{"id":2665,"date":"2021-02-28T03:06:00","date_gmt":"2021-02-28T03:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2665"},"modified":"2021-02-26T08:19:16","modified_gmt":"2021-02-26T08:19:16","slug":"a-imagem-da-peregrinacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-imagem-da-peregrinacao\/","title":{"rendered":"A imagem da peregrina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre houve ao longo de mil\u00e9nios grande mobilidade na hist\u00f3ria da humanidade. Mas nunca tanta como hoje (friamente esbatida pela pandemia). Nesse fen\u00f3meno social est\u00e1 entretecido o das peregrina\u00e7\u00f5es. Os soci\u00f3logos registam sinais de expans\u00e3o dessa movimenta\u00e7\u00e3o religiosa, constatando que, em grupo ou s\u00f3s, s\u00e3o cada vez mais os que se p\u00f5em a caminho, atra\u00eddos porventura para uma experi\u00eancia emotiva ou de \u2018desporto\u2019 religioso radical.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a peregrina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fen\u00f3meno de agora: pelo menos desde os mais remotos tempos b\u00edblicos, foi sendo e est\u00e1 carregada de sentido humano e espiritual por uma longa tradi\u00e7\u00e3o. Os que integravam o povo b\u00edblico faziam por visitar o santu\u00e1rio de Jerusal\u00e9m, visto pela f\u00e9 como s\u00edmbolo da presen\u00e7a de Deus em Israel: \u201cOs seus pais [<sup>de Jesus<\/sup>] <em>costumavam ir<\/em> todos os anos a Jerusal\u00e9m \u00e0 festa da P\u00e1scoa. E quando chegou \u00e0 idade de doze anos, tendo eles <em>subido<\/em> [<sup>verbo t\u00e9cnico para referir a peregrina\u00e7\u00e3o inteira \u00e0 cidade santa, podendo-se traduzir: <em>estando eles em peregrina\u00e7\u00e3o<\/em><\/sup>], segundo o costume da festa\u2026\u201d. Jesus come\u00e7ou cedo o exerc\u00edcio f\u00edsico da peregrina\u00e7\u00e3o, aprendiz de sucessivas peregrina\u00e7\u00f5es ao cora\u00e7\u00e3o humano. Depois fez outra, igualmente simb\u00f3lica, de 40 dias no deserto. Dela teve origem a da <em>quaresma<\/em> (\u2190<em>quadragesima dies<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>O sentido da <em>peregrina\u00e7\u00e3o<\/em> reside na sua capacidade de comunicar, entre o s\u00edmbolo e a met\u00e1fora. De facto, ela \u00e9 s\u00edmbolo: tem capacidade intr\u00ednseca de remeter para a concep\u00e7\u00e3o do <em>homem viandante<\/em>, para a realidade da <em>exist\u00eancia<\/em> vivida ou por viver, que se realiza enquanto caminhada ao longo de perip\u00e9cias inumer\u00e1veis, iniciada na iman\u00eancia e tendente para a transcend\u00eancia. E tamb\u00e9m pode ser considerada met\u00e1fora: a vida \u00e9 <em>como<\/em> uma peregrina\u00e7\u00e3o que d\u00e1 unidade \u00e0 diversidade de acontecimentos e de experi\u00eancias tidas. Concretiza-se entre acolhimentos e rejei\u00e7\u00f5es, ditas e desditas, festas, epidemias e pandemias. Vista como met\u00e1fora da vida humana, esta aparece como narrativa com sentido. Enquanto s\u00edmbolo da nossa exist\u00eancia, interpreta-nos a fundo, caracterizando tamb\u00e9m a quaresma lit\u00fargica enquanto caminhada libertadora feita pelo esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>O peregrino que sai do pr\u00f3prio porto de abrigo, expondo-se a perigos e enfrentando medos e obst\u00e1culos entre estranhos ou estrangeiros, significa as dificuldades da vida e exorciza-as. Gente de v\u00e1rias culturas, idades e proced\u00eancias, marcada por situa\u00e7\u00f5es humanas de dor, trabalho e desafios, de rotina e novidade, converge para um ponto comum, ao encontro dos outros, para partilhar peda\u00e7os de vida e procurar na peregrina\u00e7\u00e3o algo que est\u00e1 para al\u00e9m do quotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer o exerc\u00edcio sagrado da peregrina\u00e7\u00e3o proclama \u00edntima e socialmente a condi\u00e7\u00e3o de caminhante sobre a terra, na dureza e nas alegrias da vida. O peregrino declara-se insatisfeito com o j\u00e1 realizado e deseja subir mais em humanidade e na vida do esp\u00edrito. Manifesta a sua tend\u00eancia inata de <em>ser<\/em> <em>para<\/em> os outros e para \u201cum novo c\u00e9u e uma nova terra\u201d. Na peregrina\u00e7\u00e3o v\u00ea oportunidade para a descoberta, para a purifica\u00e7\u00e3o interior, para a catequese do cora\u00e7\u00e3o, sob o signo do gozo e da paz interior. Nela colmata uma necessidade da alma, enquanto libertadora inicia\u00e7\u00e3o ao <em>itiner\u00e1rio da alma para Deus<\/em>. Quando um crente ou descrente sobe peregrino a um santu\u00e1rio, qual monte do perd\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3ouniversais, deseja voltar de l\u00e1 mais identificado com o Mist\u00e9rio, representado simbolicamente por esse lugar sagrado. A peregrina\u00e7\u00e3o religiosa enriquece com uma experi\u00eancia de Deus festiva e emotiva os limites da habitual vis\u00e3o do mundo. At\u00e9 exprime a inevit\u00e1vel transitoriedade da vida e a relatividade das coisas com que lidamos diariamente. E subentende a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o dar import\u00e2ncia ao sup\u00e9rfluo e de se concentrar no essencial. Quem exercita a peregrina\u00e7\u00e3o entende que a vida \u00e9 fr\u00e1gil e breve, sem tempo para fazer tudo, muito menos o mal, mas s\u00f3 o bom e o \u00f3ptimo.<\/p>\n\n\n\n<p>P\u00f4r-se a caminho em peregrina\u00e7\u00e3o empenhada \u00e9 express\u00e3o da fome de sentido transcendente, da busca de infinito que ofere\u00e7a rem\u00e9dio ao humano radicalmente finito, embora por vezes n\u00e3o se note diferen\u00e7a entre romaria e peregrina\u00e7\u00e3o. Os que peregrinam esperando encontrar alguma coisa no caminho ou na meta podem hesitar quanto \u00e0quilo em que acreditam e podem suspeitar da doutrina da sua religi\u00e3o ou da n\u00e3o-religi\u00e3o. Mas cr\u00eaem que a peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma viagem a fazer. Podem n\u00e3o ser muito atra\u00eddos por um of\u00edcio religioso, mas sentem-se bem quando, chegados \u00e0 meta do santu\u00e1rio, veneram a imagem sagrada ou a cruz que os p\u00f4s a caminho. H\u00e1 em todo o ser humano uma \u00e2nsia de caminhante, express\u00e3o de esperan\u00e7a impl\u00edcita ou expl\u00edcita.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem vai em peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 um potencial dependente de outros: precisa de amparo, orienta\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, est\u00edmulo para continuar a caminhar; frequentemente \u00e9 posto diante do <em>novo<\/em>, de incertezas face ao desconhecido das etapas seguintes, de op\u00e7\u00f5es fundamentais a fazer diante de uma encruzilhada. A companhia de outros ajuda a gerir as instabilidades e os altos e baixos pr\u00f3prios de uma peregrina\u00e7\u00e3o. Caminhar com outros faz com que volte a casa <em>outro<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Sempre houve ao longo de mil\u00e9nios grande mobilidade na hist\u00f3ria da humanidade. Mas nunca tanta como hoje (friamente esbatida pela pandemia). 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