{"id":2707,"date":"2021-03-31T03:59:00","date_gmt":"2021-03-31T03:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2707"},"modified":"2021-03-29T16:00:30","modified_gmt":"2021-03-29T16:00:30","slug":"dialogos-de-benicio-sabio-burro-manco-de-sao-jose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/dialogos-de-benicio-sabio-burro-manco-de-sao-jose\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logos de Ben\u00edcio, s\u00e1bio burro manco de S\u00e3o Jos\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p><br><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><br>Ando h\u00e1 bastos dias acabrunhado e sem vontade de viver. Pergunto-me repetidamente que fa\u00e7o eu ainda aqui, o que se espera de mim e se estas ser\u00e3o as derradeiras horas de meus derradeiros dias e, concluo que talvez n\u00e3o, embora disto n\u00e3o haja nem ci\u00eancia certa, nem certezas redondas. O que sei \u00e9 o que aprendi dos antigos esp\u00e9cimes da minha ra\u00e7a, cuja pequena ta\u00e7a de sabedoria garante que as horas antecedentes ao passamento s\u00e3o de jubiloso sobressalto, em que mais definhando, o passante se soergue, tagarela, faz planos, rasga avenidas e caminhos mar\u00edtimos para o futuro, lan\u00e7ando novos projectos e novas naves aos mares. De t\u00e3o taciturno que estou, longe me encontro, por\u00e9m, de governo de naves, lan\u00e7amento de caboucos ou de dar conselhos a mais novos.<br>Uma ansiosa n\u00e9voa cinzenta paira h\u00e1 dias sobre a grande cidade, pelo que todos, menos eu, se surpreenderam quando esta sexta-feira, pelas tr\u00eas da tarde, repentinamente, o c\u00e9u se escureceu sobre o nosso lugar.<br>O comum dos povos e das gentes garante que s\u00f3 olhamos para o ch\u00e3o, de olhos rentes, tristes e afeitos ao p\u00f3, ou porque carregamos os nossos pecados e os pecados de muitas gera\u00e7\u00f5es anteriores, ou porque nos esmaguem brutais masmorras que estranha penit\u00eancia imerecida nos imponha. Nas colunas dos ex\u00e9rcitos marchamos sempre atr\u00e1s, que somos n\u00f3s quem carrejamos com as provis\u00f5es, seja para os belicosos est\u00f4magos dos humanos, generais ou n\u00e3o, seja para os est\u00f4magos das demais alim\u00e1rias, sejam as tendas de acampamento, seja o pesado equipamento de artilharia. Em tempos de paz, raros por estes dias, atrelam-nos o arado e l\u00e1 vamos n\u00f3s rasgando leivas, virando a terra, ou nos prendem a negra nora e ficamos ali rodando, rodando, rodando, at\u00e9 regar inteiros vinhedos e veigas. Outros h\u00e1 com sortes bem piores que a minha: meu compadre Lira alombou com toneladas de min\u00e9rio \u2014 o patr\u00e3o dele criou doze filhos e uma catrefada de netos s\u00f3 \u00e0s custas das suas costas! \u2014 e o velho Xavier morreu esmagado de desvalimento por for\u00e7a dos troncos que, havia s\u00e9culos, carregava daqui para ali, como S\u00edsifo impenitente.<br>Desculpar-me-eis, \u00f3 v\u00f3s que levais perdendo alguns minutos da vossa preciosa vida s\u00f3 de ouvir rabugices de asno velho; o certo \u00e9 que n\u00e3o me apresentei, o que \u00e9 algo assaz imperdo\u00e1vel, indo j\u00e1, como se v\u00ea, este texto quase no seu equador! Chamo-me Ben\u00edcio, pac\u00edfico nome de guerra, que jamais de vida folgada me sustentei. Levo-o em honra de antepassado que n\u00e3o conheci e que serviu o Rei David. Manquejo de perna traseira e cego sou de olho contr\u00e1rio, o que me tornou in\u00fatil para trabalhos servis, mas n\u00e3o me dispensou de canseiras, dores de cabe\u00e7as e jornadas for\u00e7adas.<br>Bastas est\u00f3rias tenho para contar.<br>Incapaz para trabalhos pesados, era a mim que os engenheiros soltavam se urgia abrir estrada nova: orientavam-me na direc\u00e7\u00e3o do rasgo a abrir, espetavam-me uma palmada no quadril e l\u00e1 ia eu: terra que cruzasse ou colina que subisse, por ali se rasgaria o passadi\u00e7o. Por fim, os achaques da idade desimpediram-me do of\u00edcio, sobremaneira, quando, certa vez, a sul das Montanhas do L\u00edbano, as for\u00e7as deixaram de me assistir. Como quem se livra de traste fanado deram-me como de gorjeta a um carpinteiro, que digo eu, a um pobre m\u00e3ozinhas, que de tudo um pouco ele sabia fazer.<br>Tinha eu, \u00e0 data, plena consci\u00eancia de apenas servir para pouco mais do que para fazer companhia e mastigar rala palha seca. E assim era. Algumas vezes, daqui para ali lhe carreguei as ferramentas, outras vezes uns tabu\u00f5es e at\u00e9 uns barrotes. Mas n\u00e3o muito mais.<br>Um dia ele casou; lembro-me bem dos esponsais e dos doridos desabafos que tr\u00eas ou quatro meses depois lhe percebi. At\u00e9 que me segredou que de preparar-me havia, pois haver\u00edamos de empreender longa jornada, de Nazar\u00e9 at\u00e9 \u00e0s terras de nossos antepassados. N\u00e3o foi este o meu trabalho mais duro, mas o de maior cuidado: carreguei Maria, a jovem esposa, no meu lombo, que procurei fosse manso como um afago. Ela ia gr\u00e1vida, ainda por cima\u2026 Jamais esquecerei, por fim, a Noite dos Anjos, quando depois do nascimento do filho, Jesus, vieram eles, inesperadamente, cantar a paz sobre a terra. Ah, mas do que mais gostei foi de ter ficado quietinho, quentinho, anichado e sossegado, diante da manjedoira do rec\u00e9m-nascido. Confesso que, mais que uma vez, me apeteceu cobrir o beb\u00e9 de beijos, pois era t\u00e3o lindo e t\u00e3o fofo! E ainda por cima, jazia deitado no saboroso feno da manjedoira\u2026<br>Fiquei, ficamos, por ali uma larga temporada. Depois fugimos a trote tr\u00f4pego, mais tr\u00f4pego que trote, para o Egipto, \u00e0 frente de um tropel de cavalos que jamais lograram alcan\u00e7ar-nos; m\u00e9rito que de todo n\u00e3o foi meu! No Egipto, and\u00e1mos, antes de tempo, de an\u00e1s para caif\u00e1s, quais saltimbancos, de casa \u00e0s costas, melhor, de tenda \u00e0s costas, sendo que esta era a parte que s\u00f3 a mim cabia, claro. Nunca, por\u00e9m, o lamentei, que eu faria o que fosse necess\u00e1rio por algum deles os tr\u00eas \u2014 at\u00e9 dar a vida\u2026<br>Passados anos regress\u00e1mos juntos a Nazar\u00e9, terras por mim bem conhecidas e t\u00e3o amadas. Continuei de olho no crescimento do Mi\u00fado, que, est\u00e1 bem de ver, n\u00e3o era um mi\u00fado qualquer. Era um doce, um regalo de rapaz, um anjo de m\u00e3os mansas e palavras doces que reconfortavam e amoleciam o cora\u00e7\u00e3o mais negro ou empedernido. Eu derretia-me s\u00f3 de ouvir o seu nome! Amei-o, ainda mais quando, morto o doce Jos\u00e9, ele assumiu a oficina do nobre pai. N\u00e3o sei dizer qual deles era o melhor art\u00edfice, que um o foi por muitos anos e outro por poucos, mas este tinha c\u00e1 umas m\u00e3os e umas intui\u00e7\u00f5es t\u00e3o divinas que eram um espanto!<br>Jos\u00e9, por seu lado, fora t\u00e3o pobre e humilde aos olhos do mundo que se tornara grand\u00edssimo aos olhos de Deus e dos anjos; e eu amava-o ternamente por isso. Ah, como eu gostava de ver o pai a ensinar o filho no preparo da madeira! Coisa mai&#8217;linda!<br>Jesus era divino, ningu\u00e9m me tira isso da cabe\u00e7a, que eu n\u00e3o sou burro nenhum e, n\u00e3o havia ningu\u00e9m por c\u00e1 maior do que Ele, claro est\u00e1, e ao mesmo tempo era t\u00e3o humano\u2026 T\u00e3o humano\u2026<br>Bem, amei os dois, claro, que eu admirei sempre e sempre honrei a simplicidade de car\u00e1cter e o amor ao trabalho.<br>Um dia Jesus partiu para anunciar a Boa Nova, j\u00e1 eu estava bem velho, cheio de cataratas nos olhos e de artroses e c\u00e1ries nos ossos. N\u00e3o servindo para mais, fiquei por ali a enxotar moscas e a descansar \u00e0 sombra!<br>Uns dias antes do sol se ocultar naquela bendita tarde de sexta-feira, Maicon, meu neto mais velho, achegou-se, esbaforido:<br>\u2014 Fam\u00edlia, fam\u00edlia, trago uma novidade feliz!<br>\u2014 Fala, filho, fala, mas s\u00ea prudente.<br>\u2014 \u00d3 fam\u00edlia, \u00f3 pai, \u00f3 v\u00f4, que feliz que eu estou! Fui \u00e0 grande cidade e havia gente de ambos os lados do caminho, de ramos nas m\u00e3os, saudando-me, dando vivas e batendo palmas! Estou t\u00e3o feliz por mim mesmo!<br>A fam\u00edlia encantou-se, menos a m\u00e3e que, ignorada, retou\u00e7ava, um pouco, ao longe.<br>C\u00e1 por mim, sempre desconfiado da humana generosidade para connosco, os burros, e n\u00e3o lobrigando outra sa\u00edda, retorqui:<br>\u2014 Filho, desconfia sempre dos humanos aplausos. O seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 demasiado vol\u00favel; diz-me: que fizeste para os merecer? Tens mesmo a certeza que eram para ti?<br>\u2014 Bem, devolveu Maicon, na verdade, eu retou\u00e7ava com minha m\u00e3e, quando dois homens me levaram pela arreata, e fizeram subir um tal Jesus. Foi a primeira vez que servi de montada. Inicialmente foi um doloroso desconforto, mas o Homem, afinal, era leve como um anjo!<br>\u2014 Ver\u00e1s, meu filho, volta, discreto, \u00e0 grande cidade, que uma coisa aprendi servindo o bom velho Jos\u00e9 de Nazar\u00e9, descendente de David: as palmas e os elogios s\u00e3o, al\u00e9m de vol\u00faveis, vol\u00e1teis! E sim, estas n\u00e3o eram para ti, mas para o doce filho do carpinteiro, que por certo eu tamb\u00e9m servi, h\u00e1 muitos anos, em Bel\u00e9m, Egipto e Nazar\u00e9. Vai certificar-te, meu filho, vai, mas vai prudente que, ou muito me engano ou Jesus acaba de perecer \u00e0 m\u00e3o dos poderosos do Templo. Certifica-te, por favor, e traz descanso a este velho cora\u00e7\u00e3o de asno que, ou muito me engano, ou muito tenho de chorar e lamentar; e volta, volta, discreto, para n\u00f3s, que o que tu quiseres que o outro cale, cala-o tu primeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Ando h\u00e1 bastos dias acabrunhado e sem vontade de viver. 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