, o maior transformador que, qual m\u00e1gico alambique, d\u00e1 sentido ao tempo \u00e9 \u00abo amor n\u00e3o de qualquer maneira\u00bb, isto \u00e9, o amor de veras, o ant\u00eddoto que consegue por instantes parar o tempo, enfrentar a transitoriedade da vida e a morte e presentear momentos de plenitude. \u00c9 verdade. Precisamente no amor que nos subtrai ao tempo fugaz torna-se particularmente dram\u00e1tica a brevidade da exist\u00eancia e da felicidade humanas: o tempo corre contra o amor. Mas ent\u00e3o surge o desafio a pensar que o amor vence o tempo. H\u00e1 quem assim pense: \u201c<em>Omnia vincit amor<\/em>: o amor triunfa de tudo\u201d (Virg\u00edlio, <em>Buc\u00f3licas<\/em>, X, 69); \u201co amor nunca cai\u201d (1Cor 13,8). O grande investimento da vida seria cambiar o tempo que morre em amor eterno. Enquanto a maior limita\u00e7\u00e3o no tempo de uma pessoa \u00e9 a incapacidade de o encher com amor, o que marca o homem superior \u00e9 saber encher o seu tempo de ac\u00e7\u00f5es de amor que o salvem. A\u00ed o tempo revela fun\u00e7\u00f5es importantes: cura feridas causadas pela vida, devolve a paz a cora\u00e7\u00f5es atribulados, possibilita a esperan\u00e7a aos desalentados e garante o esquecimento de momentos angustiantes bem como a recorda\u00e7\u00e3o de instantes felizes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que querem ser as f\u00e9rias: tempo feliz vivido intensamente para re<em>cor<\/em>dar depois, subindo-o ao <em>cor<\/em>a\u00e7\u00e3o. As pessoas, as paisagens com que nos encant\u00e1mos calam fundo, permanecem e contagiam de tons alegres o tempo do ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A Europa associa o m\u00eas de Agosto a tempo de f\u00e9rias, de suspens\u00e3o ou de abrandamento dos trabalhos habituais do ano. F\u00e9rias! 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