{"id":2637,"date":"2021-01-31T02:13:00","date_gmt":"2021-01-31T02:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2637"},"modified":"2021-01-26T08:59:15","modified_gmt":"2021-01-26T08:59:15","slug":"a-palavra-ao-amor-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-ao-amor-iv\/","title":{"rendered":"A palavra ao amor! \u2014 IV"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A clave de leitura que procura o primeiro sentido para as notas da pauta do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos encontra a sua m\u00fasica mais melodiosa e cativante nos tons e acordes sobre o humano. \u00c9 a leitura que, no jogo \u2018\u00e0s escondidas\u2019 de ecos e respostas entre o amado e a amada, torna o poema fascinante, porque intui e descobre na sua linguagem o dinamismo da densa e plural experi\u00eancia humana que \u00e9 o amor, apresentado n\u00e3o em si mesmo mas em perspectiva, subjectiva, dele e dela: \u201cA sua boca \u00e9 s\u00f3 do\u00e7ura e todo ele \u00e9 delicioso\u201d \u2013 diz ela (5,16). \u2013 \u201cA tua boca \u00e9 vinho generoso\u201d \u2013 responde ele no mesmo tom (7,10).<strong> <\/strong>O C\u00e2ntico \u00e9 o <em>sim<\/em> ao mist\u00e9rio da vida, a declama\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria do amor sobre a sua deturpa\u00e7\u00e3o e o seu aviltamento. Declama o amor fiel e \u00edntegro, que faz escutar a voz l\u00edmpida da plenitude de gozo, a profunda e universal experi\u00eancia humana. Situa-se despretensiosamente antes de qualquer princ\u00edpio \u00e9tico, como encontro gozoso de pessoas, livre de pervers\u00f5es, de legalismo e de condicionalismos morais, sociais ou culturais. Coloca-se antes do religioso e do moral.<strong> <\/strong>\u00c9 uma realidade viva, desinteressada e gratuita: n\u00e3o procura justifica\u00e7\u00e3o fora de si pr\u00f3prio. Vale por aquilo que \u00e9. S\u00f3 ama, sem se preocupar para que ama. Nem precisa de se preocupar, porque o amar sustenta-se e justifica-se a si pr\u00f3prio, sem mais. At\u00e9 o sexual fica desmi<em>s<\/em>tificado pelo C\u00e2ntico, remetido de maneira velada mas eficaz para a viv\u00eancia do <em>humano<\/em> em profundidade, sem mais. Sim, diga-se com convic\u00e7\u00e3o: aquele que \u00e9 o mais elevado elogio ao amor no Antigo Testamento \u00e9 er\u00f3tico. Para se convencer, bastaria deliciar-se com o amado a explorar as cavidades rec\u00f4nditas do corpo da amada: \u201cO teu umbigo \u00e9 uma ta\u00e7a redonda, \/ transbordante de vinho fino. \/ O teu ventre \u00e9 monte de trigo, \/ todo adornado de a\u00e7ucenas. \/ Os teus seios s\u00e3o dois filhotes \/ g\u00e9meos de gazela\u201d (7,3-4). \u00c9 a este tom er\u00f3tico que se refere S. Teresa ao recordar \u201calgumas palavras neste C\u00e2ntico\u201d: \u201ctenho ouvido algumas pessoas dizer que at\u00e9 fugiam de as ouvir\u201d (<em>Conceitos do amor de Deus<\/em>, 1,3).<\/p>\n\n\n\n<p>Er\u00f3tico, sim. Mas o C\u00e2ntico n\u00e3o \u00e9 manipula\u00e7\u00e3o de sentimentos fr\u00edvolos, nem procura de prazer superficial. Nem \u00e9 fogo de palha que aquece por um instante, para logo deixar como sobras a tristeza de cinzas mortas. Lido na transpar\u00eancia de um cora\u00e7\u00e3o puro, n\u00e3o deixa transparecer nada de obsceno, trivial, licencioso ou carnal. Nem descamba minimamente para a banaliza\u00e7\u00e3o do amor, nem o deixa vulgarizar. At\u00e9 p\u00f5e em alto-relevo a linguagem e a presen\u00e7a do corpo humano nu: amada e amado fazem do corpo do outro o mapa para ousarem a aventura do amor: \u201cOs seus olhos s\u00e3o como pombas \u00e0 beira do arroio, \/ que se banham em leite, \/ pousadas junto ao ribeiro\u2026; \/ os seus l\u00e1bios s\u00e3o l\u00edrios\u2026; \/ os seus bra\u00e7os s\u00e3o ceptros de ouro\u201d (5,12-14). \u00c9 o amor a nu. Mas tamb\u00e9m o tema da nudez remete para a verdade de que o melhor amor n\u00e3o \u00e9 teoria abstracta sem corpo, mas viv\u00eancia e canto enamorado da exist\u00eancia num corpo: \u201cAo olfacto s\u00e3o agrad\u00e1veis os teus perfumes\u201d (1,3). \u201cDeixa-me ver o teu rosto, \/ deixa-me ouvir a tua voz, \/ pois a tua voz \u00e9 doce \/ e o teu rosto, encantador\u201d (2,14). \u201cComo \u00e9s bela, minha amada! \/ Como est\u00e1s linda! Teus olhos s\u00e3o pombas \/ por detr\u00e1s do teu v\u00e9u. \/ O teu cabelo \u00e9 como um rebanho de cabras\u2026 \/ Os teus dentes s\u00e3o um rebanho de ovelhas\u2026 Como fita escarlate s\u00e3o teus l\u00e1bios\u2026 As tuas faces s\u00e3o metades de rom\u00e3 por detr\u00e1s do teu v\u00e9u; o teu pesco\u00e7o \u00e9 como a torre de David\u2026 Os teus l\u00e1bios destilam do\u00e7ura, \u00f3 minha noiva; \/ h\u00e1 mel e leite sob a tua l\u00edngua\u201d (4,1-11).<\/p>\n\n\n\n<p>Para o amor, \u00e9 mais nobre valorizar o corpo do que neg\u00e1-lo. Se despreza o corpo, despreza-se a si mesmo. O amor faz do corpo uma melodia tocada com o olhar acariciador, onde o tocar empresta verdade ao amor. O corpo \u00e9 encarna\u00e7\u00e3o e visibilidade do amor, n\u00e3o o deixando volatilizar: \u201cMais forte do que todos os odores \/ \u00e9 a fragr\u00e2ncia dos teus perfumes\u201d \u2013 diz o amado (4,10). Com essa linguagem, o C\u00e2ntico pode sugerir que \u00e0 mesa do amor total, que cura a fraqueza, o enjoo e a doen\u00e7a, s\u00f3 se pode sentar quem esteja disposto a matar a fome e a sede com a melhor de todas as iguarias, como um pr\u00edncipe.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o C\u00e2ntico respira ar de festa, a festa da alegria contagiante, sentida e vivida pelos dois enamorados, capturados um pelo outro: \u201ccomei, amigos, bebei e inebriai-vos, queridos\u201d (5,1). O amor aut\u00eantico n\u00e3o tem onde esconder-se. A alegria e a felicidade s\u00e3o sinais indesment\u00edveis da autenticidade da vida. A intimidade, caracter\u00edstica do amor, mesmo que seja inviol\u00e1vel e s\u00f3 viva no amor, conjuga-se com a alegria do cora\u00e7\u00e3o partilhada: \u201cAs donzelas felicitam-na ao v\u00ea-la; \/ as rainhas e as suas damas elogiam-na\u201d (6,9). O verdadeiro<strong> <\/strong>amor n\u00e3o \u00e9 possessivo. \u00c9 um \u00eaxtase que n\u00e3o devora nem absorve o outro mas respeita a alteridade do seu ser irrepet\u00edvel, na plenitude da entrega a ele: \u201ceu sou para o meu amado e o meu amado \u00e9 para mim\u201d (6,3 e 2,16).<strong> <\/strong>Para o poeta do C\u00e2ntico, o amor \u00e9 imbat\u00edvel: \u201cforte como a morte \u00e9 o amor\u201d (Ct 8,6). E, talvez porque \u201ctudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta, o amor n\u00e3o acaba nunca\u201d (1Cor 13,7-8). \u00c9 o triunfo sobre a morte? \u00c9 a vit\u00f3ria sobre o tempo e sobre a mediocridade! \u00c9 o melhor do ser e do agir humanos. [continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A clave de leitura que procura o primeiro sentido para as notas da pauta do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos encontra a sua m\u00fasica mais melodiosa e cativante nos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2622,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2637","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2637"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2638,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2637\/revisions\/2638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}