{"id":2663,"date":"2021-02-28T03:05:00","date_gmt":"2021-02-28T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2663"},"modified":"2021-02-26T08:18:24","modified_gmt":"2021-02-26T08:18:24","slug":"animas-te-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/animas-te-coracao\/","title":{"rendered":"ANIMAS-TE, CORA\u00c7\u00c3O?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Escrevo no dia dos Santos Pastorinhos de F\u00e1tima, Francisco e Jacinta, ca\u00eddos neste mundo por causa de uma pandemia, h\u00e1 pouco mais de cem anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo no in\u00edcio da Quaresma de 2021, de novo enjaulado por uma quarentena, a cujo ac\u00famulo de dias perdi a conta; chamo, por isso, a estes dias, nem uma nem outra, mas Quarentesma. A palavra n\u00e3o existe, claro, mas ajuda-me a dizer que a meu ver iniciamos a Quaresma como um per\u00edodo de feliz purifica\u00e7\u00e3o, que entroncando num outro \u2014 de sucessivas quarentenas \u2014 n\u00e3o foi nem querido nem promovido por Deus, mas do qual Ele pode tirar bem do mal para bem de todos os seus filhos e filhas. Para falar verdade, n\u00e3o queria atravessar uma Quarentesma, apenas uma Quaresma; por isso, quando rezo e choro, ou choro e rezo, oro humildemente a Deus pedindo-lhe que na for\u00e7a do seu Esp\u00edrito nos conceda um raiozinho de luz que nos ilumine a noite escura que atravessamos e de que haveremos de sair.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> Se bem me lembro nunca pass\u00e1mos uma Quaresma assim! Claro que me recordar\u00e3o a de 2020, que foi parecida. Sim, foi. Mas quando o tempo \u00e9 vivido em Deus nunca o tempo volta, inteiramente, ao seu in\u00edcio, n\u00e3o se repete, ainda que pare\u00e7a muito igual em muitas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, esta Quaresma \u00e9 mesmo diferente. A outra meteu-nos tanto medo, que, prontamente, nos encafuamos em casa na secreta esperan\u00e7a de que tudo n\u00e3o passasse de um sonho mau. Era mau, sim, mas n\u00e3o era sonho \u2014 era real! E o bicho mau n\u00e3o passou como esperan\u00e7\u00e1ramos que de n\u00f3s passasse como num estalar de dedos.<\/p>\n\n\n\n<p>E eis-nos, de novo, em Quaresma, com uma loucura de cont\u00e1gios e quinze mil mortos \u00e0s costas. \u00c0s vezes, no sobressalto das not\u00edcias, penso: podia ter sido eu! \u00c9 que o bicho anda por a\u00ed, e ningu\u00e9m sabe ao certo onde, se numa rua longe da minha, se dentro de casa, na igreja, ou no meu bolso!<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Quaresma tem de ser diferente e s\u00ea-lo-\u00e1, certamente! E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pelas cinzas que n\u00e3o foi poss\u00edvel colocar na testa, n\u00e3o. Ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00e3o as cinzas que salvam, mas o Fogo! N\u00e3o nos bastam cami\u00f5es delas, antes mais precisamos das chamas que nos animem a produzi-las!<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Quaresma come\u00e7ou como tinha de come\u00e7ar, mesmo se sem Carnaval e sem Cinzas!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> Come\u00e7ou, pois, a Quaresma, esse tempo t\u00e3o assaz especial! E j\u00e1 que nos apanhou confinados em casa, oxal\u00e1 a sabedoria do Alto nos unja a fim de alcan\u00e7armos dispensar um pouco o Insta e o FB e todas as redes que nos enredam, a fim de permitir que o Fogo nos limpe do tanto que nos sobra, nos estorva e prejudica!<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 verdade que h\u00e1 um ano n\u00e3o sab\u00edamos viver em casa durante tanto tempo, e de forma t\u00e3o intensa; se \u00e9 verdade que fomos aprendendo \u2014 e isto \u00e9 um ganho, sim \u2014 a viver t\u00e3o juntos, intensamente mais juntos que nunca, aceitando at\u00e9 n\u00e3o sair para apanhar ar, n\u00e3o fazer <em>jogging<\/em>, n\u00e3o ir jantar fora, ao futebol e ao teatro, n\u00e3o sair ao fim de semana, n\u00e3o ir visitar os av\u00f3s ou os amigos, e se at\u00e9 aceitamos perder f\u00e9rias \u2014; se de repente tudo isso vale tanto como cinza, para salvaguardar a nossa sa\u00fade e a alheia, ent\u00e3o, vale a pena considerar, embora muito nos custe, que viv\u00edamos de sobrados excessos!<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Quaresma iniciada sem a un\u00e7\u00e3o das cinzas, vem, pois, dizer-nos do tanto que em n\u00f3s h\u00e1 que deva reduzir-se a cinzas. (E calma, calma, calma! Sair \u00e9 bom, passear tamb\u00e9m, ir de fim de semana, teatro, concertos e tudo o mais \u00e9 bom sim! Mas se nos fazem viver t\u00e3o-s\u00f3 \u00e0 fresca flor da pele, for\u00e7ando-nos a ignorar que temos uma casa de Fogo dentro de n\u00f3s, e que em n\u00f3s existe uma secreta sala para o encontro e o di\u00e1logo \u00edntimo com o Senhor, ent\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o inteiramente bons, n\u00e3o!).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> Eis, pois, que come\u00e7aram os dias da renova\u00e7\u00e3o, que nos convidam a viver a novidade de Deus em Quaresma. E se n\u00e3o houve cinzas, mas urg\u00eancia de reduzir muita coisa a cinza, n\u00e3o percamos tempo a bater no peito e a lamentar-nos, que mais importante que bater no peito \u00e9 reconhecer que precisamos de arranques de alma que nos desafiem e nos ergam, nos revolvam e nos ponham a caminho. Sim, que n\u00e3o somos daqui, do barro, mas barro com aspira\u00e7\u00e3o de eternidade e de c\u00e9u pela for\u00e7a do Fogo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp; Das cinzas ao Fogo, tal \u00e9 o caminho que se nos abre, pois que ningu\u00e9m vai para a Quaresma para fugir, mas para ser encontrado, n\u00e3o para chorar, mas para rir, porque chamados a descobrir que somos filhas e filhos queridos de Deus, e que \u00e9 da fonte do seu cora\u00e7\u00e3o que bebemos a gra\u00e7a, o sonho, a ousadia e a vida!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong> O rumo \u00e9 este: das cinzas ao Fogo, das l\u00e1grimas ao rir, da depress\u00e3o \u00e0 festa!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 este o tempo de andarmos cabisbaixos, mas reguilas e em frente; n\u00e3o \u00e9 este o tempo de gente triste e bisonha, mas da que chora para rir: choramos os que ultrapassam a fila das vacinas, choramos os nossos pecados para deles alcan\u00e7armos o perd\u00e3o e a comunh\u00e3o com todos, choramos a indiferen\u00e7a global e a nossa (ningu\u00e9m ignore que no cora\u00e7\u00e3o de todos o medo do outro cresceu, que o medo do diferente aumentou, que o ego\u00edsmo nos fecha e torna evitantes e defensivos!) que impedem a transforma\u00e7\u00e3o do nosso mundo num jardim de portas abertas, partilh\u00e1vel por todos, para alcan\u00e7armos rir como riem os meninos e os santos, os que a todos sabem ungir e abra\u00e7ar com o cora\u00e7\u00e3o, a todos sabem olhar com amor e com tempo para semear sementes de esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong> Nesta Quarentesma direi, pois, a meu pobre cora\u00e7\u00e3o: abre os olhos, pobre de Deus, e escuta as urg\u00eancias, os gritos, os medos, as inquietudes e solid\u00f5es de tanta gente! Abre os olhos, cora\u00e7\u00e3o, que esta \u00e9 a Quaresma que Deus quer de ti: que saibas apreciar a vida que desponta, mesmo que para tal em ti tenhas de podar alguns excessos! Animas-te?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. Escrevo no dia dos Santos Pastorinhos de F\u00e1tima, Francisco e Jacinta, ca\u00eddos neste mundo por causa de uma pandemia, h\u00e1 pouco mais de cem anos. 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