{"id":2773,"date":"2021-06-30T02:18:00","date_gmt":"2021-06-30T02:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2773"},"modified":"2021-06-28T13:06:32","modified_gmt":"2021-06-28T13:06:32","slug":"a-sabedoria-determina-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-sabedoria-determina-a-historia\/","title":{"rendered":"A sabedoria determina a hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A influ\u00eancia da B\u00edblia na cultura ocidental nota-se particularmente na imagem que temos de Deus. Pensem o que pensarem d\u2019Ele, j\u00e1 faz parte integrante da hist\u00f3ria do Ocidente, que dificilmente ser\u00e1 contada sem se cruzar com o cristianismo e com o seu Deus. S\u00f3 desde h\u00e1 meio s\u00e9culo boa parte dos ocidentais conta a sua hist\u00f3ria sem contar com Deus. A consci\u00eancia de muita gente hoje mal tem em conta o facto de, at\u00e9 h\u00e1 sessenta anos, ser normal ver o divino a impregnar o humano, vis\u00e3o que n\u00e3o era f\u00f3rmula cristalizada, mas respira\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o viva que elevava a vida humana, a incendiava e a conduzia, com ecos nas artes e na literatura, e que fez nascer actividades essenciais como a filosofia e a ci\u00eancia. Hoje, muita gente das sociedades ocidentais, desde o alde\u00e3o at\u00e9 aos ilustrados \u00abpr\u00e9mio Nobel\u00bb, prescinde do \u00abfactor Deus\u00bb. At\u00e9 se p\u00f5e a quest\u00e3o do lugar de Deus na sociedade e da legitimidade de manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em sua honra. As recentes dificuldades para introduzir no pr\u00f3logo da Constitui\u00e7\u00e3o europeia uma refer\u00eancia \u00e0s ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa poderiam ver-se como consequ\u00eancia dessa conjuntura generalizada. Muita gente pensa que numa sociedade letrada, esclarecida e progressista n\u00e3o h\u00e1 lugar para Deus. E levantam-se outros altares a \u00eddolos de diversa \u00edndole. Procurar Deus seria inc\u00f3modo ou interessante?<\/p>\n\n\n\n<p>Muito distante desta mentalidade estavam os s\u00e1bios b\u00edblicos. Com a sua reflex\u00e3o contemplativa sobre a vida, as suas senten\u00e7as de experi\u00eancia feitas s\u00e3o concentrados de vida vivida e experimentada, que se oferece e se d\u00e1 gratuitamente para iluminar outras vidas. Tinham em comum com os profetas o seu olhar atento para o mundo e para a hist\u00f3ria humana. Pensando a vida sempre de novo atrav\u00e9s do filtro da tradi\u00e7\u00e3o, das rela\u00e7\u00f5es humanas e do meio ambiente em que se inseriam, os s\u00e1bios tiravam li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria passada para tra\u00e7arem os caminhos do presente e do futuro. Sobretudo, conclu\u00edam e ensinavam que o agir e as atitudes humanas t\u00eam consequ\u00eancias na hist\u00f3ria, determinando-a para o bem ou para o mal, onde n\u00e3o s\u00e3o indiferentes as pequenas e as grandes escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sabedoria era educa\u00e7\u00e3o do olhar para a vida. Mas simultaneamente estava permeada de f\u00e9 em Deus e dava-lhe o lugar essencial na hist\u00f3ria humana. Uma espiritualidade subliminar impregnava todo o viver e a reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia; e colhia os seus frutos: \u201cN\u00e3o fa\u00e7as o mal e n\u00e3o te acontecer\u00e1 o mal\u2026 N\u00e3o semeies nos sulcos da injusti\u00e7a e n\u00e3o colher\u00e1s sete vezes mais\u201d (Si 7,1-3). Quem ama Deus (e n\u00e3o faz de conta que o ama) e \u00e9 coerente consigo pr\u00f3prio n\u00e3o faz mal \u00e0s pessoas que vai encontrando na vida e que tamb\u00e9m deve amar:<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 grande aquele que encontrou a sabedoria!<br>Mas ningu\u00e9m se avantaja \u00e0quele que teme o Senhor (Si 25,10).<br>Aos que amam a sabedoria ama-os o Senhor (Si 4,14).<br>O temor reverencial do Senhor \u00e9 fonte de vida\u2026<br>Quem oprime o pobre injuria o seu criador,<br>Honra-o aquele que se compadece do indigente (Pr 14,26-27.31).<\/p>\n\n\n\n<p>Vivendo no \u00e2mbito da f\u00e9, os s\u00e1bios de Israel s\u00f3 podiam encarar a hist\u00f3ria na perspectiva de Deus. Fundamental era orientarem a vida por caminhos rectos; e a\u00ed encontravam Deus. Porque Israel definia o ser humano em estreita rela\u00e7\u00e3o com Deus e como criado por Ele, a reflex\u00e3o sobre o humano implicava um discurso sobre o divino; e o discurso sobre o divino tinha repercuss\u00f5es no humano. Por isso, mesmo nas abordagens mais humanistas descobrem-se laivos de espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>sabedoria<\/em>, que era verdadeiro <em>amor \u00e0 filosofia<\/em>, implicava o encontro e o conhecimento do Absoluto, visto em Deus, que dava \u00e0s coisas a sua medida e o seu valor. O s\u00e1bio israelita n\u00e3o remetia Deus para o seu c\u00e9u solit\u00e1rio e sublime: via-O presente no horizonte da vida quotidiana, como chave do edif\u00edcio metaf\u00edsico, garante do ser das coisas. N\u00e3o conhecia a dicotomia moderna \u00abnatural \u2013 sobrenatural\u00bb. Reconhecia o mundo e a hist\u00f3ria humana como lugar onde Deus se deixava encontrar. Deus era contemplado nos acontecimentos e na procura de solu\u00e7\u00f5es para os problemas humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 pelo ano 180 a.C., Ben Sir\u00e1 considera que a sabedoria oferece o nobre saber, filho do \u00f3cio e do maravilhoso: \u201cA sabedoria do escritor adquire-se nos tempos favor\u00e1veis de \u00f3cio\u201d (Si 38,24). \u201cEm todas as tuas palavras e ac\u00e7\u00f5es lembra-te do teu fim e ent\u00e3o nunca te extraviar\u00e1s da verdade\u201d (Si 7,36). \u201cVinho novo \u00e9 o amigo novo; deixa-o ganhar anos e ent\u00e3o beb\u00ea-lo-\u00e1s com gosto\u201d (Si 9,10). E, suma sabedoria: o mal, como o bem, volta sempre ao seu autor: \u201cN\u00e3o te deixes fascinar com o triunfo dos insolentes: recorda que n\u00e3o morrer\u00e3o impunes\u201d (Si 9,12). E n\u00e3o \u00e9 Deus que castiga; \u00e9 a l\u00f3gica da vida que paga com a mesma moeda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A influ\u00eancia da B\u00edblia na cultura ocidental nota-se particularmente na imagem que temos de Deus. 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