{"id":2709,"date":"2021-03-31T04:00:00","date_gmt":"2021-03-31T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2709"},"modified":"2021-03-29T16:01:37","modified_gmt":"2021-03-29T16:01:37","slug":"tres-palavras-da-semana-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/tres-palavras-da-semana-santa\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas palavras da Semana Santa"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aquela que a liturgia crist\u00e3 chama <em>Semana Santa<\/em> \u00e9 a \u00faltima da vida hist\u00f3rica de Jesus. Os crist\u00e3os d\u00e3o-lhe relevo celebrando os principais mist\u00e9rios da vida dele, acompanhando-o nas suas \u00faltimas horas. Ponto culminante do ano lit\u00fargico crist\u00e3o, ela \u00e9 o tempo privilegiado para o aprofundamento\/viv\u00eancia da f\u00e9. Como nenhum outro \u2013 por ser rico em s\u00edmbolos, pela Palavra que prop\u00f5e \u00e0 escuta das pessoas, pela medita\u00e7\u00e3o no sofrimento e na morte e pela exposi\u00e7\u00e3o da vida ao risco da ressurrei\u00e7\u00e3o \u2013 coloca-nos nas margens da salva\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do sentido pleno a dar \u00e0 vida. Intensifica-se no Tr\u00edduo Sacro.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00daltima Ceia de Jesus com os disc\u00edpulos \u00e9 a hora da mais densa tomada de consci\u00eancia do sentido da sua vida e da sua morte: da vida dada (\u201ctomai e comei; isto \u00e9 o meu corpo [= isto sou eu], que ser\u00e1 entregue por v\u00f3s\u201d) e da morte antecipada (\u201ceste \u00e9 o meu sangue, que ser\u00e1 derramado por todos\u201d). <strong>Os poderes da noite que tramam<\/strong> a sua elimina\u00e7\u00e3o do reino dos vivos reduzem o tempo para manifesta\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es de despedida. O amor, como ningu\u00e9m, percebe a import\u00e2ncia do tempo. Quem ama intensamente sente ter tudo menos tempo: daria tudo em troca de mais tempo para amar. Jesus sente que j\u00e1 n\u00e3o tem muito mais, para revelar e dar mais: \u201cpouco mais tempo estarei convosco\u201d. Diz e faz o essencial: \u201cDou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei\u201d (Jo 13,33-34). <strong>A sua vida apresenta-se como um quadro perfeito, sem esbo\u00e7o, porque resultava do amor perfeito. J\u00e1 dele tinham dito \u201cno auge da admira\u00e7\u00e3o: fez tudo bem feito\u201d (Mc 7,37). Agora \u00e9 o amor que d\u00e1 todo o realce \u00e0 sua P\u00e1scoa<\/strong>: \u201cantes da festa da P\u00e1scoa, Jesus, sabendo que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao extremo\u201d [at\u00e9 dar toda a sua vida para cumprir o plano salv\u00edfico do Pai] (Jo 13,1). Assim encheu as medidas do <em>existir<\/em> humano, que est\u00e3o n\u00e3o no tempo que dura mas na vida que oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d. Fazer mem\u00f3ria era fazer hist\u00f3ria. Era re<em>cord<\/em>ar, no sentido etimol\u00f3gico de trazer de novo ao <em>cor<\/em>a\u00e7\u00e3o aquela ceia puxando-a para o presente, reactualizando o seu poder libertador para cada gera\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos, como se cada um tivesse participado nela, dando-lhe assim valor perene. O memorial festivo da narrativa aut\u00eantica, ligado ao desejo e \u00e0 busca de imortalidade, celebra e<em> real<\/em>iza <em>hoje<\/em> a ceia hist\u00f3rica de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ceia remetia para o drama da cruz, prenunciando-o. O caminho que Jesus percorreu carregando a cruz desde o p\u00e1tio de Pilatos at\u00e9 ao Calv\u00e1rio foi o mais curto mas tamb\u00e9m o mais intenso que ele ter\u00e1 feito. Foi a s\u00edntese da sua vida, o <em>caminho da cruz<\/em>, a <em>via crucis<\/em>, o caminho da vida, o caminho para a morte programada pelo mundo que n\u00e3o o compreendeu. Na cruz, o mais c\u00e9lebre injusti\u00e7ado da Hist\u00f3ria, tratado em vida como <em>Mestre<\/em>, deu a sua \u2018\u00faltima li\u00e7\u00e3o\u2019 de uma alta c\u00e1tedra. Nunca o seu discurso tinha sido t\u00e3o elevado: poucas palavras, eloquente intensidade de gestos, longos sil\u00eancios, sofrimento assimilado pelo amor, perd\u00e3o para os algozes sem acusa\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia do alcance dessa morte, ora\u00e7\u00e3o ao Pai, aten\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e dando-lhe outro filho para cuidar (\u201cMulher, a\u00ed tens o teu filho\u201d) e dando-a como m\u00e3e ao disc\u00edpulo (\u201ca\u00ed tens a tua m\u00e3e\u201d: Jo 19,25-27). \u00c9 a li\u00e7\u00e3o do Homem por excel\u00eancia, do Homem verdadeiro, que revelou a verdade de Deus e a verdade do homem: \u201cEis o Homem!\u201d (Jo 18,5). Li\u00e7\u00e3o de alcance universal: \u201cTodo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u201d (Jo 18,37).<\/p>\n\n\n\n<p>Sujeitando-se activamente \u00e0 viol\u00eancia at\u00e9 \u00e0 morte, Jesus desvelou de forma suprema o amor de Deus pelo homem. O Pai assumiu em si a dor do mundo e rejeitou a malefic\u00eancia cravando-a na cruz do Filho: manifestando-se contr\u00e1rio \u00e0quela morte inocente, identificou-se com o grito das v\u00edtimas deste mundo pelo amor que o move, pelo Amor que Ele \u00e9: \u201cNisto manifestou-se entre n\u00f3s o amor de Deus: em que Deus enviou ao mundo o seu Filho \u00fanico, para vivermos por ele\u201d (1Jo 3,9). Desde a morte de Jesus como v\u00edtima inocente, todos os actos de viol\u00eancia humana se estilha\u00e7am reprovados na imagem do <em>Homem<\/em> crucificado. E porque a cruz levantava um homem que aparecia como imagem vis\u00edvel do Deus invis\u00edvel, nela se quebram todas as imagens desfocadas e convencionais de Deus (a do Deus justiceiro, castigador, que pode livrar duma pandemia, ou a do Deus omnipotente da espiritualidade imatura e adolescente), porventura pouco art\u00edsticas. A mais aut\u00eantica \u201cpalavra da cruz\u201d (1Cor 1,18) n\u00e3o \u00e9 a do sofrimento e da mortifica\u00e7\u00e3o dolorista: \u00e9 a do amor \u2013 amor crucificado \u2013 de um Homem que ama os homens apontando para Deus; \u00e9 a palavra de joelhos que compreende que o verdadeiro Deus \u00e9 um Deus capaz de sofrer at\u00e9 morrer pelo homem, um Deus impotente, s\u00f3 omnipotente no amor. Foi diante da cruz que o pag\u00e3o centuri\u00e3o romano confessou: \u201cVerdadeiramente este homem era filho de Deus\u201d (Mc 15,39). S\u00f3 se conhece o excesso do amor de Deus quando ele se reconhece na li\u00e7\u00e3o total do Jesus da cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>E o amor tem sempre consequ\u00eancias \u00e0 sua altura. Em Jesus, a maior consequ\u00eancia do amor dele e do Amor do Pai por ele foi a que o Novo Testamento chama ressurrei\u00e7\u00e3o. Ela abriu um caminho novo. T\u00e3o novo que o desconhecemos. Mesmo que Jesus \u201cfalasse dela abertamente\u201d (Mc 8,32), ela n\u00e3o tirava o mordente \u00e0 morte. Os seus disc\u00edpulos \u201cdiscutiam entre si o que era isso de \u00abressuscitar dos mortos\u00bb\u201d (Mc 9,10). O que sabemos \u00e9 que nos convida e chama, entre a forte atrac\u00e7\u00e3o que suscita e as indeclin\u00e1veis d\u00favidas que provoca sobre a nova forma de vida que ela inaugura. Para dela falar, a linguagem humana \u00e9 inapta. As quest\u00f5es que nos p\u00f5e, ligamo-las ao f\u00edsico, ao corp\u00f3reo, ao experiment\u00e1vel. Tendemos a pensar que o real se reduz ao fenom\u00e9nico ou emp\u00edrico: \u00abse n\u00e3o vi, n\u00e3o existe!\u00bb. Mas a linguagem do Novo Testamento sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus significa acima de tudo que a sua vida e a sua morte tiveram sentido, para ele e para \u201cos seus irm\u00e3os\u201d (Heb 2,17): pelo modo como viveu uma e outra (vivendo para as pessoas e morrendo pelas pessoas), a vida em comunh\u00e3o com Deus deu sentido \u00e0 morte e a morte com Deus deu sentido \u00e0 vida. Assim, a ressurrei\u00e7\u00e3o quer dar sentido a uma vida que d\u00ea sentido \u00e0 morte e que evite em cada vida o desespero perante o pensamento de uma morte aniquiladora, fim de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer ter poder no crente s\u00f3 depois de morrer: a f\u00e9 e a esperan\u00e7a nela querem sobretudo fecundar de bondade e encher de sentido a vida do crente j\u00e1 aqui e agora, tamb\u00e9m preparando-o para o momento da morte e para escutar de Jesus: \u201cEu vos ressuscitarei no \u00faltimo dia [o da sua e o da nossa vida]\u201d. Aleluia!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Aquela que a liturgia crist\u00e3 chama Semana Santa \u00e9 a \u00faltima da vida hist\u00f3rica de Jesus. Os crist\u00e3os d\u00e3o-lhe relevo celebrando os principais mist\u00e9rios da vida dele, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2701,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2709","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2709"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2709\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2710,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2709\/revisions\/2710"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}