{"id":2606,"date":"2020-12-31T02:57:00","date_gmt":"2020-12-31T02:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2606"},"modified":"2020-12-23T14:58:23","modified_gmt":"2020-12-23T14:58:23","slug":"a-verdade-da-palavra-mentirosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-verdade-da-palavra-mentirosa\/","title":{"rendered":"A verdade da palavra \u2018mentirosa\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, com a mentalidade historicista e com a tend\u00eancia ocidentais para ler os textos b\u00edblicos \u00e0 letra, o exerc\u00edcio de l\u00ea-los segundo crit\u00e9rios de interpreta\u00e7\u00e3o pode suscitar suspeitas, especialmente em v\u00e1rios epis\u00f3dios dos evangelhos, onde uma an\u00e1lise liter\u00e1ria conclui que temos factos, n\u00e3o relatados objectivamente mas interpretados religiosamente, com linguagem figurada, imagens e representa\u00e7\u00f5es que visam dar sentido superior a feitos do pr\u00f3prio Jesus ou que giram \u00e0 volta dele (nascimento, paternidade, baptismo, tenta\u00e7\u00f5es, transfigura\u00e7\u00e3o, milagres\u2026). Ent\u00e3o n\u00e3o sucederam mesmo? O relatado nos evangelhos n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rico?<\/p>\n\n\n\n<p>Para evitar estas perguntas equ\u00edvocas e indevidas, arme-se de uma boa ideia de <em>narrativa<\/em> n\u00e3o totalmente hist\u00f3rica, que cruza os factos hist\u00f3ricos com imagens liter\u00e1rias que lhes d\u00e3o mais for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, narrar um acontecimento \u00e9 querer compreender com profundidade a sua significa\u00e7\u00e3o e as suas potencialidades implicativas e labir\u00ednticas. Narrar a vida \u00e9 uma forma poderosa de a compreender, em si pr\u00f3pria e na sua rela\u00e7\u00e3o com a dos outros. A narrativa transforma para melhor os factos narrados: filtra-os, interpreta-os. Desperta a interioriza\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria deles, no presente e no futuro. Afecta com lucidez o estado de esp\u00edrito, apela \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, coloca quest\u00f5es sobre o acontecimento ou sobre o tecido do narrado. E essa efic\u00e1cia, a narrativa exerce-a mesmo n\u00e3o sendo factual. Neste caso, n\u00e3o recusa o factual: medita nele para entrar no seu sentido interior invis\u00edvel. O embelezamento po\u00e9tico da apari\u00e7\u00e3o do \u201cenviado do Senhor\u201d a Jos\u00e9 para assumir a paternidade legal de Jesus (Mt 1) n\u00e3o \u00e9 simples arte liter\u00e1ria ou mero efeito decorativo, nem desfigura o que ter\u00e1 acontecido: \u00e9 energia comunicativa de uma espiritualidade viva que emana das imagens, dos s\u00edmbolos, das representa\u00e7\u00f5es usadas na narra\u00e7\u00e3o, figurativa. Um exame liter\u00e1rio dos relatos \u00e0 volta do nascimento de Jesus constata que n\u00e3o o quiseram contar tal qual sucedeu: quiseram transfigur\u00e1-lo, para o dignificar ao m\u00e1ximo, para o contemplar mostrando o seu valor sublime. Contam a hist\u00f3ria que os historiadores n\u00e3o saberiam nem poderiam contar: contam a hist\u00f3ria de Deus com os homens, o seu compromisso de fidelidade e salva\u00e7\u00e3o oferecida em Jesus\u2026 A ornamenta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da sua inf\u00e2ncia com motivos religiosos n\u00e3o tinha em vista reproduzir com exactid\u00e3o os seus passos. Procurava antes completar ou melhorar a vis\u00e3o do mist\u00e9rio que poucos tinham descoberto naquele menino, para enriquecer o pouco que sabiam dele. Procurava suscitar o desejo e a f\u00e9, que induzem a ultrapassar os limites e a descobrir em Jesus o que os olhos da carne n\u00e3o v\u00eaem. Como sabemos, a palavra historiogr\u00e1fica fixa o sucedido num momento do passado; a <em>hist\u00f3ria sagrada<\/em> narrada em forma de <em>evangelho<\/em> ou de medita\u00e7\u00e3o espiritual d\u00e1-lhe sentido perp\u00e9tuo, estendendo a sua efic\u00e1cia ao presente do leitor.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, a narra\u00e7\u00e3o n\u00e3o totalmente hist\u00f3rica diz verdade e \u2018mente\u2019, ao mesmo tempo. A hist\u00f3ria de \u201cuns magos vindos do Oriente\u201d at\u00e9 Bel\u00e9m (Mt 2,1-12) \u2018mente\u2019 (se assim quiserem dizer!), no sentido de que o contado n\u00e3o sucedeu ao pormenor. A forma como se conta n\u00e3o \u00e9 a de hist\u00f3ria sucedida ou a da historiografia moderna. Mas essa \u00e9 s\u00f3 uma parte daquilo que est\u00e1 em quest\u00e3o. A outra parte \u00e9 que essa narra\u00e7\u00e3o apresenta com grande verdade Jesus como o verdadeiro Messias salvador, esperado pelos judeus e agora n\u00e3o reconhecido por eles. Cruzando personagens, factos reais e lugares geogr\u00e1ficos objectivos (Jerusal\u00e9m, Bel\u00e9m, a atmosfera da corte \u201cnos dias do rei Herodes\u201d o Grande, velho ditador cruel, os sumos-sacerdotes e os escribas do povo, Maria m\u00e3e, o menino Jesus) com a ilumina\u00e7\u00e3o fundamental proporcionada pelas Escrituras judaicas citadas, apresenta-O como aquele que vinha para dar sentido \u00e0 vida, n\u00e3o s\u00f3 dos judeus mas de todos os povos; e mostra que estes acolheram a mensagem de Jesus com imensa alegria. Mateus <em>imaginou<\/em> uma pitoresca hist\u00f3ria para fazer compreender \u00e0 sua comunidade o mist\u00e9rio do menino Jesus-Messias, salvador universal. Essa grande verdade s\u00f3 podia exprimir-se encoberta, escondida debaixo da linguagem simb\u00f3lica, porque \u00e9 invis\u00edvel. Exprime-se numa <em>medita\u00e7\u00e3o narrativa<\/em>, que funde a vida de Jesus com a f\u00e9 das Escrituras, para dar \u00e0 hist\u00f3ria humana o toque do divino (no tempo de Jesus chamava-se <em>midr\u00e1\u0161<\/em>, em hebraico).<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o devemos dizer que, em definitivo, este g\u00e9nero de narrativa figurada diz a verdade e n\u00e3o mente, at\u00e9 porque \u00abhist\u00f3ria verdadeira\u00bb n\u00e3o se identifica com historiografia, nem a verdade e a realidade se restringem ao f\u00edsico factual: o espiritual tamb\u00e9m \u00e9 real e verdadeiro, para a f\u00e9. A narrativa figurada \u2013 na qual se inclui o <em>midr\u00e1\u0161<\/em> \u2013 s\u00f3 mente para os ing\u00e9nuos que pensam que a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica deveria relatar as coisas tal como sucederam. Em geral, ela \u00e9 interpretativa e tem uma boa carga de subjectividade: n\u00e3o \u00e9 neutral. Assim, mantendo os textos b\u00edblicos em movimento din\u00e2mico, desvelava o plano salvador de Deus para o leitor nessa etapa definitiva da hist\u00f3ria que era a do nascimento de Jesus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Hoje em dia, com a mentalidade historicista e com a tend\u00eancia ocidentais para ler os textos b\u00edblicos \u00e0 letra, o exerc\u00edcio de l\u00ea-los segundo crit\u00e9rios de interpreta\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2583,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2606"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2607,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2606\/revisions\/2607"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}