{"id":2747,"date":"2021-05-31T02:18:00","date_gmt":"2021-05-31T02:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2747"},"modified":"2021-05-26T14:28:28","modified_gmt":"2021-05-26T14:28:28","slug":"a-palavra-ao-amor-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-ao-amor-v\/","title":{"rendered":"A palavra ao amor! \u2014 V"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que at\u00e9 aqui descobrimos da linguagem do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, conclu\u00edmos que ele \u00e9 supremo elogio e consagra\u00e7\u00e3o do amor humano puro e total. Parece ser esse o maior valor e o sentido original emergente deste poema, o sentido que o autor\/compilador ter\u00e1 querido passar aos seus leitores imediatos. Esse parece ser o registo que torna mais convincente a presen\u00e7a do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no c\u00e2none b\u00edblico. Ter\u00e1 sido considerado <em>can\u00f3nico<\/em> (<em>normativo<\/em> para a f\u00e9 e para a vida) e introduzido no <em>c\u00e2none<\/em> (<em>regra<\/em> de f\u00e9) na medida em que fala do amor humano, fonte comum onde beberam os poetas do antigo Pr\u00f3ximo Oriente e os profetas b\u00edblicos, que o trataram como s\u00edmbolo da alian\u00e7a entre o divino e o humano, em que o amor humano reflecte o amor divino; nessa experi\u00eancia humana tamb\u00e9m beberam o ap\u00f3stolo Paulo e o evangelista Jo\u00e3o para sugerirem as melhores intui\u00e7\u00f5es sobre o ser e o agir de Deus. Ter\u00e1 entrado para o c\u00e2none porque canta e decanta o que principalmente d\u00e1 sentido \u00e0 vida: porque o amor humano \u00e9 tudo na vida, como \u00e9 tudo nos profetas de Israel e no evangelho de Jesus. Entrou no c\u00e2none, porque exalta vigorosamente a maior maravilha da vida humana, maravilha da humanidade e <em>de<\/em> humanidade. Entrou, n\u00e3o por ser religioso (pois, como vimos, n\u00e3o o \u00e9), mas por ser excessivamente belo, por ser \u00abbel canto\u00bb, \u00aba mais bela can\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00aba \u2018Can\u00e7on\u00edssima\u2019\u00bb, \u00abo C\u00e2ntico por excel\u00eancia\u00bb (como tamb\u00e9m se poderia traduzir esse superlativo hebraico que \u00e9 o t\u00edtulo dado ao livro). \u00c9 de tal maneira belo que se tornou sagrado, tamb\u00e9m por o amor ser sagrado e pela inquestion\u00e1vel potencialidade que o s\u00edmbolo \u00ab<em>amor<\/em> humano\u00bb tem para evocar o amor de Deus. A incorpora\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no c\u00e2none b\u00edblico, por falar daquilo que \u00e9 o mais distintivamente humano, sugeria, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o que o fechou, que n\u00e3o podemos prescindir daquilo que nos \u00e9 essencial, o amor. Os que o incorporaram no c\u00e2none talvez tenham querido apresent\u00e1-lo como o m\u00e1ximo (comprimido) do amor humano, tamb\u00e9m o que Deus quer da humanidade. \u00c9 a esse n\u00edvel que o C\u00e2ntico \u00e9 inspirado pelo Esp\u00edrito de Deus ao autor\/compilador.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, a sua interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 que revalorizava o divino do humano e lia o poema como concentrada express\u00e3o do amor esponsal de Deus pelo seu povo \u2013 redobrou a considera\u00e7\u00e3o pela sua inspira\u00e7\u00e3o divina, que j\u00e1 tinha acontecido ao n\u00edvel do autor\/redactor. Porque o encontro amoroso entre um homem e uma mulher \u00e9 dado de gra\u00e7a, efusivo e criativo\u2026; e porque tem muito de misterioso, transbordante, generoso\u2026, tornou-se s\u00edmbolo fundante do mais sublime na vida humana e at\u00e9 sacramento do amor divino para com os humanos. Porque o s\u00edmbolo abre para uma realidade superior, pode abrir tamb\u00e9m para o amor divino. N\u00e3o fica ao lado do amor a Deus: potencia-o.<\/p>\n\n\n\n<p>E, a partir do seu significado mais imediato, as palavras do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos abrem para a possibilidade de segundas leituras na situa\u00e7\u00e3o existencial de cada leitor, hoje. Nestas leituras que actualizam o C\u00e2ntico (como as que fizeram os m\u00edsticos), ele adquire intensidade quase infinita: ao falar de um amor encarnado no corpo, abre uma janela para o amor inef\u00e1vel al\u00e9m do corpo (que n\u00e3o est\u00e1 expl\u00edcito no C\u00e2ntico). Na aventura do amor, na busca e na entrega, na liberdade e na gra\u00e7a desse encontro humano at\u00e9 pode revelar-se Deus entre os humanos que O procuram. O amor m\u00fatuo inter-humano do C\u00e2ntico n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 amor f\u00edsico. Porque na sua plenitude transcende o amante e o amado, pode revelar um imenso amor, vivido como fragmento de infinito e de indiz\u00edvel. Ao exalt\u00e1-lo sobremaneira, o C\u00e2ntico p\u00f5e um pedacinho de c\u00e9u ao alcance de quem ama: sugere que quem ama em pleno saboreia a imortalidade no momento fugaz de amar. Mas ent\u00e3o n\u00e3o se pode prescindir da realidade simb\u00f3lica (amor humano) sob pena de se perder a realidade simbolizada, amor elevado ao infinito. A interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica n\u00e3o oculta a for\u00e7a do amor f\u00edsico: precisamente por ser simb\u00f3lica, exalta o amor f\u00edsico em si pr\u00f3prio e para al\u00e9m de si pr\u00f3prio. Nem se prescinde do homem para encontrar Deus, porque, depois da Incarna\u00e7\u00e3o, o amor humano \u00e9 a realidade privilegiada para acontecer amor de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 um rio caudaloso que nasce na fonte que \u00e9 o <em>a<\/em>mor, se alimenta dos afluentes do <em>a<\/em>mor e desagua no mar do <em>A<\/em>mor. \u00c9 a mais alta antecipa\u00e7\u00e3o da suprema manifesta\u00e7\u00e3o do amor em Jesus. Mas, ainda antes, \u00e9 a imagem b\u00edblica fundamental do amor humano, onde se fundam e se enriquecem todos os amores humanos. Ele sugere que \u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es humanas que decido, em definitivo, a minha exist\u00eancia, investindo no amor. \u00c9 diante de algu\u00e9m que precisa de mim que decido a verdade e a salva\u00e7\u00e3o da minha vida. O C\u00e2ntico \u00e9 o espelho em que posso descobrir o melhor a fazer com a minha vida. Foi talvez por isso que o rabino Aqiba dizia no Talmude (Tratado <em>Yadaim<\/em> 3,5): \u201co mundo inteiro vale menos do que o dia em que o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos foi dado a Israel, porque todas as Escrituras s\u00e3o santas, mas o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 a mais santa de todas\u201d. Este elogio desmesurado d\u00e1-nos a medida e a grandeza do dom. Sem o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, a B\u00edblia hebraica n\u00e3o seria o que \u00e9: faltar-lhe-ia o melhor de si pr\u00f3pria, o canto a um s\u00f3 amor, que \u00e9 humano e que abre para o divino. Valeria a pena nascer nem que fosse s\u00f3 para ler o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Leia-o agora sem coment\u00e1rios, com todas as pe\u00e7as no seu s\u00edtio, para que funcione! A sua melhor leitura tem potencialidade para mudar a vida a fundo, continuando a mesma \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Pelo que at\u00e9 aqui descobrimos da linguagem do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, conclu\u00edmos que ele \u00e9 supremo elogio e consagra\u00e7\u00e3o do amor humano puro e total. 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